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sábado, 10 de agosto de 2013

Uma gestão que não existiu

Dilma Rousseff disse ontem que, a partir de agora, seu negócio é fazer política. Segundo a presidente, ela já teria se concentrado demais em “cuidar da gestão” do país. Só pode ser piada. Se está mesmo falando sério e considera que fez tudo o que era necessário fazer para garantir um bom governo, estamos fritos.

A presidente dedicou os últimos dias a gestos de aproximação e a manifestações de apreço e humildade em relação a congressistas. Puro instinto de sobrevivência. Os relatos de presentes dão conta de que Dilma mais ouviu do que falou. Mas, pelo que se soube que ela disse, a petista continuou a manifestar alheamento da realidade, baixíssima capacidade de compreensão e menor ainda de ação.

Se Dilma se dá por satisfeita com as iniciativas que tomou e com os resultados que produziu nestes 31 meses de gestão, uma conclusão se impõe: ela não tem mínimas condições de continuar sendo a presidente do Brasil. O país não merece um governante tão medíocre.

O mix produzido pela gestão Dilma é indigesto: um país que cresce pouco; que tem uma inflação que só não é mais alta porque muitas tarifas estão praticamente congeladas; em que boa parte das promessas oficiais nunca saem do papel; e onde as decisões de governo são tomadas ao sabor do marketing e não costumam durar mais do que o tempo de leitura de um jornal.

Na pajelança com senadores do PT ontem, a presidente afirmou que o PIB brasileiro vai crescer neste ano “duas ou três vezes mais” que em 2012. Crescer mais do que o quase nada do ano passado (0,9%) é fácil. O difícil é crescer, pelo menos, no mesmo ritmo de países como o nosso. Isso Dilma não consegue.

Nos seus dois primeiros anos de governo, a média de crescimento do PIB brasileiro foi de apenas 1,8%, enquanto a América Latina cresceu quase três vezes mais no período: 4,6%. Neste ano, vamos ganhar apenas da Venezuela e de El Salvador no continente. Pelo que afirmou ontem, isso é o máximo aonde Dilma é capaz de nos levar.

A presidente também afirmou, passados dois anos e meio do governo dela e dez anos e meio de gestão petista, que agora “é hora de executar programas lançados”. Se só agora a administração vai cuidar do que interessa, ou seja, produzir resultados para a população, o que, diabos, foi feito até hoje? Apenas o mesmo que Dilma diz que fará doravante: política.

O rol de promessas não cumpridas pelos petistas é imenso: melhorias na saúde e na educação que não acontecem, empreendimentos de infraestrutura inexistentes, desperdícios de recursos públicos em inabalável ascensão. Tornamo-nos um país em que as obras nunca terminam, em que tudo está em construção e já é ruína.

Se a “gestão” a que Dilma fala que se dedicou fosse para valer, estaríamos assistindo neste momento, por exemplo, a uma arrancada sem precedentes em empreendimentos de logística e infraestrutura tocados pela iniciativa privada.

Mas o programa de privatizações de rodovias e ferrovias, lançado há um ano, não produziu um único leilão até hoje. “O propósito [era] chegar em junho com todas as licitações já realizadas. [Mas] Da modelagem inicial praticamente nada vingou”, escreve Claudia Safatle na edição de hoje do Valor Econômico.

Quando 2013 começou, a presidente e seus auxiliares diziam que este finalmente seria o ano dos investimentos no país. Mas o que aconteceu? Até junho, os dispêndios desta natureza simplesmente caíram em relação ao primeiro semestre do ano passado: já descontada a inflação, a queda foi de 5%, para R$ 33,5 bilhões, também segundo o Valor.

As respostas que o governo da presidente produziu aos protestos de junho também foram todas parar no lixo da história, com a vida efêmera que propostas embebidas no éter da propaganda oficial tendem a ter.

Se Dilma Rousseff considera que fez tudo o que poderia fazer pelo Brasil, é lícito concluir que sua gestão não existiu. Nenhuma novidade nisso. Afinal, há apenas alguns dias a presidente afirmou, com todas as letras, que Lula “nunca saiu” do cargo que ocupou por oito anos. E ela nunca entrou.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Desconjuntada e incoesa

Se o clima na economia não tem estado dos melhores para o governo, o da política azedou de vez agora. A presidente da República pôs-se a reformar sua base de sustentação no Congresso, lançando-se num campo no qual tem pouco traquejo. Dilma Rousseff tem tido de agir no varejo porque não tem um projeto de nação que una seus apoiadores e muito menos que mobilize o país.

A crise na política foi deflagrada na semana passada, quando a presidente foi diretamente derrotada com a desaprovação, pelo Senado, do nome de Bernardo Figueiredo para a diretoria-geral da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). Tratava-se de indicação pessoal dela, ao largo dos partidos; insuficiente, porém.

Com a base congressista em clima de conflagração, o Planalto também teve de desistir de tentar aprovar o novo Código Florestal. Retirou o projeto da pauta de votação da Câmara, com receio de que se repetisse a derrota do ano passado. Duas mudanças repentinas no ministério em dez dias – Pesca e Desenvolvimento Agrário – reforçam a impressão de que a presidente atira para todo lado na seara política.

Mas o caldo entornou mesmo nos últimos dois dias, com a troca dos dois líderes do governo no Congresso, empreendida pela presidente. Caíram Romero Jucá no Senado e Cândido Vaccarezza na Câmara. Em ambos os casos, a decisão presidencial equivaleu a comprar briga feia com o PMDB – que já reagiu escalando Jucá para relatar o Orçamento, função-chave para qualquer governo.

“Ao promover trocas nas lideranças do governo no Senado e na Câmara, a presidente Dilma Rousseff incendiou parte da cúpula peemedebista, deixou descontentes setores do PR e do PT e não conseguiu, por ora, atingir seu objetivo: o fim da crise com a base aliada. (...) A operação foi interpretada ainda como ‘estranha’ e ‘desastrada’ por líderes da base aliada”, resume O Estado de S.Paulo.

Dilma está tentando assumir as rédeas da situação depois de ter escalado prepostas que têm se mostrado inaptas para as lides parlamentares, como Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann. Mas, tanto quanto suas subordinadas, a perícia da presidente para a política é nula. 

