Depois de reeleita, Dilma Rousseff se disse disposta a dialogar com as forças que lhe fazem oposição. Mas os atos posteriores dela e de seu grupo político vão na direção contrária. Felizmente, estão encontrando no exercício da democracia representativa uma firme barreira a suas pretensões.
Ontem, caiu por terra a tentativa de instalar no país conselhos populares de inspiração chavista e bolivariana. A Câmara rejeitou no voto – ainda que simbólico – a criação da Política Nacional de Participação Social, objeto de decreto editado pela presidente no primeiro semestre.
Tratava-se de tentativa de obrigar órgãos da administração direta e indireta a criar instâncias às quais teriam que sujeitar suas decisões. O governo petista sustentava que seria uma forma de ampliar a participação democrática, mas na prática funcionaria como canal de pressão de movimentos organizados sobre os governantes.
Sempre que podem, Dilma e seus petistas investem contra a democracia representativa, aquela que é exercida pelos meios institucionais e por aqueles legitimamente eleitos pela população para representá-los. Buscam formas de impor a democracia direta, aquela em que quem grita mais, pode mais.
Com a reeleição, a presidente também ressuscitou a proposta da reforma política, espécie de paliativo para todas as horas de quem não tem nada de mais concreto a oferecer. Dilma disse que queria um plebiscito para decidir sobre questões tão intrincadas quanto voto em lista e financiamento de campanha.
O mesmo veto imposto pelo Legislativo a sua proposta de criação dos conselhos populares surgiu em relação ao plebiscito e a presidente reeleita já teve que recuar. A reforma política pode até ser bem-vinda, mas deve ser discutida por quem de direito e só depois submetida à consulta da população, por meio de referendo. Diferente disso, é populismo.
Outro aspecto deixa claro que Dilma e o PT tentarão fechar os espaços de uma oposição cada vez mais fortalecida e representativa. Segundo a Folha de S.Paulo, na agenda de prioridades da nova administração está a regulação dos meios de comunicação, tão sonhada pelos petistas ciosos de calar as vozes que não lhes dizem amém.
A eleição mal acabou, mas o PT já deixou claro qual é seu projeto doravante: bloquear as brechas de atuação da oposição, abrir canais para que movimentos sociais manipulados pelo petismo exerçam pressão, diminuir o espaço das críticas e enfraquecer as instituições da democracia representativa. Para quem quer se eternizar no poder, 16 anos certamente ainda são muito pouco.
Mostrando postagens com marcador plebiscito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador plebiscito. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
terça-feira, 9 de julho de 2013
A presidente sem chão
A presidente Dilma Rousseff está sem chão. Melhor seria dizer sem base. A queda na sua popularidade e as dificuldades para resolver problemas que se avolumam – como, por exemplo, na economia – estão levando antigos aliados a ensaiar um desembarque do barco governista. Não surpreende que seja assim num governo em que a adesão nunca se deu por convicção, mas por conveniência.
Até poucas semanas atrás, os parceiros do PT relevavam as deficiências
da gestão Dilma. Davam uma espécie de salvo-conduto às barbeiragens que se repetem
dia após dia no governo. Deixavam barato os maus tratos recebidos tanto da
presidente quanto da sua equipe de articulação política. Tudo em nome da
perpetuação da perspectiva de poder.
A situação mudou, e rápido. A lista de partidos
insatisfeitos com o desempenho de Dilma é longa e inclui até parte do PT, que
agora entoa sem constrangimentos gritos em favor da volta de Lula. Seus aliados
fiéis – se é que um dia de fato existiram – já não existem mais. A outrora todo-poderosa
presidente está só.
Neste fim de semana, os principais jornais do país não
trataram de outra coisa. Dos que devem abandonar o navio que afunda, PSB e PSC
já são dados como certos. O PMDB é um poço até aqui de mágoa. O PSD, antes tão sedento
em aderir, agora pensa duas vezes. PR, PP e PTB também balançam. Fiéis mesmo
(será?) mantêm-se apenas o PCdoB e o PDT.
