Quem tiver imaginado que o período eleitoral que se avizinha seria um passeio para a economia brasileira pode ir tirando o cavalo da chuva. A temporada se anuncia turbulenta, ressuscitando riscos e temores que a incipiente recuperação da atividade ainda não se mostrou capaz de afastar.
O indicador mais sensível ao nervosismo tem sido o comportamento do dólar. Nas últimas semanas, a moeda americana vem ensaiando uma escalada e caminha para protagonizar nesta eleição o mesmo papel de termômetro que desempenhou em outros momentos de encruzilhada, como na primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002.
Até agora a moeda americana já se valorizou 7% no ano. Os efeitos previsíveis vão de impacto na inflação (provavelmente pouco relevante, em razão de outros fatores), encarecimento de produtos importados e maior dificuldade para a realização de investimentos de longo prazo. De positivo, as exportações do país passam a valer mais.
Mas o dólar pode ser apenas um sintoma mais evidente de inquietações latentes, ainda não afloradas, mais desconsertastes.
A economia brasileira como um todo tem se mostrado menos animada do que se imaginava até o início do ano. A retomada da atividade está mais capenga do que o país necessita para superar o estrago da recessão petista.
Há condições gerais positivas para a aceleração do crescimento, mas fatores subjetivos estão travando o ímpeto de firmas e consumidores. Se, por um lado, a queda expressiva da inflação e o corte profundo na taxa básica de juros deveriam estimular os agentes, por outro o cenário eleitoral inspira cautela, para dizer o mínimo.
O temor é de que a trilha que permitiu ao país deixar para trás a recessão e ensaiar a reativação da atividade, com efeito benéfico sobre o mercado de trabalho, não tenha continuidade. O cenário fiscal – com ou sem recuperação – não colabora. As alternativas que hoje despontam em melhores condições na corrida eleitoral colaboram para que a luz amarela acenda.
Este é um tema que precisa ser tratado como central na disputa presidencial. O país corre, efetivamente, riscos de cair de novo na vala das políticas malucas e irresponsáveis que levaram nossa economia para o buraco – e milhões de brasileiros para a fila da busca do emprego. A escolha do eleitor precisa levar em conta esta ameaça concreta.
As candidaturas realmente comprometidas com a recuperação do país, com a responsabilidade e com a solidez daquela que é a oitava maior economia do mundo não podem se furtar a travar o combate franco e aberto com as forças que querem puxar o Brasil de volta para um passado que só nos oferece uma garantia: o atraso.
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sexta-feira, 27 de abril de 2018
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
O risco Dilma
A última vez que o dólar explodiu foi há 13 anos. Era o temor de que, se chegasse à presidência da República, o PT tocaria fogo no país. Pois as cotações de agora ultrapassaram às da véspera das eleições de 2002. Antes, temia-se o chamado risco Lula, agora há a certeza do desastre Dilma.
A cotação do dólar subiu mais um tanto ontem e chegou a inéditos R$ 4,05. O real é a moeda que mais perdeu valor em 2015. Desde janeiro, a alta é de 52%.
A cotação do dólar subiu mais um tanto ontem e chegou a inéditos R$ 4,05. O real é a moeda que mais perdeu valor em 2015. Desde janeiro, a alta é de 52%.
A escalada ganhou ímpeto em julho, quando o governo primeiro reduziu a meta fiscal para este e o próximo ano. E acelerou de vez desde a desastrosa decisão de enviar ao Congresso um orçamento com déficit, e abandonar qualquer compromisso com a responsabilidade fiscal.
Ato contínuo, o rebaixamento da nota de risco do Brasil pela Standard & Poor’s traduziu em ação o que era percepção difusa: a de que o país não é mais confiável a investidores. Ninguém consegue prever aonde a cotação do dólar, tampouco o desalento econômico, vai parar.
