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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A era da ferrugem

A indústria brasileira teve, em 2016, o terceiro ano consecutivo de queda. Consumou-se o temor tantas vezes alardeado da desindustrialização e hoje o setor, tradicionalmente o mais dinâmico da nossa economia, tornou-se apenas pálida sombra do que foi no passado. Será árdua a jornada do fundo do buraco até a distante superfície.

Com a baixa de 6,6% em 2016, a indústria brasileira produz hoje no mesmo nível de 12 anos atrás e só um tico mais do que fabricava quando o PT chegou ao poder. Este é um tempo perdido, desperdiçado, no qual o país ficou enferrujando enquanto seus competidores lá fora aceleravam. Imagine o quanto vamos ter que comer de poeira para alcançá-los...

Desde a crise global de 2008, foram cinco anos de retração e apenas três de expansão, das quais a única realmente significativa deu-se em 2010. Desde seu pico, anotado em junho de 2013, a produção industrial do país encolheu 19%. As fábricas brasileiras fecharam 2016 com a 34ª queda consecutiva na comparação com igual mês do ano anterior.

Há setores ainda mais amassados, como o de bens de capital, por exemplo. A produção de máquinas e equipamentos diminuiu inacreditáveis 42% em pouco mais de três anos, mais precisamente desde outubro de 2013. Este é o segmento que funciona como termômetro de investimentos futuros. Sem maquinário novo, não há expansão.

Os resultados de dezembro, contudo, sugerem que a deterioração da indústria brasileira pode estar amainando – em meados de 2016, a queda anual beirava 10%. Houve alta de 2,3% em relação ao mês anterior e a expectativa é de que, neste ano, finalmente o setor volte ao azul, ainda que de forma tímida. Será uma longa marcha a partir do profundo fundo do poço em que a produção made in Brazil foi jogada pelo PT.

Nunca é demais recordar que a indústria foi o principal alvo das ruinosas políticas de “campeões nacionais” levadas a cabo pelos petistas na última década, regadas com crédito farto e barato, gigantismo estatal e intervenção nos mercados. Uma das ações mais vistosas, e mais fracassadas, foi o chamado Brasil Maior, a principal obra de Dilma Rousseff (uma espécie de “rainha da sucata”) no setor, junto com seu ministro Fernando Pimentel.

Deu no que deu: o setor industrial esfarelou-se, retornando ao patamar de participação no PIB nacional que tinha nos anos 1950; os recursos públicos torrados como incentivos foram para o ralo e a conta está aí para pagarmos, na forma de recessão e desemprego. Até 2015, as benesses infrutíferas dadas à indústria desde o início do governo Dilma já haviam custado R$ 135 bilhões em renúncias fiscais.

A indústria brasileira enferrujou praticamente sozinha, na contramão do resto do mundo. Até meados do ano passado, o setor fabril mundial crescia de maneira contínua desde a crise de 2008, como destacou Alexandre Schwartsman à época. O nosso afundava, e continuou afundando – até a indústria da Grécia saiu-se melhor que a brasileira no período.

Esta é uma lição para ser aprendida e nunca mais esquecida, tampouco repetida. O que o setor produtivo brasileiro em geral, e a indústria em particular, precisa é de regras claras, espaço desimpedido – mas regulado de maneira equilibrada – para competir, menos burocracia e menos amarras impostas pelo Estado balofo. Vai ser preciso muito óleo para desenferrujar estas máquinas.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A indústria em recessão

A indústria brasileira continua sua triste sina. A produção do setor voltou a recuar, indicando que a recessão veio para ficar. Até quando, ninguém sabe. As linhas de produção começam a parar, no que parece ser o primeiro passo para o início de uma indesejável onda de demissões. Onde isso vai parar?

Segundo o IBGE, em abril a produção industrial caiu 0,3% em relação a março. Foi a segunda baixa consecutiva no ano. Quando comparado a abril de 2013, o tombo é bem pior: 5,8%. É o maior, nesta base de comparação, desde setembro de 2009, isto é, em quase cinco anos. Para nossas fábricas, o segundo trimestre começou com pé esquerdo.

A continuar no ritmo atual – e nada indica que será diferente – a indústria brasileira vai acumular quatro trimestres seguidos de queda. Ou seja, um ano afundando buraco adentro, sem esboçar reação. Nos três últimos trimestres, o setor acumula três baixas consecutivas, com recuo de 1,1%, segundo o IBGE.

Em abril, 70% dos 805 produtos acompanhados pelo IBGE apresentaram queda na produção. Termômetro do que pode advir no futuro, a fabricação de bens de capital simplesmente despencou, com queda de 14,4% na comparação com igual mês de 2013. Traduzindo: quase ninguém mais investe no Brasil.

