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quinta-feira, 6 de abril de 2017

Devagar, devagarinho

Aos poucos, ainda timidamente, vão aparecendo sinais de que o pior da monstruosa recessão legada pelo PT ao país começa a ser superado. Os indicativos estão no comércio exterior, mas se fazem notar também na indústria, ainda alquebrada, mas já se distanciando da grossa camada de ferrugem que lhe impregnou durante os governos de Lula e Dilma Rousseff.

Em março, a balança comercial brasileira teve desempenho deslumbrante. Rendeu ao país superávit de mais de US$ 7 bilhões, recorde histórico para o mês, ou seja, em 28 anos, de acordo com as estatísticas do MDIC. Nem a barbeiragem da Polícia Federal durante a Operação Carne Fraca foi capaz de vergar as exportações globais do país, tampouco as do complexo carne, que subiram mais de 4% no mês.

No mês passado, o Brasil elevou em 20% as suas exportações. Ao mesmo tempo, também aumentou as importações, num indicativo positivo de que a atividade interna pode estar a demandar mais insumos e produtos acabados para atender um mercado em processo de reanimação. Os desembarques cresceram 7% em março.

Já a indústria brasileira, de certa forma, decepcionou em fevereiro. As fábricas produziram apenas 0,1% mais em relação ao mês anterior, bem abaixo das expectativas, e 0,8% menos que em fevereiro de 2016. Em 12 meses, a produção industrial brasileira ainda acumula queda de 4,8%, segundo o IBGE.

Pode parecer ruim, mas já é um alento perto da destruição em massa que se verificava até pouco tempo atrás. Enxerga-se agora um processo de estabilização, que sucede à viagem ao fundo do poço da recessão que a indústria made in Brazil empreendeu até meados do ano passado, quando a queda anualizada era o dobro da atual (-9,7%).

Mais da metade dos setores ampliou a produção em fevereiro, com destaque para o de bens de capital, com alta de 6,5% sobre janeiro e de 3% sobre o mesmo mês de 2016. No outro extremo, a produção de alimentos ainda cai (-2,7%), refletindo a dificuldade de consumo das famílias. A recuperação será, portanto, lenta e gradual, aponta o consenso dos analistas.

A participação da indústria no PIB não é tão baixa desde os anos 1950, caindo a 11,7%, e o nível de atividade atual ainda mantém-se quase 20% abaixo da máxima, alcançada em meados de 2013. Estamos no mesmo patamar em que estávamos em 2009, logo após a eclosão da crise financeira global.

Da junção dos movimentos do comércio exterior e das nossas fábricas podem surgir vetores de indução da recuperação econômica brasileira. Se a indústria conseguir engatar mais dinamismo – o que, frise-se, ainda não é tarefa simples – poderá voltar-se ao mercado externo, conquistar mais clientes internacionais e ampliar seus ganhos. O Brasil precisa avançar cada vez mais lá fora e abrir mais espaço para o investimento privado aqui dentro.

sábado, 4 de março de 2017

Vamos pro mundo

O Brasil está redescobrindo o mundo. As exportações do país estão voltando a ter força, ajudando a reanimar nossa economia. Há muito tempo o comércio exterior, solapado por anos de uma política externa canhestra e ideológica, não obtinha tamanha importância. É hora de ir além-fronteiras.

Nos primeiros dois meses do ano, o país registrou o maior superávit comercial da sua história para o período, informou ontem a Secex. As exportações superaram as importações em US$ 7,3 bilhões, com alta de 84% em um ano. O recorde anterior havia sido anotado em 2006, com US$ 5,6 bilhões.

No bimestre, as vendas ao exterior cresceram 20% – todas as categorias de produtos tiveram alta – e as aquisições, 9% – na terceira alta mensal consecutiva, após dois anos de quedas, em mais um sinal de reativação da economia local. Estima-se superávit comercial acima de US$ 47 bilhões neste ano, praticamente o mesmo patamar de 2016.

O comércio exterior brasileiro acompanha o vigor, entre outros, da nossa safra agrícola, mas surfa mesmo é na nova onda de expansão das commodities. Depois de descerem ao fundo do poço no ano passado, algumas das principais matérias-primas do mundo experimentam agora um novo rali de preços, com altas de fazer cair o queixo.

As cotações de minério de ferro estão 149% maiores em comparação com o primeiro bimestre de 2016 e as de petróleo, 108%, de acordo com a Associação de Comércio Exterior do Brasil. Junto com a soja, os dois itens tiveram suas exportações aumentadas acima de 100% nestes últimos 12 meses. Na média, os termos de troca (relação entre preços de exportações e importações) subiram 8,2% no período, registra o Valor Econômico.

É necessário, contudo, transformar o momentâneo em perene. Os produtos brasileiros estão voltando a buscar espaço no mercado global no mesmo momento em que despontam iniciativas protecionistas nalgumas das maiores economias, como é o caso dos Estados Unidos. Nesta semana, Donald Trump enunciou a política comercial de seu governo e ela não é nada favorável ao livre-comércio.

O presidente americano pretende resolver os assuntos comerciais dos EUA ao largo da Organização Mundial de Comércio. Deve também dar preferências a acordos bilaterais, em contraste com o histórico alinhamento do país ao multilateralismo, e barrar a seu bel-prazer a entrada de importações que julgar inconvenientes às pretensões econômicas norte-americanas.