Dólar caro não incomoda apenas quem quer brincar na Disney. Afeta diretamente a vida de todos, ao tornar produtos importados muito mais caros. É inflação na veia do país, o que torna a contenção da carestia algo ainda mais difícil, depois de anos de leniência do governo do PT com a alta dos preços. Ninguém mais crê em inflação na meta num horizonte visível.
Os investidores também dobraram seu temor diante de risco de quebradeira, o que se traduz em quanto cobram por uma espécie de seguro contra calotes por parte do país. Desde julho, a alta nos prêmios é de 70%, levando o Brasil a pagar, por exemplo, mais que o dobro do que paga o México. Por este parâmetro, investir aqui só não é mais arriscado do que em outros quatro países (Venezuela, Grécia, Ucrânia e Paquistão).
Em 2002, quando lidaram com a expectativa de chegada do PT ao poder, os agentes econômicos traduziram seu receio com o imponderável que estava por vir a partir da vitória de Lula por meio de brutal alta do dólar, da fuga de investimentos e de uma desconfiança generalizada no país, traduzida em baixo crescimento e alta inflação.
Qualquer semelhança com a realidade atual não é mera coincidência. Com a crucial diferença de que, agora, um governo do PT não é mais uma incógnita e sim algo sobejamente conhecido – e, por todos os sinais emitidos não apenas pelo mercado, mas por toda a sociedade brasileira, amplamente indesejável.
O país paga alto preço pela maneira irresponsável, errática, hesitante, equivocada com que a presidente da República conduz o Brasil desde 2011. O dólar alto é apenas uma das contrapartes da falta de credibilidade da petista e da perda de confiança no país. O que era apenas temor tornou-se fato, desastre consumado. É o risco Dilma que dispara.
Ato contínuo, o rebaixamento da nota de risco do Brasil pela Standard & Poor’s traduziu em ação o que era percepção difusa: a de que o país não é mais confiável a investidores. Ninguém consegue prever aonde a cotação do dólar, tampouco o desalento econômico, vai parar.
Dólar caro não incomoda apenas quem quer brincar na Disney. Afeta diretamente a vida de todos, ao tornar produtos importados muito mais caros. É inflação na veia do país, o que torna a contenção da carestia algo ainda mais difícil, depois de anos de leniência do governo do PT com a alta dos preços. Ninguém mais crê em inflação na meta num horizonte visível.
Os investidores também dobraram seu temor diante de risco de quebradeira, o que se traduz em quanto cobram por uma espécie de seguro contra calotes por parte do país. Desde julho, a alta nos prêmios é de 70%, levando o Brasil a pagar, por exemplo, mais que o dobro do que paga o México. Por este parâmetro, investir aqui só não é mais arriscado do que em outros quatro países (Venezuela, Grécia, Ucrânia e Paquistão).
Em 2002, quando lidaram com a expectativa de chegada do PT ao poder, os agentes econômicos traduziram seu receio com o imponderável que estava por vir a partir da vitória de Lula por meio de brutal alta do dólar, da fuga de investimentos e de uma desconfiança generalizada no país, traduzida em baixo crescimento e alta inflação.
Qualquer semelhança com a realidade atual não é mera coincidência. Com a crucial diferença de que, agora, um governo do PT não é mais uma incógnita e sim algo sobejamente conhecido – e, por todos os sinais emitidos não apenas pelo mercado, mas por toda a sociedade brasileira, amplamente indesejável.
O país paga alto preço pela maneira irresponsável, errática, hesitante, equivocada com que a presidente da República conduz o Brasil desde 2011. O dólar alto é apenas uma das contrapartes da falta de credibilidade da petista e da perda de confiança no país. O que era apenas temor tornou-se fato, desastre consumado. É o risco Dilma que dispara.
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
O preço da imprevidência se paga em dólar
A primeira reação do governo à problemática escalada do dólar tem sido a de sempre: culpar o mordomo. Na visão petista, o responsável por todas as nossas mazelas é o resto do mundo. Quando o país vai bem, é por mérito próprio; quando vai mal, é por causa dos outros. Está na hora de começar a assumir que as dificuldades estão aqui dentro mesmo.