Se dúvidas havia, agora não há mais: o amálgama que uniu até aqui o
grupo capitaneado pelo PT jamais foi um projeto de melhorar o país. Foi
simplesmente o desejo de manter as rédeas do poder nas mãos pelo maior tempo
possível. Falou mais alto sempre o fisiologismo, que tem num ministério composto
por 39 pastas sua mais perfeita tradução.
Uma presidente como Dilma é a cereja deste bolo indigesto. Na
crise que ora atravessa, ela revela-se o que de fato é: uma mera técnica sem
talhe para ocupar o cargo que ocupa, que se preocupa em demasia com o detalhe e
não dá conta do todo. Seus dois anos e meio de mandato são marcados por
experimentalismos e por ações erráticas que estão conduzindo o país a um beco
sem saída.
Há desequilíbrios por todos os lados. A eles, por não saber
o que fazer, a presidente responde sempre por meio de mais invencionices e
voluntarismos. A inflação está alta? Dê-se um jeito de marretar os custos,
postergar reajustes e segurar o bicho mais um tempo na jaula. As contas do
governo não fecham? Avance-se nos cofres dos bancos públicos, exercite-se a criatividade
e apresente-se algum número que sirva.
Os problemas continuam lá, sem solução, apenas maquiados. Há
pouco mais de um mês, o país enfrentava dificuldades com inflação, baixo
crescimento do PIB, juros e dólar em alta, setor externo em petição de miséria.
Como se a lista fosse pouco, o governo incluiu nela mais um ingrediente: a
instabilidade política. Todos os problemas anteriores permanecem, agora
agravados pela falta de apoio político à presidente.
Dilma não está fragilizada apenas pela falta de suporte de
sua base política. Sua equipe de governo não lhe garante alicerce necessário. Seus
39 cabeças de bagre não servem para apresentar soluções, mas tão somente para
dificultar-lhe a vida um pouquinho mais. Parecem estar lá para confundir, não
para esclarecer.
Neste fim de semana, a presidente teve que recorrer a nota
oficial para negar a boataria de que vai mudar ministros para ver se consegue
chacoalhar sua gestão. É certo que Dilma negou o que mais cedo ou mais tarde
fará, começando por trocar gente como Ideli Salvatti, como diz a Folha de S.Paulo hoje. Oxalá, a caneta vá mais longe e leve embora Guido
Mantega e seus trapalhões da Fazenda. Para ser completa, a faxina teria que
varrer quase o governo inteiro...
O mais grave é que, em lugar de tentar enfrentar as
dificuldades reais, a presidente opta pelo diversionismo. Insiste em seu
plebiscito extraterrestre e agora tenta surfar na onda dos protestos: sob orientação
do Planalto, o PT quer transformar o dia de lutas marcado por sindicatos para a
próxima quinta-feira numa manifestação chapa-branca.
Dilma Rousseff tem um país cheio de problemas para administrar.
Problemas que se agravaram, em boa medida, pelas barbeiragens que ela cometeu ao
longo dos últimos meses. Tivesse construído sua base de apoio em cima de um
programa claro de governo, talvez a presidente tivesse com quem contar agora. Mas
sua opção foi outra e o pessoal preferiu não esperar pelo naufrágio. A ordem é abandonar
o navio.
sábado, 6 de julho de 2013
A esperteza comeu a dona
O plebiscito e a constituinte estão mortos. Menos para o PT e para Dilma Rousseff. A presidente da República e seu partido insistem nas propostas por excesso de esperteza: querem exibir boa vontade com a voz das ruas e culpar o Congresso pelo insucesso. Só que, quando é muita, a esperteza come o dono – neste caso, a dona.
A presidente está gastando tempo precioso numa pantomima.
Todos, inclusive ela, já sabem que não há como fazer plebiscito a tempo de
vigorar já na eleição de 2014, mas Dilma persevera na proposta. É sua maneira
de tentar desviar o foco das insatisfações da cidadania e transferir a pressão
para o Congresso.
A impossibilidade de realizar a consulta popular no exíguo
prazo até 5 de outubro foi discutida ontem de manhã pelo vice-presidente da
República, ministros e líderes da base aliada. O consenso foi tamanho que tanto
Michel Temer quanto José Eduardo Cardozo manifestaram à imprensa a dificuldade
de cumprir o cronograma. Depois, tiveram que recuar.
