O governo Michel Temer perdeu ontem seu oitavo ministro. Foi, porém, a baixa mais significativa sofrida nestes nove meses de gestão. Neste curto espaço de tempo, José Serra reorientou a política externa brasileira e ajudou a reatar o país ao mundo. Fará muita falta à atual administração federal.
Em carta divulgada ontem, o chanceler informou que deixou o cargo para cuidar da saúde. Problemas na coluna vinham dificultando sua agenda, calcada necessariamente numa exaustiva rotina de viagens de longa duração pelo mundo afora. Em dezembro, Serra passou por cirurgia que deveria ter sido seguida de tratamento rigoroso, feito, contudo, de modo insatisfatório nas últimas semanas.
Passados apenas nove meses, o Itamaraty é outro em relação ao que existia no governo petista. Nossa diplomacia abandonou a política de anos de alinhamento a regimes autoritários e bolivarianos, como Venezuela e Cuba, e voltou suas atenções às economias mais dinâmicas do globo. Além disso, imprimiu mais ímpeto à integração regional no âmbito do Mercosul.
O principal lance deste período foi a decisão, capitaneada pelo chanceler brasileiro, de punir o governo venezuelano com a suspensão do bloco regional, ao qual aderira em agosto de 2012. Sem cumprir mais de 200 cláusulas e 40 acordos nestes quatro anos, e, em especial, por reiteradas agressões a princípios democráticos, a Venezuela foi afastada provisoriamente do Mercosul em dezembro passado.
O foco da gestão Serra foi reavivar a agenda de integração global e de promoção comercial do Brasil no exterior. Em sua última viagem como ministro das Relações Exteriores do Brasil, à Alemanha na semana passada, Serra buscou estreitar relações com o novo governo norte-americano. Também duplicou esforços para acelerar o acordo de livre-comércio que, há quase duas décadas, Mercosul e União Europeia cozinham sem chegar a bom termo.
Nestes nove meses, o Itamaraty também ganhou novo protagonismo na área de promoção comercial do país no exterior. Com a Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) agora incorporada à estrutura do ministério, em agosto passado Serra lançou o programa “Be Brasil”, voltado a atrair investimentos estrangeiros para o país para ajudar na retomada do crescimento e na geração de empregos aqui.
A gestão Temer perde muito com a saída de José Serra, o mais preparado dos quadros que compõem o atual governo. Em compensação, poderá dispor do espírito público do agora ex-chanceler na aprovação e discussão da pesada agenda de reformas estruturais que precisam ser apreciadas pelo Congresso nos próximos meses. À nossa diplomacia, restará perseverar na boa trilha que o então ministro tucano apenas teve tempo de inaugurar.
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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
Democracia em bloco
A diplomacia brasileira vem travando árdua batalha pela ressurreição do Mercosul e pela reinserção do país no concerto mundial. Sob o PT, o Brasil orientou sua política externa para parcerias ideológicas de gosto duvidoso, para dizer o mínimo, e de resultados geopolíticos e econômicos pífios, para dizer a verdade.
Nos últimos anos, o Brasil isolou-se ainda mais do resto do mundo, perdeu terreno na integração entre as cadeias produtivas globais, privilegiou a ideologia em detrimento do interesse nacional. Em suma, abandonou as melhores tradições de nossa diplomacia para fazer política partidária rastaquera.
Apesar de ser a oitava maior economia do mundo, o Brasil é hoje apenas o 26° principal exportador, atrás até de países como a Polônia, conforme a mais recente edição do World Fact da CIA. Nossas exportações, de acordo com o Banco Mundial, equivalem a 14% do PIB, neste quesito à frente apenas da Nigéria numa lista de quase 200 países – a média latino-americana é de 24%.
Uma das manifestações mais evidentes da orientação improdutiva que o Brasil deu à sua política externa nos últimos anos está na relação com os países ditos “bolivarianos”, com a Venezuela à frente. Sua contribuição ao nosso comércio exterior foi nula; seu principal aporte à nossa diplomacia foi o atraso.
As estatísticas expressam os retrocessos do Mercosul em termos econômicos sob os governos do PT. Desde o início desta década, a corrente de comércio entre o Brasil e o bloco caiu 25%, retrocedendo ao nível de oito anos atrás. Neste ano até julho, nossas exportações para os parceiros da região caem mais 5,6%.
Sob novos ares, o Itamaraty está lutando para se livrar deste esfacelamento. Em primeiro lugar, a gestão do chanceler José Serra vem pretendendo que o Mercosul recupere seu vigor e passe a funcionar como alavanca de desenvolvimento regional e não como pesada âncora que impede a maior integração dos países do bloco ao resto do mundo.
Em segundo, em honra aos valores republicanos que sempre orientaram a atuação da diplomacia brasileira no concerto das nações, defende, acima de tudo, o respeito à democracia e aos direitos humanos. Sendo assim, confronta-se com o que acontece na Venezuela bolivariana, ainda sob o jugo do chavismo. Neste particular, tenta, acertadamente, impedir que Nicolás Maduro assuma a presidência pro-tempore do bloco.
A alegação é simples: nestes dez anos desde que, em julho de 2006, assinou sua adesão ao bloco, a Venezuela simplesmente não cumpriu boa parte das cláusulas e condicionantes acordadas, entre elas a defesa dos direitos humanos, o respeito à democracia e a regras de livre comércio e funcionamento de mercados. Não goza, pois, de plenos direitos para exercer as prerrogativas que deveriam lhe caber. Para o bem do Mercosul.
Nos últimos anos, o Brasil isolou-se ainda mais do resto do mundo, perdeu terreno na integração entre as cadeias produtivas globais, privilegiou a ideologia em detrimento do interesse nacional. Em suma, abandonou as melhores tradições de nossa diplomacia para fazer política partidária rastaquera.
Apesar de ser a oitava maior economia do mundo, o Brasil é hoje apenas o 26° principal exportador, atrás até de países como a Polônia, conforme a mais recente edição do World Fact da CIA. Nossas exportações, de acordo com o Banco Mundial, equivalem a 14% do PIB, neste quesito à frente apenas da Nigéria numa lista de quase 200 países – a média latino-americana é de 24%.
Uma das manifestações mais evidentes da orientação improdutiva que o Brasil deu à sua política externa nos últimos anos está na relação com os países ditos “bolivarianos”, com a Venezuela à frente. Sua contribuição ao nosso comércio exterior foi nula; seu principal aporte à nossa diplomacia foi o atraso.
As estatísticas expressam os retrocessos do Mercosul em termos econômicos sob os governos do PT. Desde o início desta década, a corrente de comércio entre o Brasil e o bloco caiu 25%, retrocedendo ao nível de oito anos atrás. Neste ano até julho, nossas exportações para os parceiros da região caem mais 5,6%.
Sob novos ares, o Itamaraty está lutando para se livrar deste esfacelamento. Em primeiro lugar, a gestão do chanceler José Serra vem pretendendo que o Mercosul recupere seu vigor e passe a funcionar como alavanca de desenvolvimento regional e não como pesada âncora que impede a maior integração dos países do bloco ao resto do mundo.
Em segundo, em honra aos valores republicanos que sempre orientaram a atuação da diplomacia brasileira no concerto das nações, defende, acima de tudo, o respeito à democracia e aos direitos humanos. Sendo assim, confronta-se com o que acontece na Venezuela bolivariana, ainda sob o jugo do chavismo. Neste particular, tenta, acertadamente, impedir que Nicolás Maduro assuma a presidência pro-tempore do bloco.
A alegação é simples: nestes dez anos desde que, em julho de 2006, assinou sua adesão ao bloco, a Venezuela simplesmente não cumpriu boa parte das cláusulas e condicionantes acordadas, entre elas a defesa dos direitos humanos, o respeito à democracia e a regras de livre comércio e funcionamento de mercados. Não goza, pois, de plenos direitos para exercer as prerrogativas que deveriam lhe caber. Para o bem do Mercosul.
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terça-feira, 28 de junho de 2016
Brexit: Sem saída
Na última quinta-feira, o mundo amanheceu diferente. A decisão tomada pelos ingleses de abandonar a União Europeia terá efeitos importantes sobre a economia política global, sem poupar o Brasil. Desperdiçamos tempo demais descolados do resto do mundo e teremos dificuldades maiores agora para recuperar oportunidades perdidas.
O fato em si foi surpreendente: em plebiscito, 52% dos ingleses votaram pela saída do Reino Unido do bloco ao qual estavam atados desde 1973. A economia inglesa é a segunda mais relevante da União Europeia, por sua vez o segundo principal destino das exportações brasileiras, com cerca de 18% do total, pouco abaixo da China.
As consequências da decisão histórica, contudo, ainda são de difícil mensuração. O primeiro efeito visível é que a onda de rejeição a estrangeiros e a aversão a movimentos globalizantes podem tornar-se ainda mais fortes e resvalar em outros países. É possível que França, Holanda e Itália, entre outros, também submetem a sua continuidade na UE a votações populares. São as dores da democracia.
A ressaca também pode bater do outro lado do Atlântico e impulsionar a campanha de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. A mesma retórica xenófoba ancora a plataforma do candidato do Partido Republicano à Casa Branca. Um mundo com portas mais cerradas não pode ser bom para ninguém, tampouco para o Brasil.
Os interesses brasileiros tendem a ser diretamente afetados pelo Brexit, alcunha pela qual a decisão dos ingleses pela saída da UE ficou conhecida. Há anos a nossa diplomacia está sentada em cima de um acordo comercial com o bloco europeu, sem sair do lugar. A oportunidade pode estar agora bastante comprometida.