O Brasil precisa apressar-se se não quiser ficar a ver navios. Ao mesmo tempo, necessita, urgentemente, voltar a cuidar da sua combalida infraestrutura – do que a deplorável situação de rodovias como a BR-163, no norte do país, é exemplo gritante e razão de perdas vultosas para nossos produtores agrícolas. Deve, de preferência, enfrentar o problema com um ousado programa de concessões e privatizações.

Diante das oportunidades que se abrem, nossa diplomacia, agora sob direção de Aloysio Nunes Ferreira, tem como desafios destravar as amarras do Mercosul, dinamizar o comércio regional, promover acordos com a União Europeia e a Aliança do Pacífico e, sobretudo, atar o Brasil às cadeias produtivas globais, das quais ficamos mais de uma década alijados por causa da aversão dos governos do PT a qualquer coisa que cheirasse a progresso. Não podemos ficar fora da nova onda de prosperidade mundial.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A saída é exportar

O comércio exterior tem sido um dos poucos setores da economia brasileira a exibir algum vigor nos últimos meses. Na contramão da recessão – e também, em alguns aspectos, até em função dela – nunca a balança teve resultados tão positivos quanto agora. A saída tem sido exportar, ainda que o ímpeto comercial do país esteja sendo reavivado num momento em que fronteiras ao redor do mundo ameaçam se fechar.

O saldo do comércio internacional brasileiro foi o mais alto da série histórica, iniciada em 1989, para o período entre janeiro e outubro, segundo divulgou o MDIC (Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços) nesta semana. O valor chegou a US$ 38,5 bilhões. Embora o resultado no mês tenha sido o segundo pior de 2016, foi o 20° superávit mensal consecutivo.

O desempenho positivo ainda é menos decorrência de algum maior empuxo exportador do que da anemia das nossas importações. Com a crise econômica, o país vem deixando de comprar. No ano, até outubro, a média diária de desembarques caiu 23%, enquanto as exportações diminuíram 5%. Dessa diferença provém o superávit recorde.

A chamada corrente de comércio – que considera exportações e importações somadas – fornece boa medida do encolhimento das transações brasileiras com o exterior. A queda no ano é de quase 14%, o que significa que o Brasil subtraiu US$ 41 bilhões do seu fluxo de operações com o resto do mundo apenas nestes últimos dez meses.

Ainda assim, a previsão corrente entre analistas de mercado ouvidos pelo Banco Central – e publicada semanalmente no Boletim Focus – é de que a balança brasileira fechará o ano com superávit de US$ 48 bilhões. Se confirmada, será uma marca histórica: até hoje, o maior saldo comercial registrado pelo país é o de 2006, com US$ 46,5 bilhões.

O comércio internacional voltou a funcionar como motor possível da economia brasileira no mesmo momento em que a atividade interna continua se arrastando. Indústria, comércio, serviços e agropecuária, nesta ordem, foram tombando à medida que a recessão se espalhava pelo país ao longo dos últimos anos.

O infortúnio do Brasil é mirar a porta de saída no mesmo instante em que elas começam a se cerrar mundo afora. Há uma onda protecionista se formando em economias desenvolvidas, em especial nos EUA, onde tanto Donald Trump quanto Hillary Clinton têm apresentado restrições – ainda que em graus distintos – à maior abertura comercial daquele país.

O Brasil passou anos isolado do resto do mundo, ensimesmado pela postura acanhada dos governos do PT em relação ao nosso comércio exterior. À maior abertura, optamos por parcerias com algumas das economias mais depauperadas do globo hoje, como a Venezuela. Agora nos vemos na obrigação de tirar o atraso, mas as condições, infelizmente, se tornaram bem menos favoráveis.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Rombão externo

À primeira vista, contas externas parece assunto complicado. Mas é uma das maneiras mais didáticas de se aferir o quanto uma economia está ou não desequilibrada. Se o rombo cresce, é sinal de que o país está gastando mais do que tem; comporta-se, portanto, como mau devedor. É precisamente o que está acontecendo com o Brasil hoje.

Nos últimos anos, o déficit externo tem crescido muito no país. Agora, o que já era grave está se aproximando do paroxismo: em outubro, o rombo chegou a 3,73% do PIB, conforme divulgou ontem o Banco Central. Trata-se da pior marca desde fevereiro de 2002 e significa que o país está gastando muito mais do que recebe do exterior.

Só no mês, o buraco foi de US$ 8,1 bilhões. A série de informações do Banco Central começa em 1947 e nunca antes na história o déficit externo em outubro havia sido tão alto. O mesmo aconteceu também em agosto e setembro – ou seja, a anomalia tornou-se regra.

Com o péssimo resultado do mês, o déficit acumulado em 12 meses atingiu US$ 84,4 bilhões. Em boas condições, este buraco é coberto pelos investimentos estrangeiros, mas nos últimos anos eles se tornaram insuficientes – a previsão é de que não passem de US$ 60 bilhões neste ano, segundo o boletim Focus do BC.

As contas externas também estão sendo prejudicadas pelo comportamento do comércio exterior brasileiro. Neste ano, pela primeira vez desde 2002, a balança comercial deve fechar no vermelho: de janeiro até esta semana, as importações feitas pelo país superam as exportações em US$ 4,1 bilhões, de acordo com a Secex.

A deterioração das contas externas tem sido rápida. Para se ter ideia, três anos atrás o déficit acumulado em 12 meses estava em 1,98% do PIB, quase metade do que é hoje. Isso deixa a economia brasileira bem mais vulnerável à atual queda dos preços internacionais de commodities (nossos principais itens de exportação) e à previsível alta dos juros internacionais e do dólar nos próximos meses.

