Lula, o condenado, começa hoje sua caravana da vergonha pelos estados do Nordeste. O petista está em campanha para um novo mandato, mas antes de buscar mais uma vez o voto do eleitor deveria explicar aos nordestinos por que prometeu tanto a eles, mas não entregou.
Lula ressuscita, mais de 20 anos depois, o modelo de promoção e marketing que adotou antes de conseguir chegar à presidência da República. Percorrerá de ônibus 28 cidades ao longo de 20 dias, desde Salvador até São Luís. Espera ser festejado, mas deveria mesmo é ser contestado e cobrado.
O Nordeste ainda é a região em que Lula, o condenado, mais conserva sua força eleitoral. Há, no entanto, uma dissociação entre a realidade que os governos do PT legaram aos nordestinos e a matéria-prima que impulsiona a retórica petista.
Entre as heranças malditas deixadas pelos governos de Lula e Dilma está a transformação das cidades nordestinas nos principais polos de criminalidade do Brasil. Em 2015, 40% dos assassinatos no país ocorreram em algum dos nove estados da região, de acordo com o Atlas da Violência, do Ipea.
Também é o povo do Nordeste que mais sofre com o pior legado do petismo: o desemprego. Em agosto do ano passado, quando chegou definitivamente ao fim o desastre capitaneado por Dilma Rousseff, 19,6 milhões de pessoas estavam sem trabalho na região, considerando o conceito que abarca o desemprego por desalento e o subemprego. É quase 44% do total de pessoas na região em idade para trabalhar, segundo o IBGE.
A realidade do Nordeste contrasta sobejamente com aquilo que o PT costuma mostrar na TV como realizações de sua lavra. A região é um dos maiores cemitérios de obras inacabadas deixadas de presente pelo petismo para o país. A lista é imensa, e nela é bem mais difícil achar o que foi feito do que aquilo que está parado e/ou mal feito.
Começa pela Abreu e Lima, cujo custo multiplicou-se por dez, tornando-a a refinaria de petróleo mais cara do mundo, embora só produza 1/5 do que deveria produzir. Passa pelas duas refinarias Premium que foram prometidas para o Maranhão e o Ceará e, depois de torrarem mais de R$ 2,6 bilhões, foram abandonadas. Cadê, Lula?
Lula, o condenado, poderia aproveitar os quatro dias que passará na Bahia para explicar por que a Ferrovia Leste-Oeste, que deveria cortar o estado de ponta a ponta, continua sem transportar uma mísera saca de soja, seis anos depois da data marcada para ser inaugurada.
A mesma maldição recai sobre a Transnordestina. As obras se iniciaram em junho de 2006 e deveriam estar terminadas em 2010, com trilhos cortando Piauí, Ceará e Pernambuco. “É o começo de um novo tempo para o Nordeste”, disse Lula no dia do lançamento das obras. Esse novo tempo ainda não chegou: o custo da ferrovia saltou de R$ 4,5 bilhões para R$ 11,2 bilhões e, mais de uma década depois, só metade dos trechos foram concluídos. Cadê, Lula?
O PT de Lula, o condenado, também está devendo boa parte daquela que seria a redenção do semiárido nordestino: a transposição das águas do rio São Francisco. As obras deveriam ter ficado prontas em 2010, mas até agora apenas o eixo leste pôde ser inaugurado, apesar de o empreendimento já ter consumido o dobro do previsto dez anos atrás. O eixo norte continua só no papel.
Estão também no Nordeste boa parte dos equipamentos de saúde parados, fechados sem servir a população, a exemplo de 500 UPAs (unidades de pronto-atendimento) prontinhas, mas sem funcionar em todo o país. A região sofreu, ainda, com a paralisia do Minha Casa Minha Vida, que, no ano passado até maio, havia contratado zero unidade para a faixa 1, destinada a famílias pobres – penúria que, neste ano, já foi revertida para 100 mil novas casas. Cadê, Lula?
A agenda de Lula, o condenado a 9 anos e seis meses de cadeia, no Nordeste está repleta de atividades tão festivas quanto enganosas. São vários títulos de doutor em universidades de meia tigela e concessão de diplomas de cidadão honorário que estavam arquivados há décadas. O ex-presidente poderia empregar seu tempo de forma mais produtiva e honesta: justificando aos nordestinos por que os engana há tanto tempo.
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sexta-feira, 18 de agosto de 2017
Cadê, Lula?
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terça-feira, 24 de setembro de 2013
O Nordeste é solução
O Nordeste tem sido uma das regiões do país que mais cresce nos últimos anos. A renda aumentou, o mercado de consumo cresceu e mais empregos foram gerados. É algo a comemorar, fruto de políticas que remontam há décadas, iniciadas com a estabilização da economia. Mas o Nordeste pode, quer e precisa de muito mais.
Os resultados já alcançados na região decorrem muito mais de
políticas de transferência de recursos e de incentivo ao consumo. São, pois, de
alcance limitado, insuficientes para superar os seculares atrasos que afligem a
região. O poder público, em especial o governo federal, não tem buscado promover
o desenvolvimento autônomo e altivo do Nordeste.
Não houve nos anos recentes nenhuma estratégia de
desenvolvimento regional que efetivamente impulsionasse a economia nordestina e
permitisse a implantação de um robusto parque produtivo local. O Nordeste
continua dependente da boa vontade do poder central, e isso não pode continuar
assim.