“Dilma segue fiel a seu estilo. Decide quase tudo de maneira solitária. Age de supetão, com aflição e paranoia por causa de vazamentos para a mídia”, escreve Fernando Rodrigues na Folha de S.Paulo.

Há tempos a “base aliada” já vinha dando sinais de insubordinação. O mais importante projeto apreciado no Congresso neste ano só foi aprovado porque parlamentares da oposição, por convicção, votaram a favor: o que cria o fundo de previdência complementar dos servidores federais.

O Funpresp é uma das raras iniciativas do atual governo que mira o longo prazo e busca construir bases mais sólidas e estruturais para o desenvolvimento do país. Durante anos, Lula eximiu-se de patrociná-lo, colaborando para que o desequilíbrio na previdência se acentuasse.

Outra iniciativa de mérito é a decisão, ainda que tardia, de abrir a exploração dos principais aeroportos à iniciativa privada. Por anos, defendida e apoiada pela oposição; por anos, demonizada e impedida pelo petismo. A penúria em que se encontram nossos aeroportos deixa claro quem sempre esteve com a razão.

Estas duas exceções servem para confirmar a regra: o governo Dilma não apresentou propostas capazes de unir a nação em torno de um projeto de futuro, nada capaz de mudar a face do país.

A administração federal vive de administrar um varejo de pequenas, e muitas vezes escusas, demandas. Que agenda move a presidente e seus aliados? Que rumos Dilma ofereceu até agora ao Brasil? “As crises são geradas sempre por interesses particulares e não por programas ou teses”, comenta Merval Pereira n’O Globo.

Alheia ao furacão político, a presidente diz que seu governo é uma equipe “conjunta e coesa”. Só se for na peculiar visão de mundo dela. O que há é uma base parlamentar balofa e amorfa, amalgamada pela gestão cotidiana e errática de um balcão de interesses. Cada vez que um destes microfeudos é tocado, a casa balança. É provável que, a partir de agora, cresçam as dificuldades do governo no Congresso. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Avaliação rebaixada

Já são minoria os brasileiros que têm avaliação favorável do governo Dilma Rousseff. A sucessão de escândalos derrubou os índices de aprovação da atual gestão, passados apenas sete meses do seu início. Tudo indica que o nível de corrosão da popularidade da presidente tende a se acentuar ainda mais daqui em diante.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou ontem a sua segunda pesquisa de avaliação do atual governo feita em conjunto com o Ibope. O resultado mais expressivo mostra que o percentual de entrevistados que consideram a gestão Dilma “ótima/boa” caiu de 56% em março para 48%. O índice coincide com o que o Datafolha anunciou no início da semana.

Já os que julgam o governo Dilma “ruim/péssimo” mais que dobraram em quatro meses: passaram de 5% em março para 12% agora, também em linha com os resultados do último Datafolha. Subiu de 27% para 36% o percentual de entrevistados que avaliam a gestão da petista como “regular”.

São os resultados mais específicos, porém, que captam melhor o nível de aversão da população às ações de Dilma Rousseff e sua equipe. O Ibope perguntou a 2.002 pessoas qual avaliação elas faziam da atuação do governo em nove áreas: em seis delas, o índice de desaprovação superou o de aprovação.

Isso ocorreu em relação a impostos (69% desaprovam e 25% aprovam), saúde (69% x 28%), segurança pública (65% x 32%), taxa de juros (63% x 29%), combate à inflação (56% x 38%) e educação (52% x 45%). Um governo que vai mal em tantas e tão díspares áreas não pode ser considerado bem avaliado.

Em março passado, a desaprovação só superava a aprovação em três setores: segurança pública, saúde e impostos, cujo hiato negativo aumentou consideravelmente nesta nova rodada da pesquisa CNI/Ibope, feita nos quatro últimos dias de julho.

A gestão Dilma só se sai bem em combate à fome e à pobreza (57% aprovam e 40% desaprovam) e meio ambiente (52% x 42%). Em combate ao desemprego, há empate técnico, dada a margem de erro do levantamento: 49% a 47%.

É legítimo concluir que, quando confrontados com a prática cotidiana do atual governo, os eleitores não estão gostando do que veem. A percepção dos entrevistados em relação ao noticiário comprova isso: enquanto em março apenas 7% identificavam notícias mais desfavoráveis ao governo, agora foram 25%.

Os assuntos mais lembrados pelos pesquisados deixam claro qual a marca mais indelével do governo Dilma em seus sete meses iniciais: a corrupção. As irregularidades no Ministério dos Transportes e no Dnit foram o assunto mais lembrado, por 21% dos entrevistados. Em seguida, aparece a demissão de Antonio Palocci da Casa Civil em razão do seu superenriquecimento (14%).

A previsão de aumento do salário mínimo em 2012 é o assunto que aparece em melhor posição entre os que podem ser classificados como favoráveis ao governo, lembrado por apenas 4% das pessoas – abaixo, também, da menção dos entrevistados a atrasos das obras da Copa e ao aumento da inflação dos alimentos.

Pesquisa de opinião é um retrato, em boa medida cristalino, da realidade. Diante do que apurou o Ibope, fica claro que não adianta a presidente e seus subordinados ficarem estrilando a cada novo escândalo que brota em seu governo. Não há “armação da imprensa” que supere a visão crítica e autônoma que a sociedade tem de seus governantes.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Apostas de saltos altos – e altos riscos

O governo federal começa a testar nesta semana seu novo time político. Até agora, a equipe dedicada a tocar a articulação com o Congresso e acompanhar a gestão de obras públicas esteve perdendo de goleada. Resta saber se as duas novas ministras escaladas pela presidente da República conseguirão virar o jogo. É uma aposta arriscada.

Cinco meses após a posse, Dilma Rousseff finalmente conseguiu montar um círculo de poder à sua imagem e semelhança. Pelo que demonstraram em suas vidas públicas até hoje, Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti estão longe de ser o suprassumo da capacidade de negociação e da habilidade de convencimento – são, assim, parecidíssimas com a presidente.