O retrato dos desequilíbrios macroeconômicos do país completa-se com o rombo fiscal, hoje situado em 4,92% do PIB. Isso significa que, somados, os déficits externo e interno atingem 8,6% de tudo o que o país produz num ano. São os chamados “déficits gêmeos” que se intercomunicam pela explosão de gastos públicos verificada nos últimos anos, conforme mostra análise d’O Globo.

Desde 2008, o país passou a exibir rombos nas suas contas com o exterior. Em si, os déficits não são de todo ruins. Mas se tornam uma perversidade quando crescem aceleradamente e desnudam uma economia que não consegue gerar poupança própria para crescer. Pior: mesmo estagnada, precisa do dinheiro de fora apenas para tapar os buracos que produz internamente.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Mais comércio, menos ideologia

O comércio exterior é um dos melhores termômetros para se aferir a saúde de uma economia. No caso brasileiro, conforme os resultados que têm sido registrados pela nossa balança comercial já há algum tempo, o país tem padecido de um resfriado que caminha para uma pneumonia.

Foram necessários oito meses de comércio para que nossa balança saísse do vermelho. Com o resultado produzido em agosto, finalmente o saldo acumulado no ano tornou-se positivo. Mesmo que tenha atingido apenas US$ 249 milhões – ou valor equivalente à média que o país exporta a cada seis horas.

O saldo de agosto – US$ 1,2 bilhão, segundo o Ministério do Desenvolvimento – foi o pior resultado para o mês desde 2001. Ainda assim, foi obtido à custa de uma exportação de mentirinha: a “venda” à Suíça de uma plataforma da Petrobras que só sai do Brasil no papel, pois aqui é fabricada e aqui permanecerá produzindo. Sem isso, ainda continuaríamos no vermelho.

O país tem cuidado pouco e mal de seu comércio exterior. Nossa corrente de comércio – ou seja, a soma do que o Brasil exporta com o que importa – está menor neste ano do que estava no ano passado (quase US$ 10 bilhões menos), num momento em que todo o resto do mundo compra e vende mais produtos.

Uma política externa que nos mantém atados ao Mercosul e nos alinha com economias de menor importância no tabuleiro internacional nos conduziu a esta situação. Nos últimos anos, só três acordos comerciais foram firmados pelo Brasil, com Israel, Palestina e Egito – atores, convenhamos, da terceira divisão no concerto das nações...

Negociações importantes, como a entabulada com a União Europeia, não avançam, com o Brasil sucumbindo à apatia da Argentina e à recusa do governo populista do país vizinho em abraçar políticas liberalizantes. Neste abraço de afogados, naufragamos.

Ao mesmo tempo, outras economias percebem que um dos motores da prosperidade mundial, ora em retomada, está justamente em incrementar as trocas comerciais, integrar as cadeias nacionais ao restante do mundo e promover, assim, a modernização dos parques produtivos locais. Mais comércio é mais bem-estar e mais oferta de produtos melhores e mais baratos.

O Brasil precisa e quer recuperar o espaço perdido no mundo nos últimos anos. Precisa e quer livrar sua política comercial do ranço ideológico que a tem caracterizado na era petista. Quem tem perdido com esta opção preferencial pelo atraso são os brasileiros. Pagamos aqui cada vez mais caro por termos nos fechado ao resto do globo. A hora é de se abrir, com mais comércio e menos ideologia.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Balança desequilibrada

Nunca antes na história, o Brasil precisou tanto da exportação de produtos básicos, principalmente agrícolas e minerais, para gerar divisas e evitar que a dependência do país em relação a recursos externos seja ainda maior. Nossa balança comercial está cada vez mais desequilibrada.

Os resultados do comércio exterior divulgados ontem mostram que itens básicos – em especial soja em grãos, minério de ferro e petróleo – dominaram a pauta exportadora brasileira no primeiro semestre do ano. Com isso, os básicos passaram a responder por mais da metade das vendas do país ao exterior, algo inédito na história recente.

De janeiro a junho deste ano, os básicos representaram 50,8% de tudo o que o país exportou. É o maior percentual desde o início da série histórica oficial de comércio exterior brasileira, iniciada em 1980.

Para se ter ideia da velocidade com que a pauta exportadora vem se concentrando em produtos de menor valor agregado, em 2002 os básicos respondiam por apenas 25% dos embarques totais do país, registra o Valor Econômico. Há apenas um ano, somavam 47,5% das vendas ao exterior.

Na outra ponta, é cada vez menor a fatia dos produtos mais elaborados, os chamados manufaturados, nas exportações totais do país. O percentual baixou a 34,4%, na menor marca desde o início da série, ou seja, também em 34 anos.

Os manufaturados já chegaram a representar 60,2% da nossa pauta exportadora. Isso no primeiro semestre de 1993, como informa O Estado de S. Paulo. Há um ano, a participação dos bens industrializados estava em 37,4% do total.

“Em números absolutos, a indústria vendeu US$ 6 bilhões a menos no semestre em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto a exportação de básicos aumentou US$ 2,2 bilhões”, registra a Folha de S.Paulo. “Não fosse o avanço das commodities, a situação do comércio exterior estaria ainda mais complicada”.

Em termos gerais, o país apresentou déficit comercial de US$ 2,5 bilhões no primeiro semestre do ano. As exportações caíram 2,6% na comparação com igual período de 2013: foram embarcados US$ 110 bilhões até junho, no pior desempenho em quatro anos. As importações caíram 3% no semestre.