O Nordeste tem 18% da área, 13,5% do PIB, 27% da população,
mas menos da metade da renda do Brasil: se fosse um país, a região teria apenas
o 145° maior PIB per capita do mundo. É preciso fazer diferente e mudar esta
realidade e esta desigualdade.
Para superar o atraso, o Nordeste precisa de um grande
projeto estruturante, com alcance de longo prazo. Esta estratégia deve estar
baseada na constituição de um amplo plano integrado de infraestrutura que
interligue portos, ferrovias, rodovias, aeroportos, hidrovias e também integre a
região ao mundo.
A solução para o Nordeste passa, também, pelo
desenvolvimento de uma política séria de convivência com a seca, numa área onde
21 milhões de pessoas, o equivalente a 40% da sua população, vive no semiárido.
Não é nada disso o que temos hoje: nos últimos anos, o
Nordeste viveu a sua pior seca em mais de cinco décadas, afetando 10 milhões de
pessoas. No entanto, apenas 22% das obras emergenciais para seca prometidas
pelo governo Dilma foram entregues.
A transposição do São Francisco poderia ser um primeiro
passo, mas a obra arrasta-se: canais que deveriam estar transportando água
desde 2010 hoje deterioram-se sob o sol, secos. Transportar água não é
suficiente; é necessário fazê-la chegar aonde deve, com obras complementares que
garantam melhor aproveitamento e distribuição dos recursos hídricos da região.
Além disso, também devem ser disseminadas tecnologias para
produzir em áreas de pouca água e solos não muito férteis. Elas já existem, desenvolvidas,
sobretudo, pela Embrapa: variedades de sementes adaptadas ao semiárido e mesmo
a criação de caprinos, barata e viável com pouca água. Ou seja, solução há,
basta aplicá-las.
Para promover a necessária arrancada que o Nordeste merece, é
preciso um plano de longo prazo, planejamento cuidadoso e adequado. É tudo o
que, infelizmente, a região não tem hoje. As promessas foram muitas, mas
viraram um cemitério de obras inacabadas. A lista é longa.
Prometida para 2010, a Transnordestina tem hoje apenas 262
km dos 1.728 km previstos prontos. A ferrovia Oeste-Leste deveria estar concluída
em julho passado, mas não tem um metro sequer de trilho assentado. A Abreu e
Lima será a mais cara refinaria já feita no mundo: seu valor multiplicou-se por
dez num intervalo de seis anos.
Hoje falta até energia para o Nordeste avançar: nos últimos
dois anos, a região sofreu quatro grandes apagões – o último, há menos de um
mês, deixou os nove estados no escuro. O Nordeste vê-se obrigado a importar
energia de outras regiões, mesmo tendo 19 parques eólicos prontos, mas parados,
porque não dispõem de linhas de distribuição.
Um número sintetiza esta incúria, este desleixo, esta parca
atenção dispensada pelo governo petista ao Nordeste. Em 2011, o governo Dilma
anunciou investimentos de R$ 215 bilhões na região dentro do chamado PAC 2.
Deste valor, até hoje, quase três anos depois, apenas R$ 17 bilhões foram
aplicados, o que equivale a 8% do prometido. Numa frase: falta compromisso.
Só se supera este estado de coisas com bom planejamento, capacidade
de gestão e seriedade. É possível dar um salto adiante. O Nordeste tem enormes
potencialidades, como o turismo, a fruticultura irrigada e indústrias em ascensão,
como a de calçados.
Entretanto, a maior potencialidade do Nordeste é seu povo: o
nordestino arretado, o sertanejo incansável e sua alegria infindável. Mas são especialmente os jovens nordestinos os
vetores do salto para o futuro que a região precisa e vai dar.
Os nordestinos querem, e terão, mais e melhores empregos,
formação profissional de maior qualidade e oportunidades para subir na vida com
suas próprias pernas, sem paternalismo. Terão, também, mais segurança: não dá
mais para assistir a escalada de violência que golpeia a região sem que a União
sequer esboce reação.
Além disso, aqueles que dependem do Estado devem continuar
contando com o apoio e o auxílio financeiro do poder público. Isso é um direito
assegurado e não muda. Mas este deve ser um ponto de partida, jamais uma meta
de chegada.
Chegou a hora de fazer do Nordeste um lugar melhor, mais
justo com seu povo e sua história de luta. Até porque o Nordeste não é
problema, o Nordeste é solução.
sábado, 6 de abril de 2013
O Nordeste merece mais
Dilma Rousseff volta hoje ao Nordeste, pela segunda vez na semana. A cada viagem, a presidente leva um pacote de bondades debaixo do braço, mas, independentemente deles, as dificuldades da região continuam as mesmas. Já não é hora de o governo petista agir efetivamente para superar os problemas que afligem o povo nordestino?
Dilma estará hoje em
Salvador para a festa de inauguração do novo estádio da Fonte Nova. Será sua
nona viagem à região só neste ano e a 48ª desde o início de seu governo,
conforme levantamento da Folha de S.Paulo. A cada duas viagens que fez pelo país desde janeiro último, uma teve o
Nordeste como destino.
Mais o calendário
eleitoral se aproxima, mais a presidente multiplica suas idas aos estados
nordestinos. Vai à cata de votos. Na terça-feira, esteve em Fortaleza, onde
anunciou mais um “pacote” de ajuda aos municípios da região castigados pela
seca. Feito o anúncio, pôde-se perceber que, na realidade, ele trazia um monte
de intenções recicladas e medidas velhas.