Dilma quis dar à nomeação das novas ministras um caráter de Grito do Ipiranga. É delicado usar pastas tão centrais como as da Casa Civil e das Relações Institucionais como envelopes para mensagens políticas.

Mais grave ainda é usá-las como meio de vingança contra o mau comportamento dos petistas do Congresso, como parece ter sido o caso da nomeação de Ideli. “É como colocar um elefante bravo para cuidar de uma loja de porcelana”, reagiu um destes petistas contrariados com a troca de postos anunciada na sexta-feira.

Nas Relações Institucionais, Ideli terá de conviver com um desafeto, que ocupa, simplesmente, a secretaria-executiva, ou seja, o segundo cargo mais importante da pasta: o ex-deputado federal Cláudio Vignatti, um de seus maiores adversários no PT catarinense. Em 2010, os dois disputaram, e perderam, as eleições em Santa Catarina em clima de divergências e acusações mútuas. Enquanto a ministra teve 754 mil votos para governador, seu sub obteve 1,2 milhão para o Senado.

Coerência é o que menos se vê no ministério de Dilma, que alia neófitos em governos como Ideli a raposas felpudas da política, como, para ficar num único exemplo, Edison Lobão. Há nele muito pouco do brilho técnico que a presidente sempre alardeou ser sua mais reluzente qualidade.

Nas questões administrativas, Dilma Rousseff tem se revelado uma gerente bastante peculiar. Em momento no qual as relações com o Congresso estão evidentemente caóticas e as obras mais importantes caminham lentamente, a presidente utiliza seu precioso tempo para cuidar de questões, digamos, mais substantivas.

“Até a lista de tripulantes de seus voos e das missões precursoras das equipes de segurança ela exige ver. Segundo informação de um auxiliar, ela verifica a relação de nomes, sugere convites e quer saber até qual será o cardápio do lanche ou do almoço”, revelou O Estado de S.Paulo ontem. Dilma comporta-se verdadeiramente como uma “sacerdotisa do serviço público”, na ferina definição de seu “aliado” José Sarney.

Diante destas constatações, fazem todo o sentido alguns resultados da pesquisa de opinião divulgada pela Folha de S.Paulo neste fim de semana. Se a aprovação da presidente não variou, a avaliação que os brasileiros fazem de alguns de seus atributos foi ladeira abaixo.

Por exemplo, a imagem de uma governante “decidida” despencou de 79% para 62% entre março e junho. A de “muito inteligente” caiu de 85% para 76%. Não espanta que 64% considerem que Lula deve continuar a dar pitacos no governo. Será sinal de desconfiança na presidente?

Para pôr ordem na casa, o inédito triunvirato feminino instalado no coração do poder já apresentou as armas com as quais pretende lutar: a velha caneta e o Diário Oficial da União. Senhora de fino trato, a ministra Ideli avisou ontem que sua prioridade será “limpar a prateleira”, isto é nomear o máximo de cargos possíveis e soltar a grana para atender os aliados. O balcão da loja de cristais está aberto.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Questão de fé

A troca de Antonio Palocci por Gleisi Hoffmann foi recebida com evidente boa vontade pela opinião pública, a julgar pelo que os jornais publicam hoje. Fala-se em “recomeço” do governo Dilma Rousseff, em tomada das rédeas por parte da presidente da República e em redução da tutela de Lula sobre a atual gestão. São, ainda, meras conjecturas que dependerão de muita atitude antes de se verem comprovadas.

Mesmo em meio a este oba-oba, persistem as críticas à dificuldade de articulação política do governo. Se fosse só este o problema, ainda estaria bom. O que temos hoje é uma paralisia quase completa da máquina sob o comando de Dilma. Alguém é capaz de citar uma única iniciativa de vulto tomada até agora pela presidente?

Dilma Rousseff teria muito menos dores de cabeça, e poderia até mesmo manter-se distante dos meandros políticos que tanto a desgostam, se tivesse uma proposta clara para o país. Em torno de projetos, seria muito mais fácil aglutinar apoios, inclusive, e principalmente, da sociedade. Mas é evidente que este projeto não existe – pelo menos a olho nu.

O Congresso não recebeu da gestão Dilma uma única proposta com poder de mobilizar corações e mentes em torno dela. Mas continuou a ser alvo de avalanches de proposições tratadas de maneira desconexa e em forma de contrabandos inseridas em medidas provisórias. Como se muda um país desta maneira?

“O governo desperdiçou sua lua de mel sem ter tocado um único projeto de reforma ou de superação dos obstáculos ao crescimento sustentado. Em 2010, quando o Brasil estava crescendo a 7,5%, era mais fácil superar esses obstáculos; com a queda do nível de atividade, a lentidão do governo está provocando mais estragos”, avalia Merval Pereira n’O Globo.

No discurso de ontem, a presidente parece ter se dado conta do pouco que realizou nestes cinco primeiros meses. Parecia até a fala de quem estava assumindo ontem o governo. “Temos promessas a cumprir e vamos cumpri-las. Temos programas a executar e vamos executá-los”, disse ela, ao empossar Gleisi Hoffmann. OK, estamos todos de acordo. Mas já não passou da hora de ir de palavras a atos?

Na solenidade, Dilma também criticou o comportamento “quase sempre ruidoso” da oposição. Quis, assim, imputar à ação da minoria no Congresso a responsabilidade pela queda de seu principal ministro, sem querer se dar conta de que Palocci caiu por suas próprias escolhas e pela dificuldade de comprovar que agira eticamente enquanto chefiava a campanha da presidente e enriquecia – não se sabe em qual ordem...

De mais a mais, jogar sobre os ombros das bancadas reduzidas da oposição no Parlamento o peso da crise é desdenhar solenemente da lógica. Quem, como Dilma, tem 77% da bancada do Senado e 75% da da Câmara não deveria se preocupar tanto com a oposição. Ou será que o incômodo está no que a oposição revela?

É também desdenhar da inteligência alheia ignorar a guerra fratricida que os petistas travaram entre si pela queda de Palocci e travam agora para promover a próxima baixa do governo, a do ministro de Relações Institucionais. Assim como não enxergar a insatisfação convenientemente contida e prestes a explodir do PMDB.

