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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Crack sem fronteiras

A expansão do uso de drogas, em especial do crack, é hoje uma das principais preocupações das famílias brasileiras. O Brasil tornou-se o país onde mais se consome o entorpecente derivado da cocaína. Fronteiras mal policiadas são o passaporte para que o mercado nacional seja inundado por quadrilhas internacionais. Tudo sob o olhar complacente e a inação das autoridades federais.

Antes confinado a grandes centros urbanos, o crack espalhou-se por todo o país nos últimos anos. Praticamente não há mais localidades onde o consumo da droga não esteja presente e seja motivo de angústia para familiares de usuários. O crack tornou-se uma epidemia nacional.

Pelo interior do país, espalham-se “minicracolândias”, perímetros onde reina a degradação e a falta de perspectiva. Segundo pesquisa feita pela Confederação Nacional dos Municípios em fins de 2011, 90% das cidades brasileiras registram consumo de crack; em 1.078 delas, o uso já atingiu níveis considerados altos.

O crack e sua desenfreada disseminação no território brasileiro foram um dos temas da campanha presidencial de 2010. Às vésperas do pleito, sem nunca ter feito nada para deter o avanço ao longo dos oito anos de seu governo, Luiz Inácio Lula da Silva lançou um retumbante programa de combate à droga, destinando R$ 400 milhões a ações que jamais foram realizadas.

Já na cadeira de presidente, no segundo mês de governo, Dilma Rousseff reiterou o compromisso de uma “luta sem quartéis” contra a droga. Em dezembro passado, relançou o programa que Lula lançara como mera peça eleitoral. Mas, infelizmente, até agora as providências não passaram de promessas vazias. A batalha contra o crack continua sendo perdida.

Em agosto, O Globo mostrou que o programa federal – batizado “Crack, é possível vencer” – “anda a passos lentos”. Mais correto seria dizer que simplesmente não sai do lugar. “Dados do Ministério da Saúde apontam que, dos 3.600 mil leitos que seriam criados ou qualificados até 2014, só 79 funcionam. Das 188 unidades de acolhimento infanto-juvenil, só uma saiu do papel (em Vitória, no ES). Dos 323 consultórios de rua prometidos, só 74 abriram”, informou o jornal.

É difícil saber onde estão indo parar os R$ 4 bilhões anunciados pela presidente da República para combater o flagelo do consumo de crack no país. A abertura de mais vagas de acolhimento em comunidades terapêuticas dedicadas a tratamento de dependentes também não ocorreu, como mostrou O Estado de S.Paulo na semana passada. “As exigências eram inúmeras. Foi um fracasso”, resumiu um dirigente.

Com tamanha leniência, não foi surpresa ver o Brasil alçado à condição de lugar do mundo onde mais se consome crack, segundo pesquisa feita pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Drogas divulgada no início do mês. Já são 1 milhão de usuários. No caso da cocaína, o consumo registrado no Brasil nos últimos 12 meses supera o de toda a Ásia. Lamentavelmente, é possível que os números estejam subestimados.

O mesmo levantamento mostra que o que colabora para a franca disseminação do mal no país é a facilidade de obter a droga. Nossas fronteiras são um verdadeiro queijo suíço por onde se contrabandeia de tudo, principalmente entorpecentes e armas – dois itens, aliás, intimamente irmanados na escalada de violência que também assola nossas cidades.

O descuido federal em relação a nossos 15,8 mil quilômetros de fronteiras tem proporções amazônicas. A despeito de toda a pirotecnia que, vira e mexe, o governo petista apronta, talvez tenhamos as divisas mais mal vigiadas do planeta, como restou mais uma vez evidente com os veículos aéreos não tripulados (VAT) que não voam.

Os VATs foram uma das estrelas da campanha eleitoral de Dilma, mas não decolam desde janeiro, conforme revelou a Folha de S.Paulo na segunda-feira. Vários motivos já colaboraram para isso: falta de combustível, de treinamento e, agora, de um contrato de manutenção a ser firmado com a empresa israelense que forneceu as aeronaves. Nisso, R$ 80 milhões já foram embora e a droga continua a passar, sem ninguém ladrar.