Na última década, a política externa brasileira baseou-se em muita ideologia e pouca visão de longo prazo. Em favor de uma tão difusa quanto ilusória identidade cultural, demos as costas a nações mais ricas e voltamo-nos a países cujos governos tinham viés político alinhado ao berço histórico do Partido dos Trabalhadores, sem deixar de lado ditaduras tão corruptas quanto endinheiradas na África.
A consequência desta política externa foi o isolamento do Brasil perante o polo dinâmico da economia mundial. Nossas empresas perderam seguidas chances de se conectar com cadeias globais de produção, com efeitos que hoje qualquer um percebe: nossa economia está embicada na mais severa recessão de sua história e o setor mais dinâmico, a indústria, amarga o pior retrocesso de décadas.
O que o Brexit nos ensina é o custo que decisões equivocadas podem ter para o futuro das nações. No caso brasileiro, desperdiçamos um dos maiores momentos de bonança da história e não nos preparamos para um mundo de animosidades – políticas, econômicas e culturais – crescentes. Será bem mais difícil entrar agora onde só há portas se fechando.
O fato em si foi surpreendente: em plebiscito, 52% dos ingleses votaram pela saída do Reino Unido do bloco ao qual estavam atados desde 1973. A economia inglesa é a segunda mais relevante da União Europeia, por sua vez o segundo principal destino das exportações brasileiras, com cerca de 18% do total, pouco abaixo da China.
As consequências da decisão histórica, contudo, ainda são de difícil mensuração. O primeiro efeito visível é que a onda de rejeição a estrangeiros e a aversão a movimentos globalizantes podem tornar-se ainda mais fortes e resvalar em outros países. É possível que França, Holanda e Itália, entre outros, também submetem a sua continuidade na UE a votações populares. São as dores da democracia.
A ressaca também pode bater do outro lado do Atlântico e impulsionar a campanha de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. A mesma retórica xenófoba ancora a plataforma do candidato do Partido Republicano à Casa Branca. Um mundo com portas mais cerradas não pode ser bom para ninguém, tampouco para o Brasil.
Os interesses brasileiros tendem a ser diretamente afetados pelo Brexit, alcunha pela qual a decisão dos ingleses pela saída da UE ficou conhecida. Há anos a nossa diplomacia está sentada em cima de um acordo comercial com o bloco europeu, sem sair do lugar. A oportunidade pode estar agora bastante comprometida.
Na última década, a política externa brasileira baseou-se em muita ideologia e pouca visão de longo prazo. Em favor de uma tão difusa quanto ilusória identidade cultural, demos as costas a nações mais ricas e voltamo-nos a países cujos governos tinham viés político alinhado ao berço histórico do Partido dos Trabalhadores, sem deixar de lado ditaduras tão corruptas quanto endinheiradas na África.
A consequência desta política externa foi o isolamento do Brasil perante o polo dinâmico da economia mundial. Nossas empresas perderam seguidas chances de se conectar com cadeias globais de produção, com efeitos que hoje qualquer um percebe: nossa economia está embicada na mais severa recessão de sua história e o setor mais dinâmico, a indústria, amarga o pior retrocesso de décadas.
O que o Brexit nos ensina é o custo que decisões equivocadas podem ter para o futuro das nações. No caso brasileiro, desperdiçamos um dos maiores momentos de bonança da história e não nos preparamos para um mundo de animosidades – políticas, econômicas e culturais – crescentes. Será bem mais difícil entrar agora onde só há portas se fechando.
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sexta-feira, 20 de maio de 2016
Brasil de volta ao mundo
A diplomacia brasileira respira novos ares. Com a posse do ministro José Serra no Itamaraty, o Brasil retoma laços com o mundo e reorienta sua política externa no sentido do desenvolvimento. Temos no horizonte a perspectiva de abandonar a postura ideológica que, nos últimos anos, reduziu o país a papel secundário no concerto das nações. Voltamos a pensar grande.
A nova política externa do país estará alicerçada em dez diretrizes elencadas ontem pelo novo chanceler em seu discurso de posse no Ministério de Relações Exteriores. Há um imenso atraso, fruto da orientação populista, bolivariana e retrógrada que prevaleceu nos últimos anos, a ser superado. Tarefa gigantesca, mais uma das heranças malditas legadas pelo petismo à nova gestão do país.
Nos primórdios do governo Lula, nossa diplomacia foi direcionada a servir como contraponto “de esquerda” à gestão conservadora que o PT foi obrigado a fazer na condução dos assuntos internos. À ortodoxia econômica correspondeu o alinhamento, no exterior, a causas, governos, plataformas e discursos historicamente próximos ao petismo. Mas o que era para ser só pantomima acabou indo longe demais e, durante 13 anos, afastou o Brasil das melhores vertentes.
As ambições internacionais do país foram direcionadas a atender muito mais ao projeto político petista do que aos interesses nacionais. A diplomacia companheira flertou abertamente com ditaduras e promoveu negócios com regimes autoritários. Acabou se revelando instrumento para os interesses escusos dos governos Lula e Dilma, como o petrolão deixou evidentes com os contratos azeitados por dinheiro barato do BNDES financiando empreiteiras amigas no exterior.
Politicamente, a gestão petista no Itamaraty optou por tecer uma espécie de aliança do atraso com países do quilate da penumbrosa Venezuela, Bolívia, Equador e a Argentina sob a dinastia dos Kirchner. Em paralelo, demos as costas para iniciativas comerciais francamente voltadas a gerar mais riqueza e empregos para as populações envolvidas, como a Aliança do Pacífico. O acordo com a União Europeia passou mais de década congelado.
Nestes anos de pasmaceira comercial e de atraso diplomático, o Brasil viu reduzida a sua participação no comércio mundial. Também se notabilizou por se tornar a nação mais fechada numa lista de 176 países acompanhados pelo Fórum Econômico Mundial. Perderam nossas empresas, isoladas das cadeias globais, e nossos trabalhadores, menos produtivos e, por isso, com maiores dificuldades de competir mundialmente.
A agenda apresentada ao país ontem pelo ministro Serra busca recolocar o Brasil nos trilhos. Advoga o primado dos interesses nacionais sobre a ideologia e o partidarismo. Defende a democracia e as liberdades, sem contemporizar com ditaduras e autoritarismos. Acena com a necessária reativação da política comercial brasileira como ponta do novelo da retomada do crescimento econômico interno.
Sob a nova direção, o Itamaraty buscará fechar, num esforço conjunto com os setores produtivos nacionais, acordos bilaterais de comércio que liberalizem as trocas e abram mercados para produtos brasileiros no exterior. O Mercosul terá de deixar de ser uma trava para tornar-se alavanca nesta estratégia, em parceria com a Argentina, governada agora também sob novo viés.
Numa síntese, expressa nas palavras do novo ministro ontem: “A diplomacia do século 21 não pode repousar apenas na exuberância da retórica e no tom auto laudatório dos comunicados conjuntos. Precisa ter objetivos claros e ser a um só tempo discurso político e resultado concreto.”
O papel que se antevê da diplomacia brasileira nesta nova conjuntura certamente estará à altura da imagem que os brasileiros gostariam que fosse projetada pelo país perante o resto do mundo. Pela relevância política e econômica que preza, o Brasil deve estar ao lado dos líderes e não na segunda classe à qual foi relegado pela política miúda do PT. Agora é hora de decolar.
A nova política externa do país estará alicerçada em dez diretrizes elencadas ontem pelo novo chanceler em seu discurso de posse no Ministério de Relações Exteriores. Há um imenso atraso, fruto da orientação populista, bolivariana e retrógrada que prevaleceu nos últimos anos, a ser superado. Tarefa gigantesca, mais uma das heranças malditas legadas pelo petismo à nova gestão do país.
Nos primórdios do governo Lula, nossa diplomacia foi direcionada a servir como contraponto “de esquerda” à gestão conservadora que o PT foi obrigado a fazer na condução dos assuntos internos. À ortodoxia econômica correspondeu o alinhamento, no exterior, a causas, governos, plataformas e discursos historicamente próximos ao petismo. Mas o que era para ser só pantomima acabou indo longe demais e, durante 13 anos, afastou o Brasil das melhores vertentes.
As ambições internacionais do país foram direcionadas a atender muito mais ao projeto político petista do que aos interesses nacionais. A diplomacia companheira flertou abertamente com ditaduras e promoveu negócios com regimes autoritários. Acabou se revelando instrumento para os interesses escusos dos governos Lula e Dilma, como o petrolão deixou evidentes com os contratos azeitados por dinheiro barato do BNDES financiando empreiteiras amigas no exterior.
Politicamente, a gestão petista no Itamaraty optou por tecer uma espécie de aliança do atraso com países do quilate da penumbrosa Venezuela, Bolívia, Equador e a Argentina sob a dinastia dos Kirchner. Em paralelo, demos as costas para iniciativas comerciais francamente voltadas a gerar mais riqueza e empregos para as populações envolvidas, como a Aliança do Pacífico. O acordo com a União Europeia passou mais de década congelado.
Nestes anos de pasmaceira comercial e de atraso diplomático, o Brasil viu reduzida a sua participação no comércio mundial. Também se notabilizou por se tornar a nação mais fechada numa lista de 176 países acompanhados pelo Fórum Econômico Mundial. Perderam nossas empresas, isoladas das cadeias globais, e nossos trabalhadores, menos produtivos e, por isso, com maiores dificuldades de competir mundialmente.