Os R$ 9 bilhões propagandeados
juntam, num mesmo balaio, manutenção de benefícios, verbas já empenhadas e
recursos carimbados que já iriam, de alguma forma, para o Nordeste. Em ritmo de
campanha, o que interessa à presidente é produzir cifras portentosas; benefícios
reais para a população são o de menos.
Um terço do “pacote”
refere-se ao que o governo federal deixará de arrecadar com a renegociação de
dívidas de agricultores. Mais 23% vêm do PAC Equipamentos, lançado ainda no ano
passado, destinando retroescavadeiras e motoniveladoras às prefeituras. E outros
17% são renúncias de recursos que, de qualquer forma, seriam reservados à
região por meio de fundos constitucionais, conforme cálculos d’O Estado de S.Paulo.
O governo federal
diz que, desde que a seca se acentuou, já liberou R$ 7,6 bilhões para os 1.145
municípios nordestinos mais afetados. Fernando Castilho, colunista do Jornal do Commercio, fez as contas e
concluiu: o valor representa apenas metade do que o BNDES liberou para empresas
de Eike Batista e um terço do que o banco repassou à Fiat. O Nordeste merece
mais que isso.
A caixinha de
truques da gestão Dilma ainda previa um novo anúncio de medidas de apoio a
produtores agrícolas da região para a contratação de frete para transporte de
milho. Mas o próprio governo considerou que era muito pouco e suspendeu a
medida, que integrava um “pacote emergencial” para enfrentar o caos logístico
que se instalou no país – e agora foi definitivamente arquivado, conforme a Folha
de hoje.
O mais grave é que,
com o Nordeste mergulhado na mais severa estiagem que se tem notícia em cinco
décadas, as ações do governo federal se limitam a paliativos. Obras emergenciais
continuam consumindo o grosso dos recursos do Orçamento da União, enquanto
ações estruturantes apodrecem, como é o caso da transposição das
águas do rio São Francisco.
De acordo com a ONG
Contas Abertas, de R$ 3,4 bilhões previstos no orçamento de 2012 para obras de
barragens, adutoras e canais, dentro do programa federal Oferta de Água, apenas
R$ 407 milhões foram efetivamente aplicados, o que dá meros 12% do total,
segundo O Globo.
Do que o Ministério da
Integração informa ter investido para enfrentar a seca (R$ 7,4 bilhões), 62%
têm cunho emergencial. Ou seja, repete-se na abordagem ao crítico flagelo da
estiagem no Nordeste o mesmo padrão que vigora para responder a desastres
naturais em outros locais do país: o governo petista opta sempre por remediar,
quase nunca por prevenir.
“O PT não foi capaz,
até agora, de vencer o círculo vicioso da catástrofe social e econômica que
emoldura tradicional exploração política, em que o sofrimento humano é tratado
como oportunidade que se renova e não como situação extrema intolerável”,
opinou O Globo em editorial na sua edição de ontem.
É bom que a
presidente da República volte suas atenções ao Nordeste. A região precisa e
merece. O que não é aceitável é que ela só faça isso em função de fatores
eleitorais. Dilma Rousseff tem ainda 21 meses de mandato pela frente: neste período,
deveria dedicar-se a melhorar as condições de vida dos brasileiros em geral, e
dos nordestinos em especial, e não a empreender sua extemporânea e indevida campanha
à reeleição.
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sábado, 19 de janeiro de 2013
Passeando no Nordeste
Dilma Rousseff retorna hoje ao Nordeste. A presidente pretende mostrar que seu governo está agindo em prol da região. Infelizmente, suas intenções não correspondem aos fatos. Os estados nordestinos só têm recebido atenção de Brasília no papel e na saliva.
De tempos em tempos,
Dilma volta à região para o conhecido “bater de bumbo”, jargão do mundo
político para se referir à promoção de ações de governo. Hoje, ela estará no
Piauí para entregar algumas moradias.
Inicialmente, o
programa oficial previa a inauguração de um sistema adutor de água, cuja
conclusão fora prevista para o primeiro semestre de 2012. Mas, na última hora, constatou-se
que ainda não havia o que entregar e a presidente terá que se contentar com uma
mera visita à obra, localizada no município de São Julião (PI).
Dilma pretende rodar
a região nas próximas semanas, num giro que inclui ainda Pernambuco, Ceará,
Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Seus assessores terão que montar as
agendas presidenciais com cuidado redobrado: nas últimas vezes em que foi ao
Nordeste, Dilma não conseguiu encontrar as realizações que alardeava.
Foi o que aconteceu,
por exemplo, em fevereiro do ano passado, quando ela quis visitar obras da
transposição do rio São Francisco e da ferrovia Transnordestina. Só conseguiu
ver canteiros malparados e ainda teve que evitar decepções maiores, riscando
na última hora sua passagem por Missão Velha (CE) e Cabrobó (PE), onde o quadro
era mais desolador.
A lista de obras periclitantes
é extensa: além da transposição e da Transnordestina, inclui a Ferrovia Oeste-Leste,
o porto de Ilhéus, as refinarias da Petrobras, a BR-101, os metrôs das
principais capitais nordestinas e até mesmo os malfadados navios petroleiros
que só conseguem navegar depois de muito atraso.
Em setembro, o Valor Econômico mostrou que a carteira de investimentos federais na região
soma R$ 116 bilhões, mas, na média, estes empreendimentos tinham três anos e
meio de atrasos. A julgar pelo baixíssimo desempenho orçamentário do governo
federal em 2012, a situação não mudou desde então.