O desleixo do governo petista em relação ao combate ao crack e a negligência com nossas fronteiras ilustram à perfeição a inação que marca tanto a atual quanto a gestão anterior. Há muito marketing, mas pouquíssimos resultados. Há milhões de pais e mães desesperançados no Brasil aguardando que esta viagem sem volta acabe.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Fronteiras de terror

Seria fantasioso imaginar que a morte de Osama bin Laden tenha alguma consequência para o Brasil. É factível pensar que a Al Qaeda desencadeie represálias pelo mundo afora, mas muito pouco provável que a ira se direcione para estes trópicos. O episódio suscita, porém, oportunidade para avaliar o cuidado (ou, melhor dizendo, a falta dele) que as autoridades brasileiras têm dedicado ao controle das nossas fronteiras, fragilizando a segurança nacional.

É frouxo, para dizer o mínimo, o policiamento dos nossos mais de 16 mil km de divisas com os países vizinhos. Por ali entram armas e drogas, combustíveis da criminalidade que viceja nos grandes centros e se espraia por todos os recantos do país, por meio da disseminação do vício. Na ausência do aparato estatal, o comércio ilegal também prospera.

O Paraguai é a principal fonte de armas contrabandeadas para o Brasil; a Bolívia, a origem de cerca de 60% da cocaína importada para consumo no país. Para enfrentá-los, o governo brasileiro mobiliza apenas 1.600 homens do Exército. É uma guerra de terror, impossível de ser vencida nestas condições.

Como criminalidade e drogas são algumas das maiores aflições da população brasileira hoje, a necessidade de prover segurança nas fronteiras foi um dos temas recorrentes na campanha eleitoral do ano passado. Era o interesse nacional que estava em discussão. “As fronteiras brasileiras são das mais desguarnecidas do mundo”, escreveu o ex-governador José Serra em artigo recente.

Pouco tem sido feito pelo atual governo, porém, para controlar o crime nos limites do território brasileiro. As ações da Polícia Federal têm sido cada vez mais tímidas, assoladas pelo corte orçamentário – necessário diante dos excessos eleitoreiros dos últimos anos, mas quase sempre inescrupuloso.

Os cortes levaram embora 36% da verba destinada ao Ministério da Justiça neste ano. Dos R$ 4,2 bilhões previstos, a tesoura de Dilma retalhou R$ 1,5 bilhão. Em consequência, as ações da PF minguaram e o combate ao crime nas fronteiras desapareceu, mostrou a Folha de S.Paulo há alguns dias.

“Embora a cúpula da PF se esforce para refutar a ideia de que os cortes orçamentários já afetam o ritmo das operações, sabe-se que, somente na fronteira entre Mato Grosso do Sul e Paraguai, a média mensal caiu de seis para uma”, volta a exemplificar o jornal em sua edição de hoje.

Pelas fronteiras brasileiras, passa boi, passam boiadas. Compram-se armas no sistema delivery, para entrega em domicílio do lado de cá da divisa. Sem ser incomodado, o contrabando alimenta o tráfico de drogas. Um exemplo: no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro, comunidades do Rio ocupadas pelo Exército no início deste ano, 77% das armas apreendidas eram de fabricação estrangeira.

São antigas as suspeitas de que a Tríplice Fronteira, formada por Brasil, Argentina e Paraguai, abrigue núcleos de fundamentalistas islâmicos. Vira-e-mexe os Estados Unidos divulgam algum indício desta natureza, mas o governo brasileiro nunca leva os temores muito a sério, nem se preocupa em aumentar a vigilância. No máximo, vez por outra, tira da cartola pirotecnias como o Vant (Veículo Aéreo Não Tripulado), há meses parado num hangar sem combustível para voar.

Em países centrais, a realidade é diferente. EUA, Reino Unido e Alemanha acionaram ontem operações preventivas contra eventuais represálias de fanáticos pela morte de Bin Laden. Seria paranoia achar que o Brasil está entre os alvos visados, mas nada dispensa a necessidade de nossas autoridades se manterem vigilantes.

Nossos inimigos podem até não ser uma organização tão ameaçadora quanto a Al Qaeda, mas o poder de destruição das armas e drogas que transpassam nossos limites territoriais é razão suficiente para que as fronteiras do país mereçam cuidado e atenção especiais.