A agenda apresentada ao país ontem pelo ministro Serra busca recolocar o Brasil nos trilhos. Advoga o primado dos interesses nacionais sobre a ideologia e o partidarismo. Defende a democracia e as liberdades, sem contemporizar com ditaduras e autoritarismos. Acena com a necessária reativação da política comercial brasileira como ponta do novelo da retomada do crescimento econômico interno.
Sob a nova direção, o Itamaraty buscará fechar, num esforço conjunto com os setores produtivos nacionais, acordos bilaterais de comércio que liberalizem as trocas e abram mercados para produtos brasileiros no exterior. O Mercosul terá de deixar de ser uma trava para tornar-se alavanca nesta estratégia, em parceria com a Argentina, governada agora também sob novo viés.
Numa síntese, expressa nas palavras do novo ministro ontem: “A diplomacia do século 21 não pode repousar apenas na exuberância da retórica e no tom auto laudatório dos comunicados conjuntos. Precisa ter objetivos claros e ser a um só tempo discurso político e resultado concreto.”
O papel que se antevê da diplomacia brasileira nesta nova conjuntura certamente estará à altura da imagem que os brasileiros gostariam que fosse projetada pelo país perante o resto do mundo. Pela relevância política e econômica que preza, o Brasil deve estar ao lado dos líderes e não na segunda classe à qual foi relegado pela política miúda do PT. Agora é hora de decolar.
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quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Palanque na ONU
Dilma Rousseff foi a Nova York falar grosso na abertura da Assembleia Geral da ONU. É o que a nossa presidente mais gosta de fazer. A destreza que exibe para vociferar, ela não consegue empregar para tomar decisões corretas e efetivá-las. Também nas ações contra espionagem e nos planos de regulação da internet tem sido assim.
É correto Dilma protestar contra intromissões indevidas de
bisbilhoteiros na vida do país. Merece solidariedade e apoio de todos os
brasileiros por isso. Mas daí a engolir seu discurso moldado pelo marketing e
orientado por pesquisas eleitorais vai distância tão longa quanto a que separa
as palavras da presidente das ações de seu governo.
O governo brasileiro encontrou um inimigo externo dos sonhos
com a descoberta das repugnantes atividades de espionagem levadas a cabo pela
agência norte-americana NSA no país. Brigar contra o “gigante imperialista” é
tudo o que uma administração pretensamente de esquerda mais quer. Dá votos e
ibope entre seus eleitores cegados por ideologia.
Mas se se preocupa tanto com a segurança nacional e se diz
tão precavida contra as ingerências indevidas, por que a gestão petista dá tão
pouca atenção a suas ações de inteligência? A execução do orçamento da Agência
Brasileira de Inteligência (Abin) revela o pouco caso do governo com nossos
arapongas.
Da dotação da Abin para este ano, somente 11% destinam-se a
ações de inteligência. Quase a totalidade (87%) dos R$ 513 milhões de seu
orçamento serve para pagar pessoal, encargos, aposentadorias e pensões, de
acordo com a ONG Contas Abertas. Mesmo assim, apenas uma fração do dinheiro é efetivamente
empregada.
Em 2011, as ações de “inteligência federal” da Abin dispuseram
de R$ 370 milhões, segundo o Siafi. Mas apenas 12% deste valor foi utilizado
até hoje, já considerados os restos a pagar. Em 2012, a dotação para esta
rubrica caiu a R$ 9 milhões, dos quais 44% foram usados até agora. Em 2013, não
há dotação específica para ações de inteligência.
Além da pífia execução orçamentária, o marco institucional
de prevenção contra ações de espionagem no Brasil também não existe. Desde
novembro de 2010, o projeto de Política Nacional de Inteligência, que cria
diretrizes para o Estado brasileiro se prevenir de bisbilhotices, está prontinho,
mas parado no Planalto.
“Dilma faria melhor se buscasse equipar o Brasil contra
ataques cibernéticos. A presidente faz o oposto. (...) É mais fácil ler um
discurso feito pelo marqueteiro no teleprompter na ONU do que trabalhar duro em
casa”, comenta Fernando Rodrigues hoje na Folha de S.Paulo.
Depois que Dilma cancelou sua visita de Estado a Washington
e passou a se preparar para o discurso duro que ontem proferiu em Nova York, o
país já teve oportunidade de demonstrar efetivamente sua preocupação com a espionagem
e os ataques cibernéticos. Foi na sexta-feira passada, quando uma reunião da
cúpula de direitos humanos da ONU discutiu o assunto em Genebra.
Pois não é que nossa operosa diplomacia se fez representar
no colóquio por intermédio de um diplomata de segundo escalão que depois se fez
substituir por uma estagiária? “Nas duas horas de reunião a delegação
brasileira não pediu a palavra uma só vez e a estagiária se limitou a tomar
nota do que dizia cada um dos participantes”, revelou O Estado de S.Paulo no sábado. Enquanto isso, na mesma hora a embaixadora
do Brasil na ONU promovia um almoço para sua despedida do cargo...
A mesma incúria se nota nas ações do governo brasileiro em
relação à criação de um instrumento internacional para governança e uso da internet,
outra das propostas levantadas por Dilma na ONU ontem. Existe um fórum global
para tratar do tema, a Cúpula Mundial da Sociedade da Informação (ou WSIS, na
sigla em inglês), mas em dez anos o Brasil jamais formalizou qualquer proposta a
respeito, relata o Valor Econômico.
Ações de defesa cibernética também são desprezadas pelo
governo brasileiro, quando observadas pela ótica da execução orçamentária. Dos R$
90 milhões previstos neste ano para tal finalidade, somente 16% foram gastos até
agora. Pior é que a proposta orçamentária para 2014 prevê reduzir a dotação para tais
iniciativas: o valor deve cair para R$ 70 milhões, segundo o Contas Abertas.
Resta claro que o que mais interessava à presidente ontem na
ONU era o gesto, a demonstração de desagrado em relação à afronta patrocinada
pelo governo americano. Era, mais que isso, transformar aquela nobre tribuna em
palanque. Mas suas palavras diferem tanto de sua prática que Barack Obama e seu
estafe sequer se deram o trabalho de ouvir o que Dilma Rousseff dizia... Seria
melhor para o país que o governo brasileiro falasse menos e agisse mais.
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quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Liderança não se proclama, se exerce
A diplomacia brasileira tinha um problemão na mão: reagir à altura à inadmissível espionagem feita por uma agência do governo dos Estados Unidos à presidente Dilma Rousseff e a estatais como a Petrobras. Preferiu um gesto espalhafatoso a encarar – e tentar resolver – a questão de frente.
O cancelamento da visita de Estado que a presidente da
República faria a Washington em 23 de outubro atende muito mais às conveniências
políticas e ao jogo de cena do governo petista do que aos reais interesses do
país. Conflitos diplomáticos se resolvem na mesa de negociação e não em
reuniões de marketing.
Embora a manifestação oficial do governo brasileiro tenha
sido anunciada apenas ontem, desde sexta-feira a decisão estava tomada. Mas, ao
contrário do que se poderia esperar, não foi definida nos círculos mais altos
da nossa diplomacia ou do aparato estatal, mas sim numa reunião de líderes
políticos, marqueteiros e palpiteiros que auxiliam a presidente.
Conforme noticia a imprensa, Dilma resolveu cancelar sua ida
a Washington – seria a primeira visita de Estado de um presidente brasileiro ao
coração do poder norte-americano desde que Fernando Henrique Cardoso lá esteve
em 1995 – depois de ouvir Lula, João Santana e Franklin Martins. Só depois que
seus sábios opinaram, a presidente comunicou a decisão ao chanceler Luiz
Alberto Figueiredo.
Revela-se, em mais este episódio, como o PT trata questões
de Estado: com viés partidário, eleitoral e ideológico. Nada mais conveniente
para isso do que a criação de um inimigo externo que muita gente adora odiar. Na
lógica do marketing, vale mais a retórica do que a ação política capaz de
transformar desafios em oportunidades para o país.
A visita de outubro poderia servir muito para os interesses
brasileiros, principalmente num momento em que o país luta para recuperar a
confiança internacional e para atrair o – até agora inexistente – investimento
estrangeiro para seu bilionário programa de concessões de infraestrutura.
O empresariado brasileiro cita ainda outros temas que
poderiam ser destravados no encontro de cúpula, como a eliminação da
bitributação nas transações entre os dois países e a retirada do Brasil da
lista de observação das nações acusadas de pirataria. Depois de ontem, esta
agenda está, por ora, interditada.
A diplomacia brasileira também poderia aproveitar a
oportunidade para abrir mais espaço para produtos brasileiros no gigantesco
mercado americano. Somos um dos poucos países que mais compram do que vendem
aos EUA: o déficit acumulado desde 2009 já chega a US$ 33,5 bilhões, revertendo
saldo que chegou a ser positivo em quase US$ 10 bilhões em 2006.
Enfrentar e tentar equacionar problemas desta monta dá
trabalho e o PT não é muito chegado a isso. É sempre mais conveniente, para os
interesses eleitorais do partido, comprar uma boa briga, posar de defensor da
nação e não resolver absolutamente nada. Perde o país.
“A reclamação deve ter eficácia. O certo a se fazer seria
deixar o assunto nas mãos dos ministérios exteriores, levantar o tema em
organizações internacionais, como a presidente pretende fazer, e, até mesmo,
abordar isso abertamente durante a visita de Estado. Essa atitude seria mais
eficaz e mais constrangedora para o governo Obama”, receita o ex-embaixador
José Botafogo Gonçalves n’O Globo.