Já há algum tempo vem ficando explícita a maior dependência do país em relação à venda de produtos básicos para o exterior. A rigor, não é problema uma nação ser uma potência agrícola, como é o nosso caso. A preocupação surge é da anemia dos setores mais avançados, como é o caso da indústria – agravada pela derrocada argentina, um de seus principais mercados.

O parque produtivo brasileiro perde competitividade, vergado por custos em ascensão e um ambiente institucional desfavorável, do qual a burocracia asfixiante e a elevada carga tributária são os piores exemplos. Ao mesmo tempo, nossa política de comércio exterior é tímida em excesso.

O governo federal, porém, prefere ver no resto do mundo a razão para nosso inferno exportador. Se assim fosse, concorrentes diretos, como a China, não estariam ampliando sua fatia de comércio com a União Europeia e mesmo com os EUA, em detrimento da perda de espaço de produtos brasileiros nestes mercados consumidores.

O desequilíbrio no comércio exterior é mais uma das heranças malditas que a política econômica posta em prática pelos governos petistas – e aprofundada pela gestão Dilma – vem legando ao país. O Brasil tem condições de se tornar uma potência exportadora também de bens de maior valor agregado, desde que, para tanto, volte-se para o mundo e não se feche a ele, como tem ocorrido nos últimos anos.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

O Brasil como uma ilha

Depois de dois déficits gigantescos nos primeiros meses do ano, a balança comercial brasileira teve um tímido, quase invisível, superávit em março. Trata-se de comportamento condizente com uma política de comércio exterior que vem isolando o país do resto do mundo e afetando as perspectivas de desenvolvimento da nossa economia. O Brasil não pode ser uma ilha.

Em março, o saldo comercial foi de US$ 112 milhões. É o menor resultado para o mês desde 2001, quando o superávit foi de US$ 276 milhões. Com este desempenho, o comércio exterior brasileiro acumulou déficit de US$ 6,07 bilhões no trimestre, o pior número de toda a série histórica, iniciada há 20 anos.

“O rombo acumulado neste ano supera em 17% o verificado nos três primeiros meses do ano passado, quando o saldo negativo de US$ 5,2 bilhões já fora recorde”, registra a Folha de S.Paulo. No total, as exportações caíram 4% no ano até agora. Pesaram bastante para o mau resultado a queda nas vendas para a Argentina, que diminuíram 14,4% no trimestre, e para a União Europeia, com recuo de 13,5%.

Algum alento deve vir a partir deste mês, com o início da safra agrícola. Tal janela favorável deve estender-se até julho. E só. Com isso, a balança comercial brasileira pode caminhar para seu primeiro déficit em 14 anos, conforme projeções feitas com base nos fracos resultados deste início de ano. “Estamos claramente com viés de déficit comercial para este ano”, disse José Augusto de Castro, principal especialista do país na área, ao Valor Econômico.

Vale lembrar que em 2013 o país já registrara seu pior resultado comercial desde 2000, com superávit de US$ 2,5 bilhões. O saldo só não foi negativo, contudo, por causa de manobras contábeis envolvendo a exportação fictícia de plataformas de petróleo. Nos 12 meses terminados em março, o superávit baixou mais ainda, para apenas US$ 1,6 bilhão – 86% menor que o apurado no mesmo período em 2013 (US$ 11,8 bilhões).

Produtos básicos, as chamadas commodities, representaram 47% das vendas ao exterior no trimestre. Com a Petrobras adernando, o principal item desta categoria, as exportações de petróleo, continua caindo na comparação com o mesmo mês do ano passado, frustrando as róseas expectativas oficiais. Só em março, a queda, a segunda consecutiva, foi de 20,4%. Com isso, a chamada conta-petróleo acumula déficit de US$ 4,5 bilhões no trimestre.

A atrofia do comércio exterior brasileiro diz muito das escolhas de política econômica deliberadas por Brasília nos últimos anos. Optou-se por fechar o mercado nacional à concorrência externa, diminuir a aproximação do Brasil das nações mais dinâmicas e aproximá-lo de hermanos sul-americanos que hoje estão naufragando. O resultado não poderia ser mais danoso.

Numa lista divulgada no início do ano passado, o Brasil aparece como o país mais fechado entre 179 nações, segundo o Banco Mundial. Somos apenas o 25° maior exportador do mundo. Nossas exportações equivalem a 1,3% do total mundial, muito pouco para a sétima maior economia global. Nossa participação no comércio mundial é cadente.

O Brasil precisa é de mais e não menos comércio internacional. Mas a gestão petista tem se especializado justamente no oposto: em 2013, o Brasil foi, pelo segundo ano consecutivo, o país que mais adotou medidas protecionistas no mundo, de acordo com levantamento da Organização Mundial de Comércio.

O país necessita de políticas que promovam a integração de nossas empresas nas cadeias globais de produção. Isso vai gerar mais possibilidades de negócios, ao mesmo tempo em que abrirá acesso a tecnologias mais avançadas, promovendo a modernização do parque produtivo local, a redução de custos e a recuperação da nossa combalida competitividade.

O que assistimos hoje é o contrário do que o país precisa. As medidas tomadas por Brasília mantêm claro viés antimercado, são refratárias ao lucro e cerceadoras da iniciativa privada. Tome-se o exemplo da medida provisória que aumenta a tributação sobre o lucro de empresas brasileiras no exterior, que está gerando ameaça de transferência das sedes das nossas poucas multinacionais para fora do país, como informa a Folha em sua edição de hoje.

