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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Quando 2 + 2 dá 5

O brasileiro acostumou-se a conviver com fracassos. Nos anos recentes, esta foi quase uma rotina diária. Mas, vez ou outra, ainda que em raras ocasiões, o país desponta como protagonista de algum sucesso. Em alguns casos, em áreas tão improváveis quanto a matemática.

Há pouco mais de três anos um brasileiro foi agraciado com o equivalente ao Nobel de matemática, algo inédito em nossa ciência, quando Artur Avila recebeu a medalha Fields. Agora toda esta área de conhecimento produzido no Brasil foi laureada com a promoção do país à elite da União Matemática Internacional, anunciada na última quinta-feira.

Além do Brasil, apenas outras dez nações fazem parte deste seletíssimo primeiro time mundial: Japão, China, Canadá, Alemanha, Rússia, França, Reino Unido, Itália, EUA e Israel (aqui ordenados segundo a posição de seus estudantes no ranking de matemática da mais recente edição do Pisa).

A ascensão dos matemáticos brasileiros premia longa trajetória iniciada em meados do século passado a partir da criação do CNPq e do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), hoje um centro mundial de excelência na área. Aqui, mais que em qualquer outra situação, os números falam por si.

A produção científica brasileira em matemática multiplicou-se por nove nas duas últimas décadas. A participação nacional no volume global de publicações na área mais que triplicou, para 2,3% do total mundial, e o de artigos em revistas científicas quadruplicou. Há hoje no país o dobro de doutorandos em matemática do que havia dez anos atrás.

A matemática de altíssimo nível que se produz em nossos centros de excelência contrasta, no entanto, com aquela que é lecionada cotidianamente a crianças e jovens nas milhares de escolas de ensino básico do país.

O Brasil faz feio em exames globais como o Pisa: figura apenas na 65ª posição num grupo de 70 países onde provas comparáveis de matemática são aplicadas. Segundo o mais recente Ideb, somente 7% dos concluintes do ensino médio têm desempenho satisfatório na matéria. Entre jovens brasileiros de 15 a 16 anos, mais de 70% não sabem o básico da ciência de somar, subtrair, dividir e multiplicar.

É enorme o desafio de superar tamanho atraso, num saber tão fundamental para os tempos atuais. Mas o êxito da matemática de ponta que se produz no Brasil tinge o horizonte de confiança. Afinal, esta é uma ciência que depende menos de laboratórios e equipamentos e mais do talento humano, em especial do esforço individual. Há, portanto, esperança, ainda que às vezes esta apareça em números pequenos ou em baixas probabilidades.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Por uma nova escola

É um lugar-comum, mas é incontornável: não há futuro possível sem boa educação. Há anos, ou melhor, há décadas, o Brasil repete este truísmo, mas continua praticamente sem sair do lugar – em alguns casos, tem andado para trás. Algumas iniciativas positivas precisam ser aceleradas para enfrentar, e vencer, este desafio.

Todas as avaliações recentes sobre o ensino do país confirmam o que a prática cotidiana não esconde: o aprendizado nas nossas escolas vai mal. No cotejo com a educação no resto do mundo, a situação brasileira é simplesmente vergonhosa, como comprovaram, por mais um triênio, os resultados do Pisa divulgados pela OCDE no início do mês.

Entre 70 países, o Brasil caiu do 55° para o 59° lugar no ranking de leitura; do 59° para o 63° no de ciências e do 58° para o 65° na lista de matemática. O desempenho – de alunos de 15 anos de idade, ou seja, que estão iniciando o ensino médio – descreve uma estagnação da educação brasileira que já vem desde, pelo menos, a década passada.

Mas nem era preciso rankings internacionais para perceber o que cadernos e livros escancaram. As avaliações continuadas feitas pelo Ministério da Educação anualmente – um amplo sistema de aferição e monitoramento que só passou a existir no país na época do governo Fernando Henrique – já demonstram a má qualidade do ensino nacional.

No Ideb, por exemplo, as notas das séries finais do ensino médio em matemática e português estão hoje piores do que estavam em 1995. As dos anos finais do fundamental avançam lentamente, mas mantêm-se abaixo das metas desde 2013.

Numa rara convergência para mudar esta triste realidade, em junho de 2014 entrou em vigor o Plano Nacional de Educação, depois de anos de discussões. São 20 metas, que cobrem da educação infantil até a pós-graduação, passando pela formação de professores e o financiamento. Infelizmente, muito pouco do planejado foi atingido até agora, mostrou a Folha de S.Paulo em junho.

