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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Organizações criminosas

A maior empresa do Brasil, patrimônio e orgulho dos brasileiros está hoje, definitivamente, nas páginas policiais. Antes gloriosa, agora a Petrobras é tratada como “seio de uma organização criminosa”, segundo investigação conduzida pela Polícia Federal. Quantas outras organizações desta natureza estão agindo neste momento dentro do governo federal?

Segundo a PF, a escandalosa compra da refinaria de Pasadena, no Texas, teria servido de fonte de recursos para alimentar esquemas de pagamento de propinas. Com seus orçamentos igualmente multiplicados, a construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, também pode ter sido outro manancial de maracutaias.

Todas as evidências disponíveis levam a concluir que há cheiro de queimado no ar. Pasadena foi comprada por US$ 1,2 bilhão – valor que, com gastos posteriores, chegou perto de US$ 2 bilhões – depois de ter sido adquirida meses antes por apenas US$ 42,5 milhões pelos antigos proprietários belgas.

Abreu e Lima tornou-se a mais cara refinaria já construída em todo o mundo. Orçada incialmente em US$ 2,5 bilhões, já tem seu custo beirando US$ 20 bilhões – ou o equivalente à bagatela de R$ 40 bilhões, pelas cotações atuais – sem ter produzido uma gota de combustível. As despesas foram inchadas por mais de 150 aditivos contratuais autorizados ao largo da aprovação da direção da Petrobras.

Segundo a PF, há “possível existência de uma organização criminosa no seio da empresa Petrobras, que atuaria desviando recursos com consequente remessa de valores ao exterior e retorno do numerário via empresas offshore”, conforme relatam os jornais de hoje.

O artífice deste esquema pode ter sido Paulo Roberto Costa, apontado como “elo” entre Pasadena e Abreu e Lima. Até outro dia, ele ocupou o cargo de diretor de Abastecimento da Petrobras na gestão petista. Preso pela PF em decorrência das investigações da Operação Lava Jato, foi solto no último fim de semana por decisão do ministro Teori Zavascki, do STF. Lugar de gente assim é em casa ou na cadeia?

O esquema mafioso instalado pelo petismo dentro da Petrobras é parte de uma teia de lavagem de dinheiro que pode ter movimentado R$ 10 bilhões nos últimos anos. As novas revelações da Polícia Federal deixam claro por que o governo tem tanto medo da CPI a ser composta por senadores e deputados no Congresso para investigar iniciativas tomadas pela direção da empresa na era PT.

Os anos do PT no poder vão se notabilizando por ser um tempo em que “organizações criminosas” foram se apossando do aparato do Estado. O mensalão foi o mais notório deles, mas, vê-se agora, parece brincadeira de criança perto do assalto empreendido por petistas e seus aliados em cofres mais polpudos como os da Petrobras e suas subsidiárias.

Mas a reação começa a se fazer presente. Primeiro, os mensaleiros foram condenados e agora líderes de primeira linha do PT, como José Dirceu, estão na cadeia. Agora a Polícia Federal vai deslindando a máfia que, como cupins, estava carcomendo as entranhas da Petrobras e fazendo nossa maior empresa naufragar.

Em outras instâncias, como fundos de pensão, as práticas deletérias e irresponsáveis dos petistas também começam a ser confrontadas. No início do mês, uma chapa formada por auditores da Caixa, sem vinculação partidária ou com o movimento sindical, ganhou a disputa para representantes eleitos do Funcef, o fundo de pensão do banco, desbancando petistas.

Nos últimos anos, fundos de pensão tornaram-se notórios investidores em maus negócios, gerindo temerariamente os recursos de seus associados por imposição do governo petista. Podem ter funcionado também como centrais de falcatruas. O próximo alvo da limpeza será a Previ, fundo dos funcionários do Banco do Brasil e o maior do país, relatou o Valor Econômico em sua edição de ontem.

Vai levar um bom tempo até que os estragos da passagem do PT pelo poder sejam devidamente saneados. O partido já se notabilizou pelos mensaleiros e agora vai se tornando também o patrocinador de outras organizações criminosas especializadas em roubar o dinheiro do povo brasileiro. É para isso que querem tão desesperadamente mais quatro anos de poder.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Torturando os números

Não há limites para a interferência do PT e de seus aliados na máquina estatal. Eles têm imensa dificuldade em separar o que é questão de Estado do que são assuntos de governo. Para o PT, é tudo um butim a ser conquistado e repartido. O desmonte de instituições como o IBGE e o Ipea inscreve-se nesta trajetória.

Os problemas nos dois órgãos vêm se acumulando e atingiram seu ápice na semana passada com a decisão do IBGE de suspender, até janeiro do próximo ano, a divulgação da Pnad Contínua, que passará a medir a taxa de desemprego no país.

O anúncio detonou uma crise entre os profissionais do órgão – duas diretoras pediram demissão e 18 coordenadores e gerentes ameaçam fazer o mesmo – e lançou dúvidas sobre uma possível manipulação de resultados pelo IBGE.

A Pnad Contínua passou a ser divulgada em janeiro último e deveria substituir a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) como fonte de cálculo da taxa de desemprego no país a partir do fim deste ano. Ocorre que a publicação dos primeiros resultados da nova pesquisa causou desconforto ao Planalto, ao mostrar índices de desocupação mais altos que os da PME.

Segundo a Pnad Contínua, a taxa de desemprego no país fechou 2013 em 7,1%, acima, portanto, dos 5,4% aferidos pela PME. Não dá para dizer que o índice subiu no país, porque as pesquisas não são comparáveis. Mas dá para afirmar que, tomando-se um universo maior (a Pnad cobre cerca de 3,5 mil municípios e a PME apenas seis regiões metropolitanas), o desemprego é maior.

A suspensão da Pnad Contínua até 2015 deu-se em resposta a requerimento dos senadores Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Armando Monteiro (PTB-PE). Eles sustentam que um dos cálculos poderia comprometer repasses para os estados. Parece até jogo combinado: uma pesquisa atrapalha o discurso do governo, senadores governistas a contestam e o instituto responsável suspende a divulgação dos dados incômodos.