O destino do Brasil não é ser uma nação apequenada, isolada e hostil ao resto do mundo. As opções equivocadas dos últimos anos estão mostrando-se prejudiciais às perspectivas de futuro do país. Não merecemos ser tratados como uma ilha, como muitos petistas sonham que fôssemos – embora até Cuba esteja agora se vendo forçada a se abrir ao exterior para não sucumbir.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

De costas para o mundo

O déficit comercial recorde é mais um dos itens da safra de más notícias que o governo Dilma Rousseff vem produzindo. O comércio exterior brasileiro sofre as consequências de uma política externa que se fechou em copas, perdeu o bonde da história e hoje purga resultados desastrosos. Com o PT, o Brasil deu as costas para o mundo.

A balança comercial acumula rombo de US$ 5,4 bilhões neste ano até maio, conforme divulgou ontem a Secex. Trata-se do pior resultado em 20 anos, isto é, desde que a série histórica passou a ser tabulada pelo governo. Para se ter melhor noção do desastre, um ano atrás o país exibia superávit acumulado de US$ 6,3 bilhões.

É preciso registrar que o déficit atual está fortemente influenciado por uma manobra contábil urdida pelo próprio governo. Para impedir que o superávit de 2012 não caísse mais do que caiu (35% em relação a 2011), o registro de operações de compra e venda externa de combustíveis pôde ser postergado.

Como maquiagens nunca terminam bem, desde janeiro a balança brasileira vem sofrendo impacto de negócios com petróleo e derivados que, na realidade, aconteceram no ano passado. No total, US$ 4,6 bilhões foram sendo contabilizados ao longo destes cinco primeiros meses do ano – o estoque se encerrou em maio.

Mesmo sem estas operações, a balança brasileira estaria deficitária em US$ 800 milhões. Ou seja, com ou sem manobras, o país teria produzido seu primeiro resultado negativo para o período de janeiro a maio desde 2001 e a pior marca desde 1998. O resultado de maio, embora superavitário (US$ 760 milhões), foi o menor para o mês em 11 anos.

O Brasil sofre a síndrome da perda de competitividade. Nossas exportações encolhem, ao mesmo tempo em que as importações não param de subir. O produto nacional não tem fôlego para concorrer com o que vem de fora. No ano, as exportações caem 2,8% na comparação com janeiro a maio de 2012; as importações, em contrapartida, aumentam 9,8%.

Bens made in Brazil estão perdendo espaço no exterior. O Estado de S.Paulo informa hoje que entre 2008, a partir do início da crise internacional, e 2011, o país perdeu US$ 5,4 bilhões em vendas para Argentina, México, Peru, Colômbia, Chile, Equador, Venezuela, Paraguai e Bolívia. De lá para cá, deve ter ficado sem mais outro naco.

A participação em mercados mais ricos, como o norte-americano, e mais robustos, como o chinês, também está em queda. “Nos EUA (tradicional destino de itens manufaturados), a fatia do país caiu cerca de um terço, para 1,1% de tudo que os americanos importaram de janeiro a março”, registra a Folha de S.Paulo.

Nos negócios com os norte-americanos, saímos de um superávit de US$ 5 bilhões em 2002 para um déficit de US$ 5,6 bilhões em 2012. Já o comércio com os europeus, superavitário ao longo de uma década, passou ao vermelho, numa virada que começou em 2011 e vem se aprofundando: nossas exportações para lá caíram 7% neste ano até maio.

O país colhe os frutos podres de uma opção equivocada – mais uma – adotada em sua política externa. Presos a ideologias ultrapassadas, os governos petistas desdenharam a aproximação com nações mais desenvolvidas e orientaram seus esforços para mercados inexpressivos do mundo em desenvolvimento. Fechamos apenas três acordos comerciais nos últimos dez anos.

O Brasil fez justamente o contrário do que estão fazendo nações que estão dando muito mais certo que nós. É o caso de Chile, Colômbia, México e Peru, que se juntaram num mercado de US$ 2 trilhões e população de 209 milhões de pessoas em torno da Aliança para o Pacífico.

O quarteto – cujo acordo que isenta de tarifas 90% dos produtos comercializados entre si entra em vigor no fim deste mês – concentra, ainda, 35% do PIB e 49% dos investimentos diretos estrangeiros da América do Sul. Cada um deles cresceu em 2012 acima de 3,1%, a média do PIB na região e muito mais que nosso pibinho de 0,9%. É de se perguntar: quem está fazendo a coisa certa?

A atitude dos governos do PT isolou o Brasil do resto do mundo. Alijou nossas empresas das cadeias produtivas globais. Apequenou nossa pauta exportadora e empobreceu nosso parque industrial. O erro perpetrado por Lula e mantido pela presidente Dilma prejudica a inserção do país no mundo, nos tolhe a competitividade e atrasa nosso desenvolvimento. O Brasil precisa de mais e não de menos comércio com o mundo.

sábado, 4 de maio de 2013

Comerciante de espelhinhos

De recorde negativo em recorde negativo, o comércio exterior brasileiro vai afundando. O mau desempenho reflete uma visão tacanha a respeito da inserção externa do Brasil num mundo cada vez mais sem fronteiras. País fechado, como quer o governo petista, é país sem futuro.

A balança comercial brasileira teve, nos primeiros quatro meses de 2013, o pior resultado para o período em 18 anos. O rombo chegou a US$ 6,15 bilhões. Foi também o primeiro déficit para o primeiro quadrimestre desde 2001 e a pior marca para um mês de abril desde 1995. A coleção de péssimos resultados parece infinita.

