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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Lula, o mito e a verdade

Luiz Inácio Lula da Silva tem hoje mais um encontro com o juiz Sergio Moro em Curitiba. A cantilena dos petistas já está ensaiada: sustenta que tudo não passa de perseguição ao “maior líder popular deste país”, destinada a impedi-lo de voltar a governar o Brasil. É a ficção que lhes sobrou defender.

O problema é que, a cada dia que passa, a caricatura condiz menos com a realidade. O Lula de hoje é pior que o de ontem e o de amanhã certamente será ainda pior que o de agora. A cada episódio, o petista tem mais suspeitas a elucidar, mais acusações a responder, mais condenações contra as quais se defender.

O depoimento desta terça-feira, cinco meses após o anterior, faz parte de investigação sobre as relações do ex-presidente com a Odebrecht. A acusação, mais uma vez, é de corrupção e lavagem de dinheiro recebido da empreiteira para construção da sede do Instituto Lula e um apartamento em São Bernardo do Campo (SP). A soma envolve R$ 12,4 milhões.

São os mesmos crimes pelos quais, em julho, o petista foi condenado por Moro a nove anos e seis meses de cadeia pela ocultação da propriedade de um tríplex no Guarujá (SP), recebido como propina da empreiteira OAS em troca de contratos bilionários na Petrobras. A ficha corrida de Lula é extensa.

Só nos últimos dias Lula foi denunciado outras duas vezes, uma delas por formar, com Dilma Rousseff, outros cinco ex-ministros de Estado e um ex-tesoureiro do PT uma organização criminosa aliciada com pelo menos R$ 1,48 bilhão em propinas. A última, nesta segunda-feira, por negociar a edição de medidas provisórias.

Não é só a Justiça brasileira que dá dor de cabeça a Lula. Segundo o script dos petistas, ele é vítima da “elite”, aquela mesma que viveu no paraíso quando o PT governava... Difícil será encaixar nesse conto da carochinha episódios como o depoimento de Antonio Palocci, que pôs Lula no centro de um “pacto de sangue” firmado para assaltar o país em parceria com a mesma Odebrecht do caso investigado hoje em Curitiba.

Na semana passada, o mais poderoso ex-ministro de Lula, e um dos artífices de sua eleição em 2002, disse que a empreiteira franqueou R$ 300 milhões ao PT e ofereceu ao ex-presidente pagamento por “palestras” que manteriam sua vida em condições nababescas – recorde-se que, apenas em plano de previdência privada, Lula tinha R$ 9 milhões guardados. A reação imediata dos petistas foi pedir a expulsão de Palocci do partido...

Pela lista de crimes que cometeu, lesando o interesse público e ludibriando os brasileiros, Luiz Inácio Lula da Silva deve pagar com uma temporada na cadeia. Mas, além de condenado pela Justiça, ele precisa ser derrotado nas urnas nas eleições de 2018. Só assim o mito em torno do qual sua figura enganosa foi erigida será implodido de vez.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A quadrilha em caravana

Dois ex-presidentes da República e cinco ex-ministros de Estado – dos quais hoje uma é senadora da República e presidente de partido e outro, prefeito municipal – poderiam, juntos, formar um belo time de quadros para ajudar o país a emergir da crise em que se encontra. Não no caso do PT. Juntos, eles formam uma quadrilha, que atuou diretamente para afundar o Brasil.

Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Antonio Palocci, Guido Mantega, Paulo Bernardo, Edinho Silva, Gleisi Hoffmann e João Vaccari Neto foram denunciados ontem pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por prática de crime de organização criminosa por uma “miríade de delitos”.

Juntos eles teriam recebido a bagatela de R$ 1,48 bilhão em forma de propina em troca de contratos bancados com dinheiro público, pilhado de órgãos como BNDES e Ministério do Planejamento e de empresas como a Petrobras, cujos prejuízos somam pelo menos R$ 29 bilhões, no ver do TCU. Considerando o que foi movimentado também em consórcio do PT com PP e PMDB, a cifra dobra. A indenização cobrada aos denunciados alcança R$ 6,5 bilhões.

Apenas para aquilatar, além dos dois ex-presidentes que o partido elegeu compõem o grupo toda a equipe que comandou a economia brasileira ao longo dos 13 anos dos governos do PT, a atual presidente da legenda, também senadora, o quarto tesoureiro deles apanhado em roubalheira e um prefeito em atividade. Dilma participou da organização larápia tanto como principal ministra de Lula quanto como principal mandatária do país.

Mas papel central quem teve mesmo foi Lula. Já réu em outras cinco ações e já condenado a nove anos e meio de cadeia, agora é apontado na denúncia apresentada pela PGR como “grande idealizador” da quadrilha. Cerca de um sexto da dinheirama suja movimentada pela organização criminosa (ou seja, R$ 230 milhões) teria ido parar nos bolsos do ex-presidente e ora pré-candidato do PT à presidência da República.

No tour com que percorreu o Nordeste do país nos últimos 20 dias, encerrado ontem, Lula deparou-se com muitas das obras (ou, mais correto dizer, com o esqueleto delas) que serviram de fonte de dinheiro para as falcatruas ora denunciadas pela PGR. Na caravana da mentira, apresentava-as ao público como benfeitorias, mas serviram mesmo foi como maná para alimentar a corrupta correia de transmissão petista.

A drenagem de dinheiro público pelos petistas graúdos ocorreu desde a campanha que culminou com a ascensão de Lula ao comando do país, em 2002, até o último dia de Dilma na presidência, em maio do ano passado, segundo a denúncia apresentada pela Procuradoria. Ou seja, a corrupção não é incidente espasmódico na trajetória do PT. É modus operandi e método de gestão.

Começa nos primeiros escândalos descobertos na prefeitura de São Paulo na gestão Luiza Erundina (1989-1992), passa pelos municípios do ABC e chega ao ápice com a tomada do poder nacional, a partir de 2003 até 2016, a nova “década perdida”. Mesmo no plano mais elevado dos poderes da República, a escalada gatuna petista parecia não ter limites.

Hoje fica cada vez mais preciso o comentário feito por Delúbio Soares, no longínquo ano de 2005, sobre as investigações então em marcha em torno do mensalão. O tesoureiro daquela roubalheira prognosticou que, ao final, restaria claro que aquele esquema não passara de “piada de salão”. Certíssimo. O assalto que viria depois, no âmbito do petrolão, movimentaria, segundo a denúncia apresentada ontem, recursos sujos pelo menos 20 vezes maiores – e isso é aritmético, não retórico.

É de se lamentar que, diante de tantas e tamanhas evidências, o procurador Rodrigo Janot tenha demorado tanto para arrolar Lula e seus petistas de proa no rol dos criminosos alcançados pelas investigações desenvolvidas no âmbito da Operação Lava-Jato. Pelo menos, para fazê-lo ele não terá precisado de delações fajutas como as que usou contra Michel Temer e Aécio Neves...

Em 2014, após a eleição presidencial o então candidato do PSDB afirmou que havia sido derrotado na disputa por uma “organização criminosa”. Teve muito crítico acusando o tucano de ser mau perdedor. O desenrolar dos fatos está mostrando quem, afinal, tinha razão. A gangue denunciada ontem pela PGR sonha em voltar a comandar o Brasil. Está evidente o por que: continuar seus assaltos em série. Quadrilhas vivem disso.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Mais uma carta do baralho da corrupção

A prisão de Antonio Palocci nesta manhã representa mais um passo da Operação Lava Jato na direção daqueles que comandaram o esquema criminoso que assaltou o país nos últimos anos. Revela, ainda, que o modelo corrupto vinha de longa data, abarcando até personagens cuja atuação no governo era tida como inatacável por alguns.

Palocci é mais um ex-ministro dos governos petistas a cair. Sua prisão se segue à de Guido Mantega, o mais longevo ministro da Fazenda da história republicana brasileira, decretada na semana passada e logo revogada. Da lista também consta Paulo Bernardo, que comandou Planejamento e Comunicações nos governos petistas.

Vera Magalhães antecipou hoje n’O Estado de S. Paulo que, além de Palocci, os próximos na mira da Lava Jato podem ser Luciano Coutinho e Erenice Guerra. É mais uma evidência de que também o BNDES e a Casa Civil petistas – esta um celeiro de falcatruas desde José Dirceu – eram usados para negociar bondades que revertessem em pagamentos de empresários ao PT.

A acusação contra Palocci é de que ele teria, já na condição de todo-poderoso da economia nacional, manejado decisões de governo para favorecer grupos empresariais. Nunca é demais lembrar que a passagem dele pelo poder tornou-o um homem riquíssimo, capaz de multiplicar seu patrimônio por 20 em curto espaço de tempo, como foi revelado em 2011, causando sua saída do governo Dilma.

Pela investigação desfraldada hoje, o grupo Odebrecht teria sido agraciado com benefícios fiscais, contemplado em processos licitatórios para aquisição de navios-sonda pela Petrobras e favorecido por linhas de crédito abertas pelo BNDES para contratos firmados com países africanos. Ou seja, um coquetel que une um monte de suspeitas sempre associadas ao PT mas só agora em processo de comprovação.

Segundo as notícias veiculadas nesta manhã, a Odebrecht teria pago mais de R$ 128 milhões ao PT e seus agentes entre 2008 e 2013. Até a compra de um terreno para abrigar o Instituto Lula teria sido destinatária do dinheiro sujo, intermediado por Palocci.

As revelações do mar de propina que irrigava as contas do PT vão deixando claro também como e por que o partido de Lula, Dilma e José Dirceu manteve por anos a fio a mais eficiente máquina de comunicação, mobilização e atuação política do país. A corrupção financiou diretamente o projeto de poder petista.

A operação desta manhã foi convenientemente batizada de “Omertà”, numa referência à prática dos chefões da máfia de não entregarem seus cúmplices. A desobediência é punida com morte. Parece claro que o círculo de investigações da Polícia Federal junto com o Ministério Público está a um passo de chegar a quem, de fato, mandava nesta organização criminosa.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Clube dos milhões

Na era petista, passar pelo governo tornou-se o caminho mais curto de ascensão social. As gestões de Dilma e Lula não conseguiram melhorar de maneira definitiva a vida de milhões de brasileiros, mas resolveram financeiramente a de afortunados que tiveram cadeira nos gabinetes mais importantes de Brasília, a começar pelo destinado à Presidência da República.

As investigações de duas operações importantes em marcha por parte da Polícia Federal estão revelando em detalhes como funcionava esta verdadeira indústria de produzir benefícios e fabricar milionários. A matéria-prima desta estrutura de negócios vem dos recursos públicos arrecadados com impostos e que deveriam servir a todos os brasileiros, mas atendem a poucos.

Segundo as investigações da Operação Lava Jato, os desvios de dinheiro nas estatais, em especial na Petrobras, envolveram, pelo menos, R$ 7,2 bilhões, segundo O Globo. Esta dinheirama foi destinada a pagamento de propinas a partidos da base de sustentação de Lula e Dilma e a dirigentes das empresas que atuavam em conluio com esta verdadeira gangue. Muito dinheiro jorrou deste propinoduto para irrigar as teias de interesse tecidas a partir da capital federal.

