O governo passou as últimas semanas prometendo trazer a público medidas que dessem algum alento à combalida economia brasileira. As iniciativas foram anunciadas ontem e desnudam os estreitos limites da capacidade da presidente da República e de seu partido em oferecer saídas para a crise. Foi um vendaval de bobagens.
Num país altamente endividado e com inadimplência recorde, o governo petista teima em bater na tecla do aumento do crédito. É a cartilha da velha “nova matriz econômica”, na qual os petistas insistem desde 2008 e cujo maior feito até hoje foi ter produzido a maior recessão da história do país.
O governo acena com a injeção de R$ 83 bilhões na economia. Mesmo que o ambiente atual não fosse de horror a novos endividamentos, o valor já seria irrisório. Dá menos de 3% do estoque de crédito disponível no mercado. Um exemplo específico: para um país que exportou quase US$ 200 bilhões no ano passado, abriu-se agora uma linha de apoio de R$ 4 bilhões...
De novo, os bancos públicos foram chamados a atuar – até porque provavelmente os privados recusariam compartilhar uma ação em tão flagrante conflito com a realidade. Caberá ao BNDES, ao Banco do Brasil e à Caixa oferecer o dinheiro que quase ninguém quer tomar emprestado. De novo também, o grosso dos recursos virá da poupança dos trabalhadores: cerca de 60% do pacotinho anunciado ontem provém do FGTS.
Há consenso amplo, geral e quase irrestrito de que o problema da economia brasileira – também notável por praticar os maiores juros do mundo – não é de escassez de crédito, já que não há demanda entres consumidores ou empresários por novos financiamentos ou empréstimos, cujas concessões caíram 14% no ano passado. O problema é como produzir com mais produtividade, baixar custos e competir com o resto do mundo.
Em relação ao que de fato interessa, a presidente e seu governo não ofereceram nada ontem, diante do numeroso Conselhão. Sobre as reformas estruturais que o país precisa para retomar o crescimento, apenas breves menções, tão genéricas quanto descompromissadas. É o caso da previdenciária, da trabalhista e da tributária, para ficar apenas nas mais relevantes.
Dilma passou longe de expor alguma visão mais consistente sobre como estancar o rombo nas contas da Previdência. Conforme divulgou ontem o Banco Central, no ano passado o déficit nas aposentadorias saltou para quase R$ 86 bilhões, com alta de 51%, e deve atingir R$ 131 bilhões neste ano, segundo projeções atualizadas.
Um único aspecto positivo surgido ontem na reunião do Conselhão foi a disposição, muito incipiente, de limitar o crescimento do gasto público – ideia que já foi considerada “rudimentar” por Dilma Rousseff no passado. Mas, como toda iniciativa correta, foi deixada para depois, talvez para quando este governo já não existir mais.
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sábado, 30 de janeiro de 2016
terça-feira, 26 de junho de 2012
Pendurados no crediário
O aumento do crédito
e o estímulo ao consumo foram as alavancas usadas pelo governo brasileiro para
enfrentar a crise econômica desde 2008. Num primeiro momento, funcionou, mas,
repetida por anos a fio, a receita está conduzindo o país a um mau caminho. A desconfiança
internacional com o Brasil já começou.
Neste fim de semana,
o BIS, uma espécie de banco central dos bancos centrais do mundo, divulgou
documento em que alerta para o excesso do crescimento do crédito no Brasil e em
outros países emergentes, como China, Índia e Turquia.
Para a instituição,
sediada na Basiléia, o risco de descontrole é iminente. Os banqueiros enxergam “desaceleração
acentuada” na economia brasileira e, pior, a ameaça de que aqui se repita o
estouro de crédito verificado nos EUA há quatro anos e que agora também arrasta
a Europa para o buraco.
O BIS fez as contas e
concluiu que, nos últimos três anos, o crédito no país cresceu 13,52 pontos
percentuais acima do PIB brasileiro. Em outros momentos, uma arrancada desta
magnitude no volume de empréstimos, descolando-se do resto da economia, redundou
em ondas de quebradeira. Tomara que não seja o caso desta vez.
No entanto, o nível
de endividamento – medido pela proporção do PIB que as famílias destinam ao
serviço da dívida – já é tão alto no país quando em fins dos anos 1990. Sem
contar financiamentos feitos via crediários em lojas, que não são
contabilizados pelo Banco Central, o comprometimento mensal da renda das
famílias brasileiras atingiu 22%. Para se ter ideia, quando a crise das
hipotecas foi detonada nos EUA este percentual estava em 16% por lá.