Condenar e repudiar as tentativas de espionagem, que ferem a
soberania da nação, era atitude correta e necessária. Mas tratar o problema com
a altivez que um país como Brasil deve ter era algo ainda mais premente. O
governo Dilma tinha excelente oportunidade para fazer uma defesa contundente de
valores com os quais os brasileiros comungam. Mas preferiu jogar para a plateia
e fugir da briga. Liderança não se proclama apenas, se exerce.
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quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Não à arapongagem
Merecem repúdio unânime e condenação veemente os atos de espionagem praticados por agências norte-americanas em relação ao governo, a instituições e a empresas brasileiras. Não há o que justifique os EUA dispensarem ao Brasil tratamento semelhante ao reservado a países que representam ameaça à segurança mundial.
As revelações vêm sendo feitas a conta-gotas por meio de documentos
vazados por Edward Snowden, ex-prestador de serviços junto à inteligência
americana e atualmente asilado na Rússia. Primeiro foram ligações telefônicas a
granel, depois a arapongagem da própria presidente da República e agora a Petrobras.
Sabe-se lá o que mais ainda há para ser conhecido...
A reação do governo brasileiro vem sendo adequada, num tom incisivo,
que, ademais, poderia também ser empregado em outras tantas crises diplomáticas
por que vem passando nossa diplomacia. No caso de hermanos, contudo, nossa chancelaria acaba preferindo usar suas luvas
de pelica em lugar de defender os legítimos interesses do Brasil.
Na crise da espionagem, primeiro o governo brasileiro exigiu
explicações formais do embaixador americano em Brasília, Thomas Shannon – ora em
processo de remoção para Washington. Depois, Dilma Rousseff conversou sobre o
assunto com o presidente Barack Obama em São Petersburgo, na reunião do G-20. E
hoje o chanceler Luiz Alberto Figueiredo estará nos EUA para tratar do assunto
com Susan Rice, assessora-chefe de segurança nacional da Casa Branca.
Aguarda-se para amanhã uma manifestação formal do governo
americano sobre as ações de espionagem, que vêm sendo reveladas pelo Fantástico, da TV Globo. Dilma ameaça
cancelar a visita de Estado a Washington prevista para outubro, caso as explicações
prestadas não sejam suficientemente convincentes. Faz bem.
Entretanto, se na reação o governo brasileiro vem atuando corretamente,
na prevenção falhou redondamente. O Brasil não dispõe de um plano de
inteligência para prevenir ações de espionagem como as agora reveladas por
Snowden, como revelou Fernando Rodrigues em seu blog
na sexta-feira passada.
Há quase três anos está parado no Palácio do Planalto o
texto que cria a Política Nacional de Inteligência (PNI), marco legal que deve
orientar a atuação dos órgãos de inteligência do governo brasileiro. “Sem ela,
a atuação da inteligência brasileira fica sujeita a ações tomadas a quente
quando acontece algum problema”, escreve Rodrigues.
A criação da PNI foi definida na lei que deu origem à Abin, ainda
em 1999, durante o governo Fernando Henrique. Dez longos anos se passaram até que, em
março de 2009, uma proposta de política começou a ser elaborada no governo Lula
sob a coordenação da Casa Civil quando Dilma ainda era ministra da pasta.
O texto foi discutido em 40 reuniões, enviado ao Congresso e
lá aprovado. Retornou ao Planalto em novembro de 2010. Já com Dilma presidente,
foi ao Gabinete de Segurança Institucional e, desde então, está engavetado,
deixando o país sem as principais diretrizes sobre como o Estado brasileiro
deve prevenir ações de espionagem.
A revelação de que a Petrobras foi alvo da bisbilhotice
americana também joga um facho de preocupação sobre o megaleilão do pré-sal
previsto para o próximo dia 21 de outubro. Sabe-se que tão gigantescas reservas
– equivalentes a entre 8 e 12 bilhões de barris de petróleo – são estratégicas para
toda a geopolítica mundial. Agora também podem estar em jogo tecnologias para exploração
em águas profundas e possíveis negócios da estatal brasileira.
Já é uma temeridade o Brasil colocar em oferta de uma só
tacada o equivalente à metade de suas reservas de petróleo. Nas atuais condições,
sob suspeita de que dados confidenciais podem estar sendo ilegalmente usufruídos
por alguns competidores, a realização do leilão – neste momento – torna-se
ainda menos recomendável. Mas o governo petista alega que precisa dos bilhões do
pré-sal para fechar suas contas de curto prazo...
Quando os primeiros atos de espionagem foram revelados, os
EUA alegaram tratar-se de ações de combate a ameaças terroristas. Vê-se agora
que são muito mais que isso. Nada, porém, justifica que o Brasil, democrático e
pacífico, possa ser considerado um país com alguma dose de ameaça à segurança
mundial, enquadrado na categoria de nação inimiga ou problemática. Nem mesmo
nossa errática diplomacia companheira.
iEste
e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão
disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela
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quarta-feira, 1 de agosto de 2012
O golpe final no Mercosul
Brasil, Argentina e Uruguai devem sacramentar hoje a entrada da Venezuela no Mercosul, à revelia do quarto sócio, o Paraguai. Realizado desta forma, o ingresso do país do ditador Hugo Chávez fere de morte os princípios democráticos do bloco regional e tende a representar um passo perigoso rumo à implosão do projeto de integração. É o golpe final.
A República
Bolivariana de Venezuela foi admitida no Mercosul por meio de um golpe. Os países-membros
aproveitaram a suspensão imposta ao Paraguai – por supostamente ter incorrido
em “ruptura da ordem democrática” ao aprovar o impeachment de Fernando Lugo em
processo acelerado – para permitir que o país de Chávez adentrasse o bloco, algo
que os paraguaios se recusavam, desde 2009, a ratificar.
Ou seja, à guisa de
punir um país que, supostamente, teria violado cláusulas democráticas, os
demais membros do Mercosul incorreram numa afronta ainda maior aos princípios
do Estado Democrático de Direito. No início do mês, a diplomacia uruguaia denunciou
que a acintosa decisão foi imposta aos demais países pela presidente Dilma
Rousseff, numa “grave ferida institucional”, nas palavras
do vice-presidente Danilo Astori.
O mais grave é que,
a partir de agora, o destino do Mercosul estará atado às diatribes de um
governante como Hugo Chávez, claramente avesso à liberalização dos mercados e à
formalização de novos acordos de livre comércio, numa espécie de “protecionismo
ideológico”. Nesta perspectiva, as chances de avançarem negociações do bloco
com os Estados Unidos ou a União Europeia tornam-se mínimas doravante.
Além do nebuloso
horizonte que se descortina para a expansão comercial do bloco em direção a outros
mercados, o Mercosul incorpora em seu seio um governo descomprometido com a
democracia e com os direitos humanos, e ainda suspeito de manter fortes laços
com o crime organizado. Trata-se, sob os mais variados aspectos, de um indesejado
conviva.
O governo de Chávez foi
alvo de relatório crítico da Human Rights Watch divulgado
há duas semanas. O documento aponta concentração e abuso de poder por parte do
ditador, que ocupa o cargo há 13 anos. Lista, ainda, uma série de casos de
intimidação, censura e processos promovidos por Chávez contra o Judiciário, a imprensa
e a sociedade civil na Venezuela.
Há, também, fundadas
suspeitas de que o regime bolivariano compactue com narcoguerrilheiros das Farc
na Colômbia. Segundo alguns ex-magistrados venezuelanos ouvidos pelo New
York Times, quase toda a cúpula do poder abaixo de Chávez faz parte de
uma grande rede sul-americana de narcotráfico.
Afora suas más
credenciais democráticas, a Venezuela sequer demonstrou, até agora, compromisso
verdadeiro com os requisitos que deveriam permitir a sua incorporação ao Mercosul.
Sua entrada no bloco é objeto de negociação desde 2006, mas até hoje Caracas não
adotou as normas e o padrão aduaneiro do bloco nem informou sua lista de
produtos considerados sensíveis – cujo prazo venceu em 2010.
Toda esta ficha
corrida não compensa a perspectiva, alardeada pelos defensores do ingresso
venezuelano, de abrir um mercado que produz US$ 316 bilhões em bens e riquezas.
O custo desta decisão será ter, sentado à mesa do Mercosul, com plenos poderes
para vetar o que bem entender, um governante cujo único compromisso é com sua
própria perpetuação no poder.
A entrada da
Venezuela no Mercosul, principalmente pela forma autoritária com que está se
dando, acentua a politização que o governo petista empreendeu à política
externa brasileira. Antes firmemente comprometida com os ideais democráticos,
nossa diplomacia agora flerta indesejavelmente com o perigo e incentiva um governo
ditatorial – como, aliás, fez em diversas outras partes do mundo desde a ascensão
do PT ao poder.
Ao Mercosul, o que
se avizinha é, na melhor das hipóteses, um período de turbulência, em que os
membros continuarão sem saber se são uma mera zona de livre comércio, uma união
aduaneira ou um desejável mercado comum. Contudo, a adesão da Venezuela pode
representar algo ainda pior para as pretensões do bloco: uma marcha batida rumo
à irrelevância ou, ainda, a um fim tristemente melancólico.