Infelizmente, o IBGE não é caso isolado. O descrédito também se abate sobre outro órgão de pesquisas do Estado brasileiro: o Ipea. Desde a gestão de Marcio Pochmann, a instituição foi transformada numa fábrica de documentos e teses destinados a embasar e legitimar o discurso governista. Nunca antes se viu algo parecido no país – mas que já se tornou comum em lugares com a Argentina de Cristina Kirchner.

O Ipea mergulhou em desgraça ao admitir, na semana passada, erro numa pesquisa que levou o Brasil a ser notícia no mundo todo por, supostamente, exibir uma intolerável taxa de machismo. O percentual dos que concordam total ou parcialmente com a ideia de que mulheres com roupas provocantes devem ser atacadas foi revisto de 65% para 26% – mesmo revisado, continua muito alto e inaceitável, e não nos retira da deplorável condição.

Ipea e IBGE são faces de uma mesma moeda: a da ocupação e do desmonte de instituições sérias de Estado, a fim de convertê-las em aparelhos a serviço de partidos. O IBGE, por exemplo, sofre com estrutura deficiente, falta de pessoal, orçamento minguado e recursos rotineiramente contingenciados, como informa hoje o Valor Econômico.

O total de funcionários do instituto caiu 19% desde 2006, com perda de mais de 1,4 mil servidores. Do total de 10,3 mil pessoas trabalhando na instituição atualmente, 4,4 mil são temporários, que passaram por período de qualificação e treinamento muito curto e bastante deficiente. O orçamento sofreu corte de 14% neste ano.

São razões como estas que estão na raiz das dificuldades para o IBGE levar adiante não apenas pesquisas como a Pnad Contínua, mas também os novos cálculos da Pesquisa de Orçamento Familiar e a Contagem da População, atualmente atrasados. A crise compromete a qualidade das estatísticas, impacta na avaliação e em estudos da conjuntura e na definição de políticas adequadas à realidade.

O governo do PT dá de ombros. Acha que basta torturar os números para que eles confessem o que melhor lhe convém. O que interessa ao petismo é dourar a realidade para que ela pareça mais conveniente ao seu projeto de perpetuação no poder. Para os petistas, atropelar e implodir instituições de Estado outrora sérias e respeitadas é o de menos. Pobre IBGE. Pobre Ipea. Pobre Brasil.

terça-feira, 19 de março de 2013

Reforma eleitoral

O mais notável na mais recente mudança ministerial do governo Dilma talvez tenha sido a data em que os novos ministros assumiram seus cargos. Em Brasília, sábados não costumam combinar com cerimônias oficiais. Afora esta esquisitice, nada vai mudar na Agricultura, no Trabalho ou na Aviação Civil. O que já era ruim não tem risco de melhorar.

Não se consegue identificar nenhum critério de mérito que justifique os nomes escolhidos pela presidente da República para cuidar da área que rende o maior volume de divisas para o comércio exterior do país, para a pasta que deveria zelar pela manutenção dos empregos dos brasileiros ou para o órgão que deveria impedir que um apagão nos aeroportos leve o país a dar vexame na Copa do Mundo.

Mas, obviamente, é fácil ver que dar um ministério mais parrudo ao PMDB, voltar a abrigar a ala mais poderosa do PDT no governo e incluir mais um mineiro na Esplanada tem tudo a ver com as aspirações eleitoreiras de Dilma Rousseff. O único objetivo é distribuir nacos de poder, garantir apoios e tempo de TV na disputa do ano que vem. Governar bem é o que menos importa.

“Nessa perspectiva é que se enquadram as mudanças que equivocadamente são chamadas de reforma. Não mudam coisa alguma, não visam à melhoria de desempenho, não atendem a um projeto delineado de país e a maioria das pastas não tem importância”, comentou Dora Kramer n’O Estado de S.Paulo de ontem.

Pergunte-se, por exemplo, o que esperar de Antônio Andrade. Sua pasta tem a função de administrar a colheita da maior safra de grãos da história, mas mostra-se incapaz de garantir a armazenagem dos estoques e não tem a mais vaga noção do que fazer para enfrentar o apagão logístico que toma conta do país.

O que será que Manoel Dias tem em mente para fazer com que o país passe a gerar oportunidades de trabalho melhor remuneradas e não só empregos que pagam menos de dois salários-mínimos? Teria o preposto de Carlos Lupi alguma proposta para evitar que o FAT continue a ser sangrado para financiar empresas escolhidas pelos donos do poder?

E Moreira Franco: terá desenvolvido na sua antiga Secretaria de Assuntos Estratégicos planos tão mirabolantes para ajudar o país que agora o credenciam a ser escalado para dar um jeito nos aeroportos que não funcionam? Será que sua missão será inventar um novo jeito de privatizar sem dizer que está privatizando e depois rasgar o modelo para nunca mais usar porque só atraiu operador de quinta categoria?

Todas estas perguntas podem parecer meras provocações, mas se justificam num governo que atingiu o assombroso número de 39 ministérios, uma “burrice”, uma “loucura”, uma “irresponsabilidade” que já foi longe demais, como disse Jorge Gerdau à Folha de S.Paulo na sexta-feira.

Para manter esta mastodôntica estrutura, incluindo a da Presidência, só neste ano serão gastos R$ 212 bilhões apenas em salários e outras despesas de custeio, como viagens, alimentação e material de escritório, de acordo com a edição da revista Veja da semana passada.

Não há a menor sombra de dúvida que o governo petista age, única e exclusivamente, para perpetuar-se no poder. Uma máquina de 39 cabeças que engole duas centenas de bilhões de reais todos os anos para existir não se presta a servir melhor à população. Presta-se a produzir votos, apoios partidários e a manter o domínio de um grupo político sobre o país. Custe o que custar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Pau na máquina

Há um fio de meada que liga o julgamento que ocorre no STF ao que está sendo revelado na CPI do Cachoeira. Ele mostra que, mesmo depois de descoberto o mensalão, o PT continuou a praticar ilegalidades e a investir sobre os cofres públicos para financiar seu projeto de poder. Usar a máquina do Estado em benefício eleitoral é algo inerente à prática política petista.

Na sessão de ontem, a CPI do Cachoeira ouviu o depoimento de Luiz Antonio Pagot, ex-diretor-geral do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura Rodoviária). A certa altura das quase oito horas de explanação, ele admitiu o que todo mundo já desconfiava: o órgão foi usado para levantar dinheiro para a campanha que elegeu Dilma Rousseff em 2010.

