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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Sem medo de mitos

A vitória de Fernando Haddad em São Paulo salvou Luiz Inácio Lula da Silva de uma derrota retumbante. O mito do líder imbatível, que manda e a população obedece, não resiste ao exame das urnas. O PT não apenas encolheu em regiões em que tivera muita força nas últimas eleições, como também viu sua participação nas maiores cidades do país diminuir bastante. Não dá para temer um monstro tão frágil.

Lula tem muito que comemorar com a vitória de Haddad. Afinal, ela serviu para obscurecer derrotas acachapantes sofridas pelo ex-presidente nesta eleição municipal. O caudilho petista lançou-se alucinadamente em campanhas Brasil afora, mas acumulou mais infortúnios que sucessos.

O ex-presidente subiu em palanques, participou de carreatas e fez comícios em 17 cidades no primeiro e no segundo turnos. Abertas as urnas, mais perdeu do que ganhou: foram oito vitórias e nove derrotas.

Entre seus fracassos mais fragorosos, em que o envolvimento de Lula foi direto, incisivo e pessoal, estão Belo Horizonte, Recife, Manaus, Salvador, Diadema, Campinas, Feira de Santana, Fortaleza, Cuiabá e Taubaté.

Quem tiver curiosidade, pode olhar a página do ex-presidente no Facebook: as dezenas de fotos que registram os passos de Lula em campanha – desde sua estreia, em 31 de agosto, com Patrus Ananias na capital mineira – são uma coleção de insucessos. Vendo no conjunto, Lula está mais para Mick Jagger e seu reconhecido pé-frio do que para o mítico vitorioso ou o todo-poderoso ungido pelos deuses.

“Onde quem acerta é o adversário, Lula e PT enfrentam as mesmas adversidades que qualquer outro partido ou político quando o eleitorado resolve dar o próprio jeito”, comenta Dora Kramer na edição de hoje d’O Estado de S.Paulo.

A perda da força de Lula e do PT é mais nítida nas regiões Norte e Nordeste, como mostra O Globo. Entre capitais e cidades com mais de 200 mil eleitores nestas regiões, que perfazem 21 municípios, os petistas só se saíram vitoriosos em Rio Branco e João Pessoa. Com aliados, venceram apenas em Olinda (PE).

Em contrapartida, entre as 13 maiores cidades nordestinas, a oposição ao governo federal, por meio do PSDB e do DEM, administrará sete municípios, incluindo quatro capitais: Aracaju, Maceió, Salvador e Teresina, além de Jaboatão dos Guararapes (PE), Campina Grande (PB) e Feira de Santana (BA). Entre os oito grandes municípios da região Norte, o PSDB terá três capitais – Manaus, Belém e Teresina – e mais Ananindeua (PA).

Entre as 83 cidades de todo o país com mais de 200 mil eleitores, os petistas só estarão à frente de 16 prefeituras, sendo quatro capitais: São Paulo, Rio Branco, João Pessoa e Goiânia. Neste grupo, a oposição (PSDB, PPS, DEM e PSOL) terá muito mais participação: cresceu de 10 em 2008 para 25 cidades agora, sendo oito capitais.

Os resultados de domingo também apontam uma “onda de mudança”, na avaliação da Folha de S.Paulo: entre as 85 maiores cidades, candidatos da situação foram derrotados em 50 – proporção exatamente inversa à de quatro anos atrás. Dos oito prefeitos de capitais que tentaram a reeleição, só metade venceu.

Pode estar no fator econômico a explicação para o mau desempenho das candidaturas governistas nos maiores centros. Seja pela queda no ritmo do PIB, seja pela diminuição acentuada nos repasses constitucionais para as prefeituras – só em setembro, foram 23% a menos, como mostra hoje o Valor Econômico. Isto é, são elementos que, muito provavelmente, também presidirão a disputa de daqui a dois anos.

É cada vez mais evidente que o eleitorado se fia nas condições objetivas de vida na hora de escolher seus candidatos. Não há divindade que lhe inspire o voto, mas sim a busca das satisfações mais imediatas. Ao longo de suas três décadas de existência, o PT sempre baseou sua atuação eleitoral em cima de um mito. Mas, no último domingo, as urnas deixaram claro que a luz de Luiz Inácio Lula da Silva está se apagando.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Uma oposição vitoriosa

Para quem está há dez anos longe do poder federal, o PSDB obteve nestas eleições municipais um excelente resultado. O partido avançou muito nas capitais, retomou seu ímpeto nas regiões Norte e Nordeste e demonstrou que acumula forças para contrapor-se ao projeto hegemônico que o PT busca levar adiante.

