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quinta-feira, 28 de março de 2013

Patinho feio

Bolsas de valores costumam ser associadas apenas ao universo de investidores e especuladores que querem ganhar dinheiro rápido. Nada mais falso. São, na realidade, um bom termômetro da confiança de que a economia de um país desfruta e servem para antever rumos. Neste sentido, o desempenho da nossa bolsa, a Bovespa, tem sido de dar medo.

A bolsa brasileira é uma das três com pior desempenho em todo o mundo neste ano. Isso tem lá seus significados: sugere que o Brasil tornou-se um país pouco atraente para quem quer investir e pouco confiável aos olhos dos empreendedores. Cada vez mais, quem tem dinheiro para empreender e investir parece querer manter distância daqui.

Depois de cinco quedas seguidas, ontem o Ibovespa subiu um pouco. Mesmo assim, desde o pregão de 2 de janeiro acumula baixa de 8,66%. Em todo o mundo, apenas os mercados acionários da Jamaica e do Chipre saem-se pior, segundo o Brasil Econômico. “A ingerência política, o receio dos estrangeiros, a fuga das pessoas físicas, além da expectativa de aumento da taxa básica de juro têm penalizado a bolsa de valores brasileira”, analisa o jornal.

Na outra ponta, a bolsa japonesa sobe 20% no ano e a da Venezuela – talvez por alguma esperança dos investidores de que, sem Hugo Chávez, as coisas por lá melhorem – lidera os ganhos em todo o mundo, com 31,5% neste 2013. É fácil notar que, também nesta seara, o Brasil tornou-se um patinho feio.

Quando o otimismo com determinado país vai em alta, é comum o mercado acionário acompanhar o clima favorável e subir junto. O mesmo se dá na direção contrária: os mergulhos das bolsas indicam quando o país é olhado com desconfiança. Quando o Brasil se ombreia com ilhas como o conflagrado Chipre, alguma coisa vai muito mal.

Em extensa reportagem publicada na segunda-feira, o Financial Times mostra que o mundo passou a ver o Brasil com receio da crescente intervenção do governo na economia e das medidas discricionárias que beneficiam alguns setores em detrimento de outros, distorcendo o ambiente econômico como um todo.

Assusta a miríade de ações tomadas por Brasília para corrigir rumos e tentar remendar uma economia que, estruturalmente, apresenta sérias dificuldades para crescer. “A infinidade de mudanças criou tanta incerteza que investidores nacionais e gestores de fundos estrangeiros começaram a tirar seu dinheiro”, diz o jornal britânico.

Quem quer que se aventure a investir num determinado país conta com algumas pré-condições mínimas. Entre elas estão transparência nas decisões e estabilidade de regras. É tudo o que não tem sido visto no Brasil nos últimos meses.

Intervenções intempestivas e muitas vezes atabalhoadas tomadas pelo governo petista têm posto abaixo a perspectiva de setores inteiros da nossa economia, comprometendo investimentos e, como consequência, a geração de novos empregos e oportunidades de trabalho.

Os exemplos vão do setor elétrico, hoje absolutamente desequilibrado, ao de exploração de petróleo, em que o mau desempenho da Petrobras acaba constrangendo os demais concorrentes. E passa pelos setores regulados, como a telefonia, que vira e mexe são alvos de espasmos punitivos do governo – até justificáveis no conteúdo, mas inadequados na forma.

Hostilizar o investimento privado não parece ser a melhor alternativa para um governo que tem uma carteira de empreendimentos – principalmente em infraestrutura – prontos para serem concedidos, e dos quais a economia brasileira depende bastante para conseguir soerguer-se.