“A cúpula do PMDB ameaça se rebelar, caso não tenha peso na escolha do novo articulador político, e alertou a presidente que a crise política não se encerra com a saída de Palocci, pois a articulação política do governo motiva muitas insatisfações”, informa O Globo.

Se os parceiros são os mesmos do governo passado, se o projeto político não mudou, por que Dilma tem tanta dificuldade em agregar seus aliados e em apresentar à sociedade brasileira uma agenda clara de desenvolvimento do país? Não parece sensato imaginar que, sem um cardeal experiente como Antonio Palocci do lado, a vida da presidente vá melhorar.

Mesmo com o respiro que os formadores de opinião parecem dispostos a lhe dar, o idílio de Dilma com o público estilhaçou-se. A presidente não dispõe mais do conveniente pedestal que a apartou da necessidade de ter de responder assertivamente às demandas de um país que precisa fazer muito mais para crescer com equilíbrio.

Pode até ser que, finalmente, a atitude do governo melhore, que titubeios e balbucios desapareçam. Mas considerar que aquilo que começou mal passará a ir bem de uma hora para outra não passa de crença ou torcida.

Por tudo o que se viu nestes cinco meses, apostar no sucesso do governo Dilma Rousseff ainda é mera questão de fé. Mas, para o bem do país, seria bom que as montanhas começassem a ser removidas.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Cinco meses de um varejo sem fim

Nos desdobramentos da crise envolvendo o enriquecimento do ministro da Casa Civil, a discussão do momento é sobre o aumento do peso do PMDB no núcleo de poder. O partido de Michel Temer sente-se confortável para cobrar mais pelo apoio parlamentar, sob ameaça de deixar que alguns de seus senadores tornem a CPI do Palocci uma realidade. O balcão de negócios do Planalto está a pleno vapor.

Três dos principais jornais destacam hoje a fatura que os pemedebistas estão apresentando ao governo. Para O Estado de S.Paulo, em manchete, “com Palocci fraco, PMDB quer nova articulação política”. Segundo a Folha de S.Paulo, o “PMDB cobra mais poder de decisão no governo Dilma”. Até o Valor Econômico, que vinha dando menos destaque ao caso, informa, em primeira página, que “Dilma revê coordenação política”.

Uma das conclusões em comum é que o PMDB deverá partilhar mais das decisões do governo e Dilma Rousseff irá intensificar os contatos com as lideranças governistas no Congresso. Tudo isso seria decorrência da derrota na votação do Código Florestal, na qual o PMDB não seguiu as ordens do Palácio, e do acirramento das relações ao longo da crise em torno de Antonio Palocci. Também seria uma forma de reconstruir a abalada autoridade da presidente.

É claro que o governo, qualquer governo, depende de uma boa articulação política para funcionar melhor. Mas, no caso de Dilma, isso é uma dependência química. A inabilidade e a inexperiência políticas da presidente justificam parte das dificuldades. Mas o modo como o condomínio de poder se organiza sob o PT explica muito mais.

Dilma termina hoje o quinto dos 48 meses da sua gestão. Neste período inicial, os governos costumam ser marcados por gestos ousados, pela apresentação dos projetos mais arrojados, pela proposição das mudanças mais significativas para a vida de um país. O que fez o governo da presidente neste sentido até agora?

Não há uma única reforma efetivamente em discussão. Dos principais projetos que tramitaram no Congresso, um trata de assunto corriqueiro na vida da nação – a fixação do salário mínimo – e o outro serviu mais para nos jogar numa encruzilhada do que para apontar novos caminhos – o do Código Florestal. É muito pouco para um governo que se dizia estar “em lua de mel” com o país.

Dilma Rousseff não apresentou, nem parece dedicada a desenvolver, um projeto para o país que tenha força suficiente para galvanizar apoios no Parlamento e na sociedade. É um governo dedicado à administração cotidiana da burocracia, à política miúda, ao curto prazo. Um governo de um varejinho sem fim.

Para funcionar, governos com esta natureza dependem fundamentalmente do “é dando que se recebe”. O balcão do fisiologismo tem de estar aberto diuturnamente. A articulação política que Dilma promete azeitar doravante se presta a garantir que estas engrenagens funcionem melhor – o que não significa que tenham parado de funcionar um instante sequer.

“Como contentar o PMDB? Cedendo espaço na máquina governamental que possibilite bons negócios. Rentáveis para efeito privado e péssimos para o interesse público. O governo postergou, até o momento, a partilha do butim, não pela defesa da moralidade pública. Longe disso. Está testando o partido para ver até que ponto é possível negociar”, escreve Marco Antonio Villa n’O Globo.

A intervenção de Lula na semana passada serviu justamente para reafirmar a prevalência dos princípios fisiológicos no condomínio gerido por Dilma sob a tutela do ex-presidente. Ele veio lustrar o balcão. Fica muito evidente que esta é a regra que vale para os governos do PT. Basta agirem assim, para saírem sorridentes nas fotos...

A assessoria da presidente cuida de disseminar que a atuação de Lula “desagradou” Dilma. Bobagem. A intervenção é parte do jogo que ela aceitou jogar, mas não estava tendo habilidade para conduzir. A interferência do ex-presidente serviu para apaziguar os ânimos e garantir que os canais não serão obstruídos – pode-se imaginar o que flui por intermédio deles.

A correria do governo para atender prontamente os comensais do PMDB e da base aliada também sugere a pouca confiança nas explicações dadas pelo ministro da Casa Civil sobre o crescimento exponencial da sua fortuna. Busca exorcizar investigações, mas a crise está longe de acabar – o Valor chega hoje a cogitar nomes de possíveis sucessores de Palocci: Fernando Pimentel, Paulo Bernardo e Alexandre Padilha.