Neste domingo, o PSDB venceu na maioria das cidades onde concorreu no segundo round das eleições. Foram nove triunfos em 17 disputas, sendo três delas em importantes capitais: Manaus, Belém, Teresina, Pelotas (RS), Blumenau (SC), Campina Grande (PB), Franca, Taubaté e Sorocaba (SP).

No cômputo geral de mais uma eleição para as prefeituras brasileiras, o PSDB terminou com 702 municípios governados, onde vivem 18,3 milhões de eleitores. São 700 mil eleitores a mais do que em 2008.

No primeiro turno, o PSDB recebera 13,94 milhões de votos e ontem foram 5,64 milhões, num desempenho só inferior ao dos petistas. Em 7 de outubro, os tucanos também já haviam eleito 5.250 vereadores, só abaixo do PMDB.

No grupo das 85 cidades com mais de 200 mil eleitores, o PSDB agora tem 15 cidades sob sua gestão, das quais quatro são capitais: as três conquistadas ontem mais Maceió. As demais deste porte são Betim (MG), Piracicaba (SP), Santos (SP), Ananindeua (PA) e Jaboatão dos Guararapes (PE), com vitórias em primeiro turno. Trata-se de avanço significativo em relação a 2008, quando o partido conquistara nove prefeituras deste grupo e apenas uma capital, Curitiba.

Completando o quadro com as vitórias já consolidadas no início do mês, nas médias cidades (75 mil a 200 mil eleitores) o número de prefeituras do PSDB subiu de 24 em 2008 para 29 agora; nas pequenas (de 15 mil a 75 mil eleitores), passou de 217 para 176 e nas menores localidades, de 537 para 482.

Ontem, o partido pôde comemorar a importante vitória do ex-senador Arthur Virgílio para a prefeitura de Manaus. De nada adiantou o empenho direto da presidente da República e a ira de Lula: o tucano obteve o dobro de sufrágios de sua adversária, com 65,95% dos votos válidos, num triunfo histórico.

Em Belém, Zenaldo Coutinho consolidou a supremacia tucana no Pará, onde o PSDB já tem o governador Simão Jatene e os senadores Flexa Ribeiro e Mário Couto. Depois de ter terminado o primeiro turno em segundo lugar, o deputado em quarto mandato recebeu ontem 56,61% dos votos válidos.

Já Teresina terá novamente Firmino Filho como prefeito, que ocupará o cargo pela terceira vez, depois de um interregno de oito anos. Ele foi eleito ontem com 51,54% dos votos válidos, derrotando o atual prefeito.

Às vitórias tucanas soma-se o bom desempenho de outros partidos de oposição ao governo Dilma Rousseff, contra toda a força da máquina federal. DEM (Salvador e Aracaju) e PPS (Vitória) conquistaram mais três das 26 capitais brasileiras. O PSOL, também na oposição à gestão federal, elegeu o prefeito de Macapá. Ou seja, somam oito os bastiões oposicionistas.

No cômputo geral, a eleição resultou numa fragmentação jamais vista nos municípios. As 26 capitais serão governadas por 11 diferentes legendas nos próximos quatro anos. Quando se amplia a análise para os 85 maiores municípios com mais de 200 mil eleitores, 16 partidos dividirão o poder.

O maior triunfo do partido de Lula e Dilma foi a vitória em São Paulo. Sem ela, poder-se-ia dizer que o PT saíra das eleições por baixo. O êxito na maior cidade do país deu aos petistas um contrapeso a fragorosas derrotas, como as de Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Salvador e Campinas. Cabe lembrar que, das 17 cidades em que o ex-presidente envolveu-se, em nove ele saiu derrotado.

A força que a oposição demonstrou nestas eleições municipais permite ao PSDB, ao DEM, ao PPS e até mesmo ao PSOL sustentarem, sem pestanejar, que contam com apoio decidido da população brasileira para continuar a serem polos antagônicos ao projeto de poder do PT. O partido dos mensaleiros sempre sonhou em ser hegemônico, mas, cada vez mais, viu este seu delírio distanciar-se. Para o bem da democracia.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Governo em campanha

O PT quer transformar o voto dos brasileiros em detergente para as lambanças que o Supremo Tribunal Federal condenou com riqueza de provas ao longo das 40 memoráveis sessões de julgamento do mensalão até agora. É por este motivo que todos os seus líderes, incluindo a presidente da República e uma penca de ministros, dedicam-se de corpo e alma à campanha eleitoral. Governar, para eles, é o que menos importa.

O estilo é o mesmo que viceja no país há dez anos: campanha eleitoral 24 horas por dia, sete dias por semana, quatro semanas por mês, 12 meses por ano. Inoculado no dia a dia político brasileiro por Luiz Inácio Lula da Silva, o vírus tornou-se endêmico: o PT lança-se à prática da mais abjeta politicagem, que antes fazia corar, com a maior naturalidade do mundo.