Seguindo sua estratégia esperta, Dilma dobrou a aposta à
tarde. Durante cerimônia na Bahia, ela insistiu em defender a manifestação
imediata dos brasileiros em relação à reforma política. No mesmo momento, o PT divulgava
nota batendo na mesma tecla: quer não apenas plebiscito, mas também
constituinte – meramente para defender teses que só interessam ao partido, como
o financiamento público de campanhas e o voto em lista fechada.
Tanto a presidente quanto os petistas estão carecas de saber
que, por uma questão matemática, o plebiscito não sai a tempo de vigorar nas
eleições gerais do ano que vem. Mas querem posar de defensores da manifestação
popular, jogando para o Congresso a pecha de fechar-se ao clamor das ruas. Julgam-se
muito espertos.
Mas a verdade é que o Congresso não se nega a fazer as mudanças
necessárias no sistema político. Numa resposta rápida aos protestos, prepara-se
para dar fim ao voto secreto e demonstra disposição para implementar outras
alterações, como a adoção do voto distrital.
O Congresso tampouco se nega a submeter o assunto a consulta
popular. A população pode muito bem se manifestar se quer ou não manter o que
os parlamentares aprovaram por meio de um referendo.
Ontem, na Bahia, a presidente afirmou que não é “daquelas
que acreditam que o povo é incapaz de entender [o plebiscito] porque as
perguntas são complicadas”. Vale-se, novamente de esperteza. A questão não é se
as perguntas são ou não complicadas, mas que as respostas, complexas e
multifacetadas, não cabem no binário “sim” ou “não” que caracteriza as decisões
plebiscitárias.
Não dá para fazer um plebiscito – cujo custo é estimado em
R$ 2 bilhões – agora, de afogadilho, pretensamente para “responder” as ruas,
mas sem condições de valer nas eleições de 2014, frustrando as expectativas
populares.
É ainda menos lícito concentrar todas as energias do país,
incluindo-se governo, instituições e Parlamento, em algo que, definitivamente,
não é essencial na pauta dos brasileiros. Enquanto Dilma queima pestanas com
plebiscito sobre voto em lista fechada e outras excentricidades, a inflação
escala e chega a 6,7% nos últimos 12 meses, implodindo o teto da meta, como
informou o IBGE
há pouco.
Não adianta a presidente insistir na sua tese ladina de
desviar atenções enquanto o bate-cabeças que impera em seu governo mostra-se
cada vez mais sonoro e os problemas reais da população se avolumam. Ninguém mais
se entende e ninguém mais parece muito disposto a seguir as ordens da chefe. Acontece
que, agora, mais que nunca, ficou claro que a ações de Dilma Rousseff sempre se
orientaram pela esperteza. De tanta, acabou engolindo a dona.
sexta-feira, 5 de julho de 2013
Para o lixo da história
Desde que se viu acuada pelas ruas, Dilma Rousseff só conseguiu produzir respostas equivocadas ou medidas inócuas. A presidente passara todo o seu mandato até agora vivendo num mundo cor-de-rosa em que o marketing dava conta de apaziguar as dificuldades e uma base aliada obediente limitava-se a dizer amém. O refresco acabou.
O plebiscito é a mais nova das ideias presidenciais a ir
para o lixo da história. Apresentada como plano B depois que a proposta de uma
constituinte para mudar o sistema político morreu antes de completar 24 horas
de vida, a consulta à população feita a toque de caixa não tem a mais remota
chance de prosperar.
Apenas o PT se interessa pelo plebiscito tal como proposto
por Dilma. Por razões óbvias: o escopo das mudanças sugeridas não atende aos
clamores por melhor representação popular – de resto, quase inexistentes entre
as palavras de ordem ouvidas nas ruas – mas visa, isto sim, cimentar a força
dos partidos no poder, como é o caso dos petistas.
Além do PT, somente o PCdoB estaria propenso a topar o
plebiscito, segundo a Folha de S.Paulo
– mas, desde que se contentou em ser mero satélite do projeto lulista, o
partido deixou de ter relevância. O Globo
diz que, além dos dois, também o PDT toparia a parada. E mais ninguém.
