Na última quinta-feira, o mundo amanheceu diferente. A decisão tomada pelos ingleses de abandonar a União Europeia terá efeitos importantes sobre a economia política global, sem poupar o Brasil. Desperdiçamos tempo demais descolados do resto do mundo e teremos dificuldades maiores agora para recuperar oportunidades perdidas.
O fato em si foi surpreendente: em plebiscito, 52% dos ingleses votaram pela saída do Reino Unido do bloco ao qual estavam atados desde 1973. A economia inglesa é a segunda mais relevante da União Europeia, por sua vez o segundo principal destino das exportações brasileiras, com cerca de 18% do total, pouco abaixo da China.
As consequências da decisão histórica, contudo, ainda são de difícil mensuração. O primeiro efeito visível é que a onda de rejeição a estrangeiros e a aversão a movimentos globalizantes podem tornar-se ainda mais fortes e resvalar em outros países. É possível que França, Holanda e Itália, entre outros, também submetem a sua continuidade na UE a votações populares. São as dores da democracia.
A ressaca também pode bater do outro lado do Atlântico e impulsionar a campanha de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. A mesma retórica xenófoba ancora a plataforma do candidato do Partido Republicano à Casa Branca. Um mundo com portas mais cerradas não pode ser bom para ninguém, tampouco para o Brasil.
Os interesses brasileiros tendem a ser diretamente afetados pelo Brexit, alcunha pela qual a decisão dos ingleses pela saída da UE ficou conhecida. Há anos a nossa diplomacia está sentada em cima de um acordo comercial com o bloco europeu, sem sair do lugar. A oportunidade pode estar agora bastante comprometida.
Na última década, a política externa brasileira baseou-se em muita ideologia e pouca visão de longo prazo. Em favor de uma tão difusa quanto ilusória identidade cultural, demos as costas a nações mais ricas e voltamo-nos a países cujos governos tinham viés político alinhado ao berço histórico do Partido dos Trabalhadores, sem deixar de lado ditaduras tão corruptas quanto endinheiradas na África.
A consequência desta política externa foi o isolamento do Brasil perante o polo dinâmico da economia mundial. Nossas empresas perderam seguidas chances de se conectar com cadeias globais de produção, com efeitos que hoje qualquer um percebe: nossa economia está embicada na mais severa recessão de sua história e o setor mais dinâmico, a indústria, amarga o pior retrocesso de décadas.
O que o Brexit nos ensina é o custo que decisões equivocadas podem ter para o futuro das nações. No caso brasileiro, desperdiçamos um dos maiores momentos de bonança da história e não nos preparamos para um mundo de animosidades – políticas, econômicas e culturais – crescentes. Será bem mais difícil entrar agora onde só há portas se fechando.
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terça-feira, 28 de junho de 2016
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