O ambiente econômico tornou-se um pouco mais desafiador nesta semana, após as piruetas dadas pelos mercados financeiros globais nos últimos dois dias. Para o Brasil em particular, as consequências imediatas são, pelo menos, duas: sobre a agenda de reformas e sobre os rumos da política monetária.
A turbulência – que alguns apelidaram de “crash relâmpago”, em razão da severidade e da rapidez do mergulho dos preços dos ativos – coloca em questão a continuidade da situação benigna que o ambiente externo tem propiciado à economia brasileira. O dinheiro que (ainda) sobra no mundo ajuda a estimular negócios aqui.
Até a última segunda-feira, noves fora arroubos fora de hora, como os que o governo Donald Trump é capaz de cometer, não se vislumbravam riscos maiores nos próximos meses. Não mais. Alguns acreditam que o longo período de bonança – que levou bolsas de valores a patamares recordes e, no caso dos EUA, a desemprego baixíssimo e crescimento sustentado, acompanhados de juros minúsculos – pode estar com dias contados.
É mais um recado, se ainda era preciso, para o Brasil. Em especial, para suas lideranças e, mais em particular ainda, para aqueles que têm a responsabilidade de votar matérias no Congresso Nacional. Os ventos que sopram do norte podem ser bem mais gelados do que se imagina.
O Brasil vive bom momento econômico a despeito do desastre expresso no desempenho de suas contas públicas, o amargo legado petista do qual demoraremos mais tempo para nos livrar. É como se, com dinheiro em profusão no mundo, investidores fizessem vista grossa ao alto risco que o descontrole fiscal carrega consigo.
As reformas do Estado, sobretudo a da Previdência, têm condão de começar a atacar o problema do desequilíbrio orçamentário de forma mais contundente e duradoura. Parte dos parlamentares, contudo, prefere achar que é melhor deixar como está para ver como é que fica. É namorar o precipício.
Parcialmente revertida ontem, a reviravolta dos mercados financeiros também deverá ter consequências na resolução que o Comitê de Política Monetária tomará hoje a respeito da taxa básica de juros brasileira.
Até agora, esperava-se novo corte, capaz de trazer a Selic para 6,75% ao ano, onde, provavelmente, deve estacionar por período longo. Agora a decisão tornou-se uma incógnita: juros possivelmente mais altos nos EUA exigem juros mais altos também no resto do mundo.
Os eventos desta semana ensinam que aquilo que, por ora, não passou de susto pode tornar-se pesadelo. Sem reformas, o Brasil é uma espécie de mero caroneiro na prosperidade global. Para não brincarmos com fogo, o melhor a fazer é deixar de empurrar os problemas com a barriga. Votar já uma verdadeira reforma da Previdência tornou-se ainda mais imperativo.
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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
O Brasil na tempestade
O tempo fechou para
as economias dos países ditos emergentes. E o Brasil está para se molhar na
tempestade que se prenuncia no horizonte. O país teve tempo de sobra para se
preparar para turbulências mais sérias, mas a opção da gestão Dilma foi tentar empurrar
os problemas com a barriga, na esperança de que o mandato acabasse logo. Não vai
dar.
Os últimos dias têm
sido de desconfiança generalizada nas economias emergentes, com alta de taxas
de juros e desvalorização das moedas. O dinheiro que andou por estes lados nos
últimos tempos está voando para países mais robustos e economias que ora
ensaiam recuperar-se, como é o caso da americana.
Ontem mais um passo
foi dado, com o banco central dos EUA (Fed) anunciando que vai reduzir ainda
mais a injeção mensal de recursos na economia de lá. Serão US$ 10 bilhões a
menos a partir do mês que vem. A iniciativa não surpreende, pois é parte de um
processo que acompanha a recuperação econômica americana – que deve crescer
2,8% neste ano.
O mais surpreendente
é alguns países serem pegos de calça curta no meio deste processo, como é o
caso do Brasil. O rebuliço global nos abalroa num momento em que o país só tem
resultados ruins para mostrar ao mundo. Fruto da leniência com que a presidente
Dilma Rousseff conduziu nossa economia, prescindindo de prepará-la para uma
etapa que sempre se anunciou difícil.
Durante longo tempo,
a gestão petista insistiu que os contratempos enfrentados aqui dentro não eram problemas
nossos, mas sim causados pelas outras economias. Com este diagnóstico
equivocado, eximiu-se de tomar as medidas necessárias para resguardar a solidez
das contas públicas, manter o crescimento e segurar a inflação. O resultado é
que, em todos estes quesitos, vamos agora muito mal.