Segundo números da Serasa
Experian, a inadimplência do consumidor pessoa física subiu 21% nos últimos
12 meses, na série sem ajuste sazonal. A provisão que os bancos têm de fazer
para créditos podres, isto é, aqueles em que o devedor está com o pagamento da dívida
atrasado há mais de 180 dias, aumentou 24% até abril.
A situação dos
endividados é tão preocupante que os credores estão oferecendo condições
especiais para tentar rever o dinheiro emprestado. Segundo O
Globo, está em marcha em bancos, financeiras, varejistas e operadoras
de cartão de crédito um movimento que só encontra precedentes na época do Plano
Collor, quando o Brasil mergulhou numa de suas mais severas crises.
Mesmo com condições
facilitadas, a inadimplência não cede. “Diferentemente da crise iniciada em
2008, em que a inadimplência foi causada por uma abrupta escassez de crédito na
economia e depois caiu rapidamente quando o fluxo financeiro retornou, o novo
patamar de calote foi causado pela expansão, por vezes desordenada, do crédito”,
avalia o jornal.
Muitos destes novos
devedores entraram no mercado de crédito recentemente, incentivados pelo
governo federal. Uma parte deste contingente simplesmente não tinha condições
de tomar empréstimos, e agora se vê com a corda no pescoço – o mercado de automóveis
é onde isso fica mais evidente, com as taxas de calote no nível mais alto desde
2000.
Os alertas quanto
aos riscos da escalada do crédito e da inadimplência vêm sendo feitos já há
algum tempo. Mas a reação do governo federal veio sempre na direção contrária:
botar mais lenha na fogueira do consumo, incentivar o endividamento das famílias
e postergar medidas realmente necessárias, como o estímulo ao investimento.
Constata-se, agora,
que a “marolinha” que arrebenta as praias do mundo desenvolvido há quase quatro
anos, também atinge o Brasil – ainda que, felizmente, em menor grau, por ora. Resta
ao governo Dilma Rousseff acordar para a gravidade do problema e deixar de
insistir numa estratégia esgotada. E torcer para que o pessoal que cuida da
dinheirama no mundo esteja equivocado.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Batalha inglória contra os juros
Os juros altos continuam a gerar efeitos deletérios sobre a economia brasileira. Muitas das chamadas medidas “macroprudenciais” que o Banco Central vem adotando decorrem da necessidade de enfrentar os desequilíbrios gerados pela política monetária sobre o ambiente econômico. Esta é uma cruzada que, por mais que tenha tentado, o ex-presidente José Alencar não conseguiu vencer.
Ontem foi anunciado aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Serão cobrados 6% sobre captações externas que tenham prazo de até 365 dias. Para frear o crédito, o governo tenta impor uma trava a operações muitas vezes especulativas alimentadas à base dos juros campeões mundiais pagos pelo Brasil.
O que vinha acontecendo é que instituições financeiras daqui buscavam dinheiro barato emprestado no exterior e o repassavam a tomadores no Brasil. Pagavam lá foram algo próximo a zero e cobravam aqui dentro qualquer coisa acima da taxa básica de 11,75% ao ano. Descontados outros custos associados, só com isso ganhavam em torno de 8,75%. Negócio da China.
O Brasil pratica uma taxa real de juros de cerca de 6% anuais. A média mundial, consideradas as 40 principais economias, é de 0,9% negativo, segundo ranking elaborado pela Cruzeiro do Sul Corretora. Toda uma cadeia de impactos negativos surge daí – e não é preciso ser empresário nem ex-vice-presidente para enxergá-la.
O dinheiro farto e barato captado no exterior vem colaborando para inundar o mercado brasileiro de crédito, no qual o juro é alto e perdulário. Segundo dados divulgados ontem pelo BC, o volume de empréstimos cresceu 21% nos últimos 12 meses terminados em fevereiro e já representa 46,5% do PIB. O governo tentou, mas não conseguiu frear o galope.
Por sua vez, o crédito abundante cevado a juro alto alimenta a chamada “inflação de demanda” que a presidente da República teima em não ver. Se sobra dinheiro e se as oportunidades de emprego parecem ilimitadas no país, as pessoas tendem a consumir como nunca. Os preços reagem naturalmente, ou seja, sobem. Só Dilma Rousseff não admite esta lógica tão cartesiana.
Para a presidente, o que há é apenas um movimento global, influenciado por uma alta generalizada dos preços de commodities em todo o mundo. Sua visão das coisas, compartilhada e influenciada pelo ministro da Fazenda, não tem ajudado no combate à inflação. Pelo contrário.
Desde que Dilma explicitou esta profissão de fé, em entrevista publicada pelo Valor Econômico no último dia 17, as previsões do mercado sobre o comportamento da inflação só pioraram. Se na semana da entrevista prognosticava-se um IPCA de 5,82% para este ano, agora já se antevê a taxa atingindo 6%, segundo o boletim Focus do BC. Até as estimativas para o comportamento dos preços em 2012 – durante muito tempo estáveis – subiram.