Tecnicamente, a indústria do país já está em recessão. Não há quem creia em recuperação no curto prazo. As projeções dominantes entre analistas dão conta de que o crescimento antes esperado para 2014 está sendo revisto para, no máximo, uma alta modestíssima, só levemente acima de zero. Há quem fale em queda, que seria a segunda em três anos – em 2012, houve recuo de 2,3% na produção industrial. Enferrujamos de vez.

O processo de desindustrialização acentuou-se nos anos do governo do PT. Dez anos atrás, a indústria de transformação, segmento industrial mais dinâmico, ainda respondia por 19% do PIB brasileiro. Hoje, esta fatia caiu para 13%, ou seja, uma perda superior a 30% em apenas uma década.

Nosso setor industrial produz hoje nos mesmos níveis de 2008. Isso significa que a indústria brasileira perdeu seis anos numa corrida pela competitividade em que não dá para desperdiçar nem um dia. Nossas exportações de manufaturados caem e a fatia do mercado interno suprida por importados nunca foi tão alta: 22,5%, segundo a CNI.

Os sinais de crise pipocam, mas o governo parece atordoado. Instada por jornalistas estrangeiros a tentar explicar por que as coisas vão tão mal e o país anda para trás sob sua gestão, Dilma Rousseff limitou-se a responder: “Não sei”, segundo relata Merval Pereira n’O Globo. É a nossa rainha da sucata em ação – ou melhor, em inação.

Entre 2011 e 2013, cerca de 230 mil empregos industriais foram eliminados. Teme-se que piore, porque as empresas já começaram a deixar seus empregados de molho em casa. As montadoras devem dar férias coletivas a mais de 20 mil funcionários neste e no próximo mês. Fabricantes de linha branca e eletroeletrônicos também vão parar.

É improvável, para não dizer impossível, que o governo que aí está consiga salvar a indústria brasileira do naufrágio. Suas iniciativas são erráticas e contraditórias, como demonstra mais uma alteração na cobrança de IOF em operações no exterior. Eles não sabem o que fazem, mas não dá para perdoá-los.

A indústria brasileira só vai ressuscitar se tivermos uma nova orientação política, uma nova lógica econômica, uma visão adequada aos desafiadores tempos atuais. Nossos empresários querem mais e não menos inovação; mais e não menos integração comercial com o resto do mundo; menos e não mais interferência do Estado. Com Dilma, terão sempre o oposto disso.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Retrato de uma indústria enferrujada

A indústria brasileira enfrenta crise aguda. Nos últimos anos, vem perdendo importância relativa na composição de nossa economia. Nem mesmo a aguardada revisão da metodologia de pesquisa sobre o desempenho do setor foi capaz de revelar um retrato mais benigno da situação. Enferrujamos.

Ontem, o IBGE divulgou os resultados da produção industrial brasileira no primeiro trimestre. No cômputo geral, houve aumento de apenas 0,4% entre janeiro e fevereiro, na comparação com igual período de 2013. O desempenho permite projetar um PIB fraco no ano – o que já se tornou consenso entre analistas.

O IBGE mudou a forma de avaliar o comportamento da indústria porque sua base metodológica estava defasada e não considerava produtos que, hoje, são ícones de consumo, como tablets e smartphones. Com o novo recorte, a indústria brasileira passou de um crescimento de 1,2% para 2,3% em 2013.

Mas o retrato das nossas fábricas continua marcado pela ferrugem. Hoje, a participação da indústria de transformação no PIB é a mais baixa em mais de 60 anos de história. Evidencia-se, assim, um indesejável processo de desindustrialização, cuja marcha os governos recentes nada fizeram para estancar. Pelo contrário.

Em meados da década de 80, a indústria respondia por 27% do PIB brasileiro. Desde então, vem caindo, até chegar aos 13% registrados no ano passado. Nunca antes mergulhamos tão fundo.

Nosso setor industrial produz hoje nos mesmos níveis de 2008, ou seja, lá se vão seis anos perdidos. Entre 2011 e 2013, cerca de 230 mil empregos industriais – justamente os que tendem a ser mais qualificados e bem remunerados – foram eliminados.

Trata-se de retração muito prematura, que se dá muito antes de a renda média do país atingir os patamares que as economias avançadas tinham alcançado quando suas indústrias começaram a perder espaço no conjunto da economia.

Hoje, a indústria nacional não encontra condições de competir, ganhar mercados, nem manter os existentes. Em síntese o que acontece é que o produto nacional tornou-se caro, perde espaço interno, não consegue manter clientes no exterior, nem conquistar novos. Definha.