Em outra frente, a Operação Zelotes está conseguindo identificar como as ramificações da corrupção chegavam a quem detinha maior poder de mando nas gestões do PT. Servir ao governo petista tornou-se uma verdadeira mina de ouro, com garantia de negócios vultosos no setor privado.

A revista Época desta semana revela como Lula, Antonio Palocci, Erenice Guerra e Fernando Pimentel faturaram alto despois que ocuparam os principais postos de comando da República. Desde 2008, passaram pelas contas das empresas deles R$ 295 milhões. Pôr um pé em Brasília funcionou como o maior trampolim com que poderiam sonhar na vida.

Segundo a investigação do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, órgão de inteligência financeira do Ministério da Fazenda), “há indícios de irregularidades como transações financeiras incompatíveis, saques em espécie e incapacidade de comprovação da origem legal dos recursos”.

Diz o discurso petista que as políticas públicas dos últimos anos serviram para garantir conquistas sociais e beneficiar os mais pobres. Só acredita nisso quem quer. O Estado brasileiro foi posto de joelhos para auxiliar, na realidade, os amigos do rei e depois também os da rainha. Está cada vez mais claro que quem se locupletou da onda de bonança foram os mais ricos.

Se ainda há dúvida quanto a isso, mais um caso que veio a público no fim desta semana serve para dirimi-la. No domingo, a Folha de S.Paulo mostrou que José Carlos Bumlai, o amigo que está por trás de uma série de suspeitas envolvendo Lula e sua pródiga família, recebeu empréstimo de mais de R$ 100 milhões do BNDES com suas empresas falidas e sem que tivesse mínimas condições de honrar o pagamento. Não surpreende que o ex-presidente da República seja alvo de seis frentes de investigação abertas pelo MP e pela PF, como informa hoje o Valor Econômico.

Diante de tantas e tamanhas suspeitas e tantos e tamanhos indícios de enriquecimento ilícito, as instituições de fiscalização e controle, a Justiça, a PF e o Ministério Público precisam ir fundo e investigar, investigar e investigar. Mais uma vez comprovado que o Estado brasileiro foi tomado de assalto por uma organização criminosa, deve-se punir, punir e punir. Para que esta abjeta história não volte a se repetir.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Sombrias revelações

Mais uma vez em sérios apuros, novamente o PT tenta colocar de pé a teoria de que todos são iguais na imundice. Quando mais insiste em tentar nivelar a política brasileira por baixo, mais o partido do mensalão e do petrolão se vê enroscado em tenebrosas transações. Conosco não, violão!

Ontem veio a público novo depoimento de Alberto Youssef indicando que próceres de primeira linha do petismo eram responsáveis por recolher o dinheiro sujo desviado de contratos da Petrobras. Os drenos da corrupção não estavam enterrados apenas na lama; passavam dentro do Palácio do Planalto.

Segundo o doleiro, pelo menos dois ex-ministros da Casa Civil estiveram envolvidos no esquema: José Dirceu e Antonio Palocci. Diz muito de um governo e de um partido a revelação de que, no segundo cargo mais importante da hierarquia de poder, estava gente com este cabedal. (Não custa lembrar que uma terceira ocupante do cargo, Gleisi Hoffmann, também já caiu na rede dos investigadores.) O atual tesoureiro do partido também está enredado.

Não é de hoje que os petistas são matéria-prima do noticiário e de investigações policiais envolvendo roubalheiras, crimes e assaltos ao Estado. Desde que o PT só tinha logrado chegar ao poder em nível municipal, os escândalos se sucedem. Ganharam dimensão, aumentaram de proporção, mas a cepa marginal sempre esteve lá.

Nesta mesma semana em que novas transações tenebrosas envolvendo petistas vieram à tona, o Supremo Tribunal Federal arquivou inquéritos que investigavam a suposta participação de ex-secretários do governo tucano de São Paulo num suposto esquema de propina nas obras do metrô da capital. E o PT ainda quer misturar estes alhos com seus bugalhos.

Na campanha eleitoral, a candidata Dilma Rousseff ensaiou um mantra que repetia irritantemente a cada debate na televisão. Citava casos que supostamente indicariam corrupção em governos do PSDB e concluía, a cada um deles: “Todos soltos”. Buscava mostrar que, com ela, é tudo diferente: quem rouba é preso.

A diferença, porém, é de outra natureza: o grupo que está no poder desde 2003 tem no roubo seu modus operandi. Se noutros tempos a Justiça não mandou prender ninguém, é porque não encontrou o que justificasse a prisão. Se manda prender petistas agora à farta, é porque razões há. Esta é a diferença.

A retórica petista de que “faz o que todo mundo sempre fez” é velha. Desde que o PT foi flagrado no mensalão, os antigos vestais da política brasileira despiram a fantasia. O que aconteceu desde então não deixa dúvidas: o PT promoveu um carnaval no governo, esbaldou dinheiro público e montou no poder o maior bloco mafioso de que se tem notícia. Não adianta tentar arrastar todos para o mesmo buraco.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Questão de fé

A troca de Antonio Palocci por Gleisi Hoffmann foi recebida com evidente boa vontade pela opinião pública, a julgar pelo que os jornais publicam hoje. Fala-se em “recomeço” do governo Dilma Rousseff, em tomada das rédeas por parte da presidente da República e em redução da tutela de Lula sobre a atual gestão. São, ainda, meras conjecturas que dependerão de muita atitude antes de se verem comprovadas.

Mesmo em meio a este oba-oba, persistem as críticas à dificuldade de articulação política do governo. Se fosse só este o problema, ainda estaria bom. O que temos hoje é uma paralisia quase completa da máquina sob o comando de Dilma. Alguém é capaz de citar uma única iniciativa de vulto tomada até agora pela presidente?

Dilma Rousseff teria muito menos dores de cabeça, e poderia até mesmo manter-se distante dos meandros políticos que tanto a desgostam, se tivesse uma proposta clara para o país. Em torno de projetos, seria muito mais fácil aglutinar apoios, inclusive, e principalmente, da sociedade. Mas é evidente que este projeto não existe – pelo menos a olho nu.

O Congresso não recebeu da gestão Dilma uma única proposta com poder de mobilizar corações e mentes em torno dela. Mas continuou a ser alvo de avalanches de proposições tratadas de maneira desconexa e em forma de contrabandos inseridas em medidas provisórias. Como se muda um país desta maneira?

“O governo desperdiçou sua lua de mel sem ter tocado um único projeto de reforma ou de superação dos obstáculos ao crescimento sustentado. Em 2010, quando o Brasil estava crescendo a 7,5%, era mais fácil superar esses obstáculos; com a queda do nível de atividade, a lentidão do governo está provocando mais estragos”, avalia Merval Pereira n’O Globo.

No discurso de ontem, a presidente parece ter se dado conta do pouco que realizou nestes cinco primeiros meses. Parecia até a fala de quem estava assumindo ontem o governo. “Temos promessas a cumprir e vamos cumpri-las. Temos programas a executar e vamos executá-los”, disse ela, ao empossar Gleisi Hoffmann. OK, estamos todos de acordo. Mas já não passou da hora de ir de palavras a atos?

Na solenidade, Dilma também criticou o comportamento “quase sempre ruidoso” da oposição. Quis, assim, imputar à ação da minoria no Congresso a responsabilidade pela queda de seu principal ministro, sem querer se dar conta de que Palocci caiu por suas próprias escolhas e pela dificuldade de comprovar que agira eticamente enquanto chefiava a campanha da presidente e enriquecia – não se sabe em qual ordem...

De mais a mais, jogar sobre os ombros das bancadas reduzidas da oposição no Parlamento o peso da crise é desdenhar solenemente da lógica. Quem, como Dilma, tem 77% da bancada do Senado e 75% da da Câmara não deveria se preocupar tanto com a oposição. Ou será que o incômodo está no que a oposição revela?

É também desdenhar da inteligência alheia ignorar a guerra fratricida que os petistas travaram entre si pela queda de Palocci e travam agora para promover a próxima baixa do governo, a do ministro de Relações Institucionais. Assim como não enxergar a insatisfação convenientemente contida e prestes a explodir do PMDB.

“A cúpula do PMDB ameaça se rebelar, caso não tenha peso na escolha do novo articulador político, e alertou a presidente que a crise política não se encerra com a saída de Palocci, pois a articulação política do governo motiva muitas insatisfações”, informa O Globo.

Se os parceiros são os mesmos do governo passado, se o projeto político não mudou, por que Dilma tem tanta dificuldade em agregar seus aliados e em apresentar à sociedade brasileira uma agenda clara de desenvolvimento do país? Não parece sensato imaginar que, sem um cardeal experiente como Antonio Palocci do lado, a vida da presidente vá melhorar.

Mesmo com o respiro que os formadores de opinião parecem dispostos a lhe dar, o idílio de Dilma com o público estilhaçou-se. A presidente não dispõe mais do conveniente pedestal que a apartou da necessidade de ter de responder assertivamente às demandas de um país que precisa fazer muito mais para crescer com equilíbrio.

Pode até ser que, finalmente, a atitude do governo melhore, que titubeios e balbucios desapareçam. Mas considerar que aquilo que começou mal passará a ir bem de uma hora para outra não passa de crença ou torcida.

Por tudo o que se viu nestes cinco meses, apostar no sucesso do governo Dilma Rousseff ainda é mera questão de fé. Mas, para o bem do país, seria bom que as montanhas começassem a ser removidas.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ainda há muito a investigar

Com menos de seis meses de existência, o governo Dilma Rousseff enfrentou sua primeira crise braba. E não foi pouca coisa, posto que resultou na queda de seu principal ministro, o futuro novamente consultor Antonio Palocci. O desfecho mostra que ainda há muito a ser investigado no episódio. A história está apenas começando.

Há fundadas suspeitas de que o enriquecimento de Palocci esteja umbilicalmente ligado ao sucesso eleitoral de Dilma. O ministro caiu sem explicar a multiplicação de seu patrimônio no interregno dos quatro anos em que acumulou o papel de consultor com os de deputado federal, coordenador de campanha presidencial e chefe do governo de transição da atual presidente. Terá de fazê-lo.

Palocci saiu sem abrir a boca sobre o que realmente interessa: para quem trabalhou como consultor e por que recebeu tanto dinheiro? Certamente tem muito mais a revelar, com implicações que podem ser muito mais sérias do que a simples queda de um ministro. A demissão saiu barata. “É preciso procurar as razões pelas quais Antonio Palocci não conseguiu, ou não pôde, explicar como e por que enriqueceu no exercício da vida pública”, escreve Dora Kramer n’O Estado de S.Paulo.