Pagot contou que foi procurado, naquele ano, pelo tesoureiro da campanha petista, José di Filippi. Durante e depois da eleição, o deputado lhe pediu que investisse sobre umas 30 a 40 empresas que prestavam serviços ao Dnit para obter delas contribuições financeiras para a candidata petista. Pagot arremeteu sobre as contratadas do gigantesco órgão e retirou delas R$ 6 milhões para o PT.

O então diretor do Dnit teve a pachorra de pesquisar se as empresas achacadas de fato pagaram. “Algumas enviaram boletos comprovando que doaram para a campanha. Outras eu constatei depois que também contribuíram”, disse aos parlamentares da CPI, segundo o Correio Braziliense. É a corrupção com certidão e papel passado.

O caixa do Dnit é um dos mais bem fornidos da Esplanada – seu orçamento para este ano soma R$ 15,4 bilhões. A investida sobre o polpudo cofre do órgão por parte da infantaria petista era tão acintosa que Filippi instruiu Pagot a não se ocupar dos peixes mais graúdos: dos maiores prestadores de serviço, a própria campanha cuidaria.

Não foi apenas a campanha presidencial que avançou sobre o butim do Dnit. A hoje ministra Ideli Salvatti e o então ministro Hélio Costa também tentaram tirar uma lasquinha. Segundo Pagot, não levaram, o que teria deixado a catarinense “bem contrariada” e feito o mineiro ameaçar tirá-lo do cargo tão logo virasse governador de Minas, o que não se consumou.

O Dnit é um dos mais vistosos casos de assalto ao bem público perpetrados pelo PT, mas está longe de ser o único. O partido de Lula, Dilma e José Dirceu continua a investir sobre o patrimônio dos cidadãos para empregá-lo em proveito próprio, em nome de uma causa política. Está acontecendo, de novo, nas atuais eleições.

Ontem, a Folha de S.Paulo mostrou mais um destes casos. Do alto de um palanque, o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, prometeu aos eleitores de Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo, multiplicar por cinco os investimentos federais na cidade caso o candidato do PT à prefeitura seja eleito em outubro.

Chantagens parecidas estão sendo levadas ao ar em capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Recife. Nestes casos, a propaganda exibida pelo PT no rádio e na TV não é tão explícita, mas a mensagem é a mesma: vencedoras as candidaturas petistas, o governo federal irá despejar dinheiro em obras e sabe-se lá no que mais. Ou seja, recursos que devem servir aos cidadãos indistintamente e serem repartidos segundo preceitos constitucionais são usados pelo PT para tentar comprar a consciência dos eleitores.

Em suas quinze sessões iniciais, o julgamento do mensalão já serviu para deixar esclarecido, de uma vez por todas, que o PT desviou dinheiro público. Também colaborou para sepultar, definitivamente, teses cínicas lançadas pelos líderes petistas para tentar justificar o uso de recursos recolhidos dos contribuintes no financiamento do projeto de poder do partido.

É preciso, contudo, que a Justiça vá além. Parece mais que evidente que bastou a sensação de impunidade ter voltado a reinar entre os petistas para que o PT tocasse pau na máquina, transformando, sem pudor, o bem público em benefícios privados. O julgamento do mensalão também precisa servir para frear farras como as que ocorreram no Dnit e continuam a acontecer pelo país afora.

sábado, 3 de março de 2012

Minhoca na cabeça

Pastor evangélico, engenheiro, cantor, compositor e escritor, o senador Marcelo Crivella ganhou a missão de multiplicar os peixes do governo Dilma Rousseff. É o terceiro a ocupar o Ministério da Pesca nos pouco mais de um ano da atual gestão. Assim como várias na Esplanada, a pasta não tem outra função que não arrebanhar apoios ao projeto hegemônico de poder petista.

O ministério foi criado no governo Lula e, durante a gestão dele, teve como finalidade acomodar políticos petistas derrotados em eleições. Foi assim com José Fritsch e Altemir Gregolin, ambos catarinenses e ambos castigados pelas urnas, marca também de Ideli Salvatti, ministra da Pesca já na gestão Dilma.

O ministro recém-defenestrado, Luiz Sérgio, não figura na lista de sulistas abatidos pelo voto, mas na de fracassados: em pouco mais de um ano, conseguiu ser demitido duas vezes. Agora, por telefone; antes, da Articulação Política, por insuficiência de desempenho.

De Fritsch ao senador carioca do PRB, todos os ministros da Pesca têm uma característica comum: não entendem nada do assunto. Para cuidar dos pescados do Brasil, o PT escalou, nesta ordem, um cientista político, um veterinário, uma física, um metalúrgico e, agora, um engenheiro civil. Nesta rede, peixe não vem.

Crivella deixou claro ontem que, desta missa, não sabe nem um terço: “Vou lhes dizer, com humildade. Eu nem sei colocar uma minhoca no anzol. Na verdade, estou indo para aprender”, disse ele, em entrevista a uma rádio. Ministério não deveria servir para pós-graduação, mas o da Pesca nem a isso se presta.

Desde que a pasta foi criada por Lula, o desempenho pesqueiro do país declinou. Sua balança comercial tornou-se deficitária a partir de 2006. No ano passado, para cada dólar exportado no setor, o Brasil importou seis: o rombo foi de US$ 1 bilhão, o dobro de dois anos antes.

A despeito de o orçamento da Pesca ter crescido 831% desde 2004, não houve reflexo positivo na produção nacional, que só aumentou 25% até 2009 (dado mais recente disponível), segundo O Globo. O Brasil é hoje apenas o 18º principal produtor no ranking mundial do setor.

Mas a Pesca é apenas uma das irrelevâncias na Esplanada de quase 40 ministérios petista. A lista traz, ainda, pastas como a de Política para as Mulheres e a de Igualdade Racial, para ficar apenas nos casos mais gritantes.

Têm em comum o fato de que “se transformaram no decorrer dos anos em pesadas estruturas burocráticas que têm custo mais alto do que o orçamento de investimento que administram”, como mostrou o Correio Braziliense há dez dias.

“As despesas com pessoal e gastos de manutenção do Ministério da Pesca e Aquicultura e das secretarias de Política para as Mulheres, de Igualdade Racial e de Direitos Humanos representam quase o dobro dos recursos de investimentos”, informou o jornal. Neste ano, enquanto a folha de pagamento dos funcionários e a despesa corrente destes órgãos consumirão R$ 515 milhões, para investimentos estão reservados apenas R$ 272 milhões.