No mesmo instante em
que a economia global mostra-se convulsionada, o Brasil apresenta-se aos olhos
do mundo como um país em que as contas públicas são despudoradamente manipuladas
pelo governo e compromissos fiscais são desdenhados. Surge também como uma
economia em que a inflação mostra-se alta e renitente, mas nem assim é
combatida com o vigor devido pela política econômica.
Além disso, temos
nossas fraquezas nas contas externas, acossadas por déficits nas transações que
mantemos com o resto do mundo. Em serviços, por exemplo, temos rombo de US$ 47
bilhões, o maior que já se viu, como informa hoje o Valor Econômico. Na indústria, a situação é ainda mais catastrófica: déficit
de US$ 105 bilhões no ano passado, informou O Estado de S.Paulo há duas semanas.
Tais comportamentos
levaram o resultado das nossas contas externas a um buraco recorde em 2013. O saldo negativo nas transações correntes – que computam receitas e
despesas com a negociação de bens, serviços e doações feitas entre residentes
no país e pessoas no exterior – cresceu 50% em relação a 2012, chegando a US$
81,4 bilhões, ou 3,7% do PIB. Péssimas credenciais a mostrar numa hora como
esta...
Estes são dados que
falam por si. Mais que isso: berram por si. Mas a presidente da República e
seus gestores econômicos agem como se eles não existissem ou como se pudessem ser ignorados. Só isso explica, por exemplo, a tibieza com que Dilma se
apresentou à plateia de Davos, há uma semana, jogando fora uma chance de ouro
de diferenciar-se de outras economias em desgraça.
A presidente passou
pela Suíça como quem vai a passeio, como quem apenas cumpre mera etapa de um
rolezinho pela Europa – com escala devidamente reconfortante em Portugal... Poderia
ter se apresentado para a nata que forma a opinião no mundo das finanças
globais como a chefe de um país que pretende retomar a rota da boa governança. Mas
simplesmente limitou-se a defender supostas virtudes de um modelo fracassado. Falhou
redondamente, e num momento crucial.
Diferentemente dos países
que ora afundam com a crise global, o Brasil teve oportunidade e tempo para
preparar-se e afastar-se da onda de desconfiança, incertezas e descrédito. Mas as
iniciativas tomadas pelo governo da presidente Dilma Rousseff nos levaram na direção
contrária. Ao invés de fugir da tempestade, o país corre risco de chafurdar no
mesmo atoleiro em que penam hoje os demais emergentes.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Ziguezague na economia
O pacote de incentivos anunciado ontem pelo governo coroa um ano em que a tônica da política econômica petista foi de ziguezague. O país começou 2011 acelerado, viu a inflação decolar, puxou o freio de mão em seguida e reage agora a um resfriamento que começa a se generalizar no setor produtivo. Fomos do ápice ao vale sem saber ao certo aonde se quer chegar. Tudo em excesso e descalibrado.
As medidas divulgadas ontem representam renúncia fiscal de R$ 7,6 bilhões. Em termos monetários, equivalem um terço da desoneração feita em 2009, no auge (pelo menos até agora) da crise econômica mundial. O objetivo é incentivar o brasileiro a consumir, receita idêntica à adotada por Lula naquela ocasião. Dará certo agora, num cenário diferente?
O governo teme que, assim como ocorreu em 2009, a economia mergulhe no ano que vem. Neste ano, o crescimento já será, na melhor das hipóteses, igual a apenas metade do que foi em 2010. No terceiro trimestre, o PIB cresceu no máximo zero ou pode mesmo ter caído – os números oficiais do IBGE sairão na semana que vem.
O pacote inclui redução de imposto para bens de consumo duráveis, como geladeiras e fogões; diminuição de IOF sobre operações financeiras; desoneração de massas e trigo; e aumento do limite de financiamento para moradias, no âmbito do programa Minha Casa, Minha Vida. Junta, pois, alhos com bugalhos. Para impulsionar a produção brasileira como um todo, nada.
O ministro da Fazenda sintetizou numa frase que pretendia ser de efeito os resultados que busca com suas medidas: “Você compra uma casa mais barata, um fogão novo e cozinha a massa desonerada de PIS/Cofins. O consumidor brasileiro pode ficar tranquilo, seu emprego está assegurado”. Vê-se como é de longo prazo a visão de Guido Mantega...