A transposição do Velho
Chico, por exemplo, só recebeu 18% da verba prevista para o ano passado,
mostrou O Estado de S.Paulo no último dia de dezembro. A execução se restringiu,
basicamente, a restos a pagar dos anos anteriores. Com isso, a obra,
inicialmente prometida pelo PT para 2010, teve menos de 50% executados até
agora e só ficará pronta em 2015, na melhor das hipóteses.
Em outubro, a
Confederação Nacional da Indústria divulgou levantamento
em que mostra que somente um quarto de uma lista de 83 projetos prioritários
para o Nordeste estava em andamento. Um extenso rol de obras continua na gaveta
ou avança a passos de tartaruga. A penúria é maior no caso das ferrovias e dos
portos.
É o que acontece no Piauí
que Dilma visita hoje. A agenda presidencial guardou profilática distância das
obras da Transnordestina no estado, onde está 30% do traçado da ferrovia – situado
entre Eliseu Martins (PI) e Salgueiro (PE). Há dois anos, a presidente afirmou
que pretendia entregar a obra até 2013, mas, segundo técnicos do governo, só
20% dos trilhos foram assentados, como mostra hoje o Estadão.
Por suas belíssimas
atrações turísticas e suas paradisíacas praias, o Nordeste tem sido o refúgio
de presidentes em férias. Mas, quando estão a trabalho, eles não deveriam ir à
região apenas a passeio, como fará Dilma Rousseff hoje. Quem sabe numa próxima
vez a presidente tenha, de fato, algo a mostrar por lá.
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sábado, 10 de novembro de 2012
Nordeste: urgente e relevante
A presidente Dilma Rousseff volta hoje ao Nordeste levando na bagagem um monte de promessas que não cumprirá. O governo petista tem sido pródigo em anunciar grandiosas intervenções na região, que sofre com a mais rigorosa estiagem dos últimos 40 anos, mas absolutamente avaro quando chega a hora de realizá-las.
A incúria em relação
aos problemas que já afligem 10,15 milhões de pessoas e põem 1.317 municípios em
situação de emergência fica clara com a parca execução do Orçamento Geral da
União voltado a obras e ações de infraestrutura hídrica no Nordeste. Dos R$ 2,2
bilhões destinados ao aumento da oferta de água na região neste ano, apenas 12%
foram executados até agora.
Dos 34 projetos e
atividades planejados para 2012, 19 não tiveram um único centavo pago até quarta-feira,
de acordo com levantamento feito junto ao Siafi pela Liderança do DEM no
Senado. Outros seis tiveram menos de 20% liquidados.
O governo petista
pode querer argumentar que o grosso da execução deste ano é de despesas previstas
no Orçamento de 2011. Mesmo que seja uma aberração em termos de finanças
públicas, também não seria verdadeiro: dos R$ 601 milhões orçados para o ano
passado, somente 34% foram efetivamente pagos até o último dia 7. Isto mesmo: quase
dois anos para executar pouco mais de um terço do previsto para um exercício.
Novamente, a fileira
de zeros se repete: dos 42 projetos e atividades orçados em 2011 com a função
de melhorar a infraestrutura hídrica e levar mais água para os nove estados do Nordeste,
nada menos que 27 não tiveram nadinha investido até agora.
Neste ano, às dotações
originalmente destinadas pelo Orçamento da União somam-se os montantes previstos
em quatro medidas provisórias editadas pelo Planalto entre abril e outubro
últimos, que envolvem mais R$ 2,2 bilhões.
Os textos foram
enviados para apreciação do Congresso sob alegação de urgência e relevância em aplacar
os problemas decorrentes da estiagem no Nordeste. Por isso, contaram com o
apoio decidido de deputados e senadores, inclusive da oposição, que correram para
aprová-los. Mas, se houve urgência em propor e aprovar as medidas, o mesmo não
está ocorrendo ao implementá-las.
Até agora, só R$ 760
milhões foram aplicados, ou pouco mais de um terço do total. Um exemplo: editada
em 5 de junho, a MP n° 572, que destinou R$ 381 milhões a apoio a comunidades afetadas
por desastres ou calamidades, teve menos de R$ 20 milhões investidos até agora,
ou seja, apenas 5,2% do previsto, depois de transcorridos mais de cinco meses.
Estiagem não é um problema novo no Nordeste. Muito ao contrário:
os períodos de seca se repetem na região. A despeito disso, parecem ter o poder
de sempre pegar o governo federal de calças curtas. Mas a desgraça alheia acaba
sendo transformada pelo poder público em oportunidade para se promover.
Hoje, em Salvador, Dilma promete anunciar R$ 1,7 bilhão em investimentos
para ampliação da oferta de água na região, no que foi batizado pelo marketing
petista de “PAC-Prevenção”. Serão 33 intervenções em 120 municípios inseridos
na área de atuação da Sudene, segundo informa o Correio
Braziliense.
O PAC-Prevenção talvez não fosse necessário se o PAC
original, lançado há quase seis anos, tivesse entregado o que prometeu. Mas seu
rol de fracassos – entre os quais um dos mais retumbantes são as obras da
transposição das águas do rio São Francisco – supera com sobras as parcas
realizações.
Como se não bastasse, à inação do poder federal soma-se também
a penúria a que os municípios – e não apenas os nordestinos – estão sendo
submetidos em razão da política econômica do governo petista. A desaceleração
da economia e as medidas de desoneração tributária feitas com chapéu alheio –
que retiraram pelo menos R$ 1,5 bilhão das prefeituras – deixaram prefeitos com
pires na mão e muitos deles simplesmente estão fechando as portas de suas repartições,
como está ocorrendo em Pernambuco.