Na Pesca, por exemplo, serão gastos R$ 7,6 milhões em locação de imóveis, valor que corresponde a todo o orçamento anual da pasta para o programa de prevenção de doenças em animais aquáticos. Já o pagamento de funções comissionadas consumiu R$ 13,2 milhões em 2011, superando o valor destinado ao monitoramento da atividade pesqueira nacional.

Fica evidente que o que Dilma Rousseff transferiu anteontem para o partido evangélico não foi uma estrutura destinada a cuidar de algum aspecto da vida nacional. Foi um cabide que terá R$ 154 milhões de orçamento neste ano, não apenas para ser preenchido com apaniguados como também para distribuir, por exemplo, o chamado seguro-defeso – a “bolsa pescador” que o governo do PT multiplicou por cinco.

A escalação de Crivella para comandar a Pesca dá ares de galhofa à forma com que o petismo partilha o poder e compra apoios à sua estratégia hegemônica. Os aliados já começaram a reclamar das migalhas que lhes sobram. Mas quem perde mesmo é a sociedade brasileira, que só paga a conta de quem governa com minhoca na cabeça.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A Caixa caiu

O governo Dilma anunciou ontem mudanças no comando da Caixa Econômica Federal. O banco estatal está sendo fatiado feito salame entre os partidos da base de apoio à presidente. O episódio ocorre na mesma semana em que veio à tona a sanha governista por apossar-se do controle da Vale. O apetite petista por cargos e poder parece não ter limites.

Maria Fernanda Ramos Coelho foi tirada da presidência do banco, que ocupava há cinco anos. Para alguns, por ser “de carreira, muito técnica” – segundo a Folha de S.Paulo – ela só atrapalhava. Para o governo, saiu porque quis. Mas fato é que seu histórico de gestora à frente da Caixa também não inspira lá elogios.

A instituição é a principal responsável pela condução do Minha Casa, Minha Vida. Lançado há dois anos, o programa tinha como meta construir 1 milhão de moradias. Até dezembro, havia, porém, entregue apenas um quarto disso, ou, mais precisamente, 247 mil unidades. Para a faixa de menor renda (até três salários mínimos), nem isso: das 400 mil previstas, não saíram do chão nem 20 mil.

Com Maria Fernanda no comando, a Caixa também cometeu a proeza de comprar um banco quebrado, dono de um rombo financeiro de mais de R$ 4,3 bilhões: o Panamericano de Silvio Santos. O negócio foi fechado pelo governo Lula em fins de 2009, o banco foi à lona menos de um ano depois (tão logo acabaram as eleições presidenciais), mas há indícios de que as fraudes contábeis já vinham desde 2006.

Mas, indica o noticiário, a pernambucana Maria Fernanda caiu menos por ter comprado gatos por lebres financeiras do que por ter se recusado a engolir sapos políticos. Diz O Estado de S.Paulo que o que a derrubou foi “colisão com Palocci”. O interesse público passou longe.

O ministro-chefe da Casa Civil estaria ansioso para saldar a conta com o PMDB, na forma de partilha do segundo escalão dilmista. A fatura não vai sair barata. Começa por escalar Geddel Vieira Lima para uma das vice-presidências da Caixa, a de Pessoa Jurídica. Diz-se que também pode vir a incluir o ex-governador da Paraíba, José Maranhão.

Geddel tem currículo a apresentar. Poderá executar na direção da Caixa a mesma política equilibrada e republicana que adotou quando era ministro da Integração Nacional. Ali, destinou quase toda a verba nacional disponível para prevenção a desastres naturais a seu estado natal, a Bahia – cujo governo ele disputou e perdeu em outubro passado. Naquela mesma época, o Rio de Janeiro se viu soterrado em tragédias, sem ver a cor do dinheiro do ministério de Geddel.

Já o também peemedebista Maranhão é acusado de ter quebrado o estado da Paraíba e estourado todos os limites estipulados pela Lei de Responsabilidade Fiscal para a folha do funcionalismo quando era governador. O PMDB já tem Fábio Lenza na direção de Pessoa Física da Caixa: no banco desde 2007, é considerado da “cota do senador José Sarney”.

Resume a Folha de S.Paulo as consequências previsíveis do fatiamento do banco federal: “A entrada do PMDB na diretoria da Caixa Econômica Federal preocupa executivos do setor bancário e até servidores de carreira do governo federal, que temem um loteamento político maior na área econômica do governo e um atraso na expansão do crédito imobiliário brasileiro.”

Mas, como é de se esperar, não foi apenas o PMDB que avançou sobre o butim da Caixa. Não sem antes lançar-se em brigas intestinas, o PT também conquistou novos espaços no comando da instituição. As facções paulista e gaúcha da sigla se digladiaram pela cadeira de Maria Fernanda e quem acabou ficando com a vaga foi Jorge Hereda.

Ele é do PT paulista, do grupo de Marta Suplicy, de quem foi secretário de Serviços e Obras na prefeitura de São Paulo. Também ocupou secretarias nas áreas de Habitação e Desenvolvimento Urbano em outros municípios paulistas governados pelo PT. Deve entender dos negócios.

A Caixa é apenas mais um exemplo a engrossar o rol de ataques dos governos petistas ao patrimônio público, onde despontam também os Correios, a Eletrobrás, a Petrobras. A Vale pode ser o próximo bastião a cair: hoje à tarde, informa o Valor Econômico, os acionistas controladores da mineradora, com a presença de Guido Mantega, se reúnem em São Paulo “para acertar os detalhes da demissão de (Roger) Agnelli e da escolha de seu substituto”.

Negócio de petista é assim: feito a portas fechadas, atende ao interesse de poucos e joga o prejuízo para os contribuintes. Quem quer dinheiro?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Retrato da cultura de uma era inculta

Alguns artistas anunciaram ontem apoio à candidata do PT à Presidência da República. É do jogo democrático: a sociedade brasileira tem se mostrado radicalmente dividida neste momento.

Mas o que era para ser uma festa acabou por fornecer mais um retrato da maneira truculenta com que o governo federal tem atuado nestas eleições: nomes foram incluídos à revelia no manifesto e instituições de Estado foram utilizadas para constranger outros a participar.