Não conseguimos vender ao exterior e compramos cada vez mais: no ano passado, a balança comercial da indústria brasileira registrou déficit de US$ 105 bilhões, um rombo histórico. Pudera: o custo de se produzir, por exemplo, uma máquina no Brasil é 37% maior do que fabricar a mesma máquina na Alemanha, de acordo com a Abimaq.

Nossos problemas são amplamente conhecidos: alto custo de produção, agravado por burocracia e impostos que o governo petista ainda cogita aumentar mais; ineficiência logística e infraestrutura defasada; baixa qualificação da mão-de-obra; parcos investimentos em inovação; e isolamento cada vez maior do país das cadeias globais de produção.

Não há soluções simples para esta situação. A debacle da indústria brasileira exige uma resposta sistêmica, que parta da recuperação das condições macroeconômicas – as mesmas que Dilma Rousseff, e só ela, crê estarem “bombando” – e ataque gargalos, transformando-os em oportunidades.

Incentivo à pesquisa e à inovação, maior integração global e melhores condições para investir e produzir são fundamentais para recuperar a competitividade e a produtividade perdidas. E o apoio indutor do Estado deve servir como alavanca – democraticamente, e não apenas para uns poucos escolhidos, como tem acontecido com a política de crédito que tem no BNDES seu principal artífice.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Indústria em sucata

O caminhão de incentivos oficiais concedidos à indústria brasileira não está surtindo efeito. O setor continua sua trajetória ladeira abaixo, afetado pela falta de competitividade e atropelado pela força da concorrência externa. Se pretende chegar a algum lugar, o governo federal precisa mudar sua estratégia. Na realidade, deveria adotar uma política estrutural coerente e não tentar costurar uma colcha de retalhos como tem feito.

Segundo o IBGE, a indústria brasileira caiu 4,3% em maio na comparação com igual período do ano passado. Foi a nona queda seguida nesta base de comparação e o pior desempenho desde setembro de 2009. Num curto espaço de tempo, o setor retrocedeu tudo o que conseguira avançar nos últimos anos.

A indústria brasileira opera hoje no mesmo nível em que estava em fins de 2009. Isso significa que toda a expansão registrada no pós-crise de 2008 foi anulada. Segundo O Globo, foram necessários apenas 14 meses de maus resultados – que praticamente coincidem com a duração do governo Dilma Rousseff até agora – para fazer tamanho estrago.

No ano, a indústria brasileira já encolheu 3,4%. O recuo é generalizado: em maio, houve queda em 17 das 27 atividades pesquisadas, em 46 dos 76 subsetores e em 430 dos 755 produtos investigados pelo IBGE. Historicamente, entre 2003 e 2011, cerca de 60% dos ramos industriais conseguiam manter-se em alta, mas agora apenas 40% estão nesta privilegiada condição.

A partir dos novos dados, a perspectiva do setor para este ano é de encolhimento. Para fechar 2012 no azul, a indústria brasileira teria de reverter completamente sua dinâmica atual. Segundo a LCA Consultores, será necessário saltar da queda média de 0,6% ao mês registrada até maio para uma alta média de 1,5% mensal entre junho e dezembro. Parece difícil.

Um dos complicadores é a dinâmica dos bens de produção – a fabricação de máquinas e equipamentos, que indica a direção para a qual aponta o comportamento futuro do setor. Em maio, também neste segmento houve queda de 1,8% em relação a abril e de 12,2% na comparação com o mesmo mês do ano passado, revertendo seguidas altas que vinham desde setembro de 2011. A perspectiva é nebulosa.

O que parece evidente é que o caminho seguido pela gestão petista não está levando a lugar algum. Foram anunciados nove pacotes de incentivos desde 2009. Destes, sete foram adotados na gestão Dilma e, somados, representam R$ 102 bilhões em benefícios, de acordo com O Globo. Não se enxerga reação à altura.

A insistência do governo federal em medidas pontuais, fragmentadas tem sido criticada pelos analistas e pela oposição. Mas até mesmo órgãos oficiais já detonam a trilha perseguida pelas gestões petistas. Ontem, o Ipea divulgou relatório em que considera “esgotado” o modelo de crescimento baseado no incentivo ao aumento de consumo.

“Se o governo não considerar essas medidas como parte de um plano maior, o que se faz é apenas enxugar gelo, apagar incêndio ou tapar o sol com a peneira. Ou seja: não faz nada”, disparou Roberto Messemberg, coordenador do Grupo de Análise e Previsões do Ipea.

A alternativa, sugere o órgão, é alavancar os investimentos públicos. Mas está ocorrendo justamente o contrário: dos R$ 80 bilhões aprovados no Orçamento para 2012, menos de R$ 17 bilhões foram executados até agora, segundo informou a Tendências Consultoria na semana passada.