Temeroso do que investigações mais aprofundadas podem desnudar, o governismo vai tentar dar ares de página virada ao caso Palocci. Não é. A demissão anunciada ontem encerra apenas um capítulo; a história segue e o “the end” ainda está distante. Os esclarecimentos terão de ser dados, seja no Congresso, seja a outros órgãos de controle, como o Ministério Público.

Promotores do MP do Distrito Federal continuam a investigar se Palocci cometeu ato de improbidade administrativa. Terão agora acesso à lista de clientes da Projeto, a empresa do ex-ministro, informações fiscais e bancárias que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse que irá lhes enviar. Poderão chegar a conclusão mais abalizada do que a da PGR, que isentou o ex-ministro das suspeitas.

O discurso oficial, com algum amparo na imprensa hoje, também irá buscar dar ares de “recomeço” ao governo Dilma após a saída de Palocci. Qual o quê! Seria aceitar como natural a presidente da República não ter exercido nestes cinco meses a autoridade devida sobre seu governo. Seria chancelar como algo corriqueiro a ascendência que o antecessor exerce sobre ela.

Dilma deve, sim, responder pela equipe que tem, pela linha que adota, pelo governo que há cinco meses faz. Se escolheu Palocci para ser seu braço direito e o manteve sangrando por mais de três semanas sob suspeitas gravíssimas, a responsabilidade é dela. Se aceitou e continua a aceitar a tutela de quem não tem mais a caneta, é porque não demonstra estatura para o cargo para o qual foi eleita.

Parte do noticiário diz que Dilma decidiu tirar Palocci da equipe à revelia dos conselhos de Lula, que preferiria a manutenção dele. O Valor Econômico vai em outra direção: “É certo que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi decisivo na definição”, crava o jornal sobre a escolha de Gleisi Hoffmann para ocupar a Casa Civil.

O comportamento exibido por Dilma nos últimos 23 dias corrobora a conclusão. Durante a crise que envolveu seu principal e mais importante ministro, a presidente da República só se manifestou publicamente uma única vez. E nesta única oportunidade foi lastimável: acusou a oposição de fazer “politicagem”, ecoando o discurso emanado de seu tutor.

Isso foi há dez dias. Como nada de novo surgiu contra Palocci desde então, é de se perguntar: por que Dilma aceitou, então, a demissão de seu primeiro-ministro, se as suspeitas de tráfico de influência eram era só “politicagem” de oposicionistas?

A presidente não tinha encarado nenhum problema mais sério até agora e, logo na primeira crise, mostrou fragilidade e pouca autoridade para enfrentar adversidades. Saiu do episódio bem menor do que entrou, mais flagrantemente dependente de outrem e mais sem luz própria do que se havia podido supor até aqui.

Antonio Palocci foi o terceiro dos quatro ministros que ocuparam a Casa Civil, o mais importante ministério da Esplanada, nos governos petistas a cair envolvido em suspeitas de corrupção – em alguns casos, mais que suspeitas. Há quem queira ver aí uma “maldição”, mas o mais provável é que seja consequência de um modo de conduta. A conclusão é uma só: ainda há muito a investigar.

terça-feira, 7 de junho de 2011

‘Fuerza, fuerza’

A Procuradoria Geral da República (PGR) forneceu ontem os motivos que faltavam – se é que faltavam – para a instalação de uma CPI para investigar Antonio Palocci. Se o órgão do Ministério Público Federal prefere não apurar o caso, que o Congresso cumpra, então, a função e esclareça o que a PGR recusou-se a elucidar. As dúvidas a explicar continuam as mesmíssimas, nem um centímetro menores.

Na decisão divulgada ontem, o procurador Roberto Gurgel sustenta que “não há indícios de que ele [Palocci] tenha praticado crimes”. Por essa razão, segundo o procurador, não haveria motivo para que ocorra a quebra de sigilo fiscal ou bancário, nem “justa causa” para abrir investigação contra Palocci.

Ele diz ter se baseado em informações que Palocci teria enviado à PGR sobre a Projeto. Mas ninguém sabe, ninguém viu os esclarecimentos que poderiam dissipar as dúvidas: com quais clientes a empresa de “consultoria” negociou, quanto e quando recebeu por isso e quais foram os serviços prestados. O ainda ministro continua tão suspeito quanto estava.

Gurgel não afastou a possibilidade de Palocci ser investigado por ato de improbidade administrativa. Destacou, inclusive, que a Procuradoria da República no Distrito Federal já apura estes indícios, por meio de inquérito civil. Deixou, pois, aberta a fresta da investigação.

O inexplicável enriquecimento do “consultor” ainda carece de muita explicação. A cada dia, os negócios de Palocci mostram-se mais rocambolescos. Segundo O Globo, o apartamento em que ele mora de aluguel pertence a um petista de antiga filiação. A imobiliária citada no contrato de locação do imóvel só existe no papel e, nos últimos três meses, mudou de ramo duas vezes e passou a vender automóveis e depois colchões.

A julgar pela forma como gere seu padrão de vida, Palocci deve ter sido um consultor de meia tigela. Ele vive num imóvel nababesco pelo qual gasta, entre aluguéis e taxas, algo como R$ 20 mil mensais. Ao mesmo tempo, mantém um milionário imóvel próprio fechado, o que, na melhor das hipóteses, contribuiu para simplesmente dobrar suas despesas. O megaconsultor parece não ter noção sequer do que seja custo de oportunidade...

Diante de tamanhas suspeitas, a investigação por meio da CPI é necessária justamente para esclarecer se há ou não elo entre os ganhos astronômicos de Palocci e imoralidades no exercício – sucessivamente – dos cargos de deputado federal, principal coordenador de campanha presidencial, chefe da equipe de transição e ministro-chefe da Casa Civil do atual governo.

O que interessa investigar não é a relação entre renda e patrimônio de um contribuinte, mas entre exercícios simultâneos de atividades incompatíveis com a defesa do interesse público. O patrimônio de Palocci não deve ser incompatível com a renda que ele auferiu por meio da sua empresa. Pelo contrário: deve ter havido muito mais renda do que o patrimônio conhecido até agora. A decisão da PGR é, pois, diversionista.

Seria exagero levantar suspeitas sobre a manifestação do procurador-geral, que depende de decisão da presidente da República para ser reconduzido ao cargo por mais dois anos. Seu mandato expira em julho e até a corporação prefere que ele fique. Mas é fato que Gurgel incomodou pouco o poder na sua gestão.

Mostra O Globo que, nos últimos dois anos, ele pediu ao STF a abertura de 68 inquéritos contra autoridades e apresentou 28 denúncias. Bem menos que seu antecessor, Antonio Fernando, que ficou no cargo quatro anos. Roberto Gurgel também questionou pouco leis baixadas pelos governos federal e estaduais: foram 20 ações diretas de inconstitucionalidade.

De qualquer forma, a manifestação da PGR não livra Dilma Rousseff de tomar ela mesma uma decisão. Informa a Folha de S.Paulo que ela e Palocci “chegaram a acertar ontem os termos de uma carta de demissão do ministro, mas a decisão final depende do impacto do arquivamento do pedido de abertura de investigação” na PGR. Ah, e não será tomada sem antes consultar seu tutor Lula, com a atual presidente escancarando o titubeio de sempre.

Palocci já demonstrou, por todos os meios, que sua fidelidade aos clientes é canina e muito maior do que o respeito que nutre pelo interesse público. Segundo O Estado de S.Paulo, ele próprio vende a imagem de “ministro do mercado”. Por que, então, mantê-lo no segundo cargo mais importante da máquina pública federal?

Nem o apoio incondicional dos aliados, Antonio Palocci tem mais. Força Sindical e PCdoB elevaram ontem o tom das cobranças e sugeriram o afastamento dele. Mas, em contrapartida, Hugo Chávez bradou-lhe com voz tonitruante em cerimônia no Palácio do Planalto: “Fuerza, fuerza”. Vai ver o ditador venezuelano está precisando de um consultor para suas estatais deficitárias...

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Lugar da ‘boa fé’ de Palocci é na CPI

Depois de 19 dias de silêncio, Antonio Palocci teve na sexta-feira excelente oportunidade de se explicar por iniciativa própria. Ocupou 15 minutos do telejornal de maior audiência no país para falar sobre seu enriquecimento faraônico. Também concedeu extensa entrevista publicada no dia seguinte pela Folha de S.Paulo. Em ambas as ocasiões, porém, não esclareceu rigorosamente nada. Chegou a hora, portanto, de explicar-se onde de direito: no Congresso, provavelmente já fora do cargo que ainda ocupa.

Palocci preferiu jurar e honrar lealdade aos que lhe pagaram fortunas durante os anos em que dividiu seu tempo entre o cumprimento do mandato de deputado federal eleito por São Paulo e a concessão de “consultorias”. Desdenha da obrigação de ser transparente, em especial com quem hoje lhe paga o salário: a sociedade brasileira. Não merece, pois, o cargo público que ainda ocupa.

É difícil achar quem aposte numa sobrevida que vá além desta semana. Palocci sabe que seu futuro no governo está selado: a presidente Dilma Rousseff terá de demiti-lo. Aguarda apenas a melhor oportunidade para fazê-lo, provavelmente após a manifestação do procurador-geral da República. Ah, e não sem antes ouvir seu tutor, o ex-presidente Lula, conforme mostrou a Folha de S.Paulo ontem...

O ainda ministro não rasga dinheiro. Desempregado, Palocci voltará, docemente constrangido, para os braços privados. Seu passe provavelmente será menor desta vez do que foi no passado, mas continuará valorizado. Cairá da condição de “Pelé”, na visão de Lula, para um, digamos, Petkovic.

Como seu partido ainda tem mais três anos e meio no poder, Palocci terá um radiante futuro de “consultorias” pela frente. Por isso, prefere afundar calado a dizer o nome de seus clientes escorados em “cláusulas de confidencialidade”. Não matará a galinha dos ovos de ouro que lhe rendeu um patrimônio de pelo menos R$ 20 milhões e o passaporte para uma vida de padrão nababesco.

A situação a que chegou Palocci reforça a convicção pela instalação de uma CPI para investigar o episódio. Trata-se do principal ministro do atual governo, que coordenou a campanha vitoriosa da atual presidente enquanto fazia milionários negócios com banqueiros, industriais, empresários de todo o tipo. Quais destes interesses terão sido traficados para dentro do aparelho estatal? Quais ainda estão encastelados lá?

Nas duas entrevistas de sexta-feira, Palocci repetiu à exaustão que as informações que poderiam dirimir as principais dúvidas – para quem trabalhou, quanto recebeu, se atendeu estes clientes também na condição de ministro, se praticou tráfico de influência – estão à disposição dos órgãos de fiscalização e controle.

Pois bem, o Congresso é um destes órgãos; basta que mais oito senadores aponham sua assinatura no requerimento pela criação da CPI. Ou, antes disto, basta que a bancada governista não atropele a decisão tomada na semana passada na Comissão de Agricultura da Câmara e mantenha a convocação do ministro para que ele tenha uma excelente oportunidade de explicar-se melhor e de uma vez por todas. Basta querer.