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quarta-feira, 4 de julho de 2012
O golpe dentro do ‘golpe’
A diplomacia brasileira está produzindo lambanças em série. Depois de conduzir a Rio+20 a um desfecho melancólico, o governo petista está envolvido até o pescoço num golpe: não, não se trata do impeachment de Fernando Lugo no Paraguai, conduzido estritamente dentro dos preceitos constitucionais do vizinho, mas sim da incorporação tortuosa da Venezuela ao Mercosul. O Brasil liderou uma espécie de quartelada neste fim de semana.
Na reunião de cúpula
ocorrida em Mendoza, o periclitante bloco comercial formado por Argentina, Brasil,
Paraguai e Uruguai ganhou novo sócio: a República Bolivariana da Venezuela. O ingresso
do país comandado ditatorialmente pela mesma pessoa há quase 13 anos só foi
possível porque os demais sócios suspenderam os paraguaios do Mercosul sob a alegação
de que a ascensão do novo governo de Assunção tisnou princípios democráticos. Quanta
contradição...
O Senado paraguaio
era o único que resistia a aprovar a entrada dos venezuelanos no bloco. Desde 2005
o ingresso do país de Hugo Chávez dependia do aval dos congressistas em
Assunção, uma vez que precisa ser ratificado por unanimidade pelos quatro membros. Com
a suspensão temporária do Paraguai do Mercosul, decidida há dez dias, o entrave
foi levantado e a porteira para a incorporação da Venezuela, aberta.
Surge daí a contradição:
o Paraguai está suspenso do bloco sob a alegação de que o impeachment de Lugo
representou “ruptura da ordem democrática”, conforme a manifestação oficial do
Itamaraty acerca da questão. É certo que a celeridade com que o processo
transcorreu em Assunção causou estranheza, mas a Constituição do Paraguai,
promulgada em 1992 e elaborada por uma assembleia eleita para tanto, não foi
afrontada. Não há, portanto, que se falar em “golpe”.
O que se assemelha
em tudo a um verdadeiro golpe é aproveitar-se da situação de excepcionalidade
por que passa o Paraguai para pôr dentro do Mercosul um sócio que os vizinhos –
por meio de seus representantes no Congresso – não desejavam. A decisão tomada
em Mendoza no fim de semana é, em tudo, discutível e pode ser legalmente
contestável.
Os países que acusam
o Parlamento paraguaio de ter produzido um
“golpe” contra Fernando Lugo usam
requintes de crueldade para penalizar e prejudicar Assunção. Por exemplo: quando
vier a ser reincorporado ao Mercosul, o que é previsto para daqui a nove meses,
o Paraguai não poderá reexaminar qualquer dos acordos e tratados que Chávez tiver
estabelecido com os demais sócios do bloco durante o período.
“O Paraguai terá que
aderir a tudo que for pactuado durante sua ausência", disse Luis Inácio
Adams, ministro-chefe da Advocacia Geral da União, no fim de semana ao Valor
Econômico. As decisões tomadas pelo Mercosul neste ínterim serão, pois,
empurradas goela abaixo dos paraguaios. Cabe, portanto, perguntar: quem,
afinal, está produzindo um golpe?
No sábado, a Folha
de S.Paulo mostrou que há fundamentos jurídicos sólidos para questionar
a decisão de Mendoza. O artigo 37 do Protocolo de Ouro Preto, que implantou o
bloco, diz que “as decisões dos órgãos do Mercosul serão tomadas por consenso e
com a presença de todos os Estados partes”. Ou seja, sem o Paraguai, nem
pensar.
Para coroar, soube-se
ontem que Dilma Rousseff foi o artífice do estratagema que abriu as portas do
Mercosul para Chávez. O chanceler uruguaio veio a público informar que
Montevideo foi contra a entrada da Venezuela no bloco nas circunstâncias
atuais, isto é, aproveitando-se da suspensão temporária de um de seus
sócios-fundadores. De acordo com o relato, o Uruguai foi coagido pela
presidente brasileira a calar-se e avalizar o ardil.
“O chanceler Luis
Almagro [do Uruguai] garantiu ontem que, sem unanimidade, a decisão só foi
tomada em Mendoza por pressão direta da presidente Dilma Rousseff, não é
definitiva e, agora, será reavaliada juridicamente por seu governo”, resume O
Globo. Por meio do bolivariano Marco Aurélio Garcia, o Planalto negou a
versão uruguaia.
Pela decisão
anunciada neste fim de semana, a entrada da Venezuela no Mercosul só será
oficializada em 31 de julho, numa nova reunião dos países do bloco. Quem sabe
os uruguaios não consertam por lá a lambança feita por cá? Do contrário, o
bloco regional, que hoje já mal se aguenta sobre as pernas, terá agora que
viver a reboque de Hugo Chávez e seus bolivarianos. Alguém duvida que, nestas
condições, e de golpe em golpe, o Mercosul avança para um naufrágio?
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Pedrada na democracia
Os cubanos foram apresentados ontem à verdadeira Dilma Rousseff. Assim como os brasileiros, eles puderam constatar que a personagem real difere muito do mito propagandeado pelo marketing. A presidente do Brasil jogou no lixo a peça de ficção de defensora dos direitos humanos que vinha encenando.
Num país onde é vedado aos cidadãos o simples direito de transpor suas fronteiras quando bem entenderem, Dilma preferiu relativizar seu compromisso, que deveria ser absoluto, com as liberdades civis. Disse ela: “Se vamos falar de direitos humanos, vamos falar de direitos humanos em todos os lugares. (...) Quem atira a primeira pedra tem telhado de vidro. Nós, no Brasil, temos os nossos”.
Quando se quer evitar encarar um problema, tal abordagem serve para qualquer assunto; é o mesmo que virar as costas, dar de ombros ou olhar de lado. Dilma apedrejou a democracia. Sua atitude equivale a um aval cúmplice ao que a ditadura castrista pratica há 53 anos em Cuba: um duro regime de exceção em que as pessoas têm de se contentar com migalhas.
“O dia a dia da população ainda é marcado pelas cadernetas onde são anotados os suplementos dados aos habitantes: um pãozinho por dia, oito ovos a cada três meses, meio litro de óleo por mês”, relatou O Globo em sua edição de ontem.
Ontem, Dilma encontrou-se com o atual ditador Raúl Castro e, “com muito orgulho”, com o sempre ditador Fidel Castro. Passou longe de entrever-se com algum – unzinho que fosse – representante dos opositores ao regime cubano. Contradisse, na prática, as boas intenções que enunciara ao jornal Washington Post logo depois de eleita: “Tenho um compromisso histórico com todos aqueles que foram ou são prisioneiros somente por expressarem suas visões, suas opiniões”.
Dilma repete agora, em boa medida, a postura de Luiz Inácio Lula da Silva em visita à ilha em 2010. Na ocasião, o então presidente brasileiro confraternizou-se gostosamente com os Castro e, de quebra, ainda aproveitou para comparar os dissidentes cubanos encarcerados a presos comuns do sistema penitenciário brasileiro.
A presidente não está sozinha em sua visão torpe da realidade cubana. Sua atitude encontra eco na de outros integrantes de sua equipe de governo. O chanceler Antonio Patriota, por exemplo, considera que a situação dos direitos humanos em Cuba “não é emergencial”. E Maria do Rosário, secretária de Direitos Humanos, diz que “violação verdadeira é o embargo dos EUA [à ilha]”.
“O governo brasileiro põe suas relações fraternais com a ditadura Castro, e todo o simbolismo que tenham para a esquerda do PT, acima do direito universal à liberdade”, comenta Dora Kramer n’O Estado de S.Paulo. Nunca é demais lembrar que o governo cubano se abstém de assinar tratados internacionais sobre direitos humanos e mantém dezenas de pessoas em masmorras.
Ao longo dos últimos meses, Dilma Rousseff pareceu ensaiar alguns passos divergentes em relação à política externa de Lula. O respeito aos direitos humanos, que jamais foi o forte e nunca esteve no foco da diplomacia companheira, despontava como uma agradável mudança.
O teste da realidade, porém, foi desmentindo a suposta guinada. Basta lembrar que, nas rebeliões árabes do ano passado, o Brasil não se manifestou contra os governos despóticos de Egito e Líbia, derrubados após intensa insurgência de populações oprimidas por décadas de exceção.
O Itamaraty também continua insuflando sua inócua política diplomática voltada a países do Hemisfério Sul e virando as costas às maiores economias do planeta. Como fez, pateticamente, no sábado passado ao patrocinar um encontro ministerial Índia-Brasil-África do Sul à margem do Fórum Econômico Mundial em Davos.
A passagem de Dilma Rousseff por Cuba recoloca o respeito às liberdades pelo PT de volta ao seu trilho original: direitos humanos são aspecto menor para o partido e seus seguidores, que preferem o silêncio reverente diante de ditadores à defesa da democracia.
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segunda-feira, 28 de março de 2011
Ainda em más companhias
Após oito anos de manifestações de amizade e alianças firmadas com alguns dos principais facínoras do mundo, o Brasil surpreendeu ao votar na ONU a favor de investigar o Irã por suspeita de violação de direitos humanos. Ainda não se trata de uma guinada completa na nossa política externa, mas pode ser um bom começo. A lista de más companhias a serem evitadas pela nossa diplomacia é caudalosa.
A votação no Conselho de Direitos Humanos da ONU ocorreu na última quinta-feira. Foi a primeira vez que o Brasil deliberou contra o Irã desde 2003. Desde então, foram sete abstenções em votações sobre o país de Mahmoud Ahmadinejad no órgão da Assembleia Geral da ONU – uma delas em novembro do ano passado, quando foram propostas punições ao Irã por apedrejamentos e enforcamentos em praça pública e o Brasil calou-se.