Há uma combinação perversa em marcha: vendemos menos ao exterior, mas continuamos comprando muito. Enquanto as exportações caíram 3% entre janeiro e abril na comparação com os mesmos meses de 2012, as importações subiram 10%. Compra-se de tudo: bens de consumo aumentaram 23% em abril, com destaque para aquisição de quinquilharias como cosméticos, que subiram 55% no mês.

Já nossas vendas praticamente se limitam a matérias-primas. Bens de alto valor agregado, principalmente industriais, estão, cada vez mais, perdendo espaço na nossa pauta exportadora. Quanto maior o conteúdo tecnológico, maior a nossa dependência das importações: segundo o Iedi, só a indústria da transformação teve rombo de US$ 16,3 bilhões até março, 25% maior que no mesmo período de 2012.

Diante dos resultados colhidos até agora – que não seriam tão ruins se o governo federal não tivesse manobrado para maquiar os dados de 2012, postergando a contabilização de importações feitas pela Petrobras – já há dúvida até mesmo se a balança brasileira conseguirá fechar no azul neste ano. Isto depois de o saldo comercial já ter caído 35% em 2012, para US$ 19,4 bilhões.

Embora cadentes, as projeções de mercado colhidas pelo Banco Central ainda apontam perspectiva de superávit de US$ 10,2 bilhões até dezembro. Os números divulgados ontem, porém, já sugerem resultados bem menores ou até mesmo déficit, segundo a Folha de S.Paulo. Seria a primeira vez desde 2000 que isso aconteceria.

O mercado brasileiro está sendo, cada vez mais, abastecido por produtos importados, uma vez que a produção nacional, sobretudo a da indústria, não tem conseguido competir com os artigos estrangeiros. Trata-se de decorrência do pernicioso descompasso entre consumo interno em alta e oferta estagnada, que também está no cerne do recrudescimento da nossa inflação.

Na outra ponta, o comércio exterior brasileiro perde cada vez mais mercado no exterior. O Valor Econômico mostrou ontem que nossas vendas para destinos como China, Estados Unidos, União Europeia, Argentina e Chile estão caindo, a despeito de nossos parceiros continuarem comprando de outros fornecedores.

Antes superavitário, depois de uma década o comércio com os europeus passou ao vermelho, numa virada que começou em 2011 e vem se aprofundando. O mesmo aconteceu nos negócios com os norte-americanos: saímos de um superávit de US$ 5 bilhões em 2002 para um déficit de US$ 5,6 bilhões em 2012. Como se percebe, estamos encolhendo.

Os resultados declinantes do nosso comércio exterior refletem as dificuldades de se produzir no país. Os insuportáveis custos e as ineficiências oneram em cerca de 35% os bens e serviços made in Brazil, segundo mostrou estudo divulgado pela Fiesp em março. É a nossa competitividade escorrendo pelo ralo em razão da logística caótica, da burocracia insana e de uma carga tributária sem concorrentes.

Mas há, sobretudo, as dificuldades de inserção do país no mundo resultantes da visão que emana do governo petista. Desde 2003, nossa política externa voltou-se para o umbigo, movida por preconceitos ideológicos e uma concepção equivocada do que seja ser uma grande nação no mundo contemporâneo.

Sob o PT, o Brasil se contenta em ser líder entre países da rabeira do mundo e não protagonista entre os líderes globais. Preferimos um abraço de afogados com os países do Mercosul do que acordos de livre comércio com países desenvolvidos – nos últimos anos, só firmamos pactos comerciais com Palestina, Egito, Jordânia e Israel, além de acordos limitadíssimos com Índia e África do Sul.

Não surpreende que o Brasil tenha perdido participação no comércio mundial em 2012 e seja hoje considerado um país extremamente protecionista, com adoção de barreiras que podem até beneficiar alguns setores eleitos, mas certamente acabam por penalizar os consumidores. O país não deveria se fechar. Deveria, ao contrário, tornar-se mais eficiente, competitivo, moderno, para ter capacidade de enfrentar seus concorrentes de igual para igual.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A balança desequilibrou

Mais um importante indicador divulgado ontem mostra as dificuldades que atravessa a economia brasileira. A balança comercial do país registrou o pior resultado para um primeiro trimestre em 20 anos. O Brasil importa cada vez mais e exporta cada vez menos, numa clara indicação de que está perdendo competitividade.

Entre janeiro e março, a balança comercial brasileira exibiu déficit de US$ 5,2 bilhões. Desde 2001, o saldo não ficava negativo neste período do ano e jamais, desde o início da série histórica, em 1993, o rombo fora tão acentuado. Para se ter ideia, no mesmo período um ano atrás, o país alcançara superávit de US$ 2,4 bilhões. É mais um dos estragos que o governo do PT está produzindo na economia do país.

O Brasil enfrenta dificuldades crescentes para colocar seus produtos no mercado externo. Nestes três meses, nossas exportações caíram 7,8% em comparação com o mesmo período de 2012. Na outra ponta, as importações cresceram 6,2%. (Quando se considera a média diária, houve queda de 3,1% e aumento de 11,6%, respectivamente.)

Quem mais vê seus espaços sendo reduzidos são nossos produtos manufaturados, cujas exportações caem 3,6% no ano. O Brasil está perdendo nacos crescentes de mercados importantes, como o dos Estados Unidos e o da Argentina. No trimestre, nossas exportações para os norte-americanos caíram 20% e para os argentinos, 5,9%.