Num dos trechos mais emblemáticos da entrevista dada ao Jornal Nacional, Palocci conclamou os milhões que o assistiam a ter “boa fé” e acreditar que seus contratantes não obtiveram nenhuma benesse do Estado petista, nem ele se aproveitou disso. “Não há nada mais difícil de se provar do que aquilo que você não fez”, disse ele.

Palocci tem razão: não há nada mais difícil de provar do que aquilo que não se fez, como consultorias das quais não se viu até hoje um mísero papelucho, o menor rascunho, uma única foto, uma reles apresentação de powerpoint. Os conselhos que o ministro admitiu ter dado são tidos como triviais no mercado; a mercadoria que ele entregava era de outra natureza.

Pela sua história pregressa, Antonio Palocci não dispõe do benefício da dúvida que cercam os homens de boa fé. Devassou a vida privada de um caseiro de uma residência brasiliense onde, como ministro da Fazenda, regozijava-se com amigos ribeirão-pretanos. Tudo por causa de um depósito de R$ 24 mil, ou quase mil vezes menos do que ele insiste agora em omitir.

Nas avaliações correntes, as entrevistas de sexta-feira teriam servido como ato final de Palocci no governo. Mais ainda, tiveram o objetivo principal de livrar a cara da presidente da República. Segundo o ministro, Dilma não foi informada sobre coisinhas insignificantes como uma empresa de um homem só que faturava mais do que firmas de porte. Assim, ela poderá repetir, como seu tutor, que “não sabia” de nada.

Demitindo Palocci ou não, a presidente sai do episódio que mina seu governo há três semanas muito menor do que entrou. Mostrou-se incapaz de contornar adversidades, foi absurdamente inábil no auge da crise – quando ameaçou demitir os ministros do partido que lhe garante a mais canina, ainda que interesseira, fidelidade no Congresso – e curvou-se às ordens de seu tutor. A julgar pelos auxiliares que escolhe para ter por perto, como Palocci e Erenice Guerra, Dilma Rousseff também está se revelando uma péssima gestora.

Aguarda-se para as próximas horas a decisão que Lula – ops, Dilma – irá tomar sobre o destino de Palocci. Já não importa. Para a opinião pública, ele já caiu faz tempo. Na promíscua relação que estabeleceu entre interesses públicos e privados, Palocci fez sua escolha. A sociedade brasileira também fez a dela: quer vê-lo longe do poder público. E rápido.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Aproxima-se o ato final de Palocci

O governo começou a semana propalando que teria dias seguidos de “agenda positiva”. Chega ao fim dela atolado vários palmos a mais na crise que se arrasta há 20 dias e com o ministro Antonio Palocci em vias de ser jogado fora do barco, abandonado até pelo PT. Nem todo o marketing do mundo foi capaz de superar a realidade.

Os últimos dias pouco acrescentaram ao que já se sabia sobre o enriquecimento faraônico de Palocci. Mas a continuidade da recusa do governo em esclarecer como seu principal ministro fez tamanha fortuna em tão curto espaço de tempo, ao mesmo tempo em que dava expediente no Congresso, foi suficiente para azedar de vez a situação dele.

Se tivesse provas de que não traficou influência, de que não feriu a ética e o decoro, de que não usou o privilegiado acesso ao poder para beneficiar clientes e a si próprio, Palocci já teria há muito dissipado a nuvem que paira sobre sua cabeça. Um silêncio que dura 20 dias está longe de servir ao benefício da dúvida. Qualquer defesa já vem tarde.

Depois de semanas de cobranças, ontem, finalmente, Palocci decidiu que virá a público dar explicações. Pode ser que aconteça hoje, pode ser que ele ainda aguarde até segunda-feira. Mas um pronunciamento que demora tanto a acontecer já chega completamente esfacelado, com nenhuma credibilidade para ser ouvido.

As tais explicações podem não vir hoje, segundo o Valor Econômico, porque Palocci quer “primeiro tomar conhecimento do noticiário dos jornais e revistas no fim de semana” para “não ser surpreendido com o surgimento de novas denúncias”. Se está tão convicto assim, dá para imaginar o quanto ainda há para ser conhecido.

“Talvez suas palavras cheguem tarde demais. A não ser que o artista surpreenda a plateia. A ponto de explicar, inclusive, porque demorou tanto para apresentar provas tão cabais de que não é apenas um exímio consultor, mas um homem público de conduta irrepreensível”, comenta Fernando de Barros e Silva na Folha de S.Paulo.

Também no Valor, o sociólogo Alberto Carlos Almeida calcula a desproporção do êxito financeiro da Projeto, a empresa de consultoria de Palocci, em 2010 para ressaltar o inverossimilhança de qualquer explicação que o ministro venha a dar. É coisa difícil de esclarecer – e de engolir.

Descontando-se os três dias da semana que Palocci teria trabalhado na Câmara, os recessos, os sábados e domingos, sem direito a férias e feriados, o então deputado teria dedicado 165 dias do seu último ano de mandato à sua “consultoria”. Se a Projeto faturou R$ 20 milhões, isso significa que Palocci ganhou, em média, R$ 121 mil para cada dia de trabalho.

Ele faturou tanto quanto, por exemplo, a top model Kate Moss e a tenista Serena Willians, que figuram na lista das “mais poderosas celebridades” da revista Fortune. “Seria interessante que o Ministério Público, a Justiça, os economistas, universidades etc. procurassem estudar e investigar em que condições um deputado federal consegue ganhar R$ 121 mil por dia no exercício do mandato”, sugere o sociólogo.

Não foi só no caso Palocci que o marketing petista esbarrou em seus limites. Também aconteceu com o programa “Brasil sem Miséria”, lançado ontem por Dilma Rousseff. Dos anunciados R$ 20 bilhões de investimentos nas ações, apenas 20% são de fato dinheiro novo; o resto já é gasto com o Bolsa Família. Não colou.

Para O Estado de S.Paulo, “o Brasil Sem Miséria é um pacote que junta intenções do governo, projetos que não saíram do papel no governo Lula e reafirmações de compromissos da presidente na área social”. Para a Folha, o programa “recicla ações”. Se for tratado como peça publicitária, o projeto não terá como avançar.

O ato que está para se desenrolar nas próximas horas deve ser o réquiem para a carreira política de Antonio Palocci, o principal ministro do governo Dilma. Mas o caso não se encerrará aí. Ainda restará ao petista explicar seu enriquecimento e dissipar as fundadas suspeitas de irregularidades. A crise será afastada do Planalto, até que um próximo escândalo brote na Casa Civil, transformada em bunker de falcatruas na gestão do PT.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sai logo daí, Antonio

Antonio Palocci parece estar com os dias contados na Casa Civil. A cobrança da opinião pública, o ímpeto da oposição e o silêncio ensurdecedor do ministro sobre seu espetacular enriquecimento ajudaram a traçar um destino que, neste momento, mostra-se inexorável. Até os governistas deixaram de defendê-lo.

Todos os principais jornais do país registram hoje a implosão do que restava de apoio a Palocci na base aliada. Segundo O Estado de S.Paulo, “dirigentes e líderes do PT não só querem a saída do ministro da Casa Civil, como já discutem pelo menos dois nomes para substituí-lo”. Seriam Paulo Bernardo e Gilberto Carvalho.

Os chefes de Palocci – a atual e o antigo – também já começam a lavar as mãos. Segundo a Folha de S.Paulo, “em conversas reservadas, Dilma e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliaram a pressão para que o chefe da Casa Civil rompa o silêncio e explique seus negócios em público”.

A Executiva do PT reúne-se hoje e já adiantou que não pretende emitir qualquer posicionamento oficial, nem contra nem tampouco a favor, sobre o ministro. Também pipocam cobranças, entre os aliados, para que ele se explique. Senadores como Gleisi Hoffman, tratada como queridinha do governo, sugerem a saída de Palocci.

Ontem, O Globo publicara declaração de um governador petista, sob anonimato, a respeito do ministro. É lapidar: “Ninguém tem perfeita segurança do que ocorreu. Ele [Palocci] não explica nada! A imagem mais fiel ao caso é um cara vestido com macacão largo, camisa florida, chapéu de florzinha, nariz vermelho e, no fundo, o circo pegando fogo”.

O problema de Palocci – que em sua trajetória política tanto misturou negócios públicos com interesses particulares – passou a ser meramente privado. “Amplia-se na opinião pública a sensação de que, se Palocci prefere o silêncio diante de tanta pressão, de fato tenha algo a esconder”, opina a Folha em editorial publicado hoje.

Se quer uma oportunidade para esclarecer a sociedade, o ministro tem. Ontem a oposição aprovou a sua convocação para falar à Comissão de Agricultura da Câmara. Mas, pelo jeito, seu desejo é continuar omitindo-se. Os governistas falam em “golpe” e tentam a todo o custo derrubar a decisão – algo que só será definido na semana que vem.

“Confirmada a convocação aprovada ontem na Comissão de Agricultura na Câmara, são quase nulas as chances de Palocci dar um show de convencimento. Não depois de tanta luta para se esconder. Derrubar a convocação, faltar? É pior”, observa Dora Kramer n’O Estado de S.Paulo.

Ao invés de exigir de seu subordinado que esclareça o caso, a presidente da República preferiu escancarar a carteira. “Dilma Rousseff decidiu abrir o cofre, liberar o preenchimento de cargos no segundo escalão e mudar de postura na relação com o Congresso na tentativa de debelar a crise política e manter no cargo o ministro”, informa o Valor Econômico.

Para apaziguar a base, o Planalto irá manejar um mapa com mais de cem cargos cobiçados por governistas, com instruções da presidente para nomeações, e liberar R$ 500 milhões em restos a pagar para atender emendas aliadas. Há prova mais evidente da convicção de Dilma sobre a lisura das atividades do seu ministro da Casa Civil?

As revelações de que o patrimônio de Palocci se multiplicou por, pelo menos, 20 vezes em quatro anos vieram a público em 15 de maio – há, portanto, 18 dias. Neste período, o ministro foi incapaz de produzir uma explicação razoável para a compra de bens no valor de R$ 7,5 milhões e para o faturamento de R$ 20 milhões no ano eleitoral de 2010.

Não conseguiu, tampouco, dizer por que metade da bolada que embolsou no ano passado veio após Dilma Rousseff ter sido eleita e ele ter pulado do posto de coordenador da campanha vitoriosa para o de coordenador da transição de governo – com acesso, portanto, a todos os mais sigilosos dados da administração federal.

Alega-se que os R$ 10 milhões depositados na conta corrente da empresa de Palocci entre novembro e dezembro seriam decorrência do encerramento dos contratos de “consultoria” firmados pela Projeto. Nunca se viu contratante pagar por serviço que teve que ser interrompido.