Não pense a presidente da República que conseguirá enrolar,
mais uma vez, o Nordeste com suas promessas vãs. O histórico de compromissos não
cumpridos, de desídias em relação às necessidades da região e de injustiças com
os entes federados é mais que suficiente para pôr em descrédito suas supostas bondades.
Hoje na Sudene, caberá a Dilma Rousseff encenar uma pantomima na qual ninguém mais
põe fé.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
O Nordeste à míngua
O Nordeste impôs ao PT uma derrota acachapante nestas eleições. A região mostrou, em primeiro lugar, que não aceita tutela de quem quer que se arvore líder de sua população. Mas exprimiu, igualmente, repúdio a um governo que não vem dando a merecida atenção aos nordestinos.
Tanto Lula quanto
Dilma Rousseff foram eleitos com votações acachapantes no Nordeste: tiveram 61%
e 70% dos votos, respectivamente, nas eleições de 2006 e 2010. Em campanha, o
PT prometeu a redenção da região, por meio de obras há muito aguardadas pela
população. Mas, depois de uma década de governo petista, nada, rigorosamente
nada, foi concluído.
A lista de promessas
é robusta e, se tivesse sido concretizada, poderia ter contribuído para que a região
diminuísse expressivamente o hiato que ainda a separa do restante do país – o
Nordeste tem quase 28% da população brasileira, mas participa com pouco mais de
13% do PIB. Inclui refinarias, melhoria da malha rodoviária, em especial a
BR-101, a conclusão da ferrovia Transnordestina e, principalmente, a
transposição das águas do rio São Francisco.
Nesta semana, a
Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou levantamento em que mostra
que, de uma lista de 83 projetos prioritários para o Nordeste, somente 25%
estão em andamento. Um extenso rol de obras continua na gaveta ou avançam a
passos de cágado, como é mais notável no caso das ferrovias e dos portos.
Isso torna as
condições logísticas da região muito prejudicadas, impedindo maior expansão da
economia local. Enquanto a carteira de obra classificadas como prioritárias na
região atinge R$ 25,8 bilhões, os gastos com transportes no Nordeste somam a R$
30 bilhões. “Os investimentos nos projetos de infraestrutura teriam retorno em
pouco mais de quatro anos”, avalia o Valor
Econômico.
O exemplo mais
gritante da incúria do governo federal em relação ao Nordeste continua a ser a
transposição das águas do Velho Chico. A obra foi apresentada no governo de
Luiz Inácio Lula da Silva como a salvação do semiárido, assolado por frequentes
estiagens e indesejáveis faltas d’água. Prometida para 2010, não deve ficar
pronta sequer na gestão Dilma, sobrando para 2020.
Lançada como uma das
vedetes do hoje esquecido PAC, em janeiro de 2007, a transposição deveria
assegurar oferta de água a cerca de 400 municípios dos estados de Pernambuco, Ceará,
Paraíba e Rio Grande do Norte. Mas oito dos 16 lotes que compõem a obra estão
hoje paralisados – muitos a cargo da Construtora Delta, blindada pelo governo petista
e sua base aliada na CPI do Cachoeira – e somente um foi concluído: o chamado canal
de aproximação do eixo norte, em Cabrobó (PE).
Mas, mesmo já
inaugurado, este trecho não leva água alguma para as famílias do semiárido,
conforme mostrou o Correio
Braziliense há um mês: “Ninguém foi beneficiado pelo canal com pouco
mais de dois quilômetros porque, até hoje, uma estação de bombeamento e uma
ponte não estão prontas.” A ponte sequer começou a ser construída e a estação
só deve ser finalizada no fim de 2014.
A transposição
envolve obras numa extensão de 713 quilômetros de canais. Orçada inicialmente
em R$ 4,5 bilhões, já praticamente dobrou de valor, mas continua longe da
conclusão. Sobram denúncias de sobrepreços, superfaturamento e desvio de recursos
públicos. A Controladoria Geral da União também já apontou deficiências graves nos
projetos básico e executivo das obras e falhas de fiscalização por parte do
Ministério da Integração Nacional.
Enquanto isso, o
semiárido nordestino agoniza com a falta d’água e a perspectiva de um verão rigorosíssimo.
A estiagem já atinge 80% de Pernambuco e 90% da produção agrícola de Ceará e
Piauí está comprometida. O Jornal do Commercio mostra hoje em manchete que 2012
já é o ano mais seco na região desde 1985.
Alterar as condições
climáticas é algo que escapa à intervenção humana. Mas ações que poderiam reduzir
as agruras que o sol inclemente impõe ao Nordeste poderiam muito bem ser
desenvolvidas pelo poder público. A região exige e merece mais atenção do
governo federal, e não apenas promessas vãs e compromissos nunca honrados.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Desprezo pelo Nordeste
O Nordeste deu a Lula e, depois, a Dilma Rousseff expressivas votações. Nas campanhas petistas, a região sempre foi apresentada em cores vistosas, dona de um futuro radiante e promissor. A realidade, porém, tem contrariado as edulcoradas promessas feitas pelos petistas. Na prática, o governo federal tem virado as costas para o Nordeste.
O Valor
Econômico publica hoje, em manchete, levantamento mostrando que os
grandes projetos prometidos pelo PT para os estados nordestinos acumulam
atrasos, veem seus custos escalarem e estão longe, muito longe de se transformar
em realidade. Sobraram promessas, faltou milagre. Para o petismo, o Nordeste continua
servindo apenas para proselitismo político.