Pode ser que o Planalto aposte que, no fim das contas, o episódio sobre o enriquecimento suspeito de Antonio Palocci não passe de um “acidente”, como aliados do PT do quilate de José Sarney já consideram ter sido o impeachment de Fernando Collor. No fundo, a intenção acaba sendo esta mesma: igualar todos. Por baixo.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A crise não sairá da agenda

O governo dá início hoje a um esforço concentrado destinado a demonstrar que está tudo normal no centro do poder. Depois de semanas de imobilismo, Dilma Rousseff programou atividades públicas diárias até sexta-feira com intuito de mostrar trabalho e tentar desviar o foco do enriquecimento de Antonio Palocci. Não será assim que conseguirá escapar de dar as explicações ainda devidas sobre o escândalo e sepultar a crise.

A presidente vai hoje ao Uruguai para uma visita de cinco horas, adiada três vezes desde janeiro, assinar um monte de papéis. Os 14 acordos que a chancelaria brasileira alardeia como justificativa para a visita são absolutamente secundários.

O evento em Montevideo só tem um objetivo: dar oportunidade a Dilma de transferir – por esta enormidade de tempo – o governo para Michel Temer. O que importa é a pose sorridente para os fotógrafos, como o próprio vice-presidente admitiu no sábado.

É a maneira que a presidente imaginou para transmitir ao público a ideia de que a relação com o PMDB está pacificada. Não está. Na semana passada, Dilma ameaçou demitir todos os ministros pemedebistas, levando Temer e Palocci a travarem uma áspera discussão por telefone. Os condôminos se engalfinhavam pelo butim.

A “agenda anticrise” prossegue amanhã com uma reunião com governadores sobre o andamento das obras da Copa do Mundo de 2014, que Dilma prometera realizar tão logo tivesse voltado da China, há um mês e meio. Tudo bem que a pneumonia a tenha impossibilitado de cumprir alguns compromissos, mas há prova mais evidente de paralisia do governo do que o estado de penúria que há meses ronda as obras?

Na quarta-feira, a presidente abrirá espaço na agenda para recepcionar os senadores do PMDB. Divulga-se que discutirá com eles o Código Florestal, que agora tramita no Senado. Mas o objetivo, novamente, é outro: evitar que parte da bancada assine requerimento para a criação da CPI do Palocci. Como? Escancarando, claro, o balcão fisiológico que move as relações entre governo e aliados na era petista.

A lista de compromissos da semana inclui, ainda, o lançamento do programa “Brasil sem Miséria”, apresentado como “vitrine do governo”. É chocante como uma iniciativa que deve ser séria – a de atender os 16 milhões de miseráveis existentes no país – seja tratada como uma simples peça da estratégia de marketing palaciana para fugir da crise. Começando assim, o programa corre risco de ter o mesmo destino do Fome Zero...

Para completar a semana, Dilma lança no Rio mais uma plataforma da Petrobras, a P-56. Seria uma boa oportunidade para a presidente dar uma olhada nas precárias condições das demais estruturas da empresa. Na quinta-feira passada, foi suspensa a operação da plataforma P-65, às voltas com uma série de normas de segurança não seguidas pela estatal. Em agosto de 2010, também fora interditada a P-33 por problemas de manutenção.

Esta avalanche de espuma não livrará o governo do PT de explicar o inexplicável: como o patrimônio de seu principal ministro multiplicou-se por pelo menos 20 vezes em apenas quatro anos.

Na sexta-feira, Palocci enviou ofícios à Procuradoria Geral da República, mas, pelo que se divulgou, não informou o essencial: para quem prestou tão valiosos serviços de “consultoria”. Aí está a “variável-chave” para o desenrolar da história. “A lista de clientes e preços de Palocci pode ser uma resposta ou a pá de cal”, comenta Carlos Alberto Sardenberg hoje n’O Estado de S.Paulo.

Mas a defesa do ministro desdenha de dar explicações, e chega a lançar mão de argumentos de um cinismo ímpar. Em artigo publicado hoje na Folha de S.Paulo, o advogado José Roberto Batochio diz que os R$ 20 milhões descobertos até agora – será só isso mesmo? – redundariam em “uma receita mensal bruta de R$ 416 mil” ao longo de quatro anos. Ele acha pouco.

Omitindo que assina o artigo como advogado de Palocci, o que Batochio faz é distorcer os fatos. Os R$ 20 milhões vieram num único ano e não em quatro. Pior: metade disso veio quando Palocci coordenava a transição de governo e tinha acesso a todas as informações relativas às decisões do governante que saía, bem como às intenções da gestão que entrava, mostrou a Folha ontem.

Igualmente cínica é a posição da Controladoria-Geral da União, que se recusa a investigar o enriquecimento de Palocci, contrariando decreto assinado pelo então presidente Lula em junho de 2005, no auge da crise do mensalão. “Para não investigar o caso, a CGU alega que Palocci não era ‘agente público’ na época em que recebeu os pagamentos feitos à empresa Projeto”, informa o Estadão.

Fica claro que o maior esforço do governo é por escapar de dar as explicações ainda devidas sobre o escândalo, impedir apurações, turvar a compreensão do caso pela opinião pública e usar a máquina de propaganda para dar ares de normalidade a uma situação absolutamente anormal. A menos que, no balcão de negócios que o condomínio do poder opera, tráfico de influência e operações suspeitas sejam considerados meros compromissos na agenda oficial.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Presidente teleguiada

Onze dias depois de revelado o espetáculo do crescimento do patrimônio do ministro Antonio Palocci, Dilma Rousseff saiu do armário ontem para defendê-lo. Não foi, convenhamos, uma defesa das mais enfáticas; as atitudes e os argumentos usados foram canhestros. A presidente da República portou-se como boneco do ventríloquo Lula.

Dilma só fez reproduzir os mesmíssimos argumentos que o ex-presidente pôs para circular no mundo político nos últimos dias. Seguindo a velha tática diversionista do PT, culpou a oposição pela revelação de que seu ministro da Casa Civil ficou milionário quando era deputado. Acusou os oposicionistas de “politizarem” o caso. Nada que corresponda à realidade.

A presidente da República usou ontem mesmíssimas frases empregadas por seu chefe de gabinete dois dias antes. Tanto quanto seu subordinado, ela agiu a mando de Lula, chancelando a leitura corrente de seu apequenamento precoce no cargo mais importante da República.