O país padece da falta de uma agenda robusta voltada a reestabelecer a competitividade da nossa economia, em especial do setor industrial. Entre 2000 e 2009, a produtividade da indústria caiu 0,9% ao ano. Sem condições adequadas para produzir, com dificuldades logísticas sérias, custos financeiros altos e carga tributária muito onerosa, nossas fábricas curvam-se à concorrência externa.

O comportamento do comércio exterior brasileiro comprova isso. O saldo acumulado no primeiro semestre foi o mais baixo em dez anos, com recuo de 0,9% nas exportações e aumento de 4,6% nas importações. Ou seja: demanda existe, mas ela está sendo suprida pelos fornecedores estrangeiros e não pelas plantas locais.

Os novos resultados divulgados pelo IBGE indicam que os pacotes lançados nos últimos anos não conseguiram impedir sequer que os setores privilegiados por benefícios também sucumbissem. A indústria brasileira tem condições de se soerguer, mas precisa, para tanto, de políticas públicas estruturantes, uma espécie de agenda da competitividade. É tudo o que não se viu nas gestões do PT até hoje.

terça-feira, 13 de março de 2012

Ferrugem na indústria

O setor que já foi o mais dinâmico da economia brasileira está definhando. A indústria vem perdendo espaço na atividade produtiva nacional, pondo em risco empregos de melhor qualidade e remuneração mais alta. O motor que costuma acelerar o desenvolvimento das nações está enferrujado no Brasil.

São vários os indicadores que sugerem a perda de importância da indústria frente aos demais setores econômicos. É natural que, quanto mais um país avance, mais o segmento de serviços cresça. Entretanto, este processo é mais saudável quando a economia já atingiu um grau decente de desenvolvimento, o que ainda não é o nosso caso.

A indústria vem perdendo espaço no PIB e na pauta exportadora. Sua produtividade e os empregos gerados na cadeia produtiva são também cadentes. Ao mesmo tempo, o setor vê seu espaço no mercado interno ir sendo tomado por produtos importados.

Na sexta-feira, a Folha de S.Paulo trouxe um indicador revelador do retrocesso por que passa a indústria brasileira: a participação do setor no PIB brasileiro recuou a níveis da época do governo Juscelino Kubitschek. De lá para cá, a indústria se diversificou, mas seu peso relativo diminuiu.

“No ano passado, a indústria de transformação – que compreende a longa cadeia industrial que transforma matéria-prima em bens de consumo ou em itens usados por outras indústrias – representou apenas 14,6% do PIB. Patamar menor só em 1956, quando a indústria respondeu por 13,8% do PIB”, resumiu o jornal.

A indústria foi o patinho mais feio da ninhada de maus resultados do Pibinho do ano passado. Cresceu só 1,6%, no pior desempenho entre os setores da economia. A indústria de transformação, que concentra as atividades mais poderosas, estacionou – com alta de apenas 0,1% em 2011.

Se a coisa foi ruim no ano passado, neste a situação não vai nada bem. Em janeiro, informou o IBGE na quinta-feira, a indústria brasileira recuou 2,1% em comparação com dezembro. Em mais da metade (14) dos 27 ramos, houve queda na produção.

O tombo mais forte foi entre bens de capital, justamente os que indicam que um país está investindo em maquinário e se preparando para dias melhores: a queda frente a dezembro foi de 16%. Trata-se de algo que não se via em tal magnitude desde o epicentro da crise de 2008.

Ainda segundo o IBGE, o acumulado em 12 meses passou ao terreno negativo (-0,2%) pela primeira vez desde o início de 2010. Desde outubro de 2010, quando marcava 11,8% positivos, este indicador só fez cair. Em oito dos últimos 12 meses, a indústria como um todo recuou ante o mês anterior.

A indústria brasileira não só produz menos, mas também obtém menos mercado no exterior. A reversão, neste caso, é impressionante: de um superávit comercial de US$ 8,5 bilhões em 2005, o segmento de manufaturados mergulhou para um déficit de US$ 92 bilhões em 2011. Parece difícil acreditar.

O peso dos produtos industriais nas exportações brasileiras diminuiu muito desde 2002. Passou de 54,7% para 36,1% em 2011. Ao mesmo tempo, o mercado interno foi sendo cada vez mais servido por produtos importados. No ano passado, esta participação atingiu recorde de 22,8%, o dobro de nove anos antes (11,1%).

A produtividade industrial também vem caindo. Segundo o Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), a média de quanto é produzido na indústria ponderado pelo número de horas trabalhadas recuou 0,2% em 2011. Foi o segundo pior desempenho em dez anos.