Seguindo os passos de Lula, nos últimos dias a presidente Dilma Rousseff vem se embrenhando numa maratona para tentar alavancar candidatos petistas que disputarão o segundo turno da eleição no domingo. Esteve em Salvador, Campinas, Manaus e São Paulo. Seu governo está sobre palanques; o que importa é ganhar.

Sempre usando sua indefectível indumentária vermelha, a petista repete a cada comício que “não olha a cor da camisa” ao governar. Mas, logo em seguida, se trai indicando que o município em questão será sempre melhor tratado se no seu comando estiver um companheiro do PT.

E tome promessas de fazer mais creches, construir mais moradias, investir mais recursos. Tudo em flagrante contradição com o que acontece no mundo real. Dilma elegeu-se prometendo, por exemplo, erguer 6 mil creches, “1.500 por ano”, mas só 221 foram feitas pelo governo federal desde 2007! Seu pupilo Fernando Haddad promete, agora, 55 mil casas para famílias pobres de São Paulo, mas desde 2009 só 480 foram construídas. A lista de engodos é interminável...

Mas Dilma não apenas lançou-se sem pejo a fazer campanha eleitoral em horário em que deveria estar se dedicando a resolver os problemas do país, que são vários e crescentes, como também liberou seus ministros para a algazarra. Gente como Aloizio Mercadante, Alexandre Padilha, José Eduardo Cardozo, Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo não faz outra coisa que não seja subir em palanque, gravar programa eleitoral e agitar comício.

É só conferir as pastas que cada um deles ocupa para concluir que o governo federal está literalmente parado, dedicado apenas à conquista de votos: respectivamente, Educação, Saúde, Justiça, Comunicações e Casa Civil. De onde vem tamanho interesse e empenho dos petistas por mais e mais poder?

Em primeiro lugar, o PT quer tirar das urnas o que acredita ser uma espécie de indulto pelos crimes que seus principais líderes cometeram ao assaltar o Estado e irrigar os dutos do mensalão. O “sim” das urnas funcionaria como um contraponto ao rotundo “não” que emanou do STF ao nefasto esquema cujo objetivo era financiar a compra de votos e a perpetuação do partido no poder.

José Dirceu foi quem deu a senha: o que importa é ganhar as eleições, especialmente em São Paulo. Lula deu sequência, ao dar este mesmo viés aos resultados eleitorais que o PT colheu em 7 de outubro e pretende voltar a colher no domingo: em entrevista ao jornal argentino La Nación, disse que se considerava “julgado” pelas urnas.

Nada disso: Justiça é uma coisa, eleição é outra. “Votações expressivas, embora significativas, não constituem causas para a extinção da punibilidade”, sentenciou o ministro Celso de Mello. “Urna não é lavanderia de ilícitos, voto não é indulto e eleição não torna ninguém imune às exigências do devido processo legal”, analisou Dora Kramer. “Eleição não absolve réu”, arrematou Elio Gaspari.

Mas a principal razão para a sanha com que o PT se lança em busca de vitórias eleitorais é a possibilidade de aumentar as boquinhas ocupadas pela companheirada, que rendem dízimos e polpudas oportunidades de negócio$ ao partido. É o que explica, por exemplo, por que Fernando Haddad quer dizimar as parcerias com organizações sociais e entidades filantrópicas em hospitais e creches de São Paulo a fim de ocupar milhares de cargos com petistas leais.

O PT disputa o segundo turno em 24 municípios. São mais de duas dezenas de novas oportunidades para assaltar os cofres, incluindo os cerca de R$ 40 bilhões que a capital paulista movimenta em seu orçamento. Em busca deste butim, o governo de Dilma Rousseff transferiu-se para cima de palanques país afora nas últimas semanas. Merece o não do eleitor e a reprovação da população.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Kit mentira

A cada dois anos, mais ou menos quando o inverno vai chegando ao fim e a primavera se aproxima, o PT abre sua caixa de ferramentas, dispara a fazer terrorismo e a assacar mentiras. Não se trata de eventos fortuitos: são as armas que o partido dos mensaleiros usa recorrentemente no período eleitoral. Este ano não está sendo diferente.

O país assiste, perplexo, à deslavada intromissão da máquina petista nas campanhas às prefeituras municipais. Incitada por seu tutor, Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente Dilma Rousseff pôs o governo dela a serviço das candidaturas petistas e também lançou mão, com gosto, do kit mentira do PT.