Ontem, houve duas reações imediatas às novas medidas: redução de preços por parte de varejistas e aumento dos juros projetados pelo mercado financeiro. A leitura que se faz é de que, ao estimular o consumo, o governo tira o espaço da política monetária e, assim, perde a oportunidade de cortar a taxa de juros com mais força, como mostra o Valor Econômico.
Os efeitos mais prováveis das medidas, segundo boa parte dos analistas ouvidos pela imprensa, será a mera antecipação de consumo futuro. O consumidor corre para aproveitar o imposto menor e leva um fogãozinho novo para casa. Benefícios duradouros para a economia como um todo? Nem pensar.
“Os estímulos são dirigidos muito mais ao consumo do que ao investimento produtivo. Nenhuma providência séria para estimular o investimento, a inovação e o ganho de competitividade foi tomada”, opina O Estado de S.Paulo em editorial, que classifica o pacote como “medíocre”.
Como é praxe na gestão do PT, as medidas atuam sobre setores produtivos muito específicos – aliás, os beneficiados de sempre. “O que mais chama a atenção nesse tipo de estratégia é o caráter discricionário das medidas. O governo escolhe os vencedores. Determina quem se beneficia”, comenta José Júlio Senna no Estadão. Quem se sai melhor, como sempre, são os setores mais bem organizados e que se mobilizam com maior desenvoltura.
Terminando o primeiro ano da gestão Dilma Rousseff, não se viu até agora um plano estruturado e abrangente capaz de fazer a economia brasileira avançar com persistência. Continuamos indo aos sobressaltos: ora é preciso acelerar, ora frear. É como se estivéssemos num carro desgovernado. “O capital político do início do mandato foi queimado sem que se soubesse qual é o projeto do governo”, sintetiza Míriam Leitão n'O Globo.
A percepção atual é de que as medidas tomadas no primeiro semestre para segurar a inflação foram fortes em excesso. A economia congelou. Agora fica a dúvida se os estímulos monetários, de crédito e fiscais que estão sendo ora retomados não colaborarão para manter atiçada a fogueira dos preços – que ninguém é capaz, nesta altura, de garantir que esteja sob controle.
Com as medidas anunciadas ontem de afogadilho, o governo pode até ter conseguido um respiro para os próximos dias ou semanas. Mas continua sem garantir instrumentos robustos e capazes de sustentar a atividade econômica por tempo mais prolongado. O curto prazo continua sendo o máximo de horizonte que a gestão petista nos oferece.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Na lanterna dos afogados
O Brasil foi novamente o patinho feio do dia mais feio dos mercados financeiros globais desde 2008. As ações de empresas brasileiras, reunidas no índice Bovespa, foram, de novo, as que mais caíram no mundo – exceção feita às argentinas, que contam pouco na ciranda global. Por que o país está sendo tão castigado?
A Bovespa caiu ontem 8,08%, ampliando para 29,78% as perdas no ano. Entre 91 índices acompanhados pela agência Bloomberg, o da bolsa brasileira lidera as quedas. Apenas nesta segunda-feira negra, as empresas listadas na bolsa de São Paulo perderam R$ 174 bilhões em valor de mercado.
A crise desencadeada desde a última semana e agravada agora pelo rebaixamento da dívida pública norte-americana fez o Ibovespa encolher dois anos em poucos dias. O índice recuou ontem para o patamar de 30 de abril de 2009.
Petrobras e Vale estão entre as empresas mais machucadas. Só ontem, suas ações caíram 7,8% e 9,4%, respectivamente. A estatal perdeu R$ 66,6 bilhões em valor de mercado desde a última semana; a mineradora, R$ 51 bilhões.
Petrobras e Vale sofrem, em parte, porque negociam commodities, cujas cotações encaram agora perspectiva de forte queda no mundo. Mas sofrem também porque viram seus negócios capturados pelo governo federal. A ingerência espúria dos últimos meses cobra agora um preço altíssimo.
Analistas ouvidos pelos principais jornais prognosticam que a crise deve bater no Brasil, principalmente, por meio do recuo das cotações das commodities. Com preços muito altos, tais produtos – em especial, soja, minério de ferro e açúcar – ajudaram a turbinar a entrada de capital externo no país. A fonte deve parar de jorrar.
Cairão as exportações e, com elas, a oferta de capital para financiar as contas externas. Como as vendas deste ano já estão, na maior parte, contratadas, o resultado de 2011 não deve se alterar. Mas já há quem preveja déficit comercial no ano que vem.