O país de Ahmadinejad – além de condenar à morte por apedrejamento uma mãe de família como Sakineh Ashtiani, por suposto adultério – persegue oposicionistas, jornalistas, dissidentes, homossexuais e qualquer um que se arrisque a discordar de seus líderes totalitários. Para o PT, até pouco tempo atrás, o que ocorria por lá era como briga entre “flamenguistas e vascaínos”, na memorável definição de Lula.
De acordo com o voto brasileiro na ONU na semana passada, “o Brasil acredita que todos os países, sem exceção, têm desafios a serem superados na área de direitos humanos e espera que os principais copatrocinadores dessa iniciativa [o envio de um relator especial ao Irã] apliquem os mesmos padrões a outros possíveis casos de não cooperação com o sistema de direitos humanos das Nações Unidas”. Espera-se que o Brasil pratique o que prediz.
É prematuro dizer que a atitude de agora contra o Irã seja um rompimento com a diplomacia posta em prática pelo governo anterior. “Por ora o que se vê é uma mudança nas ênfases e nos procedimentos tendo em vista a retomada de valores essenciais em regimes de liberdade. A volta, digamos assim, à normalidade”, escreveu Dora Kramer. Mas a chancelaria brasileira tem no voto proferido na ONU na semana passada uma boa carta de intenções para seguir adiante no bom caminho. Terá trabalho pela frente.
A lista de más amizades costuradas ao longo do governo de Lula é de fazer inveja à mítica Legião do Mal – os inimigos criados pela DC Comics para rivalizar com os super-heróis da Liga da Justiça. Para começar, basta lembrar que o líbio Muamar Kadafi foi chamado de “amigo e irmão” pelo presidente Lula, para quem tudo o que era atribuído ao ditador ora em desgraça não passava de “invenção da mídia”.
Mas resolver a questão líbia é só o mais óbvio. Dilma também precisa, por exemplo, cortar as ligações de amizade do Brasil com o presidente da Guiné Equatorial, Obiang Nguema Mbasogo, há 32 anos no poder. O presidente Lula visitou-o em julho do ano passado sem se importar com a alcunha dada ao país de Mbasogo: “Auschwitz da África”. Precisa dizer mais?
Outro ditador oficialmente nosso companheiro, o sudanês Omar Al-Bashir, foi condenado pela Corte Penal Internacional por crimes de guerra pela morte de 300 mil pessoas. O Brasil nunca aceitou recriminá-lo nos foros globais. Mas, em 2006, conseguiu que o país africano abrisse as portas para negócios da Petrobras por lá. Vale lembrar o mantra de Celso Amorim: “Business is business”.
A nova diplomacia brasileira ainda deve desculpas, também, aos dissidentes políticos de Cuba, comparados por Lula a traficantes do PCC. Já com relação à Venezuela, hoje atolada num total desabastecimento que obriga a população a economizar de água a energia, as artes de Hugo Chávez finalmente poderão receber um “chega” ou deixarem de ser consideradas “parte da democracia”. O Brasil mantém, ainda, ótimas relações com países não democráticos como Uzbequistão, Gabão, Camarões, entre outros, numa lista que, com o PT, só fez crescer.
O basta ao Irã foi apenas a primeira e tímida medida para encerrar uma grande lambança na nossa chancelaria que ainda está para ser redimida. Se realmente quer retomar o caminho do respeito e do compromisso com os direitos humanos – tradição secular do Itamaraty só abandonada pela diplomacia companheira de Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia – o Brasil ainda precisa fazer muito. Se assim optar por agir, merecerá justificados aplausos – aqui e lá fora.
A votação no Conselho de Direitos Humanos da ONU ocorreu na última quinta-feira. Foi a primeira vez que o Brasil deliberou contra o Irã desde 2003. Desde então, foram sete abstenções em votações sobre o país de Mahmoud Ahmadinejad no órgão da Assembleia Geral da ONU – uma delas em novembro do ano passado, quando foram propostas punições ao Irã por apedrejamentos e enforcamentos em praça pública e o Brasil calou-se.
O país de Ahmadinejad – além de condenar à morte por apedrejamento uma mãe de família como Sakineh Ashtiani, por suposto adultério – persegue oposicionistas, jornalistas, dissidentes, homossexuais e qualquer um que se arrisque a discordar de seus líderes totalitários. Para o PT, até pouco tempo atrás, o que ocorria por lá era como briga entre “flamenguistas e vascaínos”, na memorável definição de Lula.
De acordo com o voto brasileiro na ONU na semana passada, “o Brasil acredita que todos os países, sem exceção, têm desafios a serem superados na área de direitos humanos e espera que os principais copatrocinadores dessa iniciativa [o envio de um relator especial ao Irã] apliquem os mesmos padrões a outros possíveis casos de não cooperação com o sistema de direitos humanos das Nações Unidas”. Espera-se que o Brasil pratique o que prediz.
É prematuro dizer que a atitude de agora contra o Irã seja um rompimento com a diplomacia posta em prática pelo governo anterior. “Por ora o que se vê é uma mudança nas ênfases e nos procedimentos tendo em vista a retomada de valores essenciais em regimes de liberdade. A volta, digamos assim, à normalidade”, escreveu Dora Kramer. Mas a chancelaria brasileira tem no voto proferido na ONU na semana passada uma boa carta de intenções para seguir adiante no bom caminho. Terá trabalho pela frente.
A lista de más amizades costuradas ao longo do governo de Lula é de fazer inveja à mítica Legião do Mal – os inimigos criados pela DC Comics para rivalizar com os super-heróis da Liga da Justiça. Para começar, basta lembrar que o líbio Muamar Kadafi foi chamado de “amigo e irmão” pelo presidente Lula, para quem tudo o que era atribuído ao ditador ora em desgraça não passava de “invenção da mídia”.
Mas resolver a questão líbia é só o mais óbvio. Dilma também precisa, por exemplo, cortar as ligações de amizade do Brasil com o presidente da Guiné Equatorial, Obiang Nguema Mbasogo, há 32 anos no poder. O presidente Lula visitou-o em julho do ano passado sem se importar com a alcunha dada ao país de Mbasogo: “Auschwitz da África”. Precisa dizer mais?
Outro ditador oficialmente nosso companheiro, o sudanês Omar Al-Bashir, foi condenado pela Corte Penal Internacional por crimes de guerra pela morte de 300 mil pessoas. O Brasil nunca aceitou recriminá-lo nos foros globais. Mas, em 2006, conseguiu que o país africano abrisse as portas para negócios da Petrobras por lá. Vale lembrar o mantra de Celso Amorim: “Business is business”.
A nova diplomacia brasileira ainda deve desculpas, também, aos dissidentes políticos de Cuba, comparados por Lula a traficantes do PCC. Já com relação à Venezuela, hoje atolada num total desabastecimento que obriga a população a economizar de água a energia, as artes de Hugo Chávez finalmente poderão receber um “chega” ou deixarem de ser consideradas “parte da democracia”. O Brasil mantém, ainda, ótimas relações com países não democráticos como Uzbequistão, Gabão, Camarões, entre outros, numa lista que, com o PT, só fez crescer.
O basta ao Irã foi apenas a primeira e tímida medida para encerrar uma grande lambança na nossa chancelaria que ainda está para ser redimida. Se realmente quer retomar o caminho do respeito e do compromisso com os direitos humanos – tradição secular do Itamaraty só abandonada pela diplomacia companheira de Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia – o Brasil ainda precisa fazer muito. Se assim optar por agir, merecerá justificados aplausos – aqui e lá fora.
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segunda-feira, 5 de julho de 2010
Sempre em más companhias
O presidente Lula cumpre agenda hoje na Guiné Equatorial. Onde? Na Guiné Equatorial, localizada na África subsaariana. Nem queira saber o que se passa por lá: é um horror! O país é governado pelo senhor Teodoro Obiang Nguema Mbasogo. Quem? Um ditador que está no poder há 31 anos, ou seja, desde 1979. É mais um parceiro da galeria de párias entronizados pela diplomacia companheira do PT.
Para a ONG global Human Rights Watch, Mbasogo é um dos mais corruptos líderes do mundo, notável por violações aos direitos humanos. Por lá, o ditador é descrito como “deus”, a quem é permitido “matar sem ter de prestar contas a ninguém e sem ter de ir para o inferno”.
Mbasogo sucedeu o tio dele, Francisco, no comando da Guiné. Gente de estirpe. Titio governou por 11 anos, ao longo dos quais trucidou a minoria bubi, que representava 15% da população. A Guiné Equatorial foi então batizada de “Auschwitz da África”. Desde então, o sobrinho perpetua-se reprimindo a oposição e fraudando eleições: a última ele venceu com 94% dos votos.
Liberdade de expressão e democracia continuam sendo artigo raro por lá, mas Lula e seus diplomatas pragmáticos não estão nem aí para este detalhezinho. Em comunicado oficial emitido após o encontro de hoje, Lula e Mbasogo saudaram “princípios democráticos” e “respeito aos direitos humanos”. Onde será? Na lua?
Em sua passagem pela Guiné Equatorial, o presidente brasileiro entrou na onda do ditador: boquinha fechada e imprensa tratada no tacão. Na “entrevista coletiva” ocorrida nesta manhã, o cerimonial do governo local não permitiu perguntas dos jornalistas.