Educadores reclamam da falta de recursos. Mas o Brasil já gasta bastante com educação: 5,3% do PIB, acima de países com resultados bem melhores. Também gasta mal: quase quatro vezes mais com o ensino superior do que com a necessária educação fundamental. Ao mesmo tempo, paga muito pouco aos professores das séries básicas – cerca de 40% da média mundial. Não há como dar certo.

O que falta, na realidade, não é dinheiro, mas planejamento decente e uma boa governança para garantir que as metas e as melhores intenções não fiquem apenas no papel, conforme sentenciou Ricardo Paes de Barros, um dos principais especialistas na área, em entrevista publicada nesta semana pelo Valor Econômico.

Uma das iniciativas mais ousadas para começar a alterar da educação brasileira está em marcha, por meio da reforma do ensino médio. Finalmente, depois de décadas de atrasos e delongas, o Brasil está prestes a alinhar a forma e o conteúdo ensinados a nossos jovens àquilo que já é praticado há séculos no resto do mundo, com sucesso inconteste.

A reforma proposta pelo MEC passou pela chancela da Câmara na semana passada e aguardará a apreciação do Senado logo no início do próximo ano legislativo. A escola ficará mais flexível e, possivelmente, mais atraente – característica aprovada por 58% dos jovens, segundo pesquisa recém-publicada pelo Datafolha.

O aperfeiçoamento da educação brasileira, que também inclui a redefinição das bases curriculares nacionais, é uma agenda prioritária no âmbito dos esforços de reconstrução do Brasil. Precisa ocupar o topo das urgências nacionais no próximo ano e assim se manter por muito tempo, para que o futuro tantas vezes adiado finalmente chegue.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Mal educados

A cada dois anos, o país se vê face a face com as condições da educação oferecida por nossas escolas de ensino básico. A cada dois anos, a constatação tem se repetido: o país não tem entregado a suas crianças e seus jovens o saber necessário para que alcem voos mais altos e para que o Brasil responda aos desafios de um mundo mais competitivo.

As notas do Ideb foram divulgadas no final da semana passada. Referem-se, nesta rodada, às avaliações feitas em 2015. Aferem o desempenho dos alunos em provas de matemática e português e a dinâmica de indicadores relativos a reprovação e abandono ao longo dos 12 anos do ensino básico (fundamental e médio).

Nesta edição, o que mais chamou atenção foi o péssimo resultado do ensino médio. A nota manteve-se no mesmo lugar onde está estacionada desde 2011; em dez anos, avançou apenas 0,3 ponto para os atuais 3,7 pontos. Alcançar as metas parece ter se tornado uma miragem: entre as 27 unidades da federação, só Amazonas e Pernambuco conseguiram.

Nos detalhes, os resultados revelam-se ainda mais preocupantes. No ensino médio, a nota das provas de matemática foram as piores em dez anos: para uma meta de 320 pontos, os alunos só alcançaram 267 nesta rodada. Em português, para meta de 300 pontos, a nota coincidentemente também foi de 267. Até os resultados da rede privada nesta fase pioraram.

O atraso que explode no ensino médio já começa a se delinear nos anos finais do fundamental. Nesta fase, a meta também não foi batida, como já ocorrera em 2013. Embora venha melhorando, o desempenho avança muito lentamente nos últimos anos. Em dez anos, o Ideb do fundamental dos anos iniciais (1° ao 5°) subiu 1,7 ponto e o dos anos finais (6° ao 9°), apenas 1 ponto.

Especialistas em educação e o próprio MEC não têm dúvidas quanto às iniciativas necessárias para começar, mesmo tardiamente, a enfrentar o problema. A primeira delas é reformar o currículo. O instrumento pode ser projeto de lei (n° 6.840/13) que já tramita no Congresso a respeito, enxugando os conteúdos e associando interesses profissionais futuros dos alunos a disciplinas mais específicas no ensino médio.

Experiências bem sucedidas país afora também podem iluminar novas práticas. De Pernambuco, por exemplo, vêm os bons resultados da expansão do ensino integral e do Ceará o êxito das escolas de ensino fundamental, com incentivos, inclusive, fiscais – 46 das 50 melhores escolas públicas do país nesta fase de aprendizagem estão no estado.

A radiografia que emerge do Ideb atesta que a educação vem sendo maltratada por sucessivos governos. São anos patinando, sem sair do lugar – nada muito surpreendente quando se constata que o MEC teve nada menos que sete diferentes ministros na era petista. Para um país que até ontem se vangloriava de ser a “pátria educadora”, a reprovação é absoluta.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Falta de educação

Há muito pouco a comemorar nos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) divulgados ontem pelo Ministério da Educação. Os avanços são tímidos demais, os problemas se avolumam à medida que os alunos progridem nas séries, o abismo entre ensino público e particular permanece. A educação brasileira continua sem passar de ano.

