O péssimo desempenho registrado atualmente pela indústria automobilística ilustra o tamanho da crise em que a economia brasileira está mergulhada. Também descortina no horizonte o fantasma das demissões. Podemos estar na antessala do aumento do desemprego.
Se a política econômica adotada pelo governo Dilma Rousseff prestasse, as montadoras deveriam ser o último setor a enfrentar problemas. Foram o segmento mais contemplado com medidas de desoneração tributária nos últimos anos. Vê-se que as iniciativas de Brasília não passaram de remendos.
Desde 2006 as fábricas de automóveis não produziam tão pouco num mês de julho. No ano, a queda acumulada supera 17%. No mesmo período, as exportações caíram 35% e as vendas, quase 9%, só devendo começar a se recuperar no fim de 2015, segundo O Globo. Se isso não é crise, o que mais poder ser?
O setor automotivo fornece uma amostra das dificuldades da indústria brasileira como um todo. A queda na produção de veículos é responsável por 75% de toda a retração industrial no acumulado deste ano até junho, registra a Folha de S.Paulo.
O lado mais perverso da moeda é o desemprego. Só as montadoras cortaram 7 mil vagas neste ano, o que equivale a 4,2% do total. Apenas em junho, a indústria como um todo fechou 28 mil postos.
Além de milhares de vagas fechadas, a indústria tem recorrido à suspensão temporária de contratos de trabalho. Os chamados layoffs, que podem perdurar até cinco meses, têm se tornado cada vez mais comuns. O passo seguinte são as demissões.
Entre janeiro e julho deste ano, 12 mil trabalhadores entraram em regime de layoff, segundo O Globo. Neste particular, a situação só não é pior que a vivida em 2009, quando o país amargava a pior fase da crise global detonada no ano anterior.
O governo, porém, insiste que não há nada de errado com a economia, com a indústria em particular, nem com suas políticas erráticas. Para o petismo, a crise é externa, jamais causada por razões internas.
O problema não é apenas o diagnóstico errado. O governo nega que sejam necessárias correções de rumo na condução de sua política econômica, como fez Dilma ao participar de sabatina na CNI na semana passada. Sem admitir erros, não há como corrigi-los.
As dificuldades que vão se alastrando expõem os limites dos pacotes de estímulos fabricados aos borbotões em Brasília nos últimos anos. Foram gambiarras, paliativos, algo que, define bem o dicionário Houaiss, serve apenas para “atenuar um mal e protelar uma crise”. Pelo jeito, o efeito passou e a dor agora pode vir mais forte.
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sexta-feira, 8 de agosto de 2014
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
A inflação do airbag
É simbólico que o governo da presidente Dilma Rousseff encerre o ano recorrendo até a airbag de automóvel para segurar a inflação. É a melhor tradução da falta de controle que a gestão da petista tem sobre a evolução dos preços no país. E o atestado cabal de que os níveis oficiais da inflação brasileira só se sustentam à base de toda a sorte de manipulações.
Depois de segurar as
tarifas de ônibus, derrubar na marra as de energia e praticamente quebrar a Petrobras
para tentar impedir que a inflação acelerasse ainda mais, agora o governo federal
acena com a possibilidade de adiar o início da adoção de uma importante medida
de segurança nos automóveis produzidos no país.
A partir do ano que
vem, airbags e freios ABS tornam-se obrigatórios em todos os veículos fabricados
em montadoras instaladas no Brasil. Trata-se de iniciativa destinada a aumentar
a segurança dos modelos nacionais, considerados “mortais” neste quesito: num
teste realizado em novembro, 11 de 26 modelos produzidos no Brasil foram
considerados inseguros pelas normas internacionais.
A obrigatoriedade dos
dois itens foi estabelecida em abril de 2009, por meio de resolução do Contran.
Ou seja, lá se foram mais de quatro anos para que as montadoras se adaptassem...
Hoje 70% dos carros brasileiros não dispõem destes equipamentos, cujo uso é
capaz de reduzir em 29% o risco de lesão grave ou morte, segundo estudo do Insurance
Institute for Highway Safety citado por O Globo.
Na semana passada,
Guido Mantega disse que estuda adiar o início da vigência da nova regra. Alega que
a instalação dos itens irá encarecer os modelos – fala em algo como 9% – e
poderá esfriar as atividades da indústria automobilística. O ministro acena com
a possibilidade de postergar e escalonar a obrigatoriedade, isto é, apenas um
percentual da produção precisaria dispor dos airbags e freios mais seguros a
partir de 2014.
A atitude de Mantega
reflete a maneira com que o ministro da Fazenda administra a economia do país:
na base do salve-se quem puder. A mesma lógica do improviso vale para o atual desempenho
fiscal do governo, moldado à base de manipulações de toda ordem que já drenaram
quase toda a credibilidade de que o sistema dispunha.
Oficialmente, a inflação
no país gira hoje em torno de 5,7% anuais. O governo faz de tudo para que ela
feche o ano um pouquinho menor do que em 2013, quando chegou a 5,84%. Nesta altura,
qualquer diferença depois da vírgula está servindo e, para tanto, qualquer
ajudinha é bem-vinda pelo pessoal da equipe econômica.
No bolso das
famílias, porém, a inflação não fica apenas nisso. Preços livres – que o
governo não controla – aumentam cerca de 7,5% no ano e os serviços, mais de 8%,
enquanto os administrados sobem apenas 1%. É quase certo que, no ano que vem, itens
que estão com preços deprimidos, como a gasolina e a energia elétrica, subirão
mais e mais rápido.
Os mecanismos
artificiais de controle da inflação adotados pelo governo foram fazendo vítimas
pelo caminho, sendo a mais vistosa delas a Petrobras. Agora, é também a
segurança dos motoristas que é rifada em nome de uma estabilidade que, hoje, só
existe à custa de muita maquiagem. Inflação baixa só é mérito se, de fato, refletir
a realidade. Não é o que ocorre hoje no Brasil.
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