Mais razoável é supor que o pagamento deveu-se a futuros serviços a serem prestados pelo contratado, já na valiosa condição de ministro. Mesmo fora da Casa Civil, Palocci ainda será devedor de explicações sobre o seu show dos milhões.

A condição de todo-poderoso de que Antonio Palocci desfrutava até outro dia está definitivamente perdida e sua saída do cargo tornou-se questão de dias, ou mesmo horas. Pelo jeito, o governo está louco para aparecer um Roberto Jefferson para sugerir: “Sai logo daí, Antonio”.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Cinco meses de um varejo sem fim

Nos desdobramentos da crise envolvendo o enriquecimento do ministro da Casa Civil, a discussão do momento é sobre o aumento do peso do PMDB no núcleo de poder. O partido de Michel Temer sente-se confortável para cobrar mais pelo apoio parlamentar, sob ameaça de deixar que alguns de seus senadores tornem a CPI do Palocci uma realidade. O balcão de negócios do Planalto está a pleno vapor.

Três dos principais jornais destacam hoje a fatura que os pemedebistas estão apresentando ao governo. Para O Estado de S.Paulo, em manchete, “com Palocci fraco, PMDB quer nova articulação política”. Segundo a Folha de S.Paulo, o “PMDB cobra mais poder de decisão no governo Dilma”. Até o Valor Econômico, que vinha dando menos destaque ao caso, informa, em primeira página, que “Dilma revê coordenação política”.

Uma das conclusões em comum é que o PMDB deverá partilhar mais das decisões do governo e Dilma Rousseff irá intensificar os contatos com as lideranças governistas no Congresso. Tudo isso seria decorrência da derrota na votação do Código Florestal, na qual o PMDB não seguiu as ordens do Palácio, e do acirramento das relações ao longo da crise em torno de Antonio Palocci. Também seria uma forma de reconstruir a abalada autoridade da presidente.

É claro que o governo, qualquer governo, depende de uma boa articulação política para funcionar melhor. Mas, no caso de Dilma, isso é uma dependência química. A inabilidade e a inexperiência políticas da presidente justificam parte das dificuldades. Mas o modo como o condomínio de poder se organiza sob o PT explica muito mais.

Dilma termina hoje o quinto dos 48 meses da sua gestão. Neste período inicial, os governos costumam ser marcados por gestos ousados, pela apresentação dos projetos mais arrojados, pela proposição das mudanças mais significativas para a vida de um país. O que fez o governo da presidente neste sentido até agora?

Não há uma única reforma efetivamente em discussão. Dos principais projetos que tramitaram no Congresso, um trata de assunto corriqueiro na vida da nação – a fixação do salário mínimo – e o outro serviu mais para nos jogar numa encruzilhada do que para apontar novos caminhos – o do Código Florestal. É muito pouco para um governo que se dizia estar “em lua de mel” com o país.

Dilma Rousseff não apresentou, nem parece dedicada a desenvolver, um projeto para o país que tenha força suficiente para galvanizar apoios no Parlamento e na sociedade. É um governo dedicado à administração cotidiana da burocracia, à política miúda, ao curto prazo. Um governo de um varejinho sem fim.

Para funcionar, governos com esta natureza dependem fundamentalmente do “é dando que se recebe”. O balcão do fisiologismo tem de estar aberto diuturnamente. A articulação política que Dilma promete azeitar doravante se presta a garantir que estas engrenagens funcionem melhor – o que não significa que tenham parado de funcionar um instante sequer.

“Como contentar o PMDB? Cedendo espaço na máquina governamental que possibilite bons negócios. Rentáveis para efeito privado e péssimos para o interesse público. O governo postergou, até o momento, a partilha do butim, não pela defesa da moralidade pública. Longe disso. Está testando o partido para ver até que ponto é possível negociar”, escreve Marco Antonio Villa n’O Globo.

A intervenção de Lula na semana passada serviu justamente para reafirmar a prevalência dos princípios fisiológicos no condomínio gerido por Dilma sob a tutela do ex-presidente. Ele veio lustrar o balcão. Fica muito evidente que esta é a regra que vale para os governos do PT. Basta agirem assim, para saírem sorridentes nas fotos...

A assessoria da presidente cuida de disseminar que a atuação de Lula “desagradou” Dilma. Bobagem. A intervenção é parte do jogo que ela aceitou jogar, mas não estava tendo habilidade para conduzir. A interferência do ex-presidente serviu para apaziguar os ânimos e garantir que os canais não serão obstruídos – pode-se imaginar o que flui por intermédio deles.

A correria do governo para atender prontamente os comensais do PMDB e da base aliada também sugere a pouca confiança nas explicações dadas pelo ministro da Casa Civil sobre o crescimento exponencial da sua fortuna. Busca exorcizar investigações, mas a crise está longe de acabar – o Valor chega hoje a cogitar nomes de possíveis sucessores de Palocci: Fernando Pimentel, Paulo Bernardo e Alexandre Padilha.

Pode ser que o Planalto aposte que, no fim das contas, o episódio sobre o enriquecimento suspeito de Antonio Palocci não passe de um “acidente”, como aliados do PT do quilate de José Sarney já consideram ter sido o impeachment de Fernando Collor. No fundo, a intenção acaba sendo esta mesma: igualar todos. Por baixo.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A crise não sairá da agenda

O governo dá início hoje a um esforço concentrado destinado a demonstrar que está tudo normal no centro do poder. Depois de semanas de imobilismo, Dilma Rousseff programou atividades públicas diárias até sexta-feira com intuito de mostrar trabalho e tentar desviar o foco do enriquecimento de Antonio Palocci. Não será assim que conseguirá escapar de dar as explicações ainda devidas sobre o escândalo e sepultar a crise.

A presidente vai hoje ao Uruguai para uma visita de cinco horas, adiada três vezes desde janeiro, assinar um monte de papéis. Os 14 acordos que a chancelaria brasileira alardeia como justificativa para a visita são absolutamente secundários.

O evento em Montevideo só tem um objetivo: dar oportunidade a Dilma de transferir – por esta enormidade de tempo – o governo para Michel Temer. O que importa é a pose sorridente para os fotógrafos, como o próprio vice-presidente admitiu no sábado.

É a maneira que a presidente imaginou para transmitir ao público a ideia de que a relação com o PMDB está pacificada. Não está. Na semana passada, Dilma ameaçou demitir todos os ministros pemedebistas, levando Temer e Palocci a travarem uma áspera discussão por telefone. Os condôminos se engalfinhavam pelo butim.

A “agenda anticrise” prossegue amanhã com uma reunião com governadores sobre o andamento das obras da Copa do Mundo de 2014, que Dilma prometera realizar tão logo tivesse voltado da China, há um mês e meio. Tudo bem que a pneumonia a tenha impossibilitado de cumprir alguns compromissos, mas há prova mais evidente de paralisia do governo do que o estado de penúria que há meses ronda as obras?

Na quarta-feira, a presidente abrirá espaço na agenda para recepcionar os senadores do PMDB. Divulga-se que discutirá com eles o Código Florestal, que agora tramita no Senado. Mas o objetivo, novamente, é outro: evitar que parte da bancada assine requerimento para a criação da CPI do Palocci. Como? Escancarando, claro, o balcão fisiológico que move as relações entre governo e aliados na era petista.

A lista de compromissos da semana inclui, ainda, o lançamento do programa “Brasil sem Miséria”, apresentado como “vitrine do governo”. É chocante como uma iniciativa que deve ser séria – a de atender os 16 milhões de miseráveis existentes no país – seja tratada como uma simples peça da estratégia de marketing palaciana para fugir da crise. Começando assim, o programa corre risco de ter o mesmo destino do Fome Zero...

Para completar a semana, Dilma lança no Rio mais uma plataforma da Petrobras, a P-56. Seria uma boa oportunidade para a presidente dar uma olhada nas precárias condições das demais estruturas da empresa. Na quinta-feira passada, foi suspensa a operação da plataforma P-65, às voltas com uma série de normas de segurança não seguidas pela estatal. Em agosto de 2010, também fora interditada a P-33 por problemas de manutenção.

Esta avalanche de espuma não livrará o governo do PT de explicar o inexplicável: como o patrimônio de seu principal ministro multiplicou-se por pelo menos 20 vezes em apenas quatro anos.

Na sexta-feira, Palocci enviou ofícios à Procuradoria Geral da República, mas, pelo que se divulgou, não informou o essencial: para quem prestou tão valiosos serviços de “consultoria”. Aí está a “variável-chave” para o desenrolar da história. “A lista de clientes e preços de Palocci pode ser uma resposta ou a pá de cal”, comenta Carlos Alberto Sardenberg hoje n’O Estado de S.Paulo.

Mas a defesa do ministro desdenha de dar explicações, e chega a lançar mão de argumentos de um cinismo ímpar. Em artigo publicado hoje na Folha de S.Paulo, o advogado José Roberto Batochio diz que os R$ 20 milhões descobertos até agora – será só isso mesmo? – redundariam em “uma receita mensal bruta de R$ 416 mil” ao longo de quatro anos. Ele acha pouco.

Omitindo que assina o artigo como advogado de Palocci, o que Batochio faz é distorcer os fatos. Os R$ 20 milhões vieram num único ano e não em quatro. Pior: metade disso veio quando Palocci coordenava a transição de governo e tinha acesso a todas as informações relativas às decisões do governante que saía, bem como às intenções da gestão que entrava, mostrou a Folha ontem.

Igualmente cínica é a posição da Controladoria-Geral da União, que se recusa a investigar o enriquecimento de Palocci, contrariando decreto assinado pelo então presidente Lula em junho de 2005, no auge da crise do mensalão. “Para não investigar o caso, a CGU alega que Palocci não era ‘agente público’ na época em que recebeu os pagamentos feitos à empresa Projeto”, informa o Estadão.

Fica claro que o maior esforço do governo é por escapar de dar as explicações ainda devidas sobre o escândalo, impedir apurações, turvar a compreensão do caso pela opinião pública e usar a máquina de propaganda para dar ares de normalidade a uma situação absolutamente anormal. A menos que, no balcão de negócios que o condomínio do poder opera, tráfico de influência e operações suspeitas sejam considerados meros compromissos na agenda oficial.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Presidente teleguiada

Onze dias depois de revelado o espetáculo do crescimento do patrimônio do ministro Antonio Palocci, Dilma Rousseff saiu do armário ontem para defendê-lo. Não foi, convenhamos, uma defesa das mais enfáticas; as atitudes e os argumentos usados foram canhestros. A presidente da República portou-se como boneco do ventríloquo Lula.

Dilma só fez reproduzir os mesmíssimos argumentos que o ex-presidente pôs para circular no mundo político nos últimos dias. Seguindo a velha tática diversionista do PT, culpou a oposição pela revelação de que seu ministro da Casa Civil ficou milionário quando era deputado. Acusou os oposicionistas de “politizarem” o caso. Nada que corresponda à realidade.