O cineasta José Padilha pôs a boca no trombone. O diretor de “Tropa de Elite” desautorizou publicamente a campanha de Dilma Rousseff por tê-lo citado como um de seus apoiadores. Sem o consentimento dele, seu nome foi incluído na lista pelos coordenadores do tal manifesto, alguns deles de notória proximidade aos guerrilheiros colombianos das Farc (mas este é outro assunto).

Padilha – que informa ter resistido a apelos e constrangimentos de “uma blitz de um grupo que apóia Dilma” – pode ser apenas um entre muitos jabutis postos no alto desta árvore de papel.

Em sua coluna na edição de hoje de O Globo, Merval Pereira relata que “dirigentes da Ancine atuaram fortemente para que pessoas ligadas à indústria (do cinema) assinassem o documento” pró-Dilma. “Há indicações de que vários outros cineastas e atores, muitos inscritos à revelia, foram procurados pela Ancine na tentativa de engrossar a lista de apoiadores da candidatura oficial”.

A Ancine é o órgão regulador dos setores de cinema e audiovisual no país. Como tal, deveria obedecer a políticas de Estado, não a instruções de governos, menos ainda a ações de partidos políticos. Mas, como quase tudo na gestão do PT, teve sua atuação inteiramente desvirtuada nos últimos anos. Assim como outras instituições da República, transformou-se num aparelho político-partidário.

Era só o que nos faltava: além de oferecer à nação uma candidata de laboratório, o petismo agora nos apresenta um rol de simpatizantes e apoiadores de mentirinha, amavelmente coagidos a aderir ao governismo por meio da manipulação do poder do Estado e seu controle sobre polpudas verbas orçamentárias.

Basta dar uma olhada na lista de apoiadores da petista para ver que vários deles tinham motivo$ de $obra para assinar o papelucho: não são poucos ali os que vivem dependurados nas verbas de patrocínio de estatais como Petrobras, BNDES, Banco do Brasil etc.

Tirante o motivo sonante, teriam estes artistas algum outro mais palpável para incluírem-se no manifesto? Se o que importasse fosse a real atenção que o governo atual deu à cultura, sobrariam razões para estarem a léguas de distância.

Mostra O Globo de hoje que o presidente Lula esteve longe, muito longe de cumprir o compromisso assumido com a classe artística em 2002, a saber: elevar a verba destinada ao Ministério da Cultura a pelo menos 1% do Orçamento da União. Em oito anos, não passou nem perto disso.

Lula legará a seu sucessor um orçamento em que ao ministério ocupado até outro dia por Gilberto Gil caberá nada mais do que 0,16% da verba total, retrocedendo em relação ao pico de 0,23% a que se chegou neste ano. Em moeda sonante, são R$ 1,65 bilhão num mar de R$ 1,009 trilhão. Piores na fita só as pastas da Pesca e do Esporte.

A cultura só não esteve mais à míngua porque contou com as mãos amigas de parlamentares, que ano após ano garantiram-lhe no Congresso dotações sempre maiores do que o Executivo lhe destinava. Este ano, por exemplo, deputados e senadores aumentaram a verba do setor em mais de 60%, o que equivaleu a R$ 850 milhões extras.

Mas o despudorado uso da máquina estatal nas eleições não se limita a episódios como o do manifesto dos artistas. Pululam casos em que a mão pesada do Estado move-se em favor da candidata oficial, como mostrou a Folha de S. Paulo em sua edição de ontem: verbas da Petrobras e Banco do Brasil patrocinaram a publicação de uma revista da CUT com textos defendendo o voto em Dilma, o que é vedado pela lei eleitoral, que proíbe sindicatos de fazer campanha.

São exemplos eloquentes da forma como o PT apossou-se do Estado brasileiro, numa sub-reptícia e subterrânea privatização do patrimônio brasileiro. O dinheiro dos súditos, o petismo destina aos amigos do rei, que lhe retribuem na forma de assinaturas firmadas num papel. Nem todas elas, é verdade, de bom grado.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Uma escolha de bem

Faltando seis dias para as eleições presidenciais, o Brasil encontra-se em uma encruzilhada. Entre os caminhos divergentes, há pelo menos uma concordância: as preocupações com os avanços sociais e econômicos da população.

Mas, se há convergência nisso, um dos lados em disputa exercita diuturnamente seu desprezo debochado por valores cruciais como respeito às leis, à liberdade de imprensa, aos direitos constitucionais, à ética, à honestidade pessoal e à distinção entre Estado e partido. É a turma de Dilma Rousseff e José Dirceu.

Em contrapartida, entre os partidários de José Serra o governo não é usado como propriedade pessoal ou, pior ainda, para beneplácito de um grupo de amigos; os adversários políticos não são tratados como inimigos do país; não se vê condenações à imprensa como instituição; o respeito às leis e às instituições é cláusula pétrea.

Se Serra é certeza de um Estado a serviço de todos os brasileiros, a quem serve o governo do PT, de Lula e de Dilma? Aos companheiros, com certeza, como ficou flagrante no balcão de negócios montado na Casa Civil por Erenice Guerra, braço direito da candidata petista.

A lista de malfeitos parece não ter fim. O país chegou a um ponto em que um participante de esquema sujo, ex-diretor de uma estatal, os Correios, confessa publicamente que o gabinete chefiado pela candidata oficial à sucessão era palco de uma “roubalheira”, conforme mostra a edição da revista Veja desta semana.

O ilícito corria solto entre a equipe de Dilma e seus apaniguados. Sete pessoas já foram demitidas. Mas o governo age no sentido convencer a população de que nada demais ocorre. Houve uma banalização da degradação, contra a qual se batem a oposição e, principalmente, os meios de comunicação.

Contra este estado de coisas, jornais como O Estado de S. Paulo – e seus 135 anos de tradição, respeitabilidade e, inclusive, franca e corajosa resistência à ditadura militar – apontam Serra como a melhor alternativa para melhorar a vida da população brasileira.

Em editorial publicado no sábado, o Estadão defendeu que a opção é entre “quem trata o governo e o seu partido como se fossem uma coisa só, submetendo o interesse coletivo aos interesses de sua facção” ou quem “pode representar a recondução do país ao desenvolvimento econômico e social pautado por valores éticos”. Não se trata, então, de uma escolha de Sofia.