O crescimento do PIB também ficará comprometido. Ontem mesmo, o ministro Guido Mantega já cuidou de preparar o país para um nível mais baixo que os 4% que o governo Dilma vinha prevendo. “Não podemos fazer milagre”, afirmou ele.
A percepção dos investidores sobre o Brasil já vinha se deteriorando, segundo o Valor Econômico. O jornal cita análise feita pelo Instituto Internacional de Finanças segundo a qual houve aumento das “incertezas sobre a direção da política [econômica]” e do “sentimento de baixa que tem pesado tão fortemente sobre o mercado de ações brasileiro este ano”.
“A aversão global ao risco já vinha se refletindo na redução de 70% do fluxo de investimentos de portfólio para o Brasil no primeiro semestre, comparado ao mesmo período de 2010. O fluxo para títulos de dívida também caiu 25% em relação ao segundo semestre do ano passado”, ressalta o Valor.
A resposta mais esperada pelos analistas brasileiros à crise deve ser o corte dos juros e a redução dos depósitos compulsórios dos bancos. Em suma: uma ação preferencialmente monetária, e não fiscal, como ocorreu em seguida à crise de 2008 quando o governo Lula afrouxou os gastos públicos e insuflou a inflação que até hoje tentamos debelar.
Outro aspecto escamoteado e algo obnubilado pela farra do endividamento que vivem outros países é que o Brasil também tem um nível alto de dívidas. A bruta chegou a bater em 64% do PIB em outubro de 2009 e hoje está em 56% do PIB, nível quase idêntico ao de setembro de 2008.
“Reduzir para valer os gastos em custeio é uma medida de segurança diante da possibilidade crescente de haver algum impacto mais forte proveniente do exterior. (...) Ser conservador na política fiscal é o mais indicado para uma fase de maior turbulência mundial”, defende O Globo em editorial.
O Estado de S.Paulo vai na mesma linha: “O uso da política monetária, isto é, a redução dos juros, exige que a política fiscal dê sua contribuição para que isso seja feito de modo eficaz. Com efeito, é indispensável que o governo reduza paralelamente seus gastos, que hoje estão contribuindo para manter uma demanda elevada de bens e serviços que nossa fase de desenvolvimento-investimentos não permite”.
Surge, portanto, no horizonte uma oportunidade ímpar para que seja feito o tantas vezes adiado ajuste na exótica taxa de juros que o Brasil pratica. Em 2008, esta janela também se abriu, mas se fechou sem ser aproveitada, por causa da imperícia do nosso Banco Central: enquanto todo o mundo reduzia as taxas, nós a aumentamos. Espera-se que novas barbeiragens não se repitam agora e que o governo não fique fantasiando que vivemos numa ilha.
A Bovespa caiu ontem 8,08%, ampliando para 29,78% as perdas no ano. Entre 91 índices acompanhados pela agência Bloomberg, o da bolsa brasileira lidera as quedas. Apenas nesta segunda-feira negra, as empresas listadas na bolsa de São Paulo perderam R$ 174 bilhões em valor de mercado.
A crise desencadeada desde a última semana e agravada agora pelo rebaixamento da dívida pública norte-americana fez o Ibovespa encolher dois anos em poucos dias. O índice recuou ontem para o patamar de 30 de abril de 2009.
Petrobras e Vale estão entre as empresas mais machucadas. Só ontem, suas ações caíram 7,8% e 9,4%, respectivamente. A estatal perdeu R$ 66,6 bilhões em valor de mercado desde a última semana; a mineradora, R$ 51 bilhões.
Petrobras e Vale sofrem, em parte, porque negociam commodities, cujas cotações encaram agora perspectiva de forte queda no mundo. Mas sofrem também porque viram seus negócios capturados pelo governo federal. A ingerência espúria dos últimos meses cobra agora um preço altíssimo.
Analistas ouvidos pelos principais jornais prognosticam que a crise deve bater no Brasil, principalmente, por meio do recuo das cotações das commodities. Com preços muito altos, tais produtos – em especial, soja, minério de ferro e açúcar – ajudaram a turbinar a entrada de capital externo no país. A fonte deve parar de jorrar.
Cairão as exportações e, com elas, a oferta de capital para financiar as contas externas. Como as vendas deste ano já estão, na maior parte, contratadas, o resultado de 2011 não deve se alterar. Mas já há quem preveja déficit comercial no ano que vem.