A presidente da República usou ontem mesmíssimas frases empregadas por seu chefe de gabinete dois dias antes. Tanto quanto seu subordinado, ela agiu a mando de Lula, chancelando a leitura corrente de seu apequenamento precoce no cargo mais importante da República.

Disse ela ontem, segundo O Globo: “Agora se negam a discutir o vazamento dos sigilos e só querem discutir o conteúdo dos sigilos”. Dissera Gilberto Carvalho na terça-feira: “Em 2010 houve a quebra de sigilo dos dados de familiares de [José] Serra e o foco do noticiário foi a quebra de sigilo em si, e não o conteúdo. Agora é tudo para o conteúdo e nada para a quebra de sigilo”.

Será que Dilma não tem um pingo de luz própria? Será que, a cada crise, precisará chamar o síndico para dar bronca nos vizinhos do condomínio de poder? Recusará a dar transparência à administração, usando as mesmas manobras que notabilizam seu partido?

Em sua primeira manifestação após a divulgação de que o patrimônio de Palocci multiplicou-se – na melhor das hipóteses – por 20 em quatro anos, a presidente sequer se comprometeu com a integridade do seu principal ministro. Ela afirmou apenas assegurar que ele “está dando todas as explicações necessárias”. A quem?

Até agora, a única coisa que Palocci fez foi divulgar uma nota na qual dizia que fez o mesmo que outros fizeram – sem considerar que a condição dos outros não era a de todo-poderoso junto ao governo de plantão. Ontem, na “defesa” que apresentou aos senadores, também confirmou que, sim, foi muito bem pago para dar conselhos a ricaços quando era deputado.

A presidente acusou a oposição de estar buscando um “terceiro turno”, politizando o caso. Nada mais falso. O que a oposição fez até agora foi tentar investigar – coisa que o governo fez de tudo para impedir. “Cada requerimento negado, cada CPI sepultada é um tijolo a mais no edifício da suspeita”, escreve Fernando Gabeira no Estadão.

Ressalte-se que as revelações sobre o show dos milhões de Palocci foram feitas pela imprensa e nunca foram negadas por ele. “As duas revelações fundamentais do novo caso Palocci – a compra multimilionária de imóveis e a colheita gênero megassena logo em seguida à eleição de Dilma – foram publicadas pela Folha e elaboradas como notícias objetivas. Sem qualquer extrapolação excedente aos fatos”, comentara Janio de Freitas ontem na Folha de S.Paulo.

Na realidade, para tentar se defender o governo começou a praticar nesta semana um expediente típico de quem está metido em enrascada, o chamado “spin”. É uma forma de torcer a informação de forma a torná-la conveniente a seus interesses. Como estava encurralado, sob fogo de seus próprios “amigos”, o governo passou, dia após dia, a tentar desviar o foco para a oposição.

“Numa conjuntura em que a oposição não tem número sequer para aprovar um requerimento, a iniciativa [de culpar a oposição], além de desprovida de foco, é um acinte à inteligência dos aliados governistas”, observa Maria Cristina Fernandes no Valor Econômico.

As suspeitas quanto à atipicidade das atividades de Palocci estão longe de ser vãs, como fica mais uma vez claro hoje com a notícia, publicada pela Folha, de que o Ministério Público Federal abriu investigação para investigar se o ministro enriqueceu ilicitamente. “O foco da ação é apurar se a evolução patrimonial do ministro é compatível com os ganhos de sua empresa. Caso contrário, Palocci pode responder por improbidade administrativa”.

Ele terá 15 dias para enviar cópia da declaração do imposto de renda da sua empresa de consultoria aos promotores. A Projeto terá que informar a relação de seus clientes e serviços prestados, com cópia de pareceres e registros de reuniões. Numa outra frente, apura-se a prática de tráfico de influência, o que ensejaria investigação na área criminal.

Como se vê, o caso cresce – e não é por culpa da oposição, mas dos fatos. Dilma Rousseff demorou a dirigir-se à nação num episódio da mais extrema gravidade. Quando o fez, dedicou-se muito mais a confundir do que a explicar. Fez, ela sim, politicagem. Lançou acusações vazias, portou-se como se estivesse em cima de um palanque. Fez tudo como mandou o chefe e reforçou a percepção de que sua vocação é ser sempre teleguiada.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Vazio de governo

Lula magnetizou as atenções nos últimos dois dias, depois que se lançou de volta à ribalta política brasiliense. Veio a campo num momento em que as denúncias sobre o enriquecimento astronômico de Antonio Palocci encontravam-se em fogo brando. Com suas bravatas de sempre, o ex-presidente conseguiu dois resultados: voltar a aquecer a polêmica e reduzir a pó a estatura política de Dilma Rousseff.

Os jornais de hoje sustentam que, com a série de reuniões que protagonizou desde terça-feira, Lula comandou uma “intervenção branca” no governo, segundo O Globo. Para a Folha de S.Paulo, o ex-presidente ocupa-se em preencher o “vazio político” reinante em Brasília. Mais correto seria dizer que há um vazio de governo.

A presidente da República encontra-se em seu pior momento, decorridos apenas 146 dias de seu mandato. Ela mesma conduziu-se à atual condição, isolando-se, omitindo-se e, quando contrariada, irritando-se, como na reação à derrota do governo na votação do Código Florestal – em que, comenta Dora Kramer, teria ameaçado demitir todos os ministros do PMDB.

Dilma está que é um destempero só. A ponto de seus “aliados” dizerem que ela se porta como uma “czarina” e mesmo seu fiel escudeiro José Sarney afirmar que, de forma incomum para quem ocupa o cargo máximo da República, a presidente age como “sacerdotisa do serviço público”. Num momento de instabilidade politica, isso não é um elogio...

É lícito afirmar que, a despeito das inabilidades da presidente, o empurrãozinho de Lula foi providencial para que Dilma rolasse ladeira abaixo. A desenvoltura do ex-presidente foi mais que suficiente para revelar um governo sem comando, uma base política sem unidade e nada convicta da inocência de um ministro diante de suspeitas faraônicas. A reentré do petista-mor serviu para desnudar a rainha.

Quem mais colabora para a fragilidade e a desestabilização do governo Dilma são seu próprio partido e sua base de “apoio” parlamentar – e Lula em especial. Segundo participantes da reunião com o ex-presidente ontem no Senado, ele próprio disseminou a tese de que o caso Palocci pode desembocar em uma “crise institucional”, chegando a sugerir a criação de um “Ministério do Vai Dar M...”.

Lula teria dito que o episódio do enriquecimento do ministro “pode levar o governo a uma crise de dimensões imprevisíveis se não for bem administrado”, informa o Valor Econômico. “O presidente Lula tem uma sensibilidade política mais aguçada e deu sinais claros de que a crise do Palocci é muito grave, não sai da mídia, e que pode caminhar para uma crise institucional de dimensões preocupantes e futuro imprevisível”, relatou um senador aliado a O Globo.

Se já está claro que os governistas não colaboram para debelar as suspeitas em torno do ministro, o Valor Econômico vai mais adiante e diz que, na visão do Planalto, a debacle de Palocci “interessa mais a setores do PT do que a outros aliados”. Dá até nome aos bois: grupos identificados com José Dirceu e os deputados Ricardo Berzoini e João Paulo Cunha.

“O enfraquecimento de Palocci ocorre no momento em que o governo começou a fazer, discretamente, mudanças no rumo da política econômica, tornando-a mais à feição do ministro da Casa Civil, isto é, menos intervencionista e mais liberal”, especula o jornal.

Ressalte-se que, até agora, a oposição restringiu-se a seu papel institucional: defender a convocação do ministro para que ele se explique, investigar e trazer a público novos elementos para elucidar o caso.

Como o PSDB fez ontem, ao divulgar que a WTorre – cliente de Palocci na Projeto – recebeu ressarcimentos da Receita Federal (R$ 9,2 milhões) tão logo doou recursos para a campanha de Dilma (R$ 2 milhões). Um episódio em tudo suspeitíssimo, seja pela celeridade nos trâmites (44 dias após o protocolo e quatro dias após o primeiro turno das eleições presidenciais), seja pela extemporaneidade das cobranças (dois anos após os fatos geradores).

Aliás, a WTorre e a Amil não estão mais sozinhas na lista de clientões já conhecidos da Projeto. Também o Santander contratou Palocci quando ele ainda era deputado federal para ouvir seus aconselhamentos, revela O Estado de S.Paulo. Especula-se que toda a polpuda carteira da consultoria tenha pelo menos 20 nomes.

Passadas quase duas semanas das primeiras denúncias, até agora o ministro apenas confirmou a veracidade das revelações de que seu patrimônio cresceu pelo menos 20 vezes em quatro anos e de que embolsou a fortuna de R$ 20 milhões no ano em que coordenou a campanha vitoriosa do PT à Presidência da República – metade deles quando a eleição já estava liquidada e ele virtualmente escolhido primeiro-ministro.

O caso Palocci está servindo para revelar o pouco compromisso do governo Dilma com a transparência na administração e com a defesa do interesse público. Mais que isso, está mostrando ao país que aquilo que vinha sendo comemorado como discrição – o comportamento mais comedido da presidente em comparação com a histrionice de seu antecessor – não passa de tibieza, imobilismo, incompetência. No vácuo de seu governo, Dilma vai se evaporando. E Lula sentiu o cheiro.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Chamaram o síndico: por que o temor?

Demorou, mas o PT acionou ontem sua velha estratégia de guerra: posar de vítima quando acusado. E fez isso não por meio de um qualquer, mas na pessoa de seu principal líder, o ex-presidente Lula. A atitude desnuda o temor gigantesco em esclarecer, de uma vez por todas, as atividades da empresa de “consultoria” de Antonio Palocci.

O PT acusa a oposição de insuflar a crise em torno do ministro, mas são os próprios petistas que têm se ocupado em jogar gasolina no fogo. A semana começou sem novidades retumbantes sobre o enriquecimento faraônico de Palocci, mas o governo deu de ombros e acelerou: ligou trator, rolo compressor, retroescavadeira e o que mais tivesse para atropelar os oposicionistas.

Anteontem escalou ministros e governadores, além da tropa de choque de sempre no Congresso. Deve ter achado pouco e ontem dobrou a aposta. Chamou Lula e acionou Gilberto Carvalho para fazer acusações infames na velha tática do batedor de carteiras: furta e sai gritando “pega ladrão”. Conclusão lógica: só quem deve muito, teme tanto.

O governo está tentando, como sempre, turvar a compreensão do caso. Conhecido – e reconhecido – o enriquecimento do ministro, inventa agora a hipótese de que informações fiscais tenham vindo a público por meio de quebra de sigilo na prefeitura de São Paulo. De acusado, faz-se de vítima. Inverte as responsabilidades, numa tática que é recorrente no PT.

“Com esse estratagema, o governo pretende, também, transferir a crise, gerada por suspeitas acerca do aumento patrimonial de Palocci, para uma disputa no campo da política, entre governo e oposição. Na análise de governistas, isso contornaria a necessidade de explicações mais profundas do que aquelas que Palocci vai prestar à Procuradoria-Geral da República”, observa o Valor Econômico.

