O quadro de deterioração das contas públicas federais apenas repete o que vem acontecendo nos quatro cantos do país. Estados e municípios estão com suas finanças em frangalhos em razão da crise econômica gerada pelo governo do PT, mas também por causa da irresponsabilidade que emanou de Brasília e induziu os gestores locais a gastar em demasia.
A sensação é de uma espécie de “efeito Orloff” contemporâneo. Para quem não se lembra da peça publicitária, veiculada nos anos 1980, ele era traduzido no slogan “eu sou você amanhã”. Governos estaduais falidos e prefeituras em petição de miséria são no presente o que a União logo, logo será no futuro.
Em breves linhas gerais, a situação fiscal dos chamados entes subnacionais deriva de folhas de pessoal pesadíssimas e sistemas de Previdência sem qualquer condição de solvência. A capacidade de prestar melhores serviços à população – que, com a recessão, recorre mais aos sistemas públicos – vê-se cada dia mais exaurida. Investimentos são mera miragem.
Os gastos das prefeituras com pessoal aumentaram 31% acima da inflação de 2010 até 2015, segundo a IFI. Já as despesas com aposentadorias e pensões subiram 52% no mesmo período. A tendência é de alta. De acordo com levantamento da Firjan divulgado neste mês, 86% dos municípios brasileiros estão com situação fiscal crítica ou difícil. Nada muito diferente do que acontece no plano federal.
Mas foi apenas por incompetência que governos estaduais e municipais mergulharam na penúria? Não. Houve impulso decidido do governo federal nos anos de governo Dilma, que incentivou a tomada de crédito por parte de muitas administrações que sequer tinham condição de honrar os compromissos correntes.
A fórmula visava amplificar a sensação de progresso e bem-estar que alimentava a máquina federal. Gastos desmedidos que fariam a alegria da população e o júbilo eleitoral dos governantes. Como a aritmética é impiedosa, a conta, evidentemente, não fechou e a fatura está aí para ser paga por todos, não se sabe ao longo de quanto tempo.
Felizmente, há uma nova geração de gestores surgindo nos quatro cantos do país para tentar dar uma nova cara às administrações locais, como pôde ser visto em seminário promovido recentemente pelo Instituto Teotônio Vilela. A primeira regra é a responsabilidade com o dinheiro pago pelos contribuintes. A segunda é compromisso com o interesse público e com as reais necessidades da população.
Estados e prefeituras também estão tendo que passar pela dieta dos ajustes e readequar seu sistema de arrecadação – no caso dos municípios, bastante dependente de repasses constitucionais. Técnicas de gestão são ferramenta indispensável na mão desses governantes comprometidos com um novo tempo, bem como inovação e criatividade. Neles repousa alguma esperança de dias melhores.
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terça-feira, 22 de agosto de 2017
quinta-feira, 26 de março de 2015
Governo bipolar
O governo da presidente Dilma Rousseff vive uma espécie de esquizofrenia. Enfrenta hoje os problemas que criou para si próprio ontem. Para fazer frente a tamanha bipolaridade, seus argumentos variam ao sabor das circunstâncias. O que valia no passado deixou de valer no presente.
A constatação aplica-se com perfeição ao imbróglio envolvendo a revisão das dívidas de estados e municípios. Governadores e prefeitos exigem agora o que, no fim do ano passado, o governo petista prometeu dar e a presidente sancionou, na forma de projeto de lei aprovado tanto na Câmara quanto no Senado.
Ontem a Câmara aprovou projeto de lei que estabelece prazo de 30 dias para que o governo adote a nova sistemática de cálculo das dívidas, que dará alívio de R$ 187 bilhões ao longo de 26 anos, segundo O Globo, aos cofres de prefeituras e governos estaduais. A mudança foi objeto de lei complementar (n° 148/2014) editada em novembro passado.
Ocorre que aquilo que Dilma chancelou há apenas cinco meses, a presidente agora sustenta que não vale mais. Alega agora a petista que a revisão “seria uma forma absolutamente inconsequente de nossa parte”. Até onde vai a credibilidade de uma governante que se comporta assim, movendo-se ao sabor dos ventos e das conveniências de momento?