O crescimento do PIB também ficará comprometido. Ontem mesmo, o ministro Guido Mantega já cuidou de preparar o país para um nível mais baixo que os 4% que o governo Dilma vinha prevendo. “Não podemos fazer milagre”, afirmou ele.
A percepção dos investidores sobre o Brasil já vinha se deteriorando, segundo o Valor Econômico. O jornal cita análise feita pelo Instituto Internacional de Finanças segundo a qual houve aumento das “incertezas sobre a direção da política [econômica]” e do “sentimento de baixa que tem pesado tão fortemente sobre o mercado de ações brasileiro este ano”.
“A aversão global ao risco já vinha se refletindo na redução de 70% do fluxo de investimentos de portfólio para o Brasil no primeiro semestre, comparado ao mesmo período de 2010. O fluxo para títulos de dívida também caiu 25% em relação ao segundo semestre do ano passado”, ressalta o Valor.
A resposta mais esperada pelos analistas brasileiros à crise deve ser o corte dos juros e a redução dos depósitos compulsórios dos bancos. Em suma: uma ação preferencialmente monetária, e não fiscal, como ocorreu em seguida à crise de 2008 quando o governo Lula afrouxou os gastos públicos e insuflou a inflação que até hoje tentamos debelar.
Outro aspecto escamoteado e algo obnubilado pela farra do endividamento que vivem outros países é que o Brasil também tem um nível alto de dívidas. A bruta chegou a bater em 64% do PIB em outubro de 2009 e hoje está em 56% do PIB, nível quase idêntico ao de setembro de 2008.
“Reduzir para valer os gastos em custeio é uma medida de segurança diante da possibilidade crescente de haver algum impacto mais forte proveniente do exterior. (...) Ser conservador na política fiscal é o mais indicado para uma fase de maior turbulência mundial”, defende O Globo em editorial.
O Estado de S.Paulo vai na mesma linha: “O uso da política monetária, isto é, a redução dos juros, exige que a política fiscal dê sua contribuição para que isso seja feito de modo eficaz. Com efeito, é indispensável que o governo reduza paralelamente seus gastos, que hoje estão contribuindo para manter uma demanda elevada de bens e serviços que nossa fase de desenvolvimento-investimentos não permite”.
Surge, portanto, no horizonte uma oportunidade ímpar para que seja feito o tantas vezes adiado ajuste na exótica taxa de juros que o Brasil pratica. Em 2008, esta janela também se abriu, mas se fechou sem ser aproveitada, por causa da imperícia do nosso Banco Central: enquanto todo o mundo reduzia as taxas, nós a aumentamos. Espera-se que novas barbeiragens não se repitam agora e que o governo não fique fantasiando que vivemos numa ilha.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
A tormenta voltou
O mundo está mergulhando de novo numa crise econômica. Por mais que o governo brasileiro se esforce para dizer que o país está em condições de enfrentar o que vem pela frente, é difícil acreditar. É melhor se preparar para o pior porque a tormenta voltou.
Há quase três anos o mundo foi sacudido por um furacão que derrubou bolsas de todo o planeta e implodiu empresas e instituições financeiras. No Brasil, houve uma rápida recuperação ao longo de 2009 e 2010, mas as economias centrais – EUA, Europa e Japão – continuaram combalidas. Estão todos, agora, voltando para o fundo do buraco.
Ontem, as bolsas de valores de todo o mundo despencaram, num frenesi comparável ao de 2008. A brasileira teve a segunda maior queda, abaixo apenas da argentina – que, todavia, movimenta apenas um décimo da Bovespa. O índice nacional caiu 5,72%, na maior queda em um único dia desde 21 de novembro de 2008.
No ano, a bolsa brasileira já acumula perda de 23,8%. É a que mais cai em todo o mundo neste 2011. Até ontem, as empresas listadas na Bovespa haviam perdido R$ 445,3 bilhões em valor de mercado. É como se duas empresas do tamanho da Vale tivessem evaporado nestes oito meses. Apenas nestes quatro dias de agosto, as perdas somam R$ 182 bilhões.
Não há como o Brasil passar incólume pela debacle global. Os olhos dos investidores já miravam com desconfiança o país, identificando desequilíbrios e excessos na nossa economia. Percebiam o aumento exponencial do crédito, com riscos sobre as carteiras das instituições financeiras. Desconfiavam do gasto elevado do governo e tinham certeza da supervalorização da moeda local.