A primeira atitude a tomar deveria ser tratar a situação,
que é severa, com realismo. De nada vai adiantar continuar sustentando que está
tudo sob controle, que a perspectiva é positiva, e que o que pode e deve ser
feito já foi feito. O governo precisa mostrar-se pronto para reagir e evitar
que o pior prevaleça.
Até agora não é isso o que tem se visto. Ontem, a presidente
Dilma Rousseff voltou a vender facilidades, quando o mais adequado seria
admitir fragilidades e começar a atuar mais firmemente. Ela disse
novamente – em entrevistas a rádios paulistas, durante mais uma de suas viagens
com viés tipicamente eleitoral – que a inflação “está sob controle”. Todos sabemos
que não está.
Na realidade, a inflação só não foi totalmente para o espaço
até agora porque o governo está garroteando os preços administrados, como
combustíveis e eletricidade. Na média, eles só subiram 1,3% nos últimos 12
meses, na menor variação desde a criação do regime de metas, em 1999. Em
contrapartida, os preços livres sobem 7,9%. Esta é, pois, a verdadeira inflação
que os brasileiros experimentam no seu dia a dia. E com o dólar mais alto, vai
doer mais ainda.
Já Guido Mantega prefere ignorar os riscos que a disparada
do dólar pode causar na nossa economia como um todo. O ministro opta por ver
apenas os efeitos positivos do dólar mais caro sobre os ganhos das empresas
exportadoras – que até existem, mas, diante da larga maré negativa, tornam-se bem
menos relevantes. Otimismo demais numa hora destas soa como alheamento.
O que está acontecendo, na realidade, é que o Brasil está
pagando a conta de um histórico de imprevidência que o governo petista fez o país
incorrer ao longo dos últimos anos. Como a cigarra da fábula, atravessamos os áureos
tempos da bonança econômica mundial, entre 2004 e 2008, sem investir em criar condições
favoráveis para sobreviver quando o inverno chegasse e a onda virasse.
Quando o mundo todo afundou em crise, a partir de 2009, o
Brasil optou por uma estratégia que, no primeiro momento, até se mostrou
correta: incentivar o consumo. Mas, uma vez superadas as dificuldades iniciais,
o governo continuou insistindo na mesma receita quando a maré já era outra e
nosso problema era de excesso e não de falta de demanda.
Chegamos a 2013, depois de dois anos de desempenho medíocre
da nossa economia sob o comando de Dilma, com um cenário turvo pela frente e
sem apresentar credenciais para poder surfar na onda quando o crescimento
mundial embicar, novamente, para cima, o que pode ocorrer assim que a economia
dos EUA firmar sua recuperação. As perspectivas que o país hoje oferece são
desanimadoras.
O que poderia ter sido feito e não foi? Quando o país estava
na crista da onda, o governo brasileiro deveria ter criado condições para que o
investimento privado florescesse, mas investiu suas melhores energias no agigantamento
da presença do Estado na vida de todos. Sufocou, com isso, boa parte do “espírito
animal” dos empreendedores, dos grandes aos pequenos.
Descuidou, também, do dinheiro que recebe dos contribuintes,
torrando-o impunemente. Jamais se preocupou em domar a escalada dos gastos públicos
improdutivos. Recusou-se a manifestar compromisso mais sério com a
responsabilidade fiscal e, talvez o mais grave de tudo, tratou a inflação como
se fosse intriga de críticos e da oposição, esquecendo que quem mais sofre com a
escalada dos preços são os brasileiros pobres.