A presidente Dilma Rousseff considera a situação reversível. “Tem queda na indústria, mas dá para reverter. Não daria se deixássemos continuar por dois, três anos. Agora dá e vamos fazer o possível e o impossível para defender a indústria nacional”, afirmou a presidente ao blog de Luis Nassif.

O problema é que o retrocesso industrial não é de agora, já vem de longa data. Neste ínterim, o governo do PT limitou-se a medidas pontuais de limitada valia. Na maior parte dos casos, optou por escolher setores beneficiados, em detrimento da adoção de uma política ampla e estruturante para o setor produtivo. Também apelou para o protecionismo.

O Brasil vem perdendo espaço, e a indústria em especial, porque o país abusa de uma estrutura institucional, mas também física, igual à de anos atrás. Não houve avanços significativos nas reformas de Estado, na redução dos custos de produção, nas condições logísticas.

“O Brasil perdeu competitividade porque se transformou em um país caro demais. A tributação tornou-se muito alta, assim como os custos da energia, da logística, dos encargos trabalhistas e do investimento”, resume Pedro Luiz Barreiros Passos, presidente do Iedi.

A realidade é que o país ressente-se da falta de medidas estruturais. De nada vai adiantar acionar um “arsenal infinito”, com ações tomadas “a cada semana”, como promete Guido Mantega. Para um país que quer ser grande, impõem-se soluções também grandiosas, ousadas, estruturantes. Tudo o que não se viu nas medidas ditadas pelo PT até agora.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Brasil menor

Não demorou um mês para que a “nova política industrial” do governo se revelasse um engodo completo. Nem medidas que foram recebidas com entusiasmo à época do lançamento do programa, como a desoneração da folha salarial, resistiram ao teste da realidade. O Brasil Maior ofereceu respostas menores à crise brava da indústria nacional.

Depois de consumir meses de discussões e de alimentar promessas de redenção, o programa foi anunciado em 2 de agosto para compor a “agenda positiva” do Planalto, no intuito de contrapor-se à onda de escândalos no governo. Não serviu nem para isso. Pior ainda, está agora se revelando improvisado e inócuo.

A medida mais comemorada do Brasil Maior foi a desoneração da folha de salários, há muito cobrada pelo setor produtivo. Mesmo assim, ela só veio à luz restrita a quatro setores: moveleiro, têxtil, calçadista e de informática. Os demais ficaram para um futuro que sabe-se lá quando chegará, se é que chegará.

Ao invés de recolher a contribuição patronal de 20% para o INSS, estes setores passarão a pagar 1,5% ou 2,5% (no caso da informática) sobre o faturamento. Mas sabe-se agora que nem esta prometida desoneração é para valer. Entidades da indústria perceberam que trocaram seis por uma dúzia em matéria tributária e pagarão até mais ao leão.

“Representantes das indústrias calçadista, moveleira e têxtil dizem que a fórmula anunciada em 2 de agosto não representa desoneração real e em alguns casos haverá até pagamento maior de imposto, o inverso do que prometeu a presidente”, informou O Estado de S.Paulo. Têxteis e móveis estimam que não ganharão nada; calçadistas, um pouquinho de nada.

A sugestão dos industriais é reduzir a nova alíquota para algo como 0,8%, mas a Fazenda já avisou que não aceita, segundo a Folha de S.Paulo. É coerente com a postura da pasta ao longo de toda a preparação do Brasil Maior: a suposta desoneração só foi incluída no pacote na undécima hora, e muito a contragosto de Guido Mantega. Entende-se agora por que entrou: por ser indolor para o fisco.

O saldo líquido da desoneração nestes quatro setores em 2012 seria de R$ 3,7 bilhões, conforme cálculo dos economistas Felipe Salto e Samuel Pessôa. É menos que o impacto da diminuição de IPI contida no programa para bens de capital, material de construção e automóveis – estes sem nenhuma contrapartida na forma de diminuição de preços ao consumidor – e que perfaz renúncia fiscal de R$ 4,3 bilhões.

Os setores que seriam resgatados pela “nova política industrial” do governo Dilma Rousseff são justamente os que mais agonizam em termos de produção e emprego. No de vestuário, a ocupação no primeiro semestre caiu 3,1%; no de calçados e couro, 2%; e no de madeira, 7,8%, informou o Valor Econômico em sua edição de ontem.

Embora a demanda interna ainda esteja crescendo, os estoques estão se acumulando nas indústrias do país. A explicação é que o mercado em expansão está sendo abastecido por importados.

Com produção cadente – hoje ainda 1,6% menor do que em setembro de 2008, epicentro da crise econômica global – a indústria brasileira como um todo deve fechar o ano no zero a zero em termos de geração de emprego e deve puxar o PIB ainda mais para baixo.