“O Brasil, segundo as autoridades, está preparado para qualquer novo impacto. Seria preferível um pouco mais de preocupação. O governo terá pouco espaço em suas contas para uma política anticíclica, porque o orçamento está muito comprometido com despesas improdutivas e as pressões inflacionárias ainda são consideráveis. Faltou preparação para enfrentar uma nova fase de turbulência”, opina O Estado de S.Paulo em editorial.
A nova rodada da crise econômica mundial deve afetar o Brasil especialmente por causa da possível redução das cotações das commodities, como soja, minério de ferro e açúcar. Como se sabe, foi a vigorosa alta destes preços que puxaram o desempenho recente das exportações brasileiras, inundaram a economia com dólares e permitiram que nossas contas externas fechassem.
As empresas brasileiras também vão sentir o baque da retração que deverá atingir EUA e europeus em geral. Como os governos destes países não têm como injetar mais dinheiro público para ressuscitar suas economias, o mais provável é que se avizinhe uma prolongada recessão, com queda de demanda por produtos manufaturados. Por quanto tempo perdurará, ninguém arrisca prever.
Nos últimos anos, o governo brasileiro teve condições excepcionais para preparar melhor o país para uma nova tormenta global. Teve dinheiro sobrando para melhorar a infraestrutura e aumentar a competitividade das nossas empresas. Teve oportunidade para reduzir as nossas exóticas taxas de juros e neutralizar parte do impacto da desvalorização do dólar. Nada disso, porém, foi feito.
O discurso petista sempre foi o mais róseo possível, sustentando que o Brasil estava mais sólido do que nunca e em melhor situação do que o resto do mundo. Pior que isso, nos momentos de bonança o governo Lula aumentou a dose de gastos públicos a fim de garantir, a qualquer preço, a eleição de Dilma Rousseff.
O PT desdenhou das dificuldades como se fossem “marolinhas”, enquanto surfava, despreocupadamente, na onda do momento. Tudo indica que, agora, vai sair muito mais caro passarmos pela tempestade que se aproxima. O tamanho do vagalhão é inimaginável e ele ainda nem bateu na praia.
Há quase três anos o mundo foi sacudido por um furacão que derrubou bolsas de todo o planeta e implodiu empresas e instituições financeiras. No Brasil, houve uma rápida recuperação ao longo de 2009 e 2010, mas as economias centrais – EUA, Europa e Japão – continuaram combalidas. Estão todos, agora, voltando para o fundo do buraco.
Ontem, as bolsas de valores de todo o mundo despencaram, num frenesi comparável ao de 2008. A brasileira teve a segunda maior queda, abaixo apenas da argentina – que, todavia, movimenta apenas um décimo da Bovespa. O índice nacional caiu 5,72%, na maior queda em um único dia desde 21 de novembro de 2008.
No ano, a bolsa brasileira já acumula perda de 23,8%. É a que mais cai em todo o mundo neste 2011. Até ontem, as empresas listadas na Bovespa haviam perdido R$ 445,3 bilhões em valor de mercado. É como se duas empresas do tamanho da Vale tivessem evaporado nestes oito meses. Apenas nestes quatro dias de agosto, as perdas somam R$ 182 bilhões.
Não há como o Brasil passar incólume pela debacle global. Os olhos dos investidores já miravam com desconfiança o país, identificando desequilíbrios e excessos na nossa economia. Percebiam o aumento exponencial do crédito, com riscos sobre as carteiras das instituições financeiras. Desconfiavam do gasto elevado do governo e tinham certeza da supervalorização da moeda local.
“O Brasil, segundo as autoridades, está preparado para qualquer novo impacto. Seria preferível um pouco mais de preocupação. O governo terá pouco espaço em suas contas para uma política anticíclica, porque o orçamento está muito comprometido com despesas improdutivas e as pressões inflacionárias ainda são consideráveis. Faltou preparação para enfrentar uma nova fase de turbulência”, opina O Estado de S.Paulo em editorial.
A nova rodada da crise econômica mundial deve afetar o Brasil especialmente por causa da possível redução das cotações das commodities, como soja, minério de ferro e açúcar. Como se sabe, foi a vigorosa alta destes preços que puxaram o desempenho recente das exportações brasileiras, inundaram a economia com dólares e permitiram que nossas contas externas fechassem.
As empresas brasileiras também vão sentir o baque da retração que deverá atingir EUA e europeus em geral. Como os governos destes países não têm como injetar mais dinheiro público para ressuscitar suas economias, o mais provável é que se avizinhe uma prolongada recessão, com queda de demanda por produtos manufaturados. Por quanto tempo perdurará, ninguém arrisca prever.