Lá se vão dez anos
de governo petista, lá se vão quase seis anos do lançamento do Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC). Mas a situação, infelizmente, pouco mudou na
região. Os projetos mais esperados não foram concluídos e, possivelmente, não o
serão na gestão atual. Será que na próxima campanha o PT ainda terá coragem de
explorá-los eleitoralmente?
A lista de obras
malparadas é extensa: a transposição das águas do rio São Francisco, as
ferrovias Transnordestina e Oeste-Leste, as refinarias da Petrobras, a BR-101,
os metrôs das principais capitais nordestinas e até mesmo os malfadados navios petroleiros
que não conseguem navegar.
Segundo o Valor, a carteira de investimentos
federais na região soma R$ 116 bilhões. Na média, estes empreendimentos estão três
anos e meio atrasados. Mas há os que já nem entram mais na lista, pelas parcas
perspectivas de sair do papel – as refinarias Premium, por exemplo, só continuam
porque, diante de protestos no Ceará e no Maranhão, a Petrobras recuou de
cancelá-las.
Como se não
bastasse, a paralisação da exploração de petróleo em terra por produtores
independentes também golpeia a saúde econômica da região. Estas empresas concentram
sua atividade em locais pobres da Bahia, Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte,
Maranhão e Piauí, mas estão fechando em razão da suspensão dos leilões da ANP.
Tem mais: no recente
pacote de privatizações lançado por Dilma, nem um único quilômetro de rodovia
ou de ferrovia situado nos noves estados da região foi contemplado pelo governo
do PT. É muita maldade para um Nordeste só.
A visão do PT sobre
o Nordeste é a dos coronéis que se locupletam com a pobreza na região. As obras
são usadas para ludibriar eleitores, cobrar-lhes fidelidade na hora do voto,
minar-lhes a autonomia. Vejamos o trato que o governo federal vem dando às intervenções contra a seca – que, neste ano, castiga os estados nordestinos como
não acontecia há mais de três décadas.
Tornou-se notório o
uso político de iniciativas que deveriam servir para atenuar o flagelo. O virtuoso
programa de construção de cisternas, por exemplo, cujo objetivo era instalar 1
milhão de equipamentos, foi desvirtuado e distanciou-se de sua meta. A transposição
das águas do São Francisco praticamente derreteu sob o sol inclemente.
Mas o que há de mais
abjeto é a exploração política da calamidade. Em sua edição de hoje, O
Estado de S.Paulo revela que o grupo político do ministro da Integração
Nacional usa água para angariar votos para eleger Fernando Coelho Filho, deputado
federal pelo PSB e filho do ministro, para a prefeitura de Petrolina (PE).
“Na Superintendência
da Codevasf em Petrolina, responsável por todo o estado, nada menos que 95% dos
pagamentos gerados a partir de emendas em 2011 (R$ 3,3 milhões) foram para
projetos apadrinhados pelo deputado”, ressalta o jornal. Reuniões da Codevasf
para cadastramento e capacitação de beneficiados com cisternas ocorrem no mesmo
imóvel em que funcionam comitês do candidato. Se isso não é o velho cabresto, o
que mais é?
O Nordeste tem quase
28% da população brasileira, mas continua participando com parcela desproporcional
da riqueza gerada no país: pouco mais de 13% do PIB. No discurso, o PT prometeu
reduzir este abismo, mas na prática apenas realimentou práticas que a sociedade
abomina e que o país busca deixar, definitivamente, no passado.
Deve ser pelo pouco
caso que tem dispensado à região que o partido de Lula, Dilma e José Dirceu está
prestes a tomar uma surra também dos nordestinos no pleito de 7 de
outubro. O desprezo e o desdém do PT em relação ao rol de promessas empenhadas
e não cumpridas terão resposta à altura dos eleitores.
terça-feira, 10 de julho de 2012
De costas para o Nordeste
O Nordeste deu a Dilma Rousseff algumas de suas votações mais consagradoras em 2010. Não é exagero dizer que a presidente deve sua eleição à região. Mas tamanho apoio não vem sendo retribuído à altura: o governo federal tem dado pouca atenção aos estados nordestinos, castigados pela pior seca dos últimos 30 anos.
Atualmente, 1.134 municípios
do semiárido encontram-se em situação de emergência devido à estiagem. Além do
suplício que a falta de chuvas causa à vida das pessoas, apenas em termos de
produção agropecuária estima-se que o Nordeste perderá R$ 12 bilhões neste ano.
Numa situação assim, é imperativa a ação do poder público.
Sobre minorar o
sofrimento dos afetados pela seca, o governo federal diz muito, mas faz quase
nada. Em abril, o Planalto enviou medida provisória ao Congresso para amparar vítimas
da estiagem no semiárido brasileiro. Nela, foi autorizada despesa extra de R$
706,4 milhões para ações de socorro como o seguro-safra, defesa civil e auxílio
financeiro emergencial. Passados quase três meses, porém, apenas 4% dos
recursos foram aplicados.
O Nordeste é
enaltecido em discursos oficiais, mas continua sendo vítima de práticas predatórias,
arcaicas, inescrupulosas. Enquanto a seca avança, obras que poderiam servir
para aplacar o problema apodrecem sob o sol inclemente. E instituições públicas
que deveriam zelar por uma vida melhor para o sertanejo servem de butim para
alimentar as alianças petistas.
Tome-se o que
acontece, por exemplo, no Dnocs e no Banco do Nordeste. Bem geridos, poderiam ser
instrumentos poderosos no combate à seca, mas, nas mãos do PT, são tratados
como meras moedas de troca na partilha de poder. Fatiados entre partidos da
base aliada, vira e mexe surgem no noticiário policial alimentando escândalos de
desvio de dinheiro público.