Disse ela ontem, segundo O Globo: “Agora se negam a discutir o vazamento dos sigilos e só querem discutir o conteúdo dos sigilos”. Dissera Gilberto Carvalho na terça-feira: “Em 2010 houve a quebra de sigilo dos dados de familiares de [José] Serra e o foco do noticiário foi a quebra de sigilo em si, e não o conteúdo. Agora é tudo para o conteúdo e nada para a quebra de sigilo”.

Será que Dilma não tem um pingo de luz própria? Será que, a cada crise, precisará chamar o síndico para dar bronca nos vizinhos do condomínio de poder? Recusará a dar transparência à administração, usando as mesmas manobras que notabilizam seu partido?

Em sua primeira manifestação após a divulgação de que o patrimônio de Palocci multiplicou-se – na melhor das hipóteses – por 20 em quatro anos, a presidente sequer se comprometeu com a integridade do seu principal ministro. Ela afirmou apenas assegurar que ele “está dando todas as explicações necessárias”. A quem?

Até agora, a única coisa que Palocci fez foi divulgar uma nota na qual dizia que fez o mesmo que outros fizeram – sem considerar que a condição dos outros não era a de todo-poderoso junto ao governo de plantão. Ontem, na “defesa” que apresentou aos senadores, também confirmou que, sim, foi muito bem pago para dar conselhos a ricaços quando era deputado.

A presidente acusou a oposição de estar buscando um “terceiro turno”, politizando o caso. Nada mais falso. O que a oposição fez até agora foi tentar investigar – coisa que o governo fez de tudo para impedir. “Cada requerimento negado, cada CPI sepultada é um tijolo a mais no edifício da suspeita”, escreve Fernando Gabeira no Estadão.

Ressalte-se que as revelações sobre o show dos milhões de Palocci foram feitas pela imprensa e nunca foram negadas por ele. “As duas revelações fundamentais do novo caso Palocci – a compra multimilionária de imóveis e a colheita gênero megassena logo em seguida à eleição de Dilma – foram publicadas pela Folha e elaboradas como notícias objetivas. Sem qualquer extrapolação excedente aos fatos”, comentara Janio de Freitas ontem na Folha de S.Paulo.

Na realidade, para tentar se defender o governo começou a praticar nesta semana um expediente típico de quem está metido em enrascada, o chamado “spin”. É uma forma de torcer a informação de forma a torná-la conveniente a seus interesses. Como estava encurralado, sob fogo de seus próprios “amigos”, o governo passou, dia após dia, a tentar desviar o foco para a oposição.

“Numa conjuntura em que a oposição não tem número sequer para aprovar um requerimento, a iniciativa [de culpar a oposição], além de desprovida de foco, é um acinte à inteligência dos aliados governistas”, observa Maria Cristina Fernandes no Valor Econômico.

As suspeitas quanto à atipicidade das atividades de Palocci estão longe de ser vãs, como fica mais uma vez claro hoje com a notícia, publicada pela Folha, de que o Ministério Público Federal abriu investigação para investigar se o ministro enriqueceu ilicitamente. “O foco da ação é apurar se a evolução patrimonial do ministro é compatível com os ganhos de sua empresa. Caso contrário, Palocci pode responder por improbidade administrativa”.

Ele terá 15 dias para enviar cópia da declaração do imposto de renda da sua empresa de consultoria aos promotores. A Projeto terá que informar a relação de seus clientes e serviços prestados, com cópia de pareceres e registros de reuniões. Numa outra frente, apura-se a prática de tráfico de influência, o que ensejaria investigação na área criminal.

Como se vê, o caso cresce – e não é por culpa da oposição, mas dos fatos. Dilma Rousseff demorou a dirigir-se à nação num episódio da mais extrema gravidade. Quando o fez, dedicou-se muito mais a confundir do que a explicar. Fez, ela sim, politicagem. Lançou acusações vazias, portou-se como se estivesse em cima de um palanque. Fez tudo como mandou o chefe e reforçou a percepção de que sua vocação é ser sempre teleguiada.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Vazio de governo

Lula magnetizou as atenções nos últimos dois dias, depois que se lançou de volta à ribalta política brasiliense. Veio a campo num momento em que as denúncias sobre o enriquecimento astronômico de Antonio Palocci encontravam-se em fogo brando. Com suas bravatas de sempre, o ex-presidente conseguiu dois resultados: voltar a aquecer a polêmica e reduzir a pó a estatura política de Dilma Rousseff.

Os jornais de hoje sustentam que, com a série de reuniões que protagonizou desde terça-feira, Lula comandou uma “intervenção branca” no governo, segundo O Globo. Para a Folha de S.Paulo, o ex-presidente ocupa-se em preencher o “vazio político” reinante em Brasília. Mais correto seria dizer que há um vazio de governo.

A presidente da República encontra-se em seu pior momento, decorridos apenas 146 dias de seu mandato. Ela mesma conduziu-se à atual condição, isolando-se, omitindo-se e, quando contrariada, irritando-se, como na reação à derrota do governo na votação do Código Florestal – em que, comenta Dora Kramer, teria ameaçado demitir todos os ministros do PMDB.

Dilma está que é um destempero só. A ponto de seus “aliados” dizerem que ela se porta como uma “czarina” e mesmo seu fiel escudeiro José Sarney afirmar que, de forma incomum para quem ocupa o cargo máximo da República, a presidente age como “sacerdotisa do serviço público”. Num momento de instabilidade politica, isso não é um elogio...

É lícito afirmar que, a despeito das inabilidades da presidente, o empurrãozinho de Lula foi providencial para que Dilma rolasse ladeira abaixo. A desenvoltura do ex-presidente foi mais que suficiente para revelar um governo sem comando, uma base política sem unidade e nada convicta da inocência de um ministro diante de suspeitas faraônicas. A reentré do petista-mor serviu para desnudar a rainha.

Quem mais colabora para a fragilidade e a desestabilização do governo Dilma são seu próprio partido e sua base de “apoio” parlamentar – e Lula em especial. Segundo participantes da reunião com o ex-presidente ontem no Senado, ele próprio disseminou a tese de que o caso Palocci pode desembocar em uma “crise institucional”, chegando a sugerir a criação de um “Ministério do Vai Dar M...”.