Em contrapartida, partidos aliados, como o PMDB, já começam a
abraçar propostas apresentadas pela oposição como respostas às ruas. É o caso
da diminuição do número de ministérios e do gigantismo do Estado, do aumento de
verbas para a saúde e da desconcentração de recursos para estados e municípios.
Esta é uma agenda que interessa às pessoas e difere bastante das ideias vãs boladas
por Dilma.
Sempre que foi pressionada, a presidente não conseguiu agir
à altura do cargo que ocupa. No auge dos protestos de junho, depois de uma
quinta-feira em que a multidão esteve próxima de atingir o Palácio do Planalto,
ela respondeu com um pronunciamento à nação que é candidato a um dos mais
decepcionantes da história.
Em seguida, produziu um discurso em que apresentou à
sociedade uma pauta que primou pela veleidade: lá estavam tanto a constituinte,
quanto o plebiscito, bem como outros quatro “pactos” tão vazios de conteúdo que
é preciso esforço redobrado para lembrar-se do que mesmo eles tratavam.
Para refrescar a memória: tratavam de saúde, de educação, de
mobilidade e de responsabilidade fiscal. Mas poderiam versar sobre quaisquer
outros assuntos, tão descoladas estão as propostas feitas pela presidente de
suas realizações no cargo.
Para enfrentar a questão do mau atendimento médico, Dilma
sugere importar profissionais estrangeiros, pagando-lhes um salário que aos brasileiros dificilmente é pago. A resposta veio rotunda ontem na forma de
dezenas de manifestações da categoria pelo país.
Dilma também propôs como parte do pato, oops, do pacto, um
esforço para melhorar a estrutura hospitalar e de postos de saúde do sistema público.
Vejamos, contudo, o que sua gestão produziu a respeito.
Como candidata, ela havia prometido fazer 500 UPAs e 8 mil
UBSs. Já como presidente, reduziu bastante a ousadia da meta, para 269 UPAs e
7.557 UBS. E o que aconteceu nos dois primeiros anos de seu governo? Foram
abertas apenas 12 UPAs (4,4% do total) e 434 UBSs (6%). Estes números não são
da oposição; são do mais recente balanço do PAC.
Na mobilidade urbana, a presidente apresentou mais uma
portentosa cifra: aplicar R$ 50 bilhões na melhoria dos transportes. Mas, na realidade,
o valor prometido é o mesmo já reservado no PAC, o mesmo que o governo federal simplesmente
não consegue investir: apenas 8% da dotação orçamentária foi efetivamente paga
nos dois anos da gestão Dilma, que agora se alvoroça em torrar uma montanha de
dinheiro no trem-bala...
As propostas da presidente quanto à austeridade fiscal estão
entre as mais levianas da história. Neste curto período desde que as apresentou como
um dos cinco “pactos”, o governo Dilma já voltou a vilipendiar as contas
públicas, por meio de novos malabarismos com os recursos do BNDES e de bancos
públicos. O tamanho da encrenca é assustador: nos últimos anos, o Tesouro transferiu
o equivalente a 8,3% do PIB para o BNDES, que dali distribuiu o dinheiro para
empresas como as do agora falido Eike Batista.
Dilma Rousseff mostrou, nos últimos dias, que não consegue
se mover fora do universo confortável que o marketing lhe constrói. A presidente
parece ter apostado que bastaria empurrar os problemas com a barriga, enquanto
enganava a população até obter um novo mandato. O mais provável agora é que,
junto com suas propostas vazias, ela também seja varrida, pela vontade popular,
para o lixo da nossa história.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Universos paralelos
As respostas que vêm sendo apresentadas pela presidente da República às cobranças emanadas das ruas parecem ter partido de um universo paralelo. Os brasileiros vivem problemas reais no seu dia a dia e vêm as perspectivas para o país turvarem-se, comprometendo o futuro de uma geração. Mas Dilma Rousseff mostra-se apartada desta realidade.
Enquanto os cidadãos clamam por serviços públicos de mais
qualidade, maior rigor na gestão e a preservação de um ambiente de estabilidade
na economia, a presidente lhes oferece um plebiscito para reformar a política e
a importação de médicos... Além disso, ela e sua equipe continuam viajando ao
gerir criativamente as contas do país e ao insistir em embarcar no fantasmagórico
trem-bala. Não tem como dar certo.