O Nordeste também tem
se notabilizado por ser a região onde as obras federais caminham mais
lentamente. O caso mais emblemático é o da transposição das águas do rio São
Francisco. Encampada pelo ex-presidente Lula como a redenção da seca, está
longe, muito longe de alcançar o objetivo: seja porque efetivamente não se
prestará a esta finalidade, seja porque sua conclusão fica cada dia mais distante.
Atualmente, segundo o
Jornal do Commercio, grande parte das
obras está paralisada. Dos 14 lotes, seis estão com obras suspensas. São eles: o
3, em Salgueiro (PE); o 4, em Penaforte (CE); o 5 em Jati (CE); o 6 em Mauriti
(CE); o 7 em São José de Piranhas (PB); e o 9 em Floresta (PE). Todos tiveram
seus contratos rescindidos por suspeita de irregularidades e agora aguardam a
realização de novas licitações.
A transposição não
tem data para acabar e o governo é incapaz de dizer quanto ela irá custar. O orçamento,
que começou em R$ 4,5 bilhões, já chegou a R$ 8,2 bilhões, mas continua mirando
o céu como limite. Antes prevista para 2010, a obra ficará pronta, na melhor
das hipóteses, em 2015 – até hoje apenas 36% foram executados. Somente um
trecho de 4 km do Eixo Norte foi entregue até agora, executado pelo Exército.
Mas o Nordeste não precisa
apenas de mais água. Necessita também de infraestrutura adequada para acelerar
o seu desenvolvimento. Se depender do ritmo de outro grande empreendimento da
região, o da ferrovia Transnordestina, ainda terá de esperar muito. A obra é
outro exemplo de abandono e inépcia.
A ferrovia é
privada, mas conta com grosso recurso do BNDES. Seu custo já subiu 20%, para R$
5,4 bilhões, mas pode crescer mais R$ 1,3 bilhão, de acordo com O
Estado de S.Paulo. A Transnordestina está em construção há cinco anos,
mas até agora só um terço da obra ficou pronta, impedindo o Nordeste de escoar
sua produção até os portos de Suape (PE) e Pecém (CE) de forma mais barata e
competitiva.
Em fevereiro, a presidente
da República foi pessoalmente aos canteiros de obras da transposição e da ferrovia.
Na ocasião, foi enérgica e garantiu que o tempo dos atrasos havia ficado para
trás. Não foi o que aconteceu e os dois empreendimentos permanecem em marcha a
ré.
Uma região com as
características do Nordeste merece atenção especial de qualquer governo que
pretenda imprimir uma marcha de desenvolvimento equilibrado ao país. Reclama políticas
estratégicas e estruturantes para lançá-lo num salto à frente, que já se
manifesta na intensa ampliação de seu mercado de consumo.
Na era petista, o Nordeste
tem servido de mote para a retórica afinada do governo federal. Mas não recebe em
troca o que lhe prometem. Os nordestinos são credores da eleição de Dilma
Rousseff, mas, até agora, o que a presidente da República fez foi virar-lhes as
costas. A região merece mais atenção e respeito, e não castigo.
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terça-feira, 24 de abril de 2012
A indústria da seca
O Nordeste está,
novamente, penando com a falta d’água. A impiedosa seca que atinge a região reforça
a constatação dos equívocos que envolvem a bilionária obra da transposição do
rio São Francisco. É a típica situação em que os recursos públicos são empregados
para fazer proselitismo, e não para o que deveriam: melhorar a vida das
pessoas.
Atualmente, 261
municípios nordestinos estão em situação de emergência. Os principais estados
atingidos são Bahia, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe – onde a
presidente da República desembarcará hoje com um séquito de ministros para
discutir a seca com governadores da região.
A estiagem está
dizimando a produção agrícola – a maior parte de subsistência – do Nordeste. Em
Pernambuco, por exemplo, 95% das lavouras, principalmente de milho e feijão, já
se perderam. Cerca de 100 mil produtores foram atingidos e cerca de 300 mil toneladas
de alimentos deixaram de ser cultivados. Também os rebanhos bovino, caprino e
ovino, que somam seis milhões de cabeças, estão sob ameaça.
Cerca de 2,5 milhões
de pessoas em 595 municípios nordestinos estão recebendo água por meio de
carros-pipa controlados pelo Exército. Não é um contrassenso que isso esteja
acontecendo numa região onde estão sendo despejados R$ 8,2 bilhões justamente
para prover água?
Mais que mil
palavras, a dura realidade enfrentada atualmente pelos nordestinos escancara a falsidade
do discurso petista. A transposição do rio São Francisco foi apresentada ao
país como a redenção do déficit hídrico no semiárido e no sertão do Nordeste. Mas
até hoje não passou de mera peça de publicidade, e de péssima qualidade.
O mais grave é que,
possivelmente, o drama da falta d’água na torneira não será resolvido com as obras
da transposição. Apenas 4% da água desviada pelos canais será usada para
consumo humano. Em contrapartida, 70% da água transposta irá para
irrigação em grandes projetos de exportação e 26% para uso industrial.
Pior ainda, os
nordestinos vão pagar muito caro pela pouca água que chegará a suas casas. O
custo do metro cúbico de água a ser futuramente fornecida por meio dos canais
da transposição é estimado pelo governo em R$ 0,15, ou quase dez vezes o preço
médio praticado no país.