Lula teria dito que o episódio do enriquecimento do ministro “pode levar o governo a uma crise de dimensões imprevisíveis se não for bem administrado”, informa o Valor Econômico. “O presidente Lula tem uma sensibilidade política mais aguçada e deu sinais claros de que a crise do Palocci é muito grave, não sai da mídia, e que pode caminhar para uma crise institucional de dimensões preocupantes e futuro imprevisível”, relatou um senador aliado a O Globo.

Se já está claro que os governistas não colaboram para debelar as suspeitas em torno do ministro, o Valor Econômico vai mais adiante e diz que, na visão do Planalto, a debacle de Palocci “interessa mais a setores do PT do que a outros aliados”. Dá até nome aos bois: grupos identificados com José Dirceu e os deputados Ricardo Berzoini e João Paulo Cunha.

“O enfraquecimento de Palocci ocorre no momento em que o governo começou a fazer, discretamente, mudanças no rumo da política econômica, tornando-a mais à feição do ministro da Casa Civil, isto é, menos intervencionista e mais liberal”, especula o jornal.

Ressalte-se que, até agora, a oposição restringiu-se a seu papel institucional: defender a convocação do ministro para que ele se explique, investigar e trazer a público novos elementos para elucidar o caso.

Como o PSDB fez ontem, ao divulgar que a WTorre – cliente de Palocci na Projeto – recebeu ressarcimentos da Receita Federal (R$ 9,2 milhões) tão logo doou recursos para a campanha de Dilma (R$ 2 milhões). Um episódio em tudo suspeitíssimo, seja pela celeridade nos trâmites (44 dias após o protocolo e quatro dias após o primeiro turno das eleições presidenciais), seja pela extemporaneidade das cobranças (dois anos após os fatos geradores).

Aliás, a WTorre e a Amil não estão mais sozinhas na lista de clientões já conhecidos da Projeto. Também o Santander contratou Palocci quando ele ainda era deputado federal para ouvir seus aconselhamentos, revela O Estado de S.Paulo. Especula-se que toda a polpuda carteira da consultoria tenha pelo menos 20 nomes.

Passadas quase duas semanas das primeiras denúncias, até agora o ministro apenas confirmou a veracidade das revelações de que seu patrimônio cresceu pelo menos 20 vezes em quatro anos e de que embolsou a fortuna de R$ 20 milhões no ano em que coordenou a campanha vitoriosa do PT à Presidência da República – metade deles quando a eleição já estava liquidada e ele virtualmente escolhido primeiro-ministro.

O caso Palocci está servindo para revelar o pouco compromisso do governo Dilma com a transparência na administração e com a defesa do interesse público. Mais que isso, está mostrando ao país que aquilo que vinha sendo comemorado como discrição – o comportamento mais comedido da presidente em comparação com a histrionice de seu antecessor – não passa de tibieza, imobilismo, incompetência. No vácuo de seu governo, Dilma vai se evaporando. E Lula sentiu o cheiro.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cem dias sem o que comemorar

A passagem do 100º dia de governo costuma ser carregada de simbolismo. Menos pelo que efetivamente se fez no período, que é curto, e mais pelos rumos que o novo administrador costuma imprimir à condução da gestão iniciante. Os cem primeiros dias de Dilma Rousseff à frente do Palácio do Planalto, completados ontem, foram recebidos com certo entusiasmo por parte da opinião pública. Mas é um erro imaginar que essa exibição de boa vontade signifique que ela faça um grande governo. Ao contrário.

Assombra a falta de ímpeto demonstrada por Dilma até agora, as contradições em relação ao mundo cor-de-rosa que vendeu aos eleitores no ano passado, as indecisões em relação ao enfrentamento de problemas que se agigantam.

Uma análise mais detida mostra que o enaltecimento a Dilma se deve, principalmente, a correções de rumo de excessos do governo Lula. Abandonou-se o caráter estridente e espalhafatoso em nome da acertada austeridade pessoal. Isso é bom. Também deixaram de existir o alinhamento automático a ditadores fratricidas e o antiamericanismo da nossa política externa. É alguma coisa, mas muito pouco.

A louvação ao governo atual acaba servindo para turvar a visibilidade de seus muitos equívocos. O pior deles é a tibieza com que a inflação tem sido combatida. A equipe econômica de Dilma não tem sabido enfrentar com eficácia o crescimento de um monstro com potencial de arruinar nossas formidáveis conquistas sociais das últimas décadas.

Outro problema sério, a apreciação excessiva do real junto ao dólar não tem sido atacada de maneira apropriada. Medidas como o aumento de impostos para empréstimos feitos no exterior se mostraram inúteis – embora tenham, convenientemente, servido para engordar o caixa do governo federal. Resta claro que governo não sabe se ataca a inflação ou a valorização cambial, que corrói a indústria nacional, mas serve para segurar os preços. Bate-se cabeça.

Com conveniente discrição, promessas anunciadas durante a campanha de 2010 vão sendo, uma a uma, deixadas de lado. Para começar, a pretensão de acabar definitivamente com a miséria no país já foi colocada na geladeira pela presidente, de maneira trivial, como quem não quer nada...

Sobriamente, muitos outros compromissos parecem ter ido para o arquivo morto, como a ideia de incluir eletrodomésticos no Minha Casa Minha Vida. Na realidade, o governo fez o contrário: paralisou o programa para famílias mais carentes.

A política habitacional é apenas um entre os muitos casos de descarte de compromissos firmados com o eleitor no período de busca aos votos. Logo após a eleição, O Globo listou 190 deles. Boa parte ainda não passa de palavras vãs.

Está na relação, por exemplo, a promessa de “não fazer o ajuste fiscal”. O compromisso, como se sabe, foi quebrado com o anúncio de uma tesourada de R$ 50 bilhões no Orçamento, feito em fevereiro. Sabe-se que a necessidade de adequação das finanças deve-se aos excessos de gastos praticados no governo anterior com intuito quase exclusivo de garantir a cadeira presidencial para Dilma.