A disposição de incentivar a indústria nacional é necessária e bem-vinda. Mas os instrumentos empregados pela gestão petista revelam-se insuficientes, ineficazes e, em alguns casos, contraproducentes. Para complicar, também introduzem uma alta dose de discricionariedade do governo na escolha dos agraciados com benesses públicas. Desenhados assim, não têm risco de dar certo.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Rainha da sucata

Dilma Rousseff demorou exatos oito meses para conseguir anunciar uma medida de peso. Mas sua “nova política industrial” debutou ontem sob uma saraivada de críticas. Diante de uma indústria em frangalhos, a gestão petista ofereceu remendos de uma colcha de retalhos.

A presidente passou longe de cumprir uma de suas mais vistosas promessas de campanha: a desoneração ampla, geral e irrestrita da folha de pagamentos. Apenas quatro setores, e em caráter temporário, serão contemplados com a redução da alíquota de contribuição à Previdência a zero. Os demais continuarão a ver navios.

O governo vai zerar a contribuição previdenciária patronal apenas das empresas de confecções, calçados, móveis e software – que, juntas, respondem por menos de um quinto do PIB industrial do país. Em compensação, criará uma nova cobrança sobre o faturamento, de 1,5% nos três primeiros casos e 2,5% no último. O Tesouro ficará encarregado de colocar R$ 1,6 bilhão na Previdência para cobrir possíveis perdas.

O valor total da desoneração anunciada ontem também ficou muito aquém do que vinha sendo aventado. O governo vinha prometendo benefícios tributários de R$ 45 bilhões. Fechou o pacote em R$ 24,5 bilhões, dos quais R$ 3,8 bilhões já concedidos neste ano. Tudo somado, as bondades caíram a menos da metade do previsto: R$ 20,7 bilhões.

Há medidas positivas, como a que prevê a formação de especialistas em defesa comercial e o aumento da equipe que cuida desse tema dentro do governo. Hoje o Brasil está muito mal servido: a média mundial é de três investigadores para um processo; aqui, são três processos para cada investigador.

Outras medidas, ainda que bem intencionadas, podem se transformar num problemão. É o caso, por exemplo, da preferência a produtos nacionais, que poderão ser comprados pelo poder púbico por preços até 25% mais caros do que de concorrentes importados. Os riscos são dois: corrupção e redução do número de competidores, com maiores chances de sobrepreço. A ficha corrida de falcatruas do governo petista sugere que daí não se deve esperar boa coisa...

De maneira geral, o plano do governo junta medidas de caráter microeconômico, mas passa longe de atacar os desarranjos macro, já conhecidos de todos: câmbio supervalorizado, juros muito elevados, alta carga tributária, infraestrutura capenga que impacta o custo de produção e um Estado perdulário que sobrecarrega todo o resto da economia. Nada disso mudou, nem parece fadado a mudar tão cedo.

“Nem se pode chamar o imenso e díspar conjunto de medidas de ‘política industrial’, pois há de tudo ali – menos linhas-mestras de um plano sobre o que fazer da indústria nacional no médio prazo”, avalia Vinicius Torres Freire na Folha de S.Paulo.

A equipe econômica argumentou que, como precisa perseguir o rigor fiscal, não tem como ajudar a indústria com mais recursos do que os anunciados ontem. É estranho que para projetos mirabolantes e suicidas, como o trem-bala, há dinheiro de sobra, mas para dar suporte ao segmento que gera os empregos mais qualificados e bem pagos não há.

Os dados sobre a produção de junho, divulgados ontem pelo IBGE, corroboram a fraqueza da indústria e a necessidade de medidas bem mais potentes do que as anunciadas ontem. Os resultados foram os mais baixos do ano e, no acumulado no semestre, os piores desde 2009. Dos 27 setores industriais pesquisados, 20 apresentaram redução, o que mostra que a desaceleração é ampla, geral e irrestrita.

O desaquecimento já vem desde outubro. Desde então, o crescimento da indústria brasileira acumulado em 12 meses caiu de 11,8% para os atuais 3,7%. Como consequência, a expansão do setor no ano deve cair abaixo de 3%, ou menos de um terço dos 10,4% anotados em 2010.

Se a indústria local definha, a importação avança e lhe rouba cada vez mais espaço. No segundo trimestre, a participação das importações no consumo interno de bens industriais atingiu 21,6%, revela o Valor Econômico. Em 2007, esse índice era de 15,2% e em 2002, 12,4%. “O aumento reflete o crescimento das compras externas a um ritmo bem superior ao da produção local, num cenário de câmbio cada vez mais valorizado e expansão de demanda interna”.