Além do marketing
deslavado, nada justifica a obsessão do governo petista pelas obras da
transposição. O Nordeste carece, sim, de auxílio do poder público federal, mas
não na forma de imagens manipuladas de TV. O que se pede é condições de vida
mais dignas.
Há muito que o governo
central poderia fazer para auxiliar a região, como incentivo a bem sucedidos projetos
de conservação da água, apoio à formação de cooperativas de produtores, construção
de estradas vicinais para escoamento da safra.
Mas a megalomania
petista preferiu torrar bilhões numa obra envolta em polêmica – e que, aliás, tem
na Construtora Delta, sempre ela, um de seus maiores executores. A transposição
é um dos maiores contratos da empresa – que, desde 2004, recebeu R$ 3,7 bilhões
do governo federal – dentro do PAC.
Em fevereiro, Dilma Rousseff
visitou canteiros da transposição. Sua intenção era, com o olho do dono, fazer
a obra engordar e acelerar. Nada, porém, mudou. Hoje, três lotes (3, 4 e 7) estão
abandonados e terão de ser licitados novamente. Tudo isso depois de a obra ter
ficado 71% mais cara e ter tido em 2011, primeiro ano da atual gestão, seu pior
avanço: apenas 5%.
A presidente e sua
trupe de ministros terão de suar a camisa para mostrar que estão agindo adequadamente
para minorar o drama da falta d’água no Nordeste. Da forma como as iniciativas
têm sido tomadas, parece que o que mais interessa ao PT é manter a região sob cabresto,
numa perpetuação da nefasta indústria da seca.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Indústria da seca
Foi no Nordeste que Dilma Rousseff foi proporcionalmente mais bem votada na eleição que a levou à Presidência da República, em 2010. Seu governo, porém, não reflete a atenção e os cuidados que a região esperava dela. Infelizmente, o semiárido continua a impulsionar uma indústria de escândalos nos órgãos federais.
O da vez envolve o centenário Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). Novamente, um braço do Estado é usado para produzir benefícios privados e dividendos político-partidários. Repete-se lá uma tônica disseminada na gestão petista.
Ontem, O Globo divulgou os resultados de um relatório da Controladoria Geral da União (CGU) apontando prejuízo de R$ 312 milhões na gestão de pessoal e em contratações irregulares feitas pelo órgão, subordinado ao Ministério da Integração Nacional.
“O relatório de 252 páginas revela uma sucessão de pagamentos superfaturados, contratos com preços superestimados e ‘inércia’ da direção do órgão para sanar irregularidades que prosperaram ao longo da última década”, informou o jornal. As contas do Dnocs de 2008, 2009 e 2010 também foram consideradas irregulares.
Repetindo o mesmo vício do ministro da Integração, o chefe do Dnocs também privilegiou um estado em detrimento dos demais na liberação de verbas. Se Fernando Bezerra desequilibrou os repasses em favor de Pernambuco, o diretor-geral do Dnocs, Elias Fernandes, superfaturou os recursos para o Rio Grande do Norte de seu padrinho político, o deputado Henrique Eduardo Alves, líder do PMDB na Câmara.
De 47 convênios firmados com municípios para ações de defesa civil, 37 contemplaram prefeituras potiguares, que ficaram com 43% dos recursos liberados. Segundo a Folha de S.Paulo, 20 dessas cidades no RN são administradas pelo PMDB. A maior parte dos contratos (23) tem irregularidades, envolvendo empresas de fachada, conforme aponta a CGU.
Um diretor do Dnocs já caiu e o chefe-geral equilibra-se no cargo. O noticiário político de hoje diz que os atritos produzidos na área detonaram uma rusga brava entre o PSB do ministro Bezerra e o PMDB dos apadrinhados de órgãos ligados à Integração Nacional – que incluem ainda Sudene e Codevasf, agora também sujeitos ao crivo do escovão.
É de indignar ver comandantes de instituições que deveriam se dedicar a buscar saídas para o semiárido engalfinhando-se em torno de cargos e não de propostas, programas e soluções para problemas que ainda afligem milhões de brasileiros.
O episódio atual não destoa, no entanto, da parca atenção efetiva que a gestão petista tem dado ao Nordeste. Há muita propaganda e oba-oba em torno de feitos supostamente “históricos” para a superação dos atrasos da região, mas a dura realidade difere bem disso.
Obras espetaculares como a transposição do rio São Francisco e a construção da Transnordestina serviram muito bem para abrilhantar os programas de TV da então candidata a presidente da República. Mas até hoje não produziram um benefício efetivo sequer para a população nordestina.
A mais longeva obra inconclusa do Nordeste, a ferrovia foi prometida para o fim do governo Lula. Hoje apenas 10% de seus 1.728 km estão prontos, mas, mesmo assim, só são utilizados para transportar material para a construção da própria Transnordestina. Se tudo correr bem, com pelo menos quatro anos de atraso a promessa será cumprida.
Outra promessa lulista, a transposição do São Francisco já encareceu 40% e sequer ficará pronta no governo atual. Parte da estrutura já feita, construída às pressas para figurar na campanha eleitoral de Dilma, hoje apodrece sob o sol inclemente. Nenhuma gota d’água chegou ao sertão.
O Nordeste vem apresentando taxas chinesas de crescimento nos últimos anos. Muito se deve ao empreendedorismo e ao esforço próprio de seu povo. O governo central pouco ajuda neste processo de superação. A região quer emancipação e progresso, e não continuar a servir de subterfúgio para que a política miúda siga produzindo escândalos em série.
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