Parte dos maus resultados do trimestre deriva da manipulação contábil de operações de importação de petróleo realizadas pela Petrobras no ano passado, mas só agora computadas nas estatísticas de comércio exterior. A maquiagem buscou livrar o resultado comercial do país em 2012 de uma queda – que chegou a 35% – ainda mais acentuada. De US$ 4,5 bilhões, ainda falta contabilizar US$ 1,8 bilhão, propagando os efeitos negativos da medida por mais alguns meses.

Numa leitura mais geral, a balança comercial brasileira está cada vez mais dependente das divisas geradas pelo agronegócio, enquanto bens duráveis e não duráveis, petróleo e derivados e bens de capital estão levando nossos dólares embora, conforme avalia um analista da GO Associados ouvido pelo Valor Econômico.

Segundo esta projeção, o agronegócio deve contribuir com superávit de cerca de US$ 70 bilhões em 2013 (foram US$ 79 bilhões no ano passado), enquanto os bens de consumo devem ter déficit de cerca de US$ 5 bilhões e os bens de capital, saldo negativo de US$ 47 bilhões.

O mais preocupante é que, como se vê diariamente em portos, estradas e hidrovias do país, nossas exportações agrícolas enfrentam dificuldades crescentes. A logística caquética já nos rendeu o cancelamento de embarques de soja equivalentes a 5% do que prevíamos exportar. Os custos ascendentes dos fretes deverão comer pelo menos US$ 4 bilhões dos ganhos com as vendas de cereais ao exterior, segundo a Folha de S.Paulo.

As projeções para o comércio exterior brasileiro neste ano são cadentes. Ontem, o Boletim Focus do Banco Central mostrou que a média das expectativas de mercado é de um saldo, ainda positivo, de US$ 12,4 bilhões. O mergulho nos prognósticos foi rápido: há apenas um mês, a previsão era de superávit de US$ 15 bilhões.

No ano passado, o país registrou saldo positivo de US$ 19,4 bilhões. Mas até o Ministério da Fazenda já não descarta que o resultado deste ano caia à metade, segundo O Estado de S.Paulo. A se confirmarem os prognósticos, retrocederemos ao patamar mais baixo em 12 anos – vale lembrar que o país chegou a ter superávit comercial de US$ 45 bilhões, em 2005. Há quem veja riscos de “déficit estrutural” na balança no médio prazo em função da alta persistente nas compras de petróleo. O chão é o limite.

A balança comercial é apenas uma das faces mais palpáveis da deterioração que começa a acometer as contas externas brasileiras. Neste início de ano, os investimentos estrangeiros diretos (IED) também tornaram-se insuficientes para cobrir o déficit em transações correntes: para um rombo de US$ 18 bilhões até fevereiro, o IED somou apenas US$ 7,5 bilhões. Há um ano, o déficit fora de US$ 8,8 bilhões e os investimentos, de US$ 9,1 bilhões.

Ao mesmo tempo em que o resto do mundo caminha em busca de maior produtividade e competividade, o Brasil vai em direção contrária. Nossos produtos são caros, o custo do trabalho, ascendente e as condições de infraestrutura, inadequadas. O comércio exterior foi uma das alavancas da economia brasileira nas últimas décadas. Sem conseguir competir, o país corre risco de matar sua galinha dos ovos de ouro. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O reino da sucata

A primeira prévia oficial de quão ruim foi o desempenho da economia brasileira em 2012 foi conhecida na sexta-feira. A indústria nacional terminou o ano com desempenho sofrível, no nível mais baixo desde o auge da crise mundial, em 2009. Se algo não for feito para recolocar o país nos trilhos corretos, em breve seremos o reino da sucata.

Segundo o IBGE, a produção industrial caiu 2,7% no ano passado. A indústria brasileira naufragou em bloco. Foi uma queda generalizada, registrada em todas as categorias de produtos (bens de capital, duráveis, de consumo e intermediários) e em 17 dos 27 setores pesquisados.

O mais grave é o que acontece com o segmento de bens de capital, ou seja, a fabricação de máquinas e equipamentos. Este foi o setor com o pior desempenho no ano passado, com redução de 11,8% na produção, também a menor marca desde 2009. A produção destes itens caiu ao nível de meados de 2007.

Tamanha baixa projeta dificuldades à frente para a economia brasileira, uma vez que sinaliza pouco apetite dos empresários para realizar novos investimentos. Sem que seja despertado o “espírito animal” dos empreendedores, a retomada do crescimento do PIB neste ano fica perigosamente comprometida.

Esta é uma situação que já vem de longe. A produção dos bens de capital cai de forma seguida desde setembro de 2011, ou seja, há 16 meses consecutivos. Isto significa que, dada o paradeiro geral e a concorrência dos importados, o empresário brasileiro não tem se animado a fazer novos investimentos para atender a demanda interna.

Numa palavra, falta confiança na saúde da economia brasileira e na competência do governo petista para tomar as iniciativas de que o país precisa. De pouco adianta reduzir juros, ampliar crédito e baixar impostos (mas só para setores eleitos), se as condições gerais para produzir continuam ruins.

“Os investimentos não têm sinais de retomada. É um início de ano bastante preocupante”, adverte Silvia Matos, da Fundação Getúlio Vargas. “O cenário ruim está bem disseminado”, admite o gerente da Coordenação de Indústria do IBGE, André Macedo – ambos ouvidos por O Estado de S.Paulo.