Os estudantes saem-se melhor nas séries iniciais do ensino fundamental, pioram um pouco no segundo ciclo e afundam de vez no ensino médio. Fica nítido que há um funil nos anos finais de formação dos alunos. Desta lógica perversa, decorrem pelo menos dois efeitos mais evidentes: alta evasão escolar e baixa capacitação de quem sai das salas de aula para o mercado de trabalho.

O Ideb é calculado a partir da Prova Brasil, avaliação aplicada pelo governo federal aos alunos da rede pública – toda ela, obrigatoriamente – a cada dois anos. Escolas privadas são avaliadas apenas por amostragem, mas é possível que também passem a ter que se submeter compulsoriamente aos exames. A prova é aplicada no 5° e 9° anos do ensino fundamental e no 3° ano do ensino médio.

Os alunos respondem a questões de língua portuguesa, com foco em leitura, e de matemática, com ênfase na resolução de problemas. Mas o desempenho nas duas disciplinas compõe apenas parte da nota. Outra parcela é aferida a partir da progressão dos estudantes, ou seja, do nível de aprovações e repetências. Daí surgem distorções.

Nas séries iniciais, entre o 1° e o 5° anos, em que o alunato sai-se levemente melhor, o Ideb médio do país passou de 4,6 em 2009 para 5 em 2011. Praticamente metade da melhora (0,22 ponto, para ser mais preciso) se deve, de fato, a um desempenho menos sofrível dos estudantes em português e matemática; a outra metade, à redução da repetência. “Aprovar é mais fácil que melhorar a aprendizagem. Para aumentar o fluxo, basta uma canetada”, desnuda Priscila Cruz, diretora do Todos pela Educação. 

Em quaisquer dos ciclos analisados pelo Ideb, o Brasil não passa de ano. As médias nos anos iniciais do ensino fundamental (1° ao 5° anos), nos finais (6° ao 9° anos) e no ensino médio (o antigo 2° grau) não ultrapassam 5, numa escala que varia de 0 a 10. Registre-se que, em todos os casos, as metas oficiais para 2011 foram cumpridas, mas de que adianta, se tão medíocres são?

A nota do segundo ciclo do fundamental foi de 4,1, enquanto a meta proposta para o ano era de 3,9, sem esquecer que, entre 2009 e 2011, o avanço foi de apenas 0,1 ponto. No ensino médio, a nota média do Ideb no país variou de 3,6 para 3,7 no período, resultado que garantiu tão somente o cumprimento da meta oficial à risca.

A situação é mais calamitosa no ensino médio: “O índice de aproveitamento do ensino médio esteve, desde 2005, ou encostado na meta, ou abaixo dela, sem contar que a meta é muito baixa. O de 2007 ficou em 3,5 (a meta era 3,4), o de 2009 ficou em 3,6 (a meta era 3,5), e o de 2011 ficou em 3,7 (a meta era 3,7). Não houve evolução na aprovação do Ideb do ensino médio de 2009 (0,8) para 2011 (0,8); a evolução no desempenho de matemática foi imperceptível, passando de 274,7 (2009) para 274,8 (2011); em língua portuguesa houve queda, passando de 268,8 em 2009 para 268,6 em 2011”, sintetiza o Valor Econômico.

É nesta etapa de aprendizado que há menos professores com formação adequada, estruturas mais deficientes e projetos pedagógicos mais falhos. É também, não por coincidência, para onde se destina a menor parcela dos gastos públicos em educação, excetuando-se a infantil: o médio recebe 13% do total, enquanto 65% vão para o fundamental e 15% para o superior.

Nos anos do ensino médio, a distância entre o desempenho das escolas públicas e privadas se agiganta. A diferença entre a pontuação delas chega a 2,3 pontos, enquanto nas séries inicias do fundamental é de 1,8 ponto. Resultado: o desempenho de estudantes do ensino médio público em português e matemática é inferior ao atingido por alunos do último ano do fundamental particular, com três anos de estudos a menos.

“Por qualquer ângulo, a conclusão é uma só: nossas redes não estão ensinando. Ainda que haja algum avanço nos anos iniciais, nos anos finais e no ensino médio o país está estagnado. Milhões de alunos passam anos nas escolas, mas chegam ao final dos ciclos sem saber o esperado”, resume Denis Mizne, da Fundação Lemann.

Nos últimos anos, o MEC tem sido usado de trampolim e figurado como celeiro de pretendentes petistas a cargos políticos de maior projeção. Desde a era Lula, de lá saiu um governador de estado e, mais recentemente, um pretendente a prefeito de capital. Os maus resultados que o país tem obtido na educação de suas crianças e jovens não os credenciam a dirigir sequer um carrinho de pipoca.