Sob o comando de Lula, a tentativa de fazer um país socialmente mais justo, infelizmente, ocorreu, como lembra o jornal, “paralelamente a tentativas quase sempre bem-sucedidas de desconstrução de um edifício institucional democrático historicamente frágil”.

O que houve, na verdade, foi uma política na qual os avanços sociais não eram o objetivo final, mas um meio para a permanência de um grupo político no poder. E esse pessoal trouxe para dentro do Palácio do Planalto alianças espúrias, tráfico de influência, fisiologismo e enriquecimento suspeito dos amigos. Promoveu uma verdadeira ressurreição de párias da política.

Também em editorial, estampado na primeira página de sua edição dominical, a Folha de S. Paulo alertou para o risco de um eventual governo Dilma impor controles sobre a atuação da imprensa, responsável pela revelação de seguidas maracutaias do governo petista.

O jornal também relembrou que Lula não conseguiria nem um pedacinho dos atuais índices de popularidade caso não contasse com um ambiente internacional favorável ou não tivesse mantido a política econômica de Fernando Henrique.

É por posicionamentos lúcidos como estes que a imprensa é vista pelos petistas como seu mais temido inimigo. Não deixa de ser uma manifestação do horror que os partidários de Lula nutrem pela transparência, pela lisura, pela prestação de contas e pelo respeito aos cidadãos no trato da coisa pública. A atuação isenta e vigilante dos meios de comunicação é a maior garantia que dispomos hoje de que os malfeitos não prosperarão. É uma escolha de bem, assim como a de José Serra.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Corolário da intolerância

Desde o escândalo do mensalão é assim: quando se vê acuado por denúncias e evidências de corrupção e malfeitos, o PT acena com a possibilidade de “mobilizar as massas” em defesa de seu governo “democrático e popular”.

Acontecerá de novo nesta quinta-feira, quando ONG, sindicatos, agremiações estudantis e entidades amaciadas pelo ervanário público protestarão contra o “golpismo midiático”. Mas o que se pretende é muito mais: caçar o direito de divergir do governo petista, algo que esse pessoal simplesmente não suporta.

O evento desta quinta-feira não é ato isolado. Há algumas semanas, desde que foram sendo reveladas as violações na Receita Federal e as falcatruas na Casa Civil, o próprio presidente da República partiu para o ataque contra a imprensa. Comício após comício, ato público após ato público, Lula vem insuflando seu público, afrontando a liberdade de informar dos meios de comunicação. A turma do protesto simplesmente seguiu a senha dada pelo líder. Encena agora o corolário da intolerância.

Os tais “representantes” de entidades civis cumprem o papel que o petismo lhes reservou na Era Lula: servir de vassalos de um governo que muitas vezes lhes paga o salário e noutras tantas lhes garante gordas verbas públicas em forma de polpudos convênios. O PT transformou centrais sindicais, MST, UNE e confrarias do gênero em correia de transmissão dos interesses oficiais: funcionam como cães de guarda que o petismo põe em campo toda vez que alguma de suas maracutaias é descoberta.

O protesto desta semana também tem lá seu caráter preventivo. É como se o petismo quisesse dizer: “Não nos venham querer derrotar nas urnas, porque, se assim for, não deixaremos pedra sobre pedra neste país.” Não foi uma nem duas vezes que já se ouviu de próceres do lulismo que os tais “movimentos sociais” não dariam sossego a um eventual governo de alguém da oposição – tendo, claro, Lula como maestro. É desta maneira que esta gente respeita a democracia e a vontade popular...

Nem sempre Lula e o PT viram a imprensa como sua inimiga nº 1. Na realidade, ela lhes foi, no mais das vezes e por anos a fio, companheira. Muito do mito erigido em torno do líder popular deve-se aos meios de comunicação. Muito do denuncismo que sustentou a atividade parlamentar dos petistas por décadas só prosperou em razão do espaço que os jornais lhes franquearam. Mas, para o petismo, isso ainda é pouco: só serve a unanimidade.

O ataque do PT em busca da concordância absoluta se dá em duas frentes. Por um lado, ataca-se a liberdade de a imprensa independente atuar, o direito de algumas cabeças pensantes divergir. É a elite intelectual que precisa ser exterminada.

De outro, instrumentalizam-se vozes chapas-brancas para defender o governo a qualquer preço e a toda hora. O governo montou uma barricada guerrilheira na internet (basta observar quem patrocina os blogs alinhados ao governismo), espraiou a subserviência por jornais do interior do país cevados a gordas publicidades oficiais e engendrou uma potente máquina de propaganda por meio de empresas públicas travestidas de jornalísticas. Uma estratégia de guerra para aniquilar vozes dissonantes e amplificar a de áulicos.

Tudo considerado, estamos diante de um dos piores legados da era Lula: a intolerância com o contraditório. Divergir do discurso oficial tornou-se crime no Brasil, coisa de quem “torce contra”, a ser punido com as garras do aparato estatal (a Receita Federal está aí para isso...). Uma verdadeira herança maldita que só encontra competidora à altura na leniência com o malfeito – algo que este governo não só pratica como tenta inocular na sociedade. Marcas de uma era que o país ainda demorará um tempo para eliminar, mas que é preciso começar já a varrer.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Um envelope fechado, recheado de dinheiro sujo

Parece não ter fim a torrente de escândalos que inunda o governo Lula e, mais especificamente, a pasta que até outro dia foi chefiada por Dilma Rousseff. A turma da ex-ministra e agora pretendente a presidente da República está enredada nas mais tenebrosas transações. Caraca!

Nas explicações do PT e do governo, a candidata não sabia de nada que acontecia em torno de sua antiga sala no Palácio do Planalto. Lula, muito menos. E eram coisas pesadíssimas, como tráfico de influência, cobrança de propina, nepotismo descarado e até mesmo a farta distribuição de pacotes de dinheiro vivo como pagamento de corrupção.

Ao mesmo tempo, a campanha eleitoral atribui à petista qualidades de grande executiva. Dá para acreditar? Das duas uma: ou Dilma é uma péssima administradora, incapaz de perceber o que se passa sob seu nariz, ou então tem tudo a ver com este mar de lama que assola o Planalto. Com qual versão ficar?