O arsenal inclui as mistificações de sempre em torno das privatizações, o anúncio de medidas populistas que depois não se efetivam, a manipulação de verbas orçamentárias e o emprego de bens públicos em favor de um aparelho partidário – prática que se consagrou no mensalão, ora sobejamente condenado pelo Supremo Tribunal Federal. Com sua sede desmesurada pelo poder, este ano o PT está indo fundo no kit mentira. Vejamos.

No início de setembro, por ocasião da data de comemoração dos 190 anos da independência do país, Dilma ocupou rede nacional de rádio e TV para fazer proselitismo político. Comportando-se como militante partidária, atacou adversários e, com pompa e circunstância, anunciou aos brasileiros uma boa notícia que, se concretizada, só se materializará daqui a meses.

Soube-se agora, porém, que o que era acintoso tornou-se farsesco. No pronunciamento à nação, a presidente prometeu uma queda de 20%, em média, nas tarifas de energia praticadas no país. Eis que, ontem, o governo admitiu que a conversa da redução das tarifas não é bem assim: “Não posso garantir que dará 20%”, disse Mauricio Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética.

Ocorre que, ato contínuo ao pronunciamento-comício de 7 de setembro, para conseguir a desejada redução das tarifas o governo impôs às empresas do setor draconianas e intempestivas regras de renovação dos contratos de concessão que simplesmente instauraram o caos num segmento-chave para o futuro do país.

O novo modelo, que balizará contratos com duração de 25 anos, foi enviado ao Congresso na forma de medida provisória, ou seja, com obrigatoriedade de ser apreciado a toque de caixa. No Parlamento, já recebeu mais de 400 propostas de emendas e não se sabe com que irá sair de lá. A despeito disso, as companhias de energia estão tendo que tomar decisões que afetam seu futuro pelas próximas décadas em cima de simples conjecturas.

Mas o kit mentira do PT não se limita a ludibriar o cidadão com promessas temerárias ou com medidas inconsequentes. Inclui também dizer uma coisa em cima dos palanques e fazer outra no governo. É o caso, mais uma vez, das privatizações.

Este ano, depois de décadas negando o óbvio, o PT dobrou-se à evidência de que privatizar faz bem ao país. Mas bastou o período eleitoral chegar para os partidários de José Dirceu e seus mensaleiros tirarem do armário a velha fantasia antiprivatista, como fez ontem Fernando Haddad em São Paulo.

O neófito petista “acusou” José Serra de ter “a privatização na veia”, numa referência ao bem sucedido modelo adotado no município e no estado de São Paulo que põe instituições como o Hospital Sírio-Libanês para cuidar (bem) da prestação de serviços de saúde à população mais carente, atendida pelo SUS.

O Sírio é o mesmo hospital onde Lula se curou do câncer na laringe. Seus tratamentos de ponta e sua reconhecida competência jamais seriam acessíveis a pobres sem que existisse o sistema adotado em São Paulo para a gestão da saúde. Haddad não apenas o critica, como propõe agora acabar com o modelo, o que pode simplesmente fechar o acesso de quem mais precisa a serviços de saúde de excelência.

Mas nem é preciso ir muito longe para rebater o mais novo pupilo de Lula em sua fantasia antiprivatista. Seu próprio partido cuida disso: ontem, em um seminário em São Paulo, o ministro Fernando Pimentel anunciou que o governo federal está apenas esperando “passar as eleições” para anunciar novas privatizações de aeroportos e portos, informou O Globo. Afinal, o PT é contra ou a favor de um serviço mais bem prestado aos cidadãos brasileiros?

O kit mentira dos petistas completa-se com a manipulação das verbas públicas, como mostra o Correio Braziliense. O Orçamento da União virou arma para os petistas tentarem ganhar eleições no grito: dos R$ 343 milhões empenhados pelo governo federal para emendas individuais neste ano, 93% foram para deputados e senadores de partidos aliados.

Outro caso escabroso é o anúncio de obras milionárias para Manaus, feito ontem por Dilma em audiência no Planalto. Como parte do pacote embusteiro, na próxima segunda-feira a presidente irá à cidade para tentar socorrer a candidata apoiada pelo PT – que no primeiro turno teve metade dos votos do tucano Arthur Virgílio e quase ficou fora da disputa.

As eleições são ocasiões em que a população renova sua confiança nas instituições e sua fé numa vida melhor. O PT e seus candidatos, porém, preferem distorcer o que deveria ser uma festa da democracia. A cada dois anos, a cada pleito, exercitam o que mais sabem fazer: enganar, com um monte de mentiras, a boa-fé dos brasileiros. O voto é a melhor, mais verdadeira e eficiente resposta a este embuste.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Rumo à vitória no 2º turno

O resultado das urnas demonstra o vigor que o PSDB continua a exibir diante do eleitorado brasileiro. Para um partido que está há dez anos afastado do poder federal, depois de três derrotas presidenciais seguidas, os números alcançados no último domingo representam uma vitória expressiva e indicam que a população vê nos tucanos a principal alternativa de poder no país.