A proposta de plebiscito enviada ontem ao Congresso está
fadada ao fracasso. Em primeiro lugar, porque é a última coisa que a população
espera ver enfrentada neste momento. Em segundo, porque se concentra,
principalmente, em tentar emplacar as teses prediletas do PT, como o
financiamento público de campanha, e não em aperfeiçoar a representação
popular. E, por fim, porque, felizmente, o país ainda tem uma lei a ser
respeitada: a Constituição.
O plebiscito é apenas uma das respostas lunáticas que Dilma tem
conseguido balbuciar depois que foi atordoada pelas ruas e viu sua popularidade
rolar ladeira abaixo, junto com suas chances de reeleição. A questão é que os
problemas do país se sucedem e se avolumam sem que encontrem reação à altura do
governo da petista.
A economia brasileira vive atualmente um estado de convulsão
que nos torna párias do mercado mundial. Somos um dos países com menor perspectiva
de crescimento neste ano, com uma das taxas de inflação mais elevadas, com o mercado
acionário mais cadente, o comércio exterior mais depauperado e a indústria mais
decadente.
Como quem habita outro planeta, também nesta seara a
presidente apresenta venenos como se fossem remédios, como é o caso do possível
aumento de impostos, segundo informa O Estado de S.Paulo hoje. Isso depois de distribuir benesses fiscais a
torto e a direito aos amigos do rei e da rainha – para ficar num tema da hora, só
no grupo de Eike Batista BNDES e Caixa têm R$ 6,3 bilhões injetados.
A presidente aparenta ignorar que o Brasil enfrenta uma
crise de confiança que tem nome – Dilma – e sobrenome – Guido Mantega. Com uma
dupla de área destas, ladeada por um time de mais 38 cabeças de bagre, não há
quem se aventure a correr riscos por aqui, o que explica a intensa fuga de capitais
e investimentos que o país ora assiste.
Indiferente, o governo continua a abusar da manipulação das
contas públicas e das maquiagens contábeis. Novamente, mete a mão nos recursos
do BNDES e também volta a avançar sobre os dividendos da Caixa Econômica
Federal e do Banco do Brasil, como informa hoje o Valor Econômico em manchete. É um modelo que já fez água, mas só Dilma e sua
equipe de extraterrestres parecem não perceber.
A economia real está desmoronando. A indústria teve, em
maio, mais um mês de péssimo desempenho. A queda de 2% sobre abril atingiu todas
as categorias de produtos e 20 dos 27 setores analisados pelo IBGE. O pior
tombo foi o da categoria de bens de capital, que costumam antecipar o
comportamento futuro dos investimentos.
Nosso comércio exterior vai mal como há 18 anos não se via
e, para completar, a bolsa de São Paulo tornou-se palco diário de um show de
horrores. O comportamento do mercado acionário no primeiro semestre foi o pior
desde a segunda metade de 2008, quando uma hecatombe global arrastou todo o
mundo.
A diferença é que, agora, a maré geral é montante e, entre
as economias que contam, só nós estamos indo ladeira abaixo. Será que mesmo
assim Mantega e sua equipe continuarão insistindo em dizer que o Brasil só vai
mal porque o mundo também vai? Na realidade, o problema está, e sempre esteve, aqui
mesmo: é o “risco Dilma”, do qual todos querem distância.
Na mensagem que enviou ontem ao Congresso sugerindo a
realização do plebiscito, a presidente defendeu a consulta popular afirmando
que “as formas de representação política dão sinais de que precisam ser
renovadas”. Pelo menos nisso, Dilma Rousseff tem bastante razão: a renovação
que precisa ser feita deve começar pela chefe da nação.
Marcadores:
contabilidade criativa,
plebiscito
sábado, 29 de junho de 2013
Em outro planeta
O Brasil está indo à lona, mas a presidente da República só quer tratar de um assunto: impor um plebiscito que cuidará, entre outras coisas, de definir se o país terá voto distrital misto ou puro, em lista fechada ou não. Que planeta Dilma Rousseff pensa que está governando?