Nos últimos anos, o governo brasileiro teve condições excepcionais para preparar melhor o país para uma nova tormenta global. Teve dinheiro sobrando para melhorar a infraestrutura e aumentar a competitividade das nossas empresas. Teve oportunidade para reduzir as nossas exóticas taxas de juros e neutralizar parte do impacto da desvalorização do dólar. Nada disso, porém, foi feito.
O discurso petista sempre foi o mais róseo possível, sustentando que o Brasil estava mais sólido do que nunca e em melhor situação do que o resto do mundo. Pior que isso, nos momentos de bonança o governo Lula aumentou a dose de gastos públicos a fim de garantir, a qualquer preço, a eleição de Dilma Rousseff.
O PT desdenhou das dificuldades como se fossem “marolinhas”, enquanto surfava, despreocupadamente, na onda do momento. Tudo indica que, agora, vai sair muito mais caro passarmos pela tempestade que se aproxima. O tamanho do vagalhão é inimaginável e ele ainda nem bateu na praia.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Mais para tsunami do que marolinha
A tragédia japonesa e os efeitos em cadeia gerados nos mercados no resto do mundo desnudam o elevado grau de instabilidade a que a economia global está sujeita. No caso brasileiro, reforçam os alertas quanto à imprevidência que marcou a gestão macroeconômica local nos últimos anos. Parece que estamos apoiados sobre fina camada de gelo.
Ontem, os mercados financeiros tiveram um dia de estresse. Mas não foram apenas negócios intangíveis com papéis que sofreram consequências do abalo japonês. Os ativos reais também começam a ser solapados. O ritmo ainda não inspira pânico, mas no mínimo cautela redobrada. O Brasil não é exceção em meio a este tsunami.
Sabemos todos que o vigor que a economia brasileira experimentou em anos recentes esteve ancorado no boom dos preços das nossas principais commodities no mercado internacional. Petróleo, minério de ferro, soja e café formam a base das nossas exportações. Todas viram suas cotações explodir de uns tempos para cá.
Mas, diante do atual cenário, que agrega o acidente geológico-nuclear japonês às instabilidades políticas no mundo árabe e à fragilidade de algumas economias europeias, já há quem fale em mudança radical de cenário, com baixas fortes e impacto recessivo global. Pode ser; torçamos para que não seja.
Fato é que, em apenas poucos dias, houve queda generalizada nos preços dos principais itens agrícolas – muitos dos quais têm o Brasil entre os maiores produtores globais – no mercado mundial. “Uma completa reversão de tendência pode estar a caminho”, arrisca o Valor Econômico.
Cálculos divulgados pelo jornal mostram que, em março, as cotações de soja já caíram 6,4%, as de milho, 14%, e as de trigo, 12%. Há redução de preços também de commodities minerais e metálicas: minério de ferro derreteu 15% em um mês. Tudo isso tem muito a ver com o Brasil.
Nos últimos anos, as autoridades brasileiras viveram inebriadas pelo sucesso econômico local. Pouco admitiam que muito dos nossos êxitos se devia ao empuxo global, que, sob o ponto de vista delas, só nos chegava em forma de “marolinhas” esporádicas.
Pior que isso, alterações drásticas no cenário global – como as que estão ocorrendo neste momento – nunca foram seriamente consideradas pelos petistas. Sempre prevaleceu um desaconselhável excesso de confiança. Vê-se agora que as ressacas nos batem forte e de imediato.
Nota-se quão os efeitos são imediatos, por exemplo, no recuo, anunciado ontem pelo Ministério da Fazenda, em relação à adoção de medidas destinadas a deter a valorização do real. Bastou um par de dias de estresse global mais agudo para o “pacote cambial”, prometido há bastante tempo, subir no telhado.
“A orientação do ministro Guido Mantega é aguardar o quadro internacional ficar mais claro para, então, tomar a decisão sobre o anúncio das medidas na área cambial, que chegou a ser planejado para a sexta-feira passada e foi adiado para esta semana. Agora, pode ficar para a próxima”, informa a Folha de S.Paulo.
A prudência, neste caso, é bem-vinda. Em situações de turbulência é melhor aguardar o horizonte desanuviar-se para seguir a viagem. Mas não deixa de ser ilustrativa da maneira hesitante com que a equipe econômica petista costuma mover-se. Parece faltar-lhe convicção.