A mais nova reportagem da revista Veja joga mais luz nos subterrâneos petistas. Deixa claro que no governo Lula o país deixou de ter uma Casa Civil, substituída por uma verdadeira casa da mãe Joana – ou será da “tia” Dilma, como a chamavam os alopradinhos de Erenice Guerra?

A publicação mostra que, em julho do ano passado, o advogado Vinícius de Oliveira, recém-ingresso no ministério comandado pela dupla Dilma/Erenice, deparou-se com um envelope recheado com R$ 200 mil na gaveta de sua mesa. Tratava-se de uma espécie de corrupção preventiva: todos ali haviam recebido o seu, como parte de uma operação envolvendo a compra emergencial do Tamiflu, medicamento para combate à gripe suína, pelo governo brasileiro. Até da desgraça alheia esta gente tenta se aproveitar.

Entre os sócios desta quadrilha em ação dentro do Palácio do Planalto (será uma ramificação daquela do mensalão?) está uma lista de nomes que não para de crescer, formada por amigos e parentes de Erenice. Lá estão filhos, marido, irmãos, ex-cunhada e uma parentalha sem fim. Sempre envolvida em negócios cotados em bilhões de reais, Erenice é, desde já, responsável por dar uma nova acepção à Bolsa Família.

Nunca é demais lembrar que Erenice Guerra e Dilma Rousseff são unha-e-carne. Estiveram lado a lado desde os primeiros momentos do governo Lula, ainda antes da posse. São quase oito anos juntinhas. A pergunta que não quer calar é: onde estava Dilma enquanto esta rede de falcatruas se expandia? Na melhor das hipóteses, estaria inaugurando pedras fundamentais e obras inacabadas do PAC ou em algum palanque pelo Brasil afora. Seria, assim, uma administradora tremendamente incapaz.

A outra alternativa – que, convenhamos, é bem mais provável – é ainda pior: Dilma conhecia tudo o que se passava sob seu nariz. Já se sabe que muitas das reuniões ocorreram no quarto andar do Palácio do Planalto. Em sua edição de ontem, a Folha de S. Paulo mostrou que o nome de “tia” Dilma era utilizado pelos meninos de Erenice para avalizar as transações.

A candidata petista recusa-se a esclarecer as dubiedades que cercam o caso. Chama a descoberta do balcão de negócios montado na Casa Civil de “factóide”. Mostra-se, cada vez mais, um envelope fechado, que provavelmente esconde dentro uma má surpresa para o destinatário, o povo brasileiro.

Ninguém sabe ao certo o que Dilma pretende para o país, já que se recusa a pôr no papel e divulgar seu programa de governo – algo que “nunca” acontecerá, segundo o responsável por coordenar a sua elaboração, o czar obscurantista Marco Aurélio Garcia. É o velho horror petista à luz.

A forma mais efetiva de avaliar o que Dilma nos reserva é mirar suas atitudes pregressas e as escolhas que fez. Suas nomeações são um primor: Erenice, Silas Rondeau (defenestrado do Ministério de Minas e Energia sob suspeita de irregularidades), Milton Zuanazzi (responsável por lançar a Anac no voo cego que resultou na morte de centenas de passageiros nos dois maiores acidentes aéreos da história brasileira), Fernando Pimentel (o ex-prefeito de Belo Horizonte especializado em dossiês criminosos). E por aí afora.

Sobre o que esperar de um governo Dilma (toc, toc, toc, bate na madeira) há outras indicações, tão ou mais explícitas. Vocalizadas pelo “companheiro de armas” José Dirceu, elas dão conta de que, com Dilma, o PT vai finalmente implantar seu real projeto de poder, em que, entre outras coisinhas, provavelmente a imprensa não disporá de tanta liberdade quanto hoje. Palavras do “chefe da quadrilha” do mensalão petista.

Mesmo com todo o esforço do PT para esconder quem realmente é sua candidata, pouco a pouco os eleitores brasileiros tomam conhecimento de uma realidade nada agradável. Dilma revela-se péssima administradora, sem um programa de governo explicitado, aliada dos mais atrasados e danosos políticos do país, conivente por anos com um enorme esquema de corrupção montado dentro de seu gabinete. Isso não é café pequeno.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Horror à luz

Acuado por mais uma avalanche de escândalos, o presidente da República pôs todos os seus muitos subordinados em campo nesta semana para defender uma ministra de Estado cujos familiares montaram um balcão de negócios dentro do seu governo. Vale tudo, incluindo o uso descarado da estrutura pública para fins partidários – agora até notas com timbre oficial ocupam-se de fazer política eleitoral para o PT.

Mas o artifício central do estratagema petista é posar de vítima de um “golpe da imprensa”. O lulismo tem horror ao escrutínio dos meios de comunicação e detesta a fiscalização de quaisquer das instituições do Estado democrático de Direito. Contraditório, só vale se for o deles. A dura realidade é mero detalhe ou simples versão distorcida dos fatos na farsa asfixiante que o PT tenta nos impor.

O governo de Lula age com a desenvoltura de quem se acha inimputável ao deslanchar seus malfeitos. Transformou o ministério mais poderoso da Esplanada numa central de falcatruas. Ali se urdiram a aliança com bicheiros pelas mãos de Waldomiro Diniz; o assalto aos Correios e a uma penca de estatais para financiar o mensalão; a feitura de dossiês espúrios para caluniar adversários políticos; o armazém de secos e molhados que trafica influências a troco de “taxas de sucesso”. Bem ali, um andar acima de onde despacha o presidente.

Tudo isso sabemos hoje por causa da atuação vigilante e independente dos órgãos de imprensa. Foram eles que puseram no ar a grotesca cena em que o então assessor direto de José Dirceu embolsava maços de dinheiro. Foram eles que escancararam e escarafuncharam quando Roberto Jefferson expôs os meandros do pagamento de mesadas a parlamentares. Foram eles que demonstraram que assessores diletos de Dilma Rousseff produziam quilos de planilhas com dados protegidos por lei e viviam em gostoso conluio com lobbies. Foi, por fim, a imprensa que revelou que a campanha petista à presidência da República manipulava sigilos fiscais em associação com criminosos.