Chega a ser surreal
que, após a bela manifestação de cidadania demonstrada por milhões de
brasileiros nas três últimas semanas, a resposta que o mundo oficial tenha a
oferecer seja uma discussão extemporânea e alienada dos reais problemas da
nação. Soa quase como escárnio ao desejo expresso pelos cidadãos.
Fica claro que o
governo e o PT insistem no plebiscito – que pode chegar a custar R$ 2 bilhões,
segundo OGlobo – porque querem ludibriar a opinião pública e tentar manobrar as
massas. É puro diversionismo para desviar o foco dos reais problemas do país,
como destacou ontem a oposição em nota oficial assinada por
PSDB, PPS e DEM.
Pior ainda, o
plebiscito é uma mal disfarçada tentativa dos petistas de impor mudanças que fortaleçam
o partido que detém o poder e cerceiem ainda mais as chances das correntes
oposicionistas. Pretendem fazer isso na lei ou na marra, como mostram movimentos
recentes de seus líderes.
Anteontem, Dilma
disse a sindicalistas que, com seus “pactos” vazios, quer “disputar a voz das
ruas”. No mesmo dia, Lula avisou que convocará os movimentos sociais
aparelhados nos últimos anos pelo petismo a sair do sofá – ontem mesmo, UNE,
UJS e assemelhados começaram a cumprir a ordem, sem muito efeito, porém.
O PT também já
ameaça com casuísmos como a redução de prazos para que as mudanças eleitorais
tenham validade, hoje de no mínimo um ano. Para tanto, propõe uma emenda
constitucional, já que para o partido dos mensaleiros a lei maior do país é apenas
um mero detalhe.
De prático, após uma
frenética rodada de conversas – em poucos dias nesta semana Dilma teve ter
falado com mais gente do que em anos de governo – a presidente disse ontem que
encaminhará uma proposta ao Congresso na terça-feira com pontos que pretende
ver contemplados no plebiscito. Muito mais adequada, a alternativa do referendo
foi rechaçada por ela.
A pauta oficial
coincide, surpresa!, com o que prega o PT. Os famigerados financiamento público
(o seu, o meu, o nosso dinheiro paga as campanhas dos políticos) e voto em
lista fechada (o eleitor vota, mas é o partido que escolhe quem vai ou não se
eleger), por exemplo, provavelmente estarão lá. O fim da reeleição certamente
não estará.
O mais deplorável disso
tudo é ver a agenda real do país paralisada por uma discussão que pode até ser
importante, mas é absolutamente secundária neste momento. Imagine a dona de
casa lá do rincão, em pânico com a inflação e com a escola ruim do filho, tendo
que escolher entre um “sim” e um “não” a esquisitices como voto proporcional, voto
distrital, voto distrital misto e entre voto em lista aberta ou lista fechada...
O país está indo
ladeira abaixo, mas disso não se ouve patavina da presidente da República. Ontem
mesmo, o Banco Central divulgou seus prognósticos para os próximos meses: a
inflação de 2013 vai ser maior que a do ano passado e o crescimento, menor que
o até agora previsto. Há quem já aposte numa taxa próxima de zero, com possibilidade
até de retração do PIB no fim do ano, como mostra Claudia Safatle na edição de
hoje do Valor Econômico.
A agenda real do país
não inclui apenas a carestia que corrói os salários. Contempla também a melhoria
da péssima saúde pública brasileira, para a qual a resposta de Dilma é a
importação de médicos. Note-se que, para mostrar que dão conta da complexidade
local, os estrangeiros passarão por uma avaliação de três meses – alguém aí
falou nos quase dez anos que um médico brasileiro estuda antes de começar a clinicar?
A lista de problemas
reais e dificuldades enfrentadas cotidianamente pelos cidadãos é extensa o
suficiente para demonstrar que o governo petista está completamente fora de órbita
quando impõe ao país, nesta altura do campeonato, um plebiscito sobre reforma
política. Isso é coisa de lunáticos ou, mais provavelmente, de gente muito mal
intencionada e que não está nem aí para os brasileiros. Ou é farsa ou é golpe.
Marcadores:
pacto de Dilma,
plebiscito,
protestos
Assinar:
Postagens (Atom)