Em suma, ontem a montanha pariu um rato. Tímida, incompleta, pouco ousada e, principalmente, insuficiente para dar conta dos problemas que realmente afligem a economia brasileira, a “nova política industrial” nasce com gosto de velhas práticas que correm o risco de não nos levar a lugar algum.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Indústria sucateada

O governo promete anunciar hoje o Brasil Maior, sua nova política industrial. O plano chega em uma hora em que as perspectivas para a indústria brasileira são as mais sombrias possíveis. Foram anos de alerta quanto à depauperação do parque produtivo nacional, sem que a administração petista movesse uma palha. Agora pode ser tarde demais.

O plano federal patinou até os últimos minutos. Dilma Rousseff teve de dar murros na mesa para forçar sua equipe econômica a aliviar a produção do peso da cobrança de impostos, sem o que a “nova política” seria apenas um “paliativo”. Apenas alguns segmentos, porém, serão beneficiados com desoneração tributária, segundo apontam os jornais de hoje.

Indústrias calçadistas, têxteis e moveleiras são candidatas a ter parte da folha de pagamentos desonerada. Na forma de projeto-piloto, a medida terá validade de um ano, depois do qual seu impacto na arrecadação da Previdência será avaliado. Só então poderá ser ampliada para outros segmentos.

“A ideia em análise ontem era reduzir de 20% para 14% a alíquota da Previdência cobrada de setores de mão de obra intensiva, como o têxtil e calçadista, transferindo esse custo para o faturamento das empresas. Outra parte da desoneração tributária será bancada pela União”, informa a Folha de S.Paulo.

Outras medidas previstas são o aumento da defesa comercial, novos financiamentos do BNDES para exportação e incentivos a investimentos em inovação tecnológica. Estima-se que o pacote de desonerações some R$ 45 bilhões entre 2012 e 2015 – até ontem o valor ainda não estava fechado.

A “nova política industrial” traz metas há muito fixadas e perseguidas por meio de políticas públicas, mas jamais alcançadas: elevar o investimento em capital fixo no país, hoje em 18,4% do PIB, para 23% até 2014 e aumentar o gasto privado com ciência e tecnologia de 0,55% para 0,9%. Até ontem não se sabia ao certo como isso seria alcançado.

Porta-vozes do Planalto dizem que o anúncio da nova política industrial busca compor uma pauta de boas notícias com a qual a presidente da República pretende mudar a agenda de seu governo, há meses soterrada por escândalos de corrupção. Seria melhor se visasse enfrentar, efetivamente, o grave problema da desindustrialização da economia brasileira.

A indústria vem perdendo, de forma precoce, participação no PIB brasileiro. O aumento do peso dos serviços na soma das riquezas geradas é natural em economias mais consolidadas, como é o caso de alguns países europeus e dos EUA. Mas só é bem-vindo quando o país já tem um parque fabril robusto, o que ainda não é o caso do Brasil.

O que ocorre hoje é que, com a supervalorização da moeda nacional, o país compra desbragadamente produtos manufaturados no exterior. Sai muito mais barato do que produzir aqui. São incontáveis os exemplos de empresas que transferiram suas plantas para fora do Brasil para, de lá, exportar para cá.

Outra face da mesma moeda, a exportação de bens industriais brasileiros é flagrantemente declinante. A fatia de manufaturados na pauta de exportações recuou de 61% em 2002 para 38% hoje. Estudos da Funcex revelam que atualmente o Brasil vende para fora o mesmo volume de industrializados que vendia em 2004 e 15% menos do que em 2007.

No ano passado, mostra pesquisa divulgada ontem pela CNI, 32% das indústrias que vendem para fora do país diminuíram sua presença no exterior. Outras 16% simplesmente deixaram de exportar. Em contrapartida, neste ano, o país deve ganhar 5 mil novos importadores.

Uma das metas do Brasil Maior é alterar isso, mas é difícil crer na sua eficácia. Para se ter mais uma ideia do tamanho da derrocada do setor, a balança comercial de bens industriais que empregam alta tecnologia na sua produção registrou, no primeiro trimestre deste ano, seu pior resultado em 22 anos: um déficit de US$ 17,7 bilhões. A previsão é de que o rombo ultrapasse US$ 51 bilhões até dezembro, recorde absoluto.

O governo Dilma faria melhor se promovesse uma ampla e generalizada melhoria nas condições de produção no país, sem se ater especificamente a este ou àquele segmento. Toda vez que elege seus beneficiados, o petismo produz distorções, das quais a atuação do BNDES nos anos recentes é o exemplo mais eloquente.