Outra palavra empenhada em campanha, “trabalhar fortemente para diminuir os juros”, já foi quebrada duas vezes neste ano e nossa taxa continua sendo a mais alta do mundo. Já a promessa de “privilegiar critérios técnicos para definir as nomeações” ficou de lado frente à fúria fisiologista de alguns aliados: quase um terço dos ministros escolhidos por Dilma deve alguma explicação por envolvimento em escândalos.

Os cem primeiros dias do atual governo também se notabilizaram pela tentativa de fazer o Estado controlar a iniciativa privada, da qual o caso da troca de comando na Vale pode ser apenas a ponta do iceberg. Concomitantemente, dentro da nova filosofia, bilhões de reais dos brasileiros correm o risco de virar pó em aventuras sem lastro, como a construção do trem-bala (outra promessa eleitoral que não para em pé).

Do PAC já nem se fala mais. Seja por causa da lentidão e da inoperância que marcam o programa, seja até por constrangimento. Vai se conhecendo, aos poucos, as condições degradantes que vigoram nos canteiros de obras das ações do programa, como ficou patente tanto nos movimentos reivindicatórios nascidos nas usinas de Rondônia, quanto no centro desenvolvido do país, como mostra a edição de hoje da Folha de S.Paulo.

É certo que cem dias pode ser cedo para cobrar o cumprimento de promessas firmadas em uma campanha eleitoral. Mas é tempo suficiente para perceber que, em muitas ações fundamentais, o Brasil corre na contramão do que se anunciava e se exige.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Um rosário de promessas a cobrar

Dilma Rousseff foi eleita presidente do Brasil na sombra de um mito. Isso produziu pouca luz e muita dúvida sobre sua figura. Pouco se sabe de suas ideias, de seus propósitos, de suas estratégias. Tudo isso terá de ser testado agora, ao longo do exercício do mandato. Se conseguiu sagrar-se vencedora na eleição presidencial deste ano sem uma proposta clara, também deixou pelo caminho uma lista infindável de promessas. Será cobrada pela oposição a cumpri-las, uma a uma.

No discurso que fez no domingo, logo após a proclamação dos resultados, Dilma assumiu como seu principal compromisso erradicar a miséria no país. Conseguirá? Significa tirar da pobreza 21,5 milhões de brasileiros. Causa nobríssima. Mas a petista se fia em resultados alcançados ao longo do governo Lula, produzidos sob condições mundiais de temperatura e pressão quase inéditos e provavelmente com pouca chance de repetirem-se.

Esquece-se também que os mais prósperos feitos da gestão petista que vai chegando ao fim, incluindo a redução da pobreza, valeram-se dos invejáveis avanços e reformas institucionais promovidos nos anos precedentes pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Neste campo, Lula e o PT pouco semearam, mais fizeram colher do que plantar. Sua sucessora encontrará terreno árido adiante.

O que valeu a Dilma seus mais de 55 milhões de votos foi tão-somente o aval do presidente Lula. Sua ficha de serviços prestados à nação não seria suficiente para convencer o eleitor: o Programa de Aceleração do Crescimento, que ela coordenou por mais de três anos, não entregou nem metade do que prometeu – isto se forem usados os critérios mais favoráveis ao governo. Alheia a isso, Dilma já prometeu fazer o PAC 2.

O programa “Minha Casa, Minha Vida”, que em abril de 2009 prometeu a construção de 1 milhão de moradias, conseguiu finalizar até agora cerca de 150 mil unidades. Para famílias realmente pobres, com renda de até três salários mínimos – que a presidente eleita diz serem o principal público-alvo de seu governo – tão-somente 1,2% das casas contratadas foram erguidas. Dando de ombros, Dilma diz agora que fará mais 2 milhões de casas e apartamentos.

É fácil ver que a distância entre o que Dilma promete e o que cumpre se mede em milhares de quilômetros, tantos quantos ela acena agora construir em forma de rodovias e ferrovias – incluindo o dispensável, precipitado e caro trem-bala, que custará pelo menos o dobro do que a petista estima investir em obras de transporte público.

Formalmente, a presidente eleita só apresentou à sociedade um anódino e genérico programa de governo. Composto por 13 tópicos, cumpriu muito mais as vezes de um panfleto do que de uma plataforma séria de gestão. Mas, na falta de algo mais definitivo da parte da campanha petista, o jornal O Globo cuidou de compilar as promessas que Dilma disseminou ao longo dos sete meses de campanha: chegou a 190 delas.

O gigantismo e o irrealismo de muitos compromissos assombram. Dilma prometeu fazer mais 500 UPA, mesmo número que Lula disse que faria, mas nem chegou perto de executar (a quantidade exata não está disponível nas informações divulgadas pelo Ministério da Saúde). A lista de promessas na área de saúde tem 21 pontos, algumas bem contraditórias com a prática de governo petista, como a ampliação do Saúde da Família e da produção de genéricos, sistematicamente boicotados pela gestão Lula.

O “promessômetro” de Dilma claramente não para em pé. É cobertor de menos para cama de mais. No que era necessário rigor, ela oferece platitudes, como em relação ao aperfeiçoamento institucional do país. Assim são tratadas as reformas política e tributária. Na Previdência, ela diz que não mexerá, tampouco na política fiscal. É evidente que eram ambas medidas necessárias, mas mais evidente ainda parece ser a indisposição do PT para promover avanços de longo prazo para o desenvolvimento sustentado do país.

A política de irresponsabilidade fiscal que Lula praticou ao longo do seu segundo mandato só conseguiu ir adiante porque a sociedade brasileira continuou sendo espoliada com tributos crescentes. Dilma promete agora reduzir os impostos. Não inova: Lula assumiu idêntico compromisso em 2002, mas a realidade é que a carga tributária global do país passou de 37% para 40,15% do PIB desde então.

Sugere-se ao eleitor que se prepare para cobrar com rigor a consecução do mundo cor-de-rosa choque que Dilma Rousseff e Lula venderam ao longo da mais extensa campanha eleitoral de que se tem notícia. Nestes mais de três anos em que frequentaram juntos palanques ao redor do país, os dois gastaram muito tempo fazendo promessas, mas, esquecidos de governar, fizeram muito pouco para que elas se tornassem realidade.