A postura adotada pelo governo brasileiro, também marcada pela visão ideológica que a presidente da República tem da economia, não colabora para que o país reconquiste a confiança de quem pretende investir aqui. Enquanto as ações das nossas empresas não inspirarem o apetite dos investidores, muito provavelmente o Brasil não sairá do lugar. E isso não é especulação.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Mantega em seu labirinto

Guido Mantega voltou a estar em evidência no noticiário. Não pela boa condução da área que lhe cabe no governo, a economia. Mas sim por aquilo que lhe tem sido mais peculiar: os devaneios, o irrealismo, as idas e vindas, o ziguezaguear na condução da política econômica do país. O ministro da Fazenda mais parece alguém enredado em um labirinto de onde não sabe como sair.

A confusão da vez deve-se à declaração dada por Mantega na última sexta-feira em Moscou. Presente lá para uma reunião do G-20, ele informou que os juros serão a arma que o governo brasileiro irá usar para debelar a inflação – que nos próximos meses certamente ultrapassará o teto da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional.

Foi a senha para que os agentes de mercado passassem a apostar numa alta expressiva dos juros ainda neste ano – há quem preveja que a taxa básica possa chegar a 9% ao ano em dezembro, num aumento de quase dois pontos percentuais em relação ao nível atual.

Trata-se de sinal absolutamente contraditório em relação ao que vinha sustentando o Banco Central em suas manifestações oficiais. Em suas últimas atas, o Copom vinha manifestando a intenção de manter a Selic no nível atual (7,25% ao ano) por um “período suficientemente prolongado” de tempo, como “estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta”.

Exatamente uma semana atrás, o ministro da Fazenda manchetara os jornais brasileiros em pleno sábado de Carnaval por ter afirmado que o governo poderia permitir um piso mais baixo para a cotação do dólar (R$ 1,85) como forma de baratear importações e ajudar a combater a inflação. Não se conhece as armas que a gestão petista pretende usar, mas uma certeza há: eles não sabem o que fazem.

Ainda que as manifestações de Mantega valham tanto quanto uma nota de três reais, constata-se que: 1) o governo Dilma está mais assustado do que gostaria de transparecer com o descontrole inflacionário; 2) as perspectivas da economia são mais sombrias do que vem sendo dito; e 3) o arsenal de pirotecnias não foi suficiente para dar conta dos problemas de condução da política monetária, mais especialmente em relação à escalada dos preços.

A consequência imediata da má condução dos assuntos da economia pelos petistas é a perda de credibilidade da política econômica brasileira. Ato contínuo, arrefece também o ânimo dos empreendedores privados em acreditar no Brasil. Consequentemente, sem investimentos o país tende a manter-se estagnado como esteve nestes dois últimos anos – as previsões para 2013 e 2014 voltaram a cair, de acordo com o Boletim Focus desta segunda-feira.

“As novas declarações do ministro Mantega passam a impressão de que o governo brasileiro não sabe o que quer”, comentou Celso Ming n’O Estado de S.Paulo de sábado. “Não há mais espaço para voluntarismo na política econômica”, cobra a Folha de S.Paulo em editorial em sua edição de hoje.

Por seu otimismo delirante e muitas vezes irresponsável, Guido Mantega já virou motivo de piada em salões internacionais. A imprensa estrangeira especializada já lhe taxou a pecha de rei do “jeitinho”, em alusão às manobras contábeis de que o governo petista passou a lançar mão para fechar as contas públicas. O Financial Times já disse que os condutores da política econômica brasileira “não têm ideia do estão fazendo” em relação ao câmbio.

As declarações erráticas do ministro da Fazenda são apenas a manifestação mais evidente de um governo desnorteado. Há um problema sério à vista, o da inflação, sem que se saiba como debelá-lo. Há um desafio crônico, a falta de crescimento, sem que se faça ideia de como agir para reativá-lo. O que a presidente da República tem a dizer a respeito?

No clássico livro de Gabriel Garcia Márquez, o general enredado em seu labirinto espera a morte chegar. Nos seus dias finais, delira e mistura o que é sonho e o que foi realidade. Na ficção, é um assunto para uma bela história. Mas, na vida real, não é aceitável ter um ministro da Fazenda que não saiba como tirar o país da encalacrada em que ele o enfiou.