“Todas as cadeiras da sala onde o evento ocorreu, num espaçoso palácio de mármore e lustres de cristal, foram ocupadas por diplomatas, assessores e seguranças. Depois da coletiva de imprensa, sem perguntas nem respostas, Mbasogo ofereceu um requintado banquete para a comitiva de Lula. Os jornalistas brasileiros não aceitaram o almoço”, relata o enviado de O Estado de S.Paulo.
Enquanto Lula só posa para fotos e refestela-se ao lado do ditador, o chanceler Celso Amorim faz as vezes de porta-voz em defesa da relação amigável com a ditadura da Guiné. “Business are business”, disse ele, em justificativa à missão brasileira. Direitos humanos? Tô nem aí!
A Guiné Equatorial é mesmo um gigante nos negócios: a corrente de comércio com o Brasil somou US$ 411,2 milhões em 2008. Compare, leitor: a corrente de comércio brasileira naquele ano foi de US$ 281 bilhões. Ou seja, a Guiné de Mbasogo representou sensacional 0,0014% do total. As exportações para a África com um todo representam 5,14% do nosso comércio.
As razões para o interesse pela Guiné decorreriam de reservas de petróleo descobertas nos anos 90. Só o ditador tem se deleitado com as riquezas que jorram do subsolo. Hoje Mbasogo já tem uma fortuna pessoal de uns US$ 600 milhões. Para o povo de lá, nada: 60% da população de 600 milhões de pessoas do país é considerada pobre.
Por que será que Lula está sempre ao lado de tiranos deste quilate? Sua forte amizade e de seus aspones petistas com ditadores e autores de crimes contra a humanidade é recorrente e reincidente. De acordo com a prestigiosa publicação Foreign Policy, dos 23 ditadores mais perigosos do mundo, o governo brasileiro sob o PT mantém carinho especial por sete. Lembremos alguns.
Em maio deste ano, o presidente brasileiro protagonizou um vexame internacional ao tentar ajudar o iraniano Mahmoud Amamadinejad, líder de um estado totalitário suspeito (põe suspeito nisso...) de querer construir a bomba atômica. No Irã, não há liberdade de expressão e a classe média é constantemente acuada por uma sombria instituição denominada “guarda revolucionária” que mata sem dó.
Poucos meses antes, em fevereiro, Lula e amigos deram as caras em Cuba, reiterando apreço pela ditadura dos Castro.O presidente brasileiro não apenas condenou um dissidente que morreu em decorrência de uma greve de fome, como comparou os presos políticos da ilha a traficantes do PCC encarcerados nos presídios paulistas.
A notória condescendência que Lula possui com o aprendiz de ditador Hugo Chávez é até motivo de piada. Ações como fechamento de TV, prolongamentos indefinidos de mandato na Venezuela são aceitos pelos companheiros de cá como “parte da democracia”.
Um pouco mais difícil é entender por que o governo brasileiro não apoiou sanções contra um presidente condenado pela Corte Penal Internacional por crimes de guerra e genocídio: o sudanês Omar Al-Bashir. No poder há 21 anos após um golpe de estado, Bashir é responsável por um conflito que já deixou mais de 300 mil mortos em Darfur , de acordo com a ONU.
Outro velho companheiro do presidente é o ditador líbio Muamar Kadafi, responsável, entre outras barbaridades, pelo ataque terrorista a um avião americano que deixou 270 mortos nos anos 80. Kadafi recebeu a amigável visita de Lula em julho do ano passado.
Pouco antes, “nosso guia” havia recebido o presidente do Uzbequistão, Islam Karimov, acusado de práticas antidemocráticas e desrespeito aos direitos humanos. Parece até rotina macabra, mas Lula também já participou de um desfile em carro aberto com o facínora do Gabão, Omar Bongo, em 2004, e confraternizou-se com o ditador camaronês, Paul Byla, um ano depois.
A lista de más companhias é longa e só tende a crescer caso o PT mantenha-se no poder. Dona Dilma deve ser louquinha para ir à Coréia do Norte e colocar Kim Jong-il na galeria de amigos do PT. Xô!
Para a ONG global Human Rights Watch, Mbasogo é um dos mais corruptos líderes do mundo, notável por violações aos direitos humanos. Por lá, o ditador é descrito como “deus”, a quem é permitido “matar sem ter de prestar contas a ninguém e sem ter de ir para o inferno”.
Mbasogo sucedeu o tio dele, Francisco, no comando da Guiné. Gente de estirpe. Titio governou por 11 anos, ao longo dos quais trucidou a minoria bubi, que representava 15% da população. A Guiné Equatorial foi então batizada de “Auschwitz da África”. Desde então, o sobrinho perpetua-se reprimindo a oposição e fraudando eleições: a última ele venceu com 94% dos votos.
Liberdade de expressão e democracia continuam sendo artigo raro por lá, mas Lula e seus diplomatas pragmáticos não estão nem aí para este detalhezinho. Em comunicado oficial emitido após o encontro de hoje, Lula e Mbasogo saudaram “princípios democráticos” e “respeito aos direitos humanos”. Onde será? Na lua?
Em sua passagem pela Guiné Equatorial, o presidente brasileiro entrou na onda do ditador: boquinha fechada e imprensa tratada no tacão. Na “entrevista coletiva” ocorrida nesta manhã, o cerimonial do governo local não permitiu perguntas dos jornalistas.
“Todas as cadeiras da sala onde o evento ocorreu, num espaçoso palácio de mármore e lustres de cristal, foram ocupadas por diplomatas, assessores e seguranças. Depois da coletiva de imprensa, sem perguntas nem respostas, Mbasogo ofereceu um requintado banquete para a comitiva de Lula. Os jornalistas brasileiros não aceitaram o almoço”, relata o enviado de O Estado de S.Paulo.
Enquanto Lula só posa para fotos e refestela-se ao lado do ditador, o chanceler Celso Amorim faz as vezes de porta-voz em defesa da relação amigável com a ditadura da Guiné. “Business are business”, disse ele, em justificativa à missão brasileira. Direitos humanos? Tô nem aí!
A Guiné Equatorial é mesmo um gigante nos negócios: a corrente de comércio com o Brasil somou US$ 411,2 milhões em 2008. Compare, leitor: a corrente de comércio brasileira naquele ano foi de US$ 281 bilhões. Ou seja, a Guiné de Mbasogo representou sensacional 0,0014% do total. As exportações para a África com um todo representam 5,14% do nosso comércio.
As razões para o interesse pela Guiné decorreriam de reservas de petróleo descobertas nos anos 90. Só o ditador tem se deleitado com as riquezas que jorram do subsolo. Hoje Mbasogo já tem uma fortuna pessoal de uns US$ 600 milhões. Para o povo de lá, nada: 60% da população de 600 milhões de pessoas do país é considerada pobre.
Por que será que Lula está sempre ao lado de tiranos deste quilate? Sua forte amizade e de seus aspones petistas com ditadores e autores de crimes contra a humanidade é recorrente e reincidente. De acordo com a prestigiosa publicação Foreign Policy, dos 23 ditadores mais perigosos do mundo, o governo brasileiro sob o PT mantém carinho especial por sete. Lembremos alguns.
Em maio deste ano, o presidente brasileiro protagonizou um vexame internacional ao tentar ajudar o iraniano Mahmoud Amamadinejad, líder de um estado totalitário suspeito (põe suspeito nisso...) de querer construir a bomba atômica. No Irã, não há liberdade de expressão e a classe média é constantemente acuada por uma sombria instituição denominada “guarda revolucionária” que mata sem dó.
Poucos meses antes, em fevereiro, Lula e amigos deram as caras em Cuba, reiterando apreço pela ditadura dos Castro.O presidente brasileiro não apenas condenou um dissidente que morreu em decorrência de uma greve de fome, como comparou os presos políticos da ilha a traficantes do PCC encarcerados nos presídios paulistas.
A notória condescendência que Lula possui com o aprendiz de ditador Hugo Chávez é até motivo de piada. Ações como fechamento de TV, prolongamentos indefinidos de mandato na Venezuela são aceitos pelos companheiros de cá como “parte da democracia”.
Um pouco mais difícil é entender por que o governo brasileiro não apoiou sanções contra um presidente condenado pela Corte Penal Internacional por crimes de guerra e genocídio: o sudanês Omar Al-Bashir. No poder há 21 anos após um golpe de estado, Bashir é responsável por um conflito que já deixou mais de 300 mil mortos em Darfur , de acordo com a ONU.
Outro velho companheiro do presidente é o ditador líbio Muamar Kadafi, responsável, entre outras barbaridades, pelo ataque terrorista a um avião americano que deixou 270 mortos nos anos 80. Kadafi recebeu a amigável visita de Lula em julho do ano passado.
Pouco antes, “nosso guia” havia recebido o presidente do Uzbequistão, Islam Karimov, acusado de práticas antidemocráticas e desrespeito aos direitos humanos. Parece até rotina macabra, mas Lula também já participou de um desfile em carro aberto com o facínora do Gabão, Omar Bongo, em 2004, e confraternizou-se com o ditador camaronês, Paul Byla, um ano depois.
A lista de más companhias é longa e só tende a crescer caso o PT mantenha-se no poder. Dona Dilma deve ser louquinha para ir à Coréia do Norte e colocar Kim Jong-il na galeria de amigos do PT. Xô!
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Como preparar e servir um embaraço mundial
Coloque em um caldeirão grandes doses de megalomania e um montante de vaidade. Junte com um pouquinho de boa intenção e um pacote grande de ingenuidade. Adicione a necessidade de aplausos. Não se esqueça de incluir uma protoditadura de terceiro mundo e a retórica esquerdista a la anos 60. Deixe esquentar e misture bem. Tempere com bastante soberba. Pronto, já está servido ao mundo um perfeito embaraço internacional.