Fechadas as urnas, o PSDB obteve 13,9 milhões de votos. Foi o segundo partido que mais conquistou prefeituras (691) e, a depender dos resultados daqui a 20 dias, pode ter sob sua gestão o maior contingente de habitantes do país: hoje já são 19,1 milhões, mas o número pode mais que dobrar.

Além das prefeituras que já conquistou em primeiro turno, o PSDB ainda disputará mais 17 cidades no próximo dia 28. Destas, em oito o candidato tucano terminou a primeira rodada na liderança, com chances redobradas de novo sucesso: São Paulo, Manaus, Campina Grande (PB), Teresina (PI), Pelotas (RS), Blumenau (SC), Franca (SP) e Taubaté (SP).

No grupo das 83 cidades com mais de 200 mil eleitores, o PSDB elegeu seis prefeitos em primeiro turno: Maceió, Betim (MG), Piracicaba (SP), Santos (SP), Ananindeua (PA) e Jaboatão dos Guararapes (PE). Nos maiores centros, que representam 36,5% do eleitorado brasileiro, os tucanos podem chegar a ter 23 cidades, mais que o dobro das nove deste porte atualmente administradas pelo partido.

Entre as 12 metrópoles brasileiras, ou seja, com mais de 800 mil eleitores, há quatro anos o PSDB venceu em somente uma – Curitiba – mas agora pode triunfar em três: São Paulo, Guarulhos (SP) e Belém. Entre os municípios de 200 mil a 800 mil eleitores, os tucanos tinham 12 em 2008, já conquistaram seis em primeiro turno e podem vencer em mais 14.

Nas médias cidades (75 mil a 200 mil eleitores), o número de vitórias subiu de 24 em 2008 para 29 agora; nas pequenas (de 15 mil a 75 mil eleitores), passou de 217 para 176 e nas menores localidades, de 537 para 478, de acordo com levantamento publicado hoje pela Folha de S.Paulo.

O time tucano também contará com 5.242 vereadores eleitos no último domingo, número apenas menor que o alcançado pelo PMDB. A força deste exército, reforçado por eleitos por partidos coligados, será fundamental para ajudar o partido a obter novas vitórias em 28 de outubro: em São Paulo, por exemplo, os seis vereadores mais bem votados apoiam José Serra e pelo menos 32 dos 55 eleitos deverão lhe dar sustentação num eventual governo.

O desempenho tucano contrasta com resultados obtidos pelas duas maiores lideranças petistas: Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva. Não adianta alguns analistas quererem vislumbrar sucesso evidente no desempenho eleitoral da presidente. Ela se envolveu diretamente em duas contendas: numa, Belo Horizonte, perdeu ainda no primeiro turno para o candidato apoiado pelo senador Aécio Neves; noutra, em São Paulo, disputará o segundo turno. Ou seja, tem chance de sair duplamente derrotada.

Sem contar que o desempenho do PT no estado que é a base eleitoral da presidente – e historicamente sempre foi considerado uma fortaleza petista – retrocedeu: em Porto Alegre, o candidato de Dilma teve menos de 10% dos votos e foi somente o terceiro mais votado. Os petistas também perderam espaço em outras cidades importantes do Rio Grande do Sul, como Caxias do Sul e Santa Maria, onde tradicionalmente tinham força.

Já Lula envolveu-se pessoalmente na disputa em dez cidades, onde participou, inclusive, de comícios. Em sete delas, o ex-presidente terá de continuar labutando para ver se obtém algum sucesso. Em uma – Feira de Santana (BA) – perdeu fragorosamente e em duas venceu – São Bernardo do Campo (SP), onde a vitória de Luiz Marinho eram favas contadas, e Osasco (SP).

O PSDB, que, a despeito de tantas adversidades, continua a rivalizar de igual para igual com a legenda que governa o país há uma década lançando mão dos instrumentos mais espúrios que se tem notícia, pode se considerar bem sucedido. Redobrando os esforços com vistas ao segundo turno e calibrando sua estratégia rumo ao futuro, o partido tucano poderá sair como grande vitorioso desta eleição.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A força da oposição

O PSDB obteve desempenho muito positivo nas eleições realizadas ontem nos 5.568 municípios do país. O partido conquistou o segundo maior número de prefeituras, está no segundo turno em 18 das 50 cidades onde haverá nova rodada e tem chance de ver o principal adversário, o PT, praticamente dizimado das capitais.