Neste ínterim, não houve piora nas condições objetivas do país que justificassem o beiço que Dilma agora quer dar nas prefeituras e nos governos estaduais. O que de fato mudou foi que antes o governo estava em campanha para assegurar mais um mandato presidencial ao PT – e mentia pra valer, entre outras coisas, sobre as condições fiscais – e agora precisa governar.
A lei chancelada por Dilma em novembro muda o indexador das dívidas: sai o IGP-DI e entra o IPCA ou a Selic, o que for menor. Na costura com prefeitos e governadores, o governo foi além, anabolizou a bondade e tornou a revisão retroativa a janeiro de 2013. Agora a conta chegou, justamente no momento do arrocho fiscal.
O município do Rio já obteve liminar para fazer valer a regra sancionada por Dilma. A Frente Nacional de Prefeitos vai buscar na Justiça o mesmo benefício, levando de carona o prefeito petista de São Paulo, Fernando Haddad. O projeto de lei que dá prazo de 30 dias para a revisão das dívidas foi aprovado ontem por 389 votos a favor, com lauta participação da base aliada.
O episódio desnuda os limites que o governo petista dispõe para fazer valer o arrocho fiscal adotado para equacionar os desequilíbrios que Lula, Dilma e o PT cevaram por anos. Na hora da bondade, foram pródigos e oportunistas. Na hora do aperto, tentam socializar o prejuízo. A resposta veio a galope: Toma que o filho – ou a encrenca – é seu!
A constatação aplica-se com perfeição ao imbróglio envolvendo a revisão das dívidas de estados e municípios. Governadores e prefeitos exigem agora o que, no fim do ano passado, o governo petista prometeu dar e a presidente sancionou, na forma de projeto de lei aprovado tanto na Câmara quanto no Senado.
Ontem a Câmara aprovou projeto de lei que estabelece prazo de 30 dias para que o governo adote a nova sistemática de cálculo das dívidas, que dará alívio de R$ 187 bilhões ao longo de 26 anos, segundo O Globo, aos cofres de prefeituras e governos estaduais. A mudança foi objeto de lei complementar (n° 148/2014) editada em novembro passado.
Ocorre que aquilo que Dilma chancelou há apenas cinco meses, a presidente agora sustenta que não vale mais. Alega agora a petista que a revisão “seria uma forma absolutamente inconsequente de nossa parte”. Até onde vai a credibilidade de uma governante que se comporta assim, movendo-se ao sabor dos ventos e das conveniências de momento?
Neste ínterim, não houve piora nas condições objetivas do país que justificassem o beiço que Dilma agora quer dar nas prefeituras e nos governos estaduais. O que de fato mudou foi que antes o governo estava em campanha para assegurar mais um mandato presidencial ao PT – e mentia pra valer, entre outras coisas, sobre as condições fiscais – e agora precisa governar.
A lei chancelada por Dilma em novembro muda o indexador das dívidas: sai o IGP-DI e entra o IPCA ou a Selic, o que for menor. Na costura com prefeitos e governadores, o governo foi além, anabolizou a bondade e tornou a revisão retroativa a janeiro de 2013. Agora a conta chegou, justamente no momento do arrocho fiscal.
O município do Rio já obteve liminar para fazer valer a regra sancionada por Dilma. A Frente Nacional de Prefeitos vai buscar na Justiça o mesmo benefício, levando de carona o prefeito petista de São Paulo, Fernando Haddad. O projeto de lei que dá prazo de 30 dias para a revisão das dívidas foi aprovado ontem por 389 votos a favor, com lauta participação da base aliada.
O episódio desnuda os limites que o governo petista dispõe para fazer valer o arrocho fiscal adotado para equacionar os desequilíbrios que Lula, Dilma e o PT cevaram por anos. Na hora da bondade, foram pródigos e oportunistas. Na hora do aperto, tentam socializar o prejuízo. A resposta veio a galope: Toma que o filho – ou a encrenca – é seu!