Os jornais mostram que o ex-presidente saiu a campo para “assumir a articulação política do Planalto” e “pedir unidade” aos petistas. Mandou sua turma ir para o “ataque”, no relato d’O Globo. Evidente que só se assume articulação daquilo que não tem comando; só se pede unidade quando ela não existe; só ordena ataque quem se sente acuado.

Antonio Palocci não tem a seu favor o benefício da dúvida. Sua experiência pública pregressa o desabona, como fica mais uma vez claro hoje com a revelação, feita pela Folha de S.Paulo, de que o responsável pela violação do sigilo de Francenildo dos Santos Costa em 2006 foi efetivamente o gabinete do então ministro da Fazenda.

Quem diz isso é a própria Caixa, em recurso apresentado em processo de indenização movido pelo caseiro: “O domínio do fato [o vazamento] pertencia ao ex-ministro da Fazenda [Palocci], apontado como mentor intelectual e arquiteto do plano, sobre o qual a Caixa não possui qualquer poder de mando. Ao contrário: é o ministro que possui poderes sobre a Caixa”.

A Lusitana rodou, e o ministro se viu de novo enredado em encrencas. Diante de um retrospecto destes, quem tem que provar o quê?

O mais incrível é que, em situação de tal gravidade, envolvendo o principal ministro do governo, a presidente da República até hoje não tenha se manifestado publicamente. Não é com silêncio e omissão que se resolvem os problemas – como, aliás, restou mais uma vez comprovado ontem na Câmara, onde governo e PT foram fragorosamente derrotados na votação do novo Código Florestal.

Segundo o Valor Econômico, com base na aprovação do Código ontem, os aliados de Dilma Rousseff consideram que com ela “funciona a tática da faca no pescoço”. Inerte, a presidente está se apequenando. A reestreia de Lula na ribalta política a fez menor ainda. A quem interessa isso?

O que parece claro é que os petistas viraram suas baterias para o oposição porque não têm convicção da lisura das atividades do ministro-chefe da Casa Civil. Tanto que, quando instados por Lula a ir para o embate, desfilaram “um rosário de reclamações sobre a ausência total de interlocução com o Planalto e com o próprio Palocci para que eles façam sua defesa”.

O que a oposição tem cobrado são esclarecimentos. Esclarecimentos que, dez dias depois de reveladas as primeiras suspeitas, até hoje ninguém deu. O que a oposição, dentro dos princípios republicanos, faz é oferecer ao ministro a oportunidade e a ocasião adequadas para explicar o caso ao público: no Congresso, onde é apropriado o questionamento, a discussão e o debate.

A permanência da dúvida só é prejudicial a Antonio Palocci, porque suscita dúvidas, permite ilações. “O que parece inquestionável é que um homem público deva prestar contas à opinião pública (...) para que a empresa Projeto, de propriedade do ministro, não possa vir a ser comparada à EPC, de PC Farias, que se apresentava como uma empresa de consultoria destinada a alimentar o esquema de corrupção do governo Collor”, escreve o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias na Folha de S.Paulo.

Se o PT viu necessidade de chamar o síndico, é porque as suspeitas devem estar longe de serem infundadas.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Tropa do cheque

Fica cada vez mais clara a falta de convicção do governo quanto à lisura das atividades público-privadas de Antonio Palocci. Só isso explica a escalação de uma verdadeira tropa de choque para blindar o ministro, como a que se viu em campo ontem. O que interessa é garantir que os cheques continuem rolando para os poderosos cofres petistas.

Na semana passada, o alvo da ofensiva governista foi a Câmara, com o fechamento de comissões, arregimentação de leões de chácara para constranger parlamentares da oposição e acionamento do rolo compressor chapa-branca para evitar a aprovação da convocação do ministro. Hoje o campo de batalha deve se transferir para o Senado.

Ministérios e governadores de Estado também viraram joguete nas mãos do poder petista, a fim de proteger o ministro suspeito. Ontem, cinco governadores saíam a campo para defender Palocci. A manifestação não foi de todo desinteressada: os mesmos mandatários também aproveitaram a ocasião para pedir a rediscussão de suas dívidas com a União. Apoio tem preço.

Simultaneamente, para fingir que o governo “está trabalhando e não foi contaminado pelas denúncias”, a presidente convocou quatro ministros para reunião no Planalto. O pretexto era discutir o andamento das obras da Copa, calamidade que já vem de longuíssima data. O contexto, porém, era cobrar-lhes fidelidade canina à defesa de Palocci.

Coincidência ou não, os quatro ministros convocados por Dilma Rousseff ontem são os declaradamente “políticos”, ou seja, os diretamente indicados pelos seus respectivos partidos em troca de apoio ao governo, como bem observou O Globo: Alfredo Nascimento (Transportes), Carlos Lupi (Trabalho), Mário Negromonte (Cidades) e Orlando Silva (Esportes). Voto tem preço.

Palocci – o mesmo acusado de ordenar a quebra de sigilo do caseiro Francenildo dos Santos Costa por causa de uma operação de R$ 24 mil – continua sem explicar o seu show dos milhões. Promete para breve apresentar respostas às perguntas algo vagas que a Procuradoria-Geral da República, considerada “pouco incômoda” na atual quadra, lhe enviou na semana passada.

Se a vida pregressa de Palocci fosse um mar de rosas, até poderia caber-lhe o benefício da dúvida, como advogou ontem o ministro José Eduardo Cardozo. Mas seus negócios mal explicados em Ribeirão Preto, cidade da qual foi prefeito dez anos atrás, continuam sem esclarecimento, flutuando como ectoplasmas.

As negociatas ribeirão-pretanas envolvem suspeita de manipulação de licitação para compra de merenda escolar – só ganhava quem pusesse ervilha misturada no molho de tomate – e desvios reiterados das empresas prestadoras de serviços de limpeza urbana para os cofres petistas. Nada muito diferente, por exemplo, do que está acontecendo em Campinas neste exato momento.

Não é mera coincidência que o PT se veja novamente às voltas com escândalos de subtração de dinheiro público para bolsos partidários – os mesmos que envolveram Palocci em Ribeirão e agora implicam petistas campineiros abrigados na administração do prefeito Hélio dos Santos (PDT).

As fontes são sempre vistosas: prefeituras de gordas arrecadações. Campinas já rendeu até assassinato de um prefeito petista e agora os cupins de lá arremetem contra o cofre da companhia de saneamento local. Estão metidos na encrenca desde o vice-prefeito (petista) até a primeira-dama, além de mais 18 nomes. Amigos do ex-presidente Lula também estão na embrulhada, revela O Estado de S.Paulo.

Para quem pensa que pode ser caso isolado, outra notícia publicada pelo jornal hoje é esclarecedora: “Contra a ofensiva da promotoria criminal que mira aliados importantes do ex-presidente Lula, o PT entrou em cena. No domingo à noite, até o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu desembarcou em Campinas para uma reunião às pressas com vereadores e lideranças do partido”.

Palocci e a máfia campineira são faces de uma mesma moeda: a que busca garantir que os cofres do PT sejam permanentemente irrigados para financiar o projeto de poder do partido. Sempre que este projeto está ameaçado, o governo grita alto e manda chamar sua tropa do cheque. Tem sempre um monte de mercenários à disposição.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Taxa de influência

Antonio Palocci começa a semana tendo muito mais a explicar do que o governo gostaria. Duas novas informações divulgadas no fim de semana dão à “consultoria” dada pelo ministro seus contornos definitivos. Por tudo o que se sabe até agora, a principal mercadoria que a Projeto tinha na prateleira para vender aos clientes chama-se tráfico de influência.

A empresa de Palocci nunca faturou tanto – pelo menos pelo que se sabe até agora – quanto no período entre a eleição e a posse de Dilma Rousseff, cuja vitoriosa campanha foi coordenada pelo dono da consultoria. Entre novembro e dezembro, entraram no seu caixa R$ 10 milhões, revelou a Folha de S.Paulo em sua edição de sábado.

Pelo que se sabe até agora, a bolada representa metade do que a Projeto faturou em todo o ano passado. A justificativa apresentada pela empresa é que seus clientes se anteciparam ao encerramento das atividades da consultoria e ofereceram-se para recompensá-la pelo “sucesso” obtido a partir dos conselhos adquiridos.

Palocci operava sua consultoria com base na obtenção de resultados palpáveis, numa taxa de sucesso, conforme admitiu a Projeto a O Globo no sábado: “A empresa negociou o encerramento de todos os seus contratos, inclusive daqueles com cláusulas de sucesso. Esta negociação com os clientes implicou quitação antecipada pelos serviços prestados. Como a situação obrigava a interrupção dos contratos, a empresa aceitou as propostas dos clientes quanto a estes pagamentos”.

Da conjunção destas duas informações, resulta que Palocci tem muito mais a esclarecer do que se supunha até a semana passada. Ele mais faturou quando a eleição da qual foi um dos principais artífices estava decidida, a seu favor. Mais ganhou quando já se sabia que ele seria o homem forte do novo governo. Mais embolsou quando menos teria trabalhado. Em troca de quê?

Parece evidente que a “experiência única” – conforme a nota que a assessoria do ministro divulgou e depois renegou na semana passada – que teria levado a Projeto a faturar como as gigantes da consultoria financeira do país é menos a pregressa do que a futura. Ao que tudo indica, os clientes da empresa do ministro pagavam para abrir as portas da esperança do novo governo.

“Qual será o valor de mercado de quem tem a oferecer, além da ‘experiência única’, a credencial de ter permanecido como protagonista de primeira grandeza na esfera das decisões do governo? Palocci sabia não apenas como funciona o poder, mas que rumos o poder tencionava tomar em matérias de interesse direto do empresariado e do sistema financeiro”, comentou O Estado de S.Paulo em editorial no sábado.

Também em outro aspecto o caso da Projeto é original no mundo dos negócios. Pagou-se mais justamente quando o serviço deixou de ser prestado e, pelo que informou a empresa no sábado, por sugestão dos próprios pagadores – uma vez que a Projeto teria “aceitado” receber seus milhões, presumivelmente de bom grado. É tudo o que normalmente não se vê no mercado.

A consultoria mais arrecadou quando seu proprietário ainda não era ministro-chefe da Casa Civil de direito, mas já o era de fato. Em 24 de novembro do ano passado, todos os principais jornais do país divulgaram que Palocci assumiria a pasta a partir de 1º de janeiro. É possível que, nestes 37 dias até a posse, nunca os cofres da Projeto tenham visto tanto dinheiro...

A base governista sabe que há muito a esclarecer e faz de tudo para impedir a elucidação do caso. Diz o Estadão hoje que a prioridade dos aliados no Congresso é “barrar a tentativa de convocação de Palocci para depor no Senado e impedir que a oposição avance na coleta de assinaturas para a abertura de uma CPI sobre o caso”. Já O Globo informa que o “Planalto usará cargos para blindar Palocci”. Se o governo tem tanta convicção da lisura das atividades privadas do ministro, por que resiste tanto em permitir que ele se explique?