Terminado o primeiro turno, o PSDB já conquistou a prefeitura de 688 municípios. Nas capitais, saiu-se vitorioso em Maceió, onde Rui Palmeira obteve 57,41% dos votos válidos, com quantidade de sufrágios quase cinco vezes maior do que a do segundo colocado, apoiado pelos partidos da base de Dilma Rousseff em Brasília.

O PSDB só não terá mais municípios do que o PMDB, que terminou em primeiro lugar em 1.017 e ainda disputa o segundo turno em mais 16. O PT tem 624 cidades sob seu comando e, mesmo que vença em todos os municípios onde ainda concorre na segunda rodada, não tem como ultrapassar os tucanos.

Das 50 cidades onde ainda haverá segundo turno, o PSDB disputará a vitória em 18 delas. Destas, oito são capitais: São Paulo, Manaus, Vitória, Teresina, São Luís, Belém, João Pessoa e Rio Branco. Mas há cidades muito importantes também em jogo, como Guarulhos, Jundiaí, Ribeirão Preto, Sorocaba, Franca, Taubaté, Campina Grande, Londrina, Pelotas e Blumenau.

Nos grandes centros, o desempenho do PSDB agora pode ser muito melhor do que o de 2008, quando o partido saiu-se vitorioso em quatro capitais – duas das quais, Teresina e São Luís, podem ser mantidas – e em outros nove municípios com mais de 200 mil eleitores.

Dependendo dos resultados do segundo turno, o PSDB poderá sair da eleição como o partido que tem o maior número de habitantes sob seu governo. Considerando apenas as prefeituras já conquistas, 19 milhões de brasileiros estarão sob gestão tucana nos próximos quatro anos. Mas este número pode mais que dobrar, de acordo com o que acontecer no próximo dia 28.

Os tucanos disputarão a segunda rodada com o PT em seis cidades: São Paulo, Rio Branco, João Pessoa, Pelotas, Taubaté e Guarulhos. Até agora, os petistas conquistaram apenas uma capital (Goiânia) e estão na disputa em outras seis capitais – em três delas em confronto direto com o PSDB.

Na capital paulista, José Serra confirmou sua força política e terminou a primeira rodada da eleição em primeiro lugar, com 30,75% dos votos válidos. A prefeitura da maior cidade do continente será disputada com o petista Fernando Haddad, que nem com toda a massiva participação de Lula, nem com o descarado troca-troca de cargos na máquina federal conseguiu superar o líder tucano.

Além disso, o partido dos mensaleiros sofreu derrotas fragorosas, a começar por Belo Horizonte. Lá o candidato escolhido pela presidente da República perdeu no primeiro turno para o nome apoiado pelo senador Aécio Neves: Márcio Lacerda (PSB) foi reeleito com 52,69% dos votos válidos, com 152 mil votos a mais do que Patrus Ananias, ex-ministro de Lula, que também se empenhou pessoalmente na campanha e saiu igualmente derrotado.

Outras duas derrotas acachapantes dos petistas ocorreram em Recife e Porto Alegre. Na capital pernambucana, Humberto Costa, também ex-ministro de Lula e imposto à seção local do partido pela cúpula petista, terminou em terceiro lugar, atrás de Geraldo Julio, eleito pelo PSB, e do tucano Daniel Coelho, que obteve excepcionais 27,65% dos votos válidos.

Em Porto Alegre, base eleitoral da presidente da República e antes tida como bastião petista, o candidato do partido de Lula, Dilma e José Dirceu não obteve nem 10% dos votos válidos e terminou também em terceiro lugar, derrotado por José Fortunati, pedetista reeleito em primeiro turno. Outro fracasso retumbante de Lula ocorreu em Feira de Santana (BA): mesmo com a presença do ex-presidente em pessoa em seu palanque, o candidato do PT teve meros 18% dos votos, três vezes menos do que o do vencedor, José Ronaldo, do DEM.

Além de disputar diretamente 18 cidades na votação do dia 28, o PSDB tem aliados encabeçando a chapa em municípios importantes como Salvador, onde ACM Neto (DEM) liderou a disputa no primeiro turno com apoio do PSDB; Florianópolis, onde Cesar Junior, do PSD, é apoiado pelo partido; e Campinas, onde faltou muito pouco para Jonas Donizete, do PSB, apoiado pelos tucanos, derrotar o petista Marcio Pochmann já neste domingo. O PSDB também participa da candidatura vitoriosa de João Alves, do DEM, eleito prefeito de Aracaju.