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quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Federação solidária
Nunca antes na história, estados e municípios foram tão sufocados pelo governo federal como têm sido atualmente. Trata-se de algo inédito em períodos democráticos vividos pelo Brasil. Reverter este quadro representa possibilitar a prefeitos e governadores cuidar melhor da vida dos brasileiros.
Já dizia, muito
tempo atrás, o governador paulista Franco Montoro: “As pessoas não moram na
União ou nos estados; elas vivem nas cidades.” A frase serve à perfeição para sublinhar
quão importante é recuperar a capacidade dos gestores municipais – e, hoje, também
dos estaduais – para prestar melhores serviços à população.
Nos últimos anos,
passou a ocorrer um intenso movimento de centralização de poderes em favor do
governo federal. Primeiro, os tributos foram sendo progressivamente açambarcados
pela esfera central; depois, obrigações em áreas como saúde e educação foram
sendo repassadas aos entes subnacionais.
Os recursos
tributários estão cada vez mais concentrados no governo federal. Desde 2000, a
fatia da União no total da receita tributária disponível cresceu dois pontos
percentuais, para 57,6% do total, avançando, principalmente, sobre o quinhão
dos estados, que caiu na mesma proporção. Isso significa uma apropriação de
pelo menos R$ 31 bilhões por parte do governo federal.
Daí resultou uma
federação desequilibrada, em que o poder central dispõe dos recursos e estados
e municípios têm de arcar com responsabilidades crescentes. O resultado deste
desbalanceamento foi a deterioração progressiva da qualidade dos serviços
públicos prestados aos brasileiros.
A participação do
governo federal no financiamento de serviços como saúde e segurança é
decrescente. A União participa hoje com menos de 45% dos gastos públicos em
saúde, percentual que se aproximava de 53% dez anos atrás. Das despesas com segurança,
somente 13% são bancadas pela União, cabendo a estados e municípios todo o
restante.
A centralização, a
concentração de poderes na mão da União e o enfraquecimento dos entes
subnacionais que hoje assistimos no país só encontra paralelo em épocas de
exceção. Será esta a nação soberana pela qual lutamos?
O governo do PT faz
caridade com chapéu alheio: distribui benesses tributárias para amigos do rei, avançando
sobre impostos que seriam repartidos com estados e municípios, como o IPI, o
imposto de renda e a Cide. Só aí já foram R$ 5,6 bilhões a menos desde 2009,
segundo a Confederação Nacional dos Municípios.
A atual divisão de
direitos e deveres entre as diferentes esferas de governo está tirando o
oxigênio de estados e municípios para cuidar daquilo que mais interessa à
população: oferecer serviços de melhor qualidade de saúde, educação ou
segurança. Quem tem as maiores responsabilidades de atender os cidadãos é hoje
mais penalizado.
O desarranjo
federativo também restringe a capacidade de estados e municípios cujas finanças
são saudáveis de contrair empréstimos e financiamentos para realizar os
investimentos necessários à melhoria de vida dos brasileiros. Mesmo assim, os
governos estaduais e municipais executam diretamente 73% dos investimentos
públicos realizados no país.
Convivemos hoje com um
federalismo de subserviência que enfraquece e divide o Brasil, que apequena as
lideranças regionais e monopoliza o protagonismo e a ação do poder público na Presidência
da República.
Só a cooperação e a
coordenação de ações pactuadas entre a União, os estados e os municípios serão
capazes de promover políticas públicas eficazes em todo o território nacional em
benefício do cidadão, sem corretagem de privilégios e a intermediação de
favores. Foi isso o que as principais lideranças tucanas reunidas ontem em
Poços de Caldas (MG) propuseram ao país.
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sexta-feira, 12 de julho de 2013
Vaias ao conjunto da obra
Dilma Rousseff ganhou ontem mais uma vaia para sua sonora coleção. Novamente, os prefeitos apuparam a presidente da República, desta vez durante marcha que realizam há 16 anos na capital federal. O governo federal se diz injustiçado, mas o alvo da ira dos municípios não é um ou outro ato isolado, mal compreendido ou não, mas o conjunto da obra da gestão petista.