É por este conjunto da obra que o governo Dilma pena agora
para enfrentar uma confluência de adversidades que, em boa medida, ele mesmo
semeou. O que o país precisa para reagir, a presidente não tem para entregar: regras
claras e transparentes para investimentos, compromisso firme com a boa gestão,
seriedade no trato da coisa pública. A partir de agora, esta conta amarga vai ter
de ser paga em verdinhas. E com um dólar cada vez mais caro.
terça-feira, 20 de agosto de 2013
O real furado
O dólar está subindo a ladeira e se transformou na mais nova dor de cabeça de uma economia já atolada em problemas. Em quase todos os aspectos, a alta da moeda norte-americana é negativa para o Brasil. E numa coisa ela é especialmente nefasta: a disparada vai doer no bolso dos brasileiros.
Na sexta-feira, o dólar atingiu a mais alta cotação desde
março de 2009. Em apenas uma semana, a valorização foi de 5,28%. No ano, a
escalada chega a 16,2%. Não há como um aumento desta magnitude não afetar
severamente os preços dos produtos e, consequentemente, a nossa inflação.
Estima-se que cada 10% de valorização do dólar resulte em
mais 0,5 ponto percentual nos índices anuais de preços. Há quem preveja que a cotação
chegue a R$ 2,70 até o fim deste ano, o que representaria alta de 13% sobre o
valor que a moeda atingiu na semana passada (R$ 2,39).
A alta do dólar é um fenômeno global, causada pelas mudanças
recentes na política econômica dos Estados Unidos. Mas está sendo
particularmente perversa com o Brasil. O real é a segunda moeda que mais perdeu
valor no mundo neste ano – apenas o rand sul-africano cai mais. Isso sugere que
nossas condições podem estar piores que as de outras economias.
Há um mix de razões para explicar a queda do real. O Brasil consome
demais, não consegue produzir o suficiente e é forçado a importar. Por isso,
tem uma balança comercial desequilibrada – que pode fechar no vermelho depois
de 13 anos no terreno positivo – e também um déficit externo muito alto, que se
aproxima perigosamente de 4% do PIB – estima-se que chegue a US$ 77 bilhões
neste ano e se repita em 2014, de acordo com o Boletim Focus do
Banco Central.
Nossos produtos ficaram caros demais e perderam capacidade
de concorrer no mercado. Nossa perspectiva de crescimento é medíocre, na melhor
das hipóteses, e desastrosa, na pior. Nossa inflação está entre as mais altas
das economias minimamente organizadas. Tudo isso ajuda a entender por que o
nosso real está furado.
“O câmbio tem a ver com o que acontece no Brasil, não só com
o cenário externo. Existe um certo desânimo com a economia brasileira. Há uma
noção de que o Brasil não está indo bem. Quando o governo faz truques nas
contas fiscais, cria-se desconfiança sobre a seriedade do Brasil com as metas
fiscais”, sintetiza o economista José Alexandre Scheinkman n’O Globo.
O mais doloroso é que a alta do dólar vai prejudicar o
bem-estar dos brasileiros, piorar sua condição de vida, dificultar a sobrevivência.
Grosso modo, com a queda verificada pela nossa moeda neste ano, estamos – todos
nós: cidadãos, empresas, governos – 16% mais pobres.
O governo petista já admite que o dólar alto veio para ficar
– na sexta-feira, Guido Mantega afirmou
que a moeda subiu para um “novo patamar” e ajudou a cotação a aumentar um
pouquinho mais. O pior é que, dado o estado geral da economia, não há muito que
fazer para estancar a sangria.
A escalada do dólar chega num momento em que a inflação já
está muito alta, lambendo o teto da meta. Se a presidente da República acha que
os preços estão “completamente sob controle”, como afirmou
precipitadamente há duas semanas, logo verá que o buraco é mais embaixo. E nós é
quem vamos pagar o pato...
A gestão petista vai provar, da pior maneira, do remédio
amargo da imprevidência. Um choque nos preços decorrente da alta do dólar poderia
estar sendo amortecido pelo regime de metas, com o auxílio da política monetária.
Mas não há mais muita margem para subir ainda mais os juros sem nocautear de
vez o crescimento da nossa economia. Este beco não tem saída.
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