Igual titubeio marca a implementação do ajuste fiscal – tão frágil quanto ainda incerto. A intenção de reduzir gastos do Orçamento foi anunciada em 9 de fevereiro; a divulgação do montante a ser limado veio 20 dias depois e, já passada mais uma quinzena, quase nada se sabe sobre como serão, de fato, feitos os cortes. Não basta só anunciar, tem que fazer.
Tais idas e vindas reiteram a ampla dependência da economia brasileira ao desempenho global. Não que isso seja uma surpresa ou uma grande descoberta. Nada mais é do que a regra do jogo num mundo fortemente integrado. A novidade está no fato de as autoridades petistas estarem admitindo isso. É melhor que, desta vez, o governo não confunda tsunami com marolinha.
Ontem, os mercados financeiros tiveram um dia de estresse. Mas não foram apenas negócios intangíveis com papéis que sofreram consequências do abalo japonês. Os ativos reais também começam a ser solapados. O ritmo ainda não inspira pânico, mas no mínimo cautela redobrada. O Brasil não é exceção em meio a este tsunami.
Sabemos todos que o vigor que a economia brasileira experimentou em anos recentes esteve ancorado no boom dos preços das nossas principais commodities no mercado internacional. Petróleo, minério de ferro, soja e café formam a base das nossas exportações. Todas viram suas cotações explodir de uns tempos para cá.
Mas, diante do atual cenário, que agrega o acidente geológico-nuclear japonês às instabilidades políticas no mundo árabe e à fragilidade de algumas economias europeias, já há quem fale em mudança radical de cenário, com baixas fortes e impacto recessivo global. Pode ser; torçamos para que não seja.
Fato é que, em apenas poucos dias, houve queda generalizada nos preços dos principais itens agrícolas – muitos dos quais têm o Brasil entre os maiores produtores globais – no mercado mundial. “Uma completa reversão de tendência pode estar a caminho”, arrisca o Valor Econômico.
Cálculos divulgados pelo jornal mostram que, em março, as cotações de soja já caíram 6,4%, as de milho, 14%, e as de trigo, 12%. Há redução de preços também de commodities minerais e metálicas: minério de ferro derreteu 15% em um mês. Tudo isso tem muito a ver com o Brasil.
Nos últimos anos, as autoridades brasileiras viveram inebriadas pelo sucesso econômico local. Pouco admitiam que muito dos nossos êxitos se devia ao empuxo global, que, sob o ponto de vista delas, só nos chegava em forma de “marolinhas” esporádicas.
Pior que isso, alterações drásticas no cenário global – como as que estão ocorrendo neste momento – nunca foram seriamente consideradas pelos petistas. Sempre prevaleceu um desaconselhável excesso de confiança. Vê-se agora que as ressacas nos batem forte e de imediato.
Nota-se quão os efeitos são imediatos, por exemplo, no recuo, anunciado ontem pelo Ministério da Fazenda, em relação à adoção de medidas destinadas a deter a valorização do real. Bastou um par de dias de estresse global mais agudo para o “pacote cambial”, prometido há bastante tempo, subir no telhado.
“A orientação do ministro Guido Mantega é aguardar o quadro internacional ficar mais claro para, então, tomar a decisão sobre o anúncio das medidas na área cambial, que chegou a ser planejado para a sexta-feira passada e foi adiado para esta semana. Agora, pode ficar para a próxima”, informa a Folha de S.Paulo.
A prudência, neste caso, é bem-vinda. Em situações de turbulência é melhor aguardar o horizonte desanuviar-se para seguir a viagem. Mas não deixa de ser ilustrativa da maneira hesitante com que a equipe econômica petista costuma mover-se. Parece faltar-lhe convicção.
Igual titubeio marca a implementação do ajuste fiscal – tão frágil quanto ainda incerto. A intenção de reduzir gastos do Orçamento foi anunciada em 9 de fevereiro; a divulgação do montante a ser limado veio 20 dias depois e, já passada mais uma quinzena, quase nada se sabe sobre como serão, de fato, feitos os cortes. Não basta só anunciar, tem que fazer.
Tais idas e vindas reiteram a ampla dependência da economia brasileira ao desempenho global. Não que isso seja uma surpresa ou uma grande descoberta. Nada mais é do que a regra do jogo num mundo fortemente integrado. A novidade está no fato de as autoridades petistas estarem admitindo isso. É melhor que, desta vez, o governo não confunda tsunami com marolinha.
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