A principal reclamação dos prefeitos diz respeito à forma
como o poder central tem tratado os municípios ao longo destes últimos anos: na
base do pires na mão. As concessões só saem se os chefes municipais se sujeitam
a mendigar em Brasília e a ajoelhar-se e beijar a mão de quem tem as chaves dos
cofres.
Trata-se de uma relação baseada na subserviência e na falta
de autonomia. É assim que a gestão do PT trata os prefeitos brasileiros, em
flagrante descompasso com os preceitos constitucionais que buscam garantir independência
entre poderes e entre os níveis de governo.
A prática em voga é de liberação de recursos a conta-gotas, vinculada
à sujeição dos prefeitos à cartilha petista. Precisam de mais verba para saúde
ou escolas? Peregrinem pelos gabinetes de Brasília e peçam, humildemente, para
serem contemplados com benesses federais. Os amigos do rei terão sempre mais
facilidade de ser atendidos.
A penúria municipal é uma realidade. Com a crise econômica,
a diminuição da arrecadação e, principalmente, em razão de políticas de
desoneração decididas pelo governo federal, os repasses constitucionais para as
prefeituras estão caindo.
Segundo o mais recente levantamento
feito pela Confederação Nacional dos Municípios, neste ano foram repassados R$
39,7 bilhões às prefeituras. O valor representa queda de 0,6% em relação às transferências
feitas até esta época do ano passado, já descontada a inflação. Ocorre, porém,
que o ano de 2012 já registrara uma diminuição de R$ 6,9 bilhões sobre 2011.
A maioria das prefeituras brasileiras sobrevive de repasses
constitucionais, notadamente do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), composto
por 23,5% de dois tributos federais: o Imposto de Renda e o Imposto sobre Produtos
Industrializados (IPI). Os prefeitos lutam para que o percentual aumente em
dois pontos percentuais.
O problema é que é justamente um destes impostos, o IPI, que
sustenta a política de desoneração tributária que a gestão federal pôs em
marcha nos últimos meses. Tal sistema equivale a fazer caridade com chapéu
alheio. No fim das contas, quem paga boa parte da fatura dos benefícios fiscais são os
municípios.
Uma das formas de evitar isso seria usar as contribuições e
não os impostos como base para as desonerações. A diferença é que as primeiras
ficam todinhas com a União, sem ser partilhadas com estados e municípios. Assim,
se a política é de âmbito federal nada mais adequado que os recursos gastos sejam
federais. Outra alternativa seria obrigar o governo a, sempre que conceder
alguma benesse bancada pelo IPI, compensar os municípios.
Ontem, a presidente anunciou aos prefeitos que lhes concederá
uma ajuda emergencial no valor de R$ 3 bilhões, divididos em duas parcelas.
Sobre mudanças no FPM, Dilma não disse nada. Foi o suficiente para ser vaiada
por boa parte de um auditório lotado por quase 2 mil prefeitos. O Planalto
reclamou ter sido “mal compreendido”.
Mas a verdade é que o copo até aqui de mágoa dos prefeitos
deve mesmo ter entornado: a cada ano que passa, a União, ou seja, o governo
federal, assume menos responsabilidades e joga o peso e o custo da prestação dos
serviços públicos sobre os ombros de estados e municípios.
Tome-se o que acontece na saúde: em 2001, a União participava
com 56% das despesas totais, percentual que caiu para 45% dez anos depois. No
mesmo período, a contribuição dos estados passou de 21% para 26% e a dos municípios,
de 23% para 29% do total. Na segurança pública, de cada R$ 100 gastos, apenas
R$ 13 veem do governo federal e todo o restante sai dos cofres estaduais e
municipais.