Dependesse do PT, nada disso seria sabido. Para os partidários de Dilma, imprensa boa é imprensa calada ou subserviente. Resumindo numa frase saída da boca de um prócer do partido, para eles “o problema do Brasil é o monopólio das grandes mídias, o excesso de liberdade e do direito de expressão e da imprensa”. Espantosa, a afirmação foi feita anteontem por um dos chefes da campanha dilmista: o onipresente José Dirceu. Será esta treva, a da mordaça, o que nos aguarda se a candidata de Lula triunfar nas urnas?

O PT convive mal com o contraditório, aceita com ressalvas os princípios democráticos, arrosta as liberdades. Só tolera opinião que é a favor – coisa que o petismo tem de sobra na rede espúria de vassalos que disseminou pela internet e em veículos de imprensa do interior do país cevados a gordas verbas de publicidade oficial. Esse é o mundo que o petismo tenta a todo o custo nos impor: críticos tratados como “inimigos da pátria”, áulicos mimados com benesses públicas.

“Aos críticos do ‘milagre lulista’ foi reservado o pior dos mundos. Criou o seu próprio ‘ame-o ou deixe-o’. Quem está com ele – e nessa categoria o arco é amplo, vai do MST ao grande empresariado – ‘ama’ o Brasil; quem está contra é inimigo e tem de ser destruído”, resume com precisão cirúrgica o historiador Marco Antonio Villa na edição de hoje da Folha de S.Paulo.

Não é de hoje que Lula mostra os caninos a quem se interpõe em seu caminho. A imprensa é o alvo mais reiterado, mas não é o único. Órgãos como o Tribunal de Contas da União, o Ministério Público e o Ibama, responsáveis por zelar pela coisa pública, já foram mil vezes enxovalhados pelo presidente da República sempre que apontaram malfeitos do governo. Dividem com os meios de comunicação o papel de bode expiatório pelos fracassos petistas.

Tivesse o dom divino que acredita ter, Lula não teria dúvidas: teria extirpado todos da sua frente, como sonha fazer com adversários da oposição, um a um. Seu pavor à luminosidade do escrutínio só tem similar na escuridão produzida pelos regimes ditatoriais. Mas tudo tem um fim. E o da era de trevas do governo Lula está próximo.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Um imenso balcão de negócios

Há três semanas, uma das maiores ameaças de se ter Dilma Rousseff como presidente da República era não saber qual seria o papel de seus aliados barra pesada. O que farão no governo dela gente como Fernando Collor de Mello, José Dirceu, José Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Newton Cardoso, entre uma penca de outros?

Como a experiência de Dilma na seara política é algo próximo de zero, a força desse pessoal será enorme. Junto deles, virão históricos de corrupção, nepotismo, truculência, fisiologismo e uso da máquina pública para fins pessoais e familiares. Vote numa Dilma e ganhe esta turma toda de bônus.

Há duas semanas, com o escândalo da Receita Federal, ficou claro que os brasileiros ainda correm outro risco com Dilma no Planalto. O PT ressuscitou a abjeta prática de utilizar o Estado para investigar e acuar todos os que ousam fazer oposição ao governo. Coisa de ditaduras que se julgava morta e sepultada no Brasil. Os casos das quebras criminosas de sigilo fiscal da filha e do genro de José Serra não são apenas um problema pessoal do candidato tucano: são uma ameaça aos direitos fundamentais de cada um dos brasileiros.

Mas, por incrível que pareça, tudo isso ainda pode ser pouco. Caso sejam comprovadas as denúncias relatadas na edição desta semana da revista Veja, a roubalheira está no DNA do grupo de Dilma Rousseff. Na reportagem, a atual ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, é apontada como intermediária dos negócios escusos do próprio filho, Israel, envolvendo órgãos do governo e iniciativa privada. Vale recordar que Erenice, confidente de Dilma, só deixou a total obscuridade ao prestar bons serviços à hoje candidata. Agora dá para ter uma ideia de quais serviços são esses.

Segundo Veja, Israel Guerra atrairia empresários de olho em verbas públicas. A Erenice caberia dar aval às operações de tomada de assalto aos cofres do governo e mexer as peças, quando necessário. Custo ao empreendedor: 6% do valor do contrato, a título de “taxa de sucesso”. O dinheiro, segundo consta, serviria para “saldar compromissos políticos”. Um típico exemplo de tráfico de influência.

A revista relata um caso concreto. Em 2009, o empresário Fabio Baracat pediu a Israel Guerra uma maneira de sua empresa de cargas aéreas, a MTA, ampliar a participação nas operações dos Correios – órgão que, é bom não esquecer, foi desmantelado na gestão Lula.

Os ouvidos do empresário foram brindados com uma resposta que lhe soou como música: “Minha mãe resolve”, disse-lhe Israel. Ato contínuo, seu negócio decolou. A transação foi celebrada com goles de vinho no apartamento funcional da própria Erenice Guerra, então secretária-executiva de Dilma.

Como coadjuvantes dessa história corrupto-familiar-policialesca, também atuaram o assessor jurídico da Casa Civil, outro filho e irmãos de Erenice, como revela O Estado de S.Paulo em sua edição de hoje. Já Israel e Vinícius, os protagonistas do escândalo relatado por Veja, foram lotados na Anac – a quem cabe licenciar a operação de empresas como a MTA –, como mostra O Globo em sua edição de hoje. Mais republicano impossível.

Os encontros entre lobistas, empresários e traficantes em geral ocorreram no escritório do coordenador jurídico da campanha de Dilma, Márcio Silva. Mais um elo entre a bandidagem e a postulante ao Planalto. Mas não para a candidata, cuja reação ao episódio foi a mesma de sempre: desqualificar a imprensa, atacar a oposição, posar de vítima e gritar muito. Discutir os acontecimentos que é bom, nem pensar: os fatos, ah, os fatos são mero detalhe...

O episódio é apenas mais um – ou pelo menos o mais explícito deles – a ilustrar o imenso balcão de negócios em que o PT transformou o Estado brasileiro. Vende-se de tudo um pouco nesse armazém espúrio: o patrimônio nacional, benesses estatais, facilidades jurídicas, penduricalhos legais, financiamentos a preços módicos.

Em troca, cobra-se do agraciado apoio irrestrito ao projeto petista de perpetuação de poder – na forma de apoio$ financeiro$ e $ilêncio conivente. Olhe para o lado e responda: há um único grande empresário que se oponha ao PT hoje? Por que será? Já passa da hora de pôr, democraticamente, esta turma para correr.