Os resultados deste domingo confirmam o PSDB como força poderosa de oposição ao governo petista. Mesmo há dez anos afastado do poder federal, os tucanos obtêm votações expressivas, conquistam cidades importantes e continuam sendo depositários da confiança do eleitor que acredita que a política não pode e não deve ser transformada num vale-tudo em que o que menos importa é o bem-estar da população.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A cultura da transgressão

A mais alta corte de Justiça brasileira concluiu ontem que o Partido dos Trabalhadores governou o país na base de votos comprados no Congresso. Os mesmos governantes que usaram este espúrio método de gestão estão agora rodando o Brasil em cima de palanques pedindo votos para seus correligionários. Como esperam obter a confiança da população com uma ficha corrida como esta?

A sessão de ontem no Supremo Tribunal Federal (STF) serviu para sepultar de vez a tese de que o dinheiro que o PT surrupiou dos cofres públicos teria sido usado para quitar compromissos de campanha. A maioria dos ministros foi taxativa: os recursos foram empregados para corromper parlamentares – novamente, a exceção foi, sempre ele, Ricardo Lewandowski. A verdadeira “farsa” que os petistas tentaram montar caiu por terra.

A meada da história vai se deslindando. Primeiro, o Supremo concluiu que os recursos do mensalão tiveram origem pública, como o Banco do Brasil e a Câmara dos Deputados. Depois, atestou que o PT tentou ludibriar a Justiça e os órgãos de fiscalização bancária, inventando operações financeiras fictícias, sustentadas por bancos camaradas que funcionavam como lavanderias de dinheiro.

O passo seguinte foi concluído ontem com a comprovação de que toda a dinheirama drenada dos cofres públicos pelo esquema criminoso do PT foi usada para comprar o voto de deputados no Congresso e assegurar que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tivesse base de sustentação suficiente para levar adiante seu projeto de poder. (Vale recordar que, no início de 2003, a coalisão de partidos que elegera o petista só lhe garantia 153 votos na Câmara.)

Coube ao ministro Celso de Mello, no voto que proferiu ontem, dar os contornos definitivos do que se passou na República nos anos iniciais do governo do PT – e que só cessou porque um dos beneficiários, sem conseguir embolsar tudo o que queria, resolveu dar com a língua nos dentes e pôs fim à festa.

“Este processo criminal revela a face sombria daqueles que, no controle do aparelho de Estado, transformaram a cultura da transgressão em prática ordinária e desonesta de poder, como se o exercício das instituições da República pudesse ser degradado a uma função de mera satisfação instrumental de interesses governamentais ou desígnios pessoais”, afirmou o decano do Supremo, onde está desde 1989.

Pois esta mesma gente que “transformou a cultura da transgressão em prática ordinária e desonesta de poder” quer o voto dos brasileiros para continuar transformando o Estado brasileiro em mero mecanismo de “satisfação instrumental de interesses governamentais e desígnios pessoais”. 

Posto de outra forma: quem o Supremo condenou ontem por práticas espúrias pretende, daqui a cinco dias, obter o voto dos eleitores para continuar usando o poder para se locupletar, para satisfazer suas vontades pessoais e para perpetuar este nefasto esquema no país. Como podem ter tanta cara de pau?

O beneficiário maior do mensalão foi Lula, o mesmo que agora roda o país para cobrar dos eleitores que chancelem seus apadrinhados nas urnas. Aquele que acha que seus caprichos têm de ser cegamente obedecidos pelos brasileiros, principalmente os mais pobres, que manipula sem dó nem piedade.

O mais degradante é que, neste périplo, que antecede seu ocaso, Lula agora também leva a tiracolo a presidente da República. Dilma Rousseff resolveu meter o bico onde sequer tem voto e onde as ações de seu governo são praticamente inexpressivas: o que dizer da parca ajuda federal, por exemplo, à expansão das redes de metrô de São Paulo e de Belo Horizonte, dois dos destinos da caravana eleitoral petista?

À visão petista, que enxerga o Brasil como um pote de ouro a ser pilhado, dentro da mais repugnante tradição patrimonialista, contrapõe-se a visão libertadora e humanista. Os eleitores são soberanos e, em seu sagrado inviolável e intransferível direito de escolher seus governantes, saberão ver que quem já lhe fez tanto mal não merece seu voto.

sábado, 22 de setembro de 2012

O PT e o horror à democracia

Dois fatores confluíram para despertar a iracunda reação do governo contra os partidos e as forças que não lhe dizem amém: a iminência de derrotas fragorosas nas urnas daqui a duas semanas e a comprovação, feita pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, da existência do mensalão e suas vis características. Quando viu seu poder contestado, sua aura santa implodida e sua perspectiva de vitórias minada, o PT rasgou a fantasia.

Mais uma vez, o partido de Lula, Dilma, José Dirceu e sua quadrilha de mensaleiros mostrou que não consente com críticas, trata adversários como inimigos e só convive com a democracia por conveniência. Só quem tem horror ao estado democrático de direito e suas instituições vê “práticas golpistas” onde só existe o sagrado direito à crítica, o exercício do contraditório, a manifestação do livre pensar e do livre agir.