Melhorar a infraestrutura, reduzir impostos, impedir que o real continue a valorizar-se indefinidamente seriam medidas que surtiriam efeitos mais benéficos e duradouros para o parque produtivo nacional. Mas isso não parece estar ao alcance do governo do PT: demora muito e dá muito trabalho.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A ameaça da desindustrialização

Há tempos um fantasma ronda as discussões econômicas: a indústria brasileira está ou não encolhendo? O processo, chamado de “desindustrialização”, sempre foi negado pelo governo Lula. Não mais, a julgar por documento preparado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e alçado à manchete da edição de ontem do Valor Econômico.

Segundo técnicos do MDIC, a indústria brasileira tem perdido força, deixado de exportar, importado mais e, desta forma, ameaçado a saúde financeira do país. Gerando menos divisas, o país tem se tornado cada vez mais dependente de capitais voláteis para fechar suas contas externas. A saída é exportar mais, receita que o candidato da oposição defendeu durante a campanha eleitoral deste ano.

O centro da questão está no fluxo de comércio atual: o setor secundário da nossa economia exporta cada vez menos e importa cada vez mais. Sendo o segmento que mais agrega valor e gera os empregos mais bem remunerados, resulta disso que estamos mandando nossas melhores oportunidades de trabalho e geração de renda para o exterior.

Tome-se o resultado da balança comercial acumulado de janeiro até outubro. O superávit caiu de US$ 22,5 bilhões em 2009 para US$ 14,6 bilhões agora. São 35% menos, mesmo com as exportações crescendo 30% no período. Ocorre que as importações avançaram muito mais: 43,8% de janeiro a outubro.

Vale lembrar que, para igual período do ano, o país já chegou a ter superávit de US$ 38 bilhões. Foi há não muito tempo, em 2006. O saldo atual já é o menor dos últimos oito anos. Pudera: as impostações estão em nível recorde e equivalem atualmente ao triplo do valor verificado no início da década.

Importar muito não é necessariamente algo ruim. Muitas vezes o país recorre a insumos, matérias-primas e máquinas vindas do exterior para melhorar a qualidade, aumentar a produção e dar maior competitividade ao produto nacional. Em parte isso está ocorrendo no Brasil de hoje. A participação dos importados na economia saltou de 12% para 20% desde 2002, segundo levantamento da Fiesp.

O problema é quando tais importações começam a minar a produção local. Há uma miríade de setores em que isso está ocorrendo. Há muitos empresários fechando as portas no Brasil para ir produzir na China. Eles geram emprego lá, produzem lá e mandam o produto acabado para cá, mantendo a rede de clientes e distribuição que já tinham. Pipocam pelo país exemplos disso.

É o que pode ser observado nos eletroeletrônicos. Segundo a Federação das Indústrias do Amazonas, cerca de 90% dos aparelhos de DVD e áudio consumidos no Brasil vêm do exterior, na grande maioria da China. Antes, eles eram produzidos na Zona Franca de Manaus. O déficit comercial do setor cresceu 80% neste ano: saiu de US$ 7,2 bilhões de janeiro a setembro de 2009 para US$ 12,9 bilhões agora.

A indústria metal-mecânica do Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, também perde espaço. E a siderurgia em Minas Gerais é outra vítima: compra-se aço no exterior a preços até 40% menores do que os praticados internamente.

Como um todo, produtos manufaturados eram 57% das exportações brasileiras no início da década e agora já representam apenas 39%. Em consequência, o segmento registrou déficit comercial de US$ 30,5 bilhões no primeiro semestre, o triplo de três anos atrás. Já a indústria da transformação passou de superávit de US$ 31,9 bilhões em 2005 para déficit de US$ 13,9 bilhões agora.

O principal vilão desta história é o câmbio. Desde 2003, o real se valorizou 89%, segundo o JP Morgan. Foi a mais alta evolução entre os 20 principais países emergentes. Descontada a inflação, o valor está 8% acima de 1998, quando o câmbio era fixo. Disso resulta a perda de competitividade doméstica.

A apreciação do real deve-se a fatores estruturais, como o movimento global de desvalorização do dólar e o aumento do vigor da economia brasileira, que atraem mais divisas para o país. Mas é causada também por um fator conjuntural: a exótica taxa de juros que o Brasil pratica, num momento em que a média mundial é negativa. Um maná para o capital financeiro.

Na reunião do G-20 encerrada na semana passada, foi autorizado aos países emergentes adotar medidas de controle para se contrapor à valorização indesejada de suas moedas. Serve como luva para o caso do Brasil. Pode começar daí o enfrentamento da extensa agenda econômica que espera a presidente eleita.

O cardápio inclui ajuste cambial, a necessária correção nos juros e a redução dos gastos públicos (que gera efeitos positivos em cascata nos demais itens). A boa nova é que o governo do PT finalmente desistiu de negar o óbvio. É o primeiro passo para corrigir o evidente problema que ronda a indústria nacional.