Inflação em alta bate, inexoravelmente, no bolso dos cidadãos. Aliás, já está batendo. Entre outubro e fevereiro, o rendimento real médio dos trabalhadores caiu 1,5%, a maior perda em dois anos, segundo a Folha de S.Paulo. São R$ 23,58 a menos disponíveis na carteira.
Por si só, o crédito abundante também é fonte suficiente de preocupação. As famílias brasileiras já comprometem 24% da sua renda com o pagamento de dívidas. Trata-se de percentual tão alto quanto perigoso. Nos EUA, tidos como um país em que a fome dos cidadãos por consumo é desmesurada, a média é de 18%.
José Alencar faleceu ontem coberto de justas homenagens. Entre seus muitos atributos destacados nos obituários publicados nos jornais de hoje está a coerência de opiniões, em que se destacava a crítica à política de juros altos praticada pelo governo do qual fez parte. A maior homenagem que poderia agora lhe caber é os que o sucederam no Palácio do Planalto atentarem para a necessidade de mudar o andamento deste jogo.
Ontem foi anunciado aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Serão cobrados 6% sobre captações externas que tenham prazo de até 365 dias. Para frear o crédito, o governo tenta impor uma trava a operações muitas vezes especulativas alimentadas à base dos juros campeões mundiais pagos pelo Brasil.
O que vinha acontecendo é que instituições financeiras daqui buscavam dinheiro barato emprestado no exterior e o repassavam a tomadores no Brasil. Pagavam lá foram algo próximo a zero e cobravam aqui dentro qualquer coisa acima da taxa básica de 11,75% ao ano. Descontados outros custos associados, só com isso ganhavam em torno de 8,75%. Negócio da China.
O Brasil pratica uma taxa real de juros de cerca de 6% anuais. A média mundial, consideradas as 40 principais economias, é de 0,9% negativo, segundo ranking elaborado pela Cruzeiro do Sul Corretora. Toda uma cadeia de impactos negativos surge daí – e não é preciso ser empresário nem ex-vice-presidente para enxergá-la.
O dinheiro farto e barato captado no exterior vem colaborando para inundar o mercado brasileiro de crédito, no qual o juro é alto e perdulário. Segundo dados divulgados ontem pelo BC, o volume de empréstimos cresceu 21% nos últimos 12 meses terminados em fevereiro e já representa 46,5% do PIB. O governo tentou, mas não conseguiu frear o galope.
Por sua vez, o crédito abundante cevado a juro alto alimenta a chamada “inflação de demanda” que a presidente da República teima em não ver. Se sobra dinheiro e se as oportunidades de emprego parecem ilimitadas no país, as pessoas tendem a consumir como nunca. Os preços reagem naturalmente, ou seja, sobem. Só Dilma Rousseff não admite esta lógica tão cartesiana.
Para a presidente, o que há é apenas um movimento global, influenciado por uma alta generalizada dos preços de commodities em todo o mundo. Sua visão das coisas, compartilhada e influenciada pelo ministro da Fazenda, não tem ajudado no combate à inflação. Pelo contrário.
Desde que Dilma explicitou esta profissão de fé, em entrevista publicada pelo Valor Econômico no último dia 17, as previsões do mercado sobre o comportamento da inflação só pioraram. Se na semana da entrevista prognosticava-se um IPCA de 5,82% para este ano, agora já se antevê a taxa atingindo 6%, segundo o boletim Focus do BC. Até as estimativas para o comportamento dos preços em 2012 – durante muito tempo estáveis – subiram.
Inflação em alta bate, inexoravelmente, no bolso dos cidadãos. Aliás, já está batendo. Entre outubro e fevereiro, o rendimento real médio dos trabalhadores caiu 1,5%, a maior perda em dois anos, segundo a Folha de S.Paulo. São R$ 23,58 a menos disponíveis na carteira.
Por si só, o crédito abundante também é fonte suficiente de preocupação. As famílias brasileiras já comprometem 24% da sua renda com o pagamento de dívidas. Trata-se de percentual tão alto quanto perigoso. Nos EUA, tidos como um país em que a fome dos cidadãos por consumo é desmesurada, a média é de 18%.
José Alencar faleceu ontem coberto de justas homenagens. Entre seus muitos atributos destacados nos obituários publicados nos jornais de hoje está a coerência de opiniões, em que se destacava a crítica à política de juros altos praticada pelo governo do qual fez parte. A maior homenagem que poderia agora lhe caber é os que o sucederam no Palácio do Planalto atentarem para a necessidade de mudar o andamento deste jogo.
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