O PT esperneia diante da constatação de que foi no governo de sua maior estrela, Luiz Inácio Lula da Silva, que ocorreu o maior escândalo de corrupção da história do Brasil. Vocifera por ver alguns de seus principais capas-pretas prestes a serem condenados a passar anos atrás das grades por crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

Os petistas desesperam-se ainda mais ao constatar que a força eleitoral do partido perde ímpeto em todo o país e esfumaça-se nas principais cidades brasileiras – só numa das capitais a candidatura petista sai-se bem, ao mesmo tempo em que o PT corre risco de sequer ir ao segundo turno em locais fundamentais como São Paulo, Porto Alegre e Recife.

O Estado de S.Paulo revela que foi Lula quem articulou a raivosa “nota à sociedade brasileira” divulgada ontem pelo PT e assinada por mais cinco partidos da base: PMDB, PSB, PRB, PDT e PCdoB – noticia-se que os três primeiros teriam aderido sob coação. Além disso, segundo a Folha de S.Paulo, o texto teria envolvido José Dirceu e sido levado previamente à presidente Dilma Rousseff, que o avalizou, em mais uma atitude inadequada para o cargo que ocupa.

Seria absolutamente legítimo – mais que isso, é desejável – que o ex-presidente se manifestasse a respeito das denúncias veiculadas na revista Veja desta semana. A saber: de que ele foi o chefe do mensalão; de que ele articulava a arrecadação de dinheiro sujo dentro do Palácio do Planalto; e de que o esquema criminoso ora julgado e condenado pelo Supremo movimentou uma dinheirama muito maior do que se sabia até agora.

Mas não. Sobre isso, Lula mantém silêncio constrangido. Mais uma vez, como de hábito, em lugar de rebater fatos, ataca quem lhe pede explicações, como fizeram os partidos de oposição na última terça-feira, por meio de nota à imprensa. Ao invés de desmentir, se é possível desmentir, as acusações publicadas pela revista, ele parte para o ataque contra os que lhe reivindicam algo simples: prestar esclarecimentos sobre fatos que teriam ocorrido, com sua suposta participação, quando o petista era o presidente da República Federativa do Brasil.

Não há golpismo na atitude do PSDB, do Democratas e do PPS. Pelo contrário, há cautela e respeito pelas instituições democráticas. Tanto que os três partidos só cogitam pedir investigações ao Ministério Público sobre as denúncias publicadas por Veja quando concluído o julgamento no STF, o que só ocorrerá quando também as eleições municipais já terão transcorrido.

Mas o PT vê nas atitudes oposicionistas fantasmas de um passado que nem de longe estão presentes agora. É o desespero. Bastou a oposição colocar o dedo na ferida para os petistas destrambelharem de vez, numa escalada que teve início a partir da análise do presidente Fernando Henrique Cardoso sobre a “herança pesada” legada por Lula a Dilma, em artigo veiculado no último dia 2.

Daí em diante, o que se viu foi a marcha da insensatez do PT e do governo em ação. Já tivemos, por um lado, a presidente da República divulgando nota oficial para rebater o artigo do líder tucano, ocupando rede nacional de rádio e televisão para atacar a oposição, usando cerimônia oficial para os mesmos fins e trocando ministro para tentar interferir na campanha eleitoral à prefeitura paulistana.

De outro, a Executiva petista aloprou de vez com uma nota em que conclama seus seguidores a travar uma “batalha do tamanho do Brasil” para “desfazer mentiras”, enquanto alguns de seus dirigentes passaram a criticar o STF e a ver no julgamento do mensalão um “golpe” contra o PT, um “risco para a democracia” e uma “grande falácia”.

Neste ínterim, Lula, mesmo depois das graves revelações da Veja, não se dirigiu diretamente à opinião pública nenhuma vez, para, simplesmente, elucidar os fatos. Mas não se furtou a excursionar pelo Brasil subindo em palanques de candidatos petistas para desferir críticas irascíveis a concorrentes, como ocorreu com Arthur Virgílio em Manaus na quarta-feira e com ACM Neto em Salvador na semana passada. Ou seja, sobra-lhe disposição para atacar, mas nenhuma para esclarecer.

É lamentável que o partido que governa o país há dez anos não tenha aprendido até hoje a conviver com quem não lhe diz “sim, senhor”. Não tenha desenvolvido, neste longo período, o apreço e o carinho que a democracia merece. Não tenha reservado às instituições o respeito que qualquer partícipe de uma república lhe deve devotar. É lastimável que o PT trate tão mal a liberdade, os direitos e os valores que o povo brasileiro tanto preza.