Quando o IBGE divulgar as contas nacionais de 2012, o que está previsto para ocorrer em 1° de março, deverá ser constatado que a chamada formação bruta de capital fixo, ou seja, os investimentos, cai há seis trimestres consecutivos. Miriam Leitão também mostra que a utilização da capacidade instalada do país para produção de máquinas está no nível mais baixo em 40 anos e o déficit comercial do setor continua altíssimo: US$ 16,9 bilhões.

Outra face da mesma moeda da fraqueza da indústria nacional e das dificuldades da economia brasileira são os resultados da balança comercial. Também na sexta-feira, o governo federal divulgou que janeiro registrou o maior déficit mensal da história, de US$ 4 bilhões. Até então, o pior resultado tinha sido o de dezembro de 1996, com saldo negativo de US$ 1,8 bilhão.

As estatísticas foram distorcidas pela contabilização tardia de importações feitas pela Petrobras ainda no ano passado: US$ 1,6 bilhão foram registrados em janeiro e outros US$ 2,9 bilhões ainda serão computados nos próximos meses. A mesma manobra já havia ajudado a evitar que o superávit comercial de 2012, de US$ 19,4 bilhões, fosse ainda menor.

Entretanto, mesmo sem o efeito Petrobras, o Brasil teria registrado importações recordes para janeiro, com alta de 5,5% sobre o mesmo mês do ano anterior. Incluídas as operações da estatal, na mesma base de comparação as importações brasileiras subiram 14,6%, para US$ 20 bilhões, e as exportações caíram 1,1%, para US$ 16 bilhões.

Tanto o desempenho da indústria quanto os resultados da balança comercial indicam que o produto nacional encontra sérias dificuldades para competir com os artigos importados, que, livres do custo Brasil, entram com força no mercado local.

O desafio é recuperar a competitividade do produto brasileiro, dando-lhe condições de concorrer não só aqui como em qualquer parte do mundo. Mas, apesar das promessas, o governo Dilma Rousseff não tem conseguido cumprir esta agenda a contento. Em parte porque há resistências ideológicas à maior participação privada nos investimentos, em parte porque falta competência para tirar projetos do papel. Se demorar demais, vai tudo enferrujar.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Balança maquiada e desequilibrada

Está cada vez mais difícil confiar na contabilidade oficial. A gestão petista especializou-se em artifícios de toda sorte para maquiar seus maus resultados. Agora é a vez de a balança comercial ser manipulada. Não fosse isso, o país poderia até ter apresentado déficit no seu comércio exterior em 2012.

A maquiagem está ficando explícita aos pouquinhos, na divulgação dos resultados semanais da balança neste primeiro mês do ano. O que começou com um rombo de US$ 100 milhões na primeira semana de janeiro, chegou a US$ 1,7 bilhão na terceira. Trata-se de comportamento inédito em 18 anos de medições.

Na soma, as transações comerciais com o exterior acumulam até agora US$ 2,7 bilhões no vermelho, de acordo com informações divulgadas ontem pelo Ministério do Desenvolvimento. Mantida a tendência, a balança brasileira terá, neste janeiro, o pior resultado mensal verificado desde o início da série histórica da Secretaria de Comércio Exterior, iniciada em 1995.

Terão as condições piorado tanto, e de maneira tão repentina? A resposta é não.

A explicação para o que está acontecendo com as transações de comércio exterior neste início de 2013 deve ser buscada no último trimestre de 2012, quando a Petrobras deixou de registrar suas importações de petróleo e derivados no sistema. São estas operações que estão agora engordando as estatísticas da balança e inflando o déficit.

A postergação dos registros na contabilidade não tem nada de fortuito. Baseia-se numa decisão da Receita Federal, que passou a permitir, desde junho último, que a esta­tal registrasse suas operações de compra e venda de combustíveis até 50 dias após o desembaraço nas alfândegas.

Estima-se que a Petrobras tenha deixado de lançar algo como US$ 10 bilhões na conta das importações do país em 2012. As exportações, porém, foram todas computadas até o fim de dezembro. Com isso, o governo conseguiu manobrar para evitar que o saldo da balança comercial decaísse para terreno negativo no ano passado, como mostra O Globo em sua edição de hoje.

A maquiagem pode até ter impedido o déficit em 2012, mas não evitou que a balança comercial brasileira exibisse seu pior desempenho em dez anos: o superávit foi de apenas US$ 19,4 bilhões, com queda de 34,8% sobre 2011.

Como se sabe, as ocorrências exotéricas nas estatísticas do comércio exterior brasileiro estão longe de ser caso isolado. As contas públicas foram objeto de manipulação muito mais grave na virada do ano, com objetivo de engordar o superávit fiscal e forjar a consecução da meta fixada para o ano.

Trata-se de lambança com a qual o PT conseguiu superar-se em criatividade e ousadia. O nefasto histórico inclui, ainda, as bilionárias transferências para o BNDES feitas ao longo dos últimos quatro anos e o encontro de contas feito com papéis da Petrobras – sempre ela – por ocasião da capitalização da empresa, em 2009.

As manobras levadas a cabo pela equipe econômica – seja com as bênçãos de Lula, seja agora com as de Dilma Rousseff – comprometem a credibilidade das informações divulgadas pelo governo federal e corrompem a necessária prestação de contas à sociedade. 

Ilustram, também, o desprezo petista em relação à transparência e a lisura que devem nortear a administração pública. Se o partido que está no poder é capaz de todo tipo de maquiagem na contabilidade oficial para ludibriar os contribuintes, imagine o que não acontece de ainda pior por debaixo dos panos.