Uma relação equilibrada entre os entes da Federação pressupõe
um sistema em que recursos e responsabilidades sejam melhor compartilhados. Não
se admite que estados e municípios sejam atendidos apenas ao bel-prazer do
poder central, que escolhe discricionariamente quem pode e quem não pode ser
contemplado com recursos públicos. Foi ao modelo centralizador e autoritário que
o PT tanto preza que os prefeitos vaiaram ontem. O conjunto da obra explica.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Em socorro aos municípios
Os municípios brasileiros vivem hoje uma situação de penúria. Trata-se de um problema disseminado por todo o país. O pomo da discórdia é a queda dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). As bondades fiscais feitas pelo governo Lula para enfrentar a crise econômica estão agora cobrando seu preço e apresentando a fatura ao guichê dos prefeitos.
As principais medidas adotadas pelo governo federal para atenuar os efeitos da recessão de 2008/2009 afetaram diretamente os municípios, sobretudo os mais pobres. Com o corte de alíquotas do IPI de produtos como automóveis e eletrodomésticos, caíram também os repasses constitucionais feitos por meio do FPM. Quem mais sofre são os pequenos municípios, que se vêem agora em sérios apuros.
Segundo a Confederação Nacional dos Municípios, até setembro os repasses do FPM às prefeituras somaram R$ 36,8 bilhões. Descontada a inflação, estão menores do que foram em 2009, ano mais agudo da crise. Quando a base de comparação é o exuberante ano de 2008, a queda é muito mais expressiva: 9%. Em moeda sonante, são R$ 3,5 bilhões a menos no caixa dos municípios nestes nove meses. Um rombo e tanto.
A parcela relativa ao segundo decênio de outubro acaba de ser repassada aos municípios e novamente frustrou as prefeituras. Com isso, falta dinheiro para tudo: da merenda ao medicamento, passando pelo combustível das ambulâncias e pela limpeza urbana. O pagamento do 13º salário de milhares de servidores municipais neste ano está ameaçado. A situação tem avivado o descontentamento de prefeitos com o governo federal.
Dois terços dos R$ 24,9 bilhões renunciados pela Receita Federal em 2009 foram concedidos com base em tributos compartilhados pela União com estados e municípios – caso do IPI, do imposto de renda e da Cide. O governo federal prometeu recompor as perdas. Mas, depois de muito cobrar e passar o pires em Brasília, quanto os prefeitos obtiveram como compensação de Lula? Quase nada.
O problema é que 80% dos municípios brasileiros sobrevivem sem receita própria. São, portanto, totalmente dependentes dos repasses constitucionais; não conseguem dar um passo sem eles. Mas, mesmo sufocados pelo poder central, os maiores municípios respondem por parcela preponderante dos investimentos públicos diretos executados no país.
Em 2008, a União investiu 0,53% do PIB; os estados, 0,77%; e os municípios, 0,88%. Ou seja, enquanto o governo federal respondeu por 24% do total investido, os demais entes foram responsáveis por 35% e 40%, respectivamente. Quem, de fato, sustenta a agenda de crescimento do país?
A revisão das atribuições dos entes federativos é central na agenda de estados e municípios. A União, porém, se faz de morta, deitada no berço esplêndido do naco de tributos que lhe cabe. Quase 70% de tudo o que pagamos de impostos e contribuições – e que ontem alcançou a marca de R$ 1.000.000.000.000,00 – fica em Brasília.
O PSDB já se comprometeu com a recomposição da saúde financeira e a independência dos municípios. O candidato tucano, José Serra, reforçou há duas semanas compromisso de não transferir para as prefeituras os ônus das medidas que seu governo vier a adotar: “Minha proposta é que não seja dado mais nenhum incentivo (fiscal) sem que haja automaticamente a reposição aos municípios”.
O tucano também já garantiu que irá regulamentar a emenda constitucional nº 29, que define a participação de União, estados e municípios nos gastos em saúde. A medida foi aprovada em 2000 com amplo acordo suprapartidário capitaneado por Serra, então ministro da Saúde. Depende, porém, de legislação infraconstitucional, que vagou no Congresso ao longo de todo o governo Lula sem que o PT se empenhasse em aprová-la.