Conduzido por cozinheiros como o chanceler Celso Amorim e o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, e com o aval “secreto” do chef Barack Obama, o aprendiz Lula levou o Brasil a servir o maior constrangimento de sua história diplomática. Em busca da paz mundial, fechou um acordo com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad. Apresentado em meio a slogans para ser eterno, o trato não resistiu a um dia sequer de realpolitik.
Firmado na semana passada, no papel o tratado é gracioso. Foi até estimulado por Obama. Para evitar reprimendas da Organização das Nações Unidas, o Irã deveria trocar 1,2 tonelada de urânio de sua propriedade por 120 quilos do mesmo metal enriquecido na Turquia. Como é sabido, enriquecer urânio é necessário para uso médico, mas, no extremo, também pode levar à fabricação da bomba atômica. No final das contas, seria até emocionante a imagem de Lula e Ahmadinejad, de mãos dadas, comemorando o trato “histórico”. Mas a pantomima durou pouco.
No dia seguinte, o choque. Desconfiado do Irã, Obama tinha abandonado o barco, que começara a naufragar. A secretária de Estado americano, Hillary Clinton, até elogiou a atitude do Brasil, e coisa e tal. Mas anunciou sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU. Aconteceu o que o Brasil queria evitar. A esperança verde-amarelo era de que China e Rússia rechaçassem a proposta de Hillary, pois, em tese, eram “nossos amigos”. Pura ilusão.
Todos os grandes fecharam com os EUA. Até nossos hermanos mexicanos preferiram seguir a orientação do Norte. Foi como se o governo de Obama dissesse ao Brasil e à Turquia: “Pronto, meninos, agora saiam do tanque de areia para que nós, os grandes, possamos brincar”. Ficou a incômoda impressão de que Lula agiu como garoto de recados de Obama, que mudou de ideia mais tarde. Haja brejeirice.
Os próprios iranianos também surpreenderam os brasileiros. Também no dia posterior ao acordo, anunciaram que não iriam parar de enriquecer seu urânio – os estoques cresceram no período. Em meio à perplexidade, talvez tenha faltado avisar nossos diplomatas de que no Irã o presidente é quase um adereço. Quem tem poder de fato é o aiatolá Ali Khamenei, chefe da chamada Guarda Revolucionária, instituição que funciona independentemente do exército do país. E são os paramilitares chefiados pelo líder religioso que podem impedir ou não a construção da bomba.
Parece que as potências sabiam bem disso ao isolar o Brasil sem maiores explicações. Com o estrago já feito, a única coisa que nossos diplomatas podem fazer para diminuir o vexame é torcer para que o Conselho de Segurança da ONU reverta a decisão anunciada.
Mas o contratempo iraniano não significa que o Brasil deve colocar o rabo entre as pernas e deixar de lado a luta para ser um protagonista mundial. Ao contrário. O desenvolvimento brasileiro exige tal papel. Ocorre que, hoje, essa batalha está sendo travada por meio de lentes distorcidas, que incluem um contraditório antiamericanismo da boca para fora, sujeição a Obama nos bastidores e mão na cabeça de ditadores que soltem grunhidos contra os ianques.
Nessa toada meio biruta de aeroporto, a diplomacia tupiniquim tem sido omissa em relação aos avanços autoritários do coronel Hugo Chávez e não perde a oportunidade de abençoar a carcomida ditadura dos irmãos Castro. Enquanto isso, o Brasil só conseguiu assinar um tratado comercial em toda a gestão petista, com Israel. Ou seja, o blábláblá ainda se dá em detrimento de uma política externa realmente efetiva.
O Brasil faria melhor para conquistar o devido respeito se também apoiasse firmemente a democracia no mundo, sobretudo entre os vizinhos. Há tarefas urgentes a serem feitas por aqui, na América do Sul. O governo não dá a devida prioridade à escalada do protecionismo argentino; não liga tanto assim para conflitos envolvendo guerrilheiros na Colômbia e no Paraguai, e suas ramificações com a droga que assola o país; não vê relevância nas disputas marítimas entre Chile e Peru; e sai de fininho nas querelas comerciais com Argentina e Uruguai.
Se atuasse nesses pontos, quem sabe, a almejada cadeira definitiva no Conselho de Segurança da ONU seria mais merecida. Mas o PT deve achar que isso tudo é coisa pouca. Na ansiedade de servir um bom prato para os ricos, a quem gosta de criticar apenas para fazer tipo, o “Itamaraty do B” é desleixado com a fome de conciliação e democracia de alguns colegas mais pobres.
Fiquemos com a precisa definição de Andres Oppenheimer para este caso de megalomania: “O Brasil não pode ser um anão diplomático em sua própria região e tentar ser um gigante longe de casa”.
Conduzido por cozinheiros como o chanceler Celso Amorim e o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, e com o aval “secreto” do chef Barack Obama, o aprendiz Lula levou o Brasil a servir o maior constrangimento de sua história diplomática. Em busca da paz mundial, fechou um acordo com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad. Apresentado em meio a slogans para ser eterno, o trato não resistiu a um dia sequer de realpolitik.
Firmado na semana passada, no papel o tratado é gracioso. Foi até estimulado por Obama. Para evitar reprimendas da Organização das Nações Unidas, o Irã deveria trocar 1,2 tonelada de urânio de sua propriedade por 120 quilos do mesmo metal enriquecido na Turquia. Como é sabido, enriquecer urânio é necessário para uso médico, mas, no extremo, também pode levar à fabricação da bomba atômica. No final das contas, seria até emocionante a imagem de Lula e Ahmadinejad, de mãos dadas, comemorando o trato “histórico”. Mas a pantomima durou pouco.
No dia seguinte, o choque. Desconfiado do Irã, Obama tinha abandonado o barco, que começara a naufragar. A secretária de Estado americano, Hillary Clinton, até elogiou a atitude do Brasil, e coisa e tal. Mas anunciou sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU. Aconteceu o que o Brasil queria evitar. A esperança verde-amarelo era de que China e Rússia rechaçassem a proposta de Hillary, pois, em tese, eram “nossos amigos”. Pura ilusão.
Todos os grandes fecharam com os EUA. Até nossos hermanos mexicanos preferiram seguir a orientação do Norte. Foi como se o governo de Obama dissesse ao Brasil e à Turquia: “Pronto, meninos, agora saiam do tanque de areia para que nós, os grandes, possamos brincar”. Ficou a incômoda impressão de que Lula agiu como garoto de recados de Obama, que mudou de ideia mais tarde. Haja brejeirice.
Os próprios iranianos também surpreenderam os brasileiros. Também no dia posterior ao acordo, anunciaram que não iriam parar de enriquecer seu urânio – os estoques cresceram no período. Em meio à perplexidade, talvez tenha faltado avisar nossos diplomatas de que no Irã o presidente é quase um adereço. Quem tem poder de fato é o aiatolá Ali Khamenei, chefe da chamada Guarda Revolucionária, instituição que funciona independentemente do exército do país. E são os paramilitares chefiados pelo líder religioso que podem impedir ou não a construção da bomba.
Parece que as potências sabiam bem disso ao isolar o Brasil sem maiores explicações. Com o estrago já feito, a única coisa que nossos diplomatas podem fazer para diminuir o vexame é torcer para que o Conselho de Segurança da ONU reverta a decisão anunciada.
Mas o contratempo iraniano não significa que o Brasil deve colocar o rabo entre as pernas e deixar de lado a luta para ser um protagonista mundial. Ao contrário. O desenvolvimento brasileiro exige tal papel. Ocorre que, hoje, essa batalha está sendo travada por meio de lentes distorcidas, que incluem um contraditório antiamericanismo da boca para fora, sujeição a Obama nos bastidores e mão na cabeça de ditadores que soltem grunhidos contra os ianques.
Nessa toada meio biruta de aeroporto, a diplomacia tupiniquim tem sido omissa em relação aos avanços autoritários do coronel Hugo Chávez e não perde a oportunidade de abençoar a carcomida ditadura dos irmãos Castro. Enquanto isso, o Brasil só conseguiu assinar um tratado comercial em toda a gestão petista, com Israel. Ou seja, o blábláblá ainda se dá em detrimento de uma política externa realmente efetiva.
O Brasil faria melhor para conquistar o devido respeito se também apoiasse firmemente a democracia no mundo, sobretudo entre os vizinhos. Há tarefas urgentes a serem feitas por aqui, na América do Sul. O governo não dá a devida prioridade à escalada do protecionismo argentino; não liga tanto assim para conflitos envolvendo guerrilheiros na Colômbia e no Paraguai, e suas ramificações com a droga que assola o país; não vê relevância nas disputas marítimas entre Chile e Peru; e sai de fininho nas querelas comerciais com Argentina e Uruguai.
Se atuasse nesses pontos, quem sabe, a almejada cadeira definitiva no Conselho de Segurança da ONU seria mais merecida. Mas o PT deve achar que isso tudo é coisa pouca. Na ansiedade de servir um bom prato para os ricos, a quem gosta de criticar apenas para fazer tipo, o “Itamaraty do B” é desleixado com a fome de conciliação e democracia de alguns colegas mais pobres.
Fiquemos com a precisa definição de Andres Oppenheimer para este caso de megalomania: “O Brasil não pode ser um anão diplomático em sua própria região e tentar ser um gigante longe de casa”.
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