Antonio Palocci aferra-se a uma das cláusulas dos contratos firmados com seus contratantes para não prestar os esclarecimentos que a sociedade cobra. Diz que obedece à exigência de confidencialidade firmada entre as partes. O ministro demonstra ter mais apreço pelo homens do dinheiro do que pelos princípios éticos e morais da República.

A despeito disso, o que resta explícito é que o principal item da relação entre a Projeto e seus clientes não era a confidencialidade. O que contava mesmo era a possibilidade de os demandantes serem bem-sucedidos em ver seus interesses influenciarem as decisões do governo. As cláusulas de sucesso escamoteavam a taxa de influência exercida pelo ministro. No mundo dos negócios, isso vale milhões.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Show dos milhões

Continuam a pleno vapor as revelações sobre o espetáculo do crescimento do patrimônio de Antonio Palocci. Soube-se hoje que a Projeto, sua firma de consultoria agora convertida em administradora de fortuna, faturou uma bolada ao mesmo tempo em que ele coordenava a campanha de Dilma Rousseff à presidência da República. Que tipo de prestação de serviço milionária terá sido esta?

A Folha de S.Paulo revela que o faturamento da Projeto ultrapassou R$ 20 milhões no ano passado. A proficiência da empresinha – afinal, tinha apenas um único funcionário conhecido – é ilustrada pelo salto nos negócios: quatro anos antes, quando foi aberta, a consultoria arrecadara R$ 160 mil com a prestação de serviços. É o show dos milhões.

Fazendo uma conta rápida, deduz-se que a multiplicação dos peixes na cesta de Palocci foi muito mais prolífica do que se sabia até agora. Se, em 2006, o patrimônio declarado do ministro não chegava a R$ 400 mil e se, na pior das hipóteses, em toda a sua meteórica existência a Projeto só tiver faturado os R$ 20 milhões de 2010, o salto terá sido de 50 vezes – e não 20, como se falava até agora, já com suficiente espanto.

Palocci continua recusando-se a revelar para quem a Projeto trabalhou, o que fez e quanto recebeu enquanto ele dava expediente como deputado no Congresso. Quanto mais escorrega, mais corre risco de tombar.

Enquanto ele se mantém calado, a imprensa vai cuidando de descobrir não só que os valores praticados eram astronômicos, mas também que a carteira de clientes da Projeto era rechonchuda.

Informa O Estado de S.Paulo que pelo menos 20 empresas, incluindo bancos, montadoras e indústrias, contrataram a firma de Palocci. Em documento que deve enviar à Procuradoria-Geral da República, segundo o jornal, o ministro explica que “boa parte dos pagamentos foi concentrada entre novembro e dezembro do ano passado quando anunciou aos clientes que não mais atuaria no ramo de consultoria”.

Naquela altura, pelo menos 70% dos serviços de consultoria e análises de mercado já estariam concluídos, o que explicaria os altos montantes recebidos nesse período. Para a Projeto, assessorada agora por marqueteiros dedicados a “gestão de crises”, nada mais “natural” do que o crescimento dos contratos em 2010. Será?

A firma do ministro está se revelando uma gigante de mercado e um extraordinário case de sucesso no mundo das consultorias econômicas. Maior até do que concorrentes vistosas do ramo. Também a Folha informa que “o faturamento da empresa de Antonio Palocci está no mesmo patamar do das maiores consultorias econômicas do país, empresas com dezenas de funcionários, especializados em diferentes áreas”.

O jornal cita duas: a LCA Consultores (o LC da sigla é associado a Luciano Coutinho, atual presidente do BNDES) e a Tendências, do ex-ministro Maílson da Nóbrega. Embora líderes de mercado, não chegam nem perto da produtividade da Projeto e seu faturamento obtidnum único funcionário.

“A Folha apurou que a LCA Consultores, líder do mercado, fatura pouco mais de R$ 20 milhões por ano. Sua equipe é de mais de cem pessoas e atende quase cem empresas. A segunda maior, Tendências, fatura de R$ 13 milhões a R$ 15 milhões, tem cerca de 70 funcionários e cem clientes”.

Igualmente profícua é a lista de temas sobre os quais a Projeto dava consultoria aos que a procuravam. Um investidor na Ásia contratou Palocci para “para opinar sobre a viabilidade financeira de negócios na região e estabilidade da moeda no respectivo país”, informa o Estadão.

Outro cliente da lista, revela Mônica Bergamo na Folha, a empresa de planos de saúde Amil o contratou para palestras de prevenção na época do surto da gripe suína. Mas Palocci não disse que o que “proporciona uma experiência única que dá enorme valor no mercado” foi sua passagem pelo Ministério da Fazenda? Ah, de quebra, a Amil também pagou por aconselhamento para expansão dos seus negócios no Nordeste. Está explicado...

Completa a lista de clientes conhecida até agora o grupo WTorre, que, entre 2006 e 2010, fez negócios avaliados em R$ 1,3 bilhão com fundos de pensão de estatais (Previ e Funcef) e com a Petrobras. Logo, logo vai se ficar sabendo que a Projeto também esteve por trás, digamos, da criação do estado da Gurgueia...

Com carteira tão extensa e com tanto dinheiro em caixa, também entende-se agora porque a empresinha que só tem um funcionário na sua lista de empregados contratou a gestora de recursos de um bancão para cuidar de sua fortuna. A Projeto já se mostrou, por si só, uma instituição financeira.

Se quiser manter-se como lugar-tenente da presidente da República, Antonio Palocci precisará ser cada vez mais como a mulher de César: não só precisa ser como parecer honesto. Por tudo o que se soube até agora, não conseguiu nem uma coisa nem outra. O homem que já se viu enredado em ervilhas superfaturadas, lixo mafioso e humildes sigilos devassados está longe de conseguir livrar-se das suspeitas sobre suas faraônicas pirâmides de dinheiro.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Blindagem do Palocci

Para que serve uma base parlamentar do tamanho de um bonde, como a de que dispõe a presidente Dilma Rousseff? A resposta foi dada ontem, numa deprimente exibição na Câmara dos Deputados: para evitar que escândalos e malfeitos sejam investigados, para impedir que a sociedade saiba o que ocorre nas entranhas do poder petista.

O governo acionou seu trator ontem, mas nada disso foi suficiente para deter as suspeitas em torno do espetáculo de crescimento da riqueza de Antonio Palocci, que a cada dia se avolumam. Tudo ainda está por ser esclarecido e nada até agora foi elucidado, embora o governo esperneie para encerrar o caso na marra.

Dia após dia vai ficando mais difícil ao ministro se explicar. Um novo ingrediente foi adicionado ao escândalo hoje: informa O Estado de S.Paulo que a Projeto, firma de Palocci, fez uma operação financeira suspeita na compra de um imóvel de uma empresa que estava sob investigação policial. A movimentação foi identificada pelo Coaf e informada à Polícia Federal há cerca de seis meses, a partir de dados repassados pelo banco que intermediou a transação financeira.

“O comunicado do Coaf à PF se enquadra no tipo de ‘movimentação atípica’, ‘operação suspeita’. Funciona da seguinte maneira: os bancos informam ao Coaf sobre transações financeiras fora do padrão. Em cima dessas informações, o órgão da Fazenda repassa à PF e ao Ministério Público relatórios quando uma empresa ou uma pessoa sob investigação aparece nos comunicados dos bancos. No caso de Palocci, o nome da Projeto surge nas transações atípicas envolvendo uma empresa que está sob investigação pela PF”, informa o jornal, em manchete.

Tudo indica que, possivelmente, a evolução patrimonial do todo-poderoso ministro de Dilma supera em muito a escalada configurada no apartamentão de luxo de R$ 6,6 milhões e no escritório de quase R$ 1 milhão. Mais: se, formalmente, a Projeto dedica-se hoje apenas à “administração de imóveis” – os dois acima citados –, conta com uma gestora contratada para cuidar de seus demais recursos financeiros.

Na mensagem enviada aos líderes parlamentares na terça-feira, Palocci informa que “a gestão dos recursos financeiros da empresa [a Projeto] foi transferida a uma gestora de recursos, que tem autonomia contratual para realizar aplicações e resgates”. Admite, pois, que sua fortuna deve ser muito maior, a ponto de justificar sua terceirização para a tal gestora (o Bradesco, segundo Sepúlveda Pertence).

“Durante os quatros anos como deputado, de 2007 a 2010, o hoje ministro teve também ganhos em dimensão que justifica a entrega, sob a forma de ‘recursos financeiros’ e não de imóveis, à gestão de empresa especializada ‘com autonomia para aplicações e resgates’, como é próprio de patrimônio em títulos ou espécie”, observa Janio de Freitas na Folha de S.Paulo.

Deve ser por saber que há muito mais a ser revelado que o governo do PT manobra com tanto vigor para conter as investidas da oposição para investigar o caso e abri-lo à ação desinfetante da luz do sol.

“Base parlamentar tão ampla e incongruente montada pelo governo Dilma no Congresso não existe para aprovar algum projeto importante e nem mesmo para dar ao governo uma base programática ou ideológica sólida. Existe, sim, para não deixar votar convocações de CPIs que possam colocar o governo em situação delicada ou o convite a ministros que possam se ver em situação delicada, como é o caso de Palocci”, escreve Merval Pereira n’O Globo.

Ontem a sanha anti-investigação foi tanta que a tropa de choque parlamentar ganhou o “reforço” dos leões de chácara que cuidam da segurança do Congresso: a Polícia Legislativa foi usada pelo governo para impedir que deputados da oposição votassem a convocação do ministro.

Num caso único na história recente, salas de comissões foram fechadas e seguranças ficaram na porta para impedir parlamentares de se reunir. A ordem governista era bloquear tudo. Logo às 10h44 a presidente interina da Câmara, Rose de Freitas (PMDB-ES), deu início à ordem do dia, algo totalmente atípico para o horário, e suspendeu a sessão de 12 comissões temáticas.

Tudo isso revela temor e fragilidade da parte do governo Dilma. Diz O Globo que “a avaliação entre os principais aliados da presidente é que ela está excessivamente fechada, e seu governo, sem comando na área política”. Até Palocci já recorre a empresas de marketing que se apresentam como especialistas em gestão de crise, informa a Folha.

Quanto mais o ministro-chefe da Casa Civil demorar a explicar-se, mais terá a esclarecer. Sua estratégia de defesa até agora foi meramente de fuga e escapismo. Sua única ação – a divulgação da nota – foi uma tentativa torpe de constranger as críticas. Não colou, e ontem sua assessoria disse ter se “enganado” ao distribuir o texto. Quem não admite mais ser enganada e enrolada é a sociedade, que diz não à blindagem que o Planalto tenta, truculentamente, impor em torno de Antonio Palocci.