Num ano em que o PIB brasileiro pode alcançar crescimento formidável, a situação nos rincões do país é de aperto e desesperança. Os louros do sucesso, a gestão petista colhe; deixa pelo caminho os ônus de suas políticas econômicas desconexas. É mais uma marca da gestão Lula: amealhar benesses com o chapéu alheio para depois pôr os súditos de joelhos, na rua da amargura.
As principais medidas adotadas pelo governo federal para atenuar os efeitos da recessão de 2008/2009 afetaram diretamente os municípios, sobretudo os mais pobres. Com o corte de alíquotas do IPI de produtos como automóveis e eletrodomésticos, caíram também os repasses constitucionais feitos por meio do FPM. Quem mais sofre são os pequenos municípios, que se vêem agora em sérios apuros.
Segundo a Confederação Nacional dos Municípios, até setembro os repasses do FPM às prefeituras somaram R$ 36,8 bilhões. Descontada a inflação, estão menores do que foram em 2009, ano mais agudo da crise. Quando a base de comparação é o exuberante ano de 2008, a queda é muito mais expressiva: 9%. Em moeda sonante, são R$ 3,5 bilhões a menos no caixa dos municípios nestes nove meses. Um rombo e tanto.
A parcela relativa ao segundo decênio de outubro acaba de ser repassada aos municípios e novamente frustrou as prefeituras. Com isso, falta dinheiro para tudo: da merenda ao medicamento, passando pelo combustível das ambulâncias e pela limpeza urbana. O pagamento do 13º salário de milhares de servidores municipais neste ano está ameaçado. A situação tem avivado o descontentamento de prefeitos com o governo federal.
Dois terços dos R$ 24,9 bilhões renunciados pela Receita Federal em 2009 foram concedidos com base em tributos compartilhados pela União com estados e municípios – caso do IPI, do imposto de renda e da Cide. O governo federal prometeu recompor as perdas. Mas, depois de muito cobrar e passar o pires em Brasília, quanto os prefeitos obtiveram como compensação de Lula? Quase nada.
O problema é que 80% dos municípios brasileiros sobrevivem sem receita própria. São, portanto, totalmente dependentes dos repasses constitucionais; não conseguem dar um passo sem eles. Mas, mesmo sufocados pelo poder central, os maiores municípios respondem por parcela preponderante dos investimentos públicos diretos executados no país.
Em 2008, a União investiu 0,53% do PIB; os estados, 0,77%; e os municípios, 0,88%. Ou seja, enquanto o governo federal respondeu por 24% do total investido, os demais entes foram responsáveis por 35% e 40%, respectivamente. Quem, de fato, sustenta a agenda de crescimento do país?
A revisão das atribuições dos entes federativos é central na agenda de estados e municípios. A União, porém, se faz de morta, deitada no berço esplêndido do naco de tributos que lhe cabe. Quase 70% de tudo o que pagamos de impostos e contribuições – e que ontem alcançou a marca de R$ 1.000.000.000.000,00 – fica em Brasília.
O PSDB já se comprometeu com a recomposição da saúde financeira e a independência dos municípios. O candidato tucano, José Serra, reforçou há duas semanas compromisso de não transferir para as prefeituras os ônus das medidas que seu governo vier a adotar: “Minha proposta é que não seja dado mais nenhum incentivo (fiscal) sem que haja automaticamente a reposição aos municípios”.
O tucano também já garantiu que irá regulamentar a emenda constitucional nº 29, que define a participação de União, estados e municípios nos gastos em saúde. A medida foi aprovada em 2000 com amplo acordo suprapartidário capitaneado por Serra, então ministro da Saúde. Depende, porém, de legislação infraconstitucional, que vagou no Congresso ao longo de todo o governo Lula sem que o PT se empenhasse em aprová-la.
Num ano em que o PIB brasileiro pode alcançar crescimento formidável, a situação nos rincões do país é de aperto e desesperança. Os louros do sucesso, a gestão petista colhe; deixa pelo caminho os ônus de suas políticas econômicas desconexas. É mais uma marca da gestão Lula: amealhar benesses com o chapéu alheio para depois pôr os súditos de joelhos, na rua da amargura.
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