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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ministros e obras fantasmas

Ministérios deveriam existir para bem servir a população que paga os impostos que os sustentam. Na forma petista de governar, porém, as 38 pastas existentes e seus ocupantes-mor se prestam a tudo menos produzir bem-estar para o público. Para ficar apenas em dois exemplos, o que justifica a manutenção de gente como Carlos Lupi e Mário Negromonte na equipe ministerial?

Há um mês sob denúncias pesadas de corrupção e irregularidades, o ministro do Trabalho transformou-se num ectoplasma vagando pela Esplanada. Sua pasta está envolta em suspeita de favorecimentos, desvios de verbas públicas e irregularidades – muitas delas geradas pela disputa de facções sindicais pelo polpudo imposto sindical.

Mas Lupi não é apenas um fantasma retórico. Soube-se pela edição da Folha de S.Paulo de sábado que também foi, por seis anos, funcionário com carteira assinada da Câmara dos Deputados sem nunca dar expediente. E era muito bem remunerado: nesse período, ele embolsou R$ 864 mil, em valores de hoje.

O agora ministro esteve lotado na Liderança do PDT na Câmara. Lá, entre 2000 e 2006, recebia, como assessor técnico, o maior salário pago pela instituição: R$ 12 mil. Mas desenvolvia apenas atividades partidárias. Numa parte do tempo, 2004 a 2006, Lupi também acumulou a função de funcionário fantasma com a presidência do PDT.

“Os funcionários do partido em Brasília, que pediram para não ser identificados, confirmaram que Lupi não aparecia no gabinete da Câmara e se dedicava exclusivamente a tarefas partidárias”, informou o jornal.

Se o que estivesse em jogo fosse a lisura e o compromisso com a coisa pública, Dilma Rousseff já teria razões de sobra para tirar Lupi da sua equipe. Mas ela prefere alimentar uma guerrinha miúda com a imprensa – a quem acusa de estar tentando emparedar seu governo, que já perdeu cinco ministros por envolvimento em corrupção – a limpar a área.

A presidente também tem motivos de sobra para defenestrar outro integrante do seu time. Mário Negromonte faz tudo no Ministério das Cidades, principalmente mágicas em documentos oficiais. Só não faz o que se espera de sua pasta, ou seja, melhorar as condições de saneamento, mobilidade urbana, habitação etc do país.

Na semana passada, O Estado de S.Paulo mostrou que uma fraude num documento elevou em R$ 700 milhões os custos de uma obra de mobilidade urbana em Cuiabá. Trocou-se um corredor de ônibus orçado em R$ 489 milhões por um veículo leve sobre trilhos de R$ 1,2 bilhão. A mudança foi feita contrariando pareceres e a boa norma técnica.

O que aconteceu na obra mato-grossense é apenas uma amostra do que está ocorrendo em geral com os empreendimentos associados à realização da Copa de 2014. Estádios e intervenções urbanas em outras cinco capitais já ficaram pelo menos R$ 2 bilhões mais caras, mostra hoje o Estadão.

Além de Cuiabá, houve aumento de preço nas obras de mobilidade urbana em outras cinco cidades: Belo Horizonte, Manaus, Porto Alegre, Recife e Rio de Janeiro. Os aumentos variam de 20% a 164%. Elas têm lá também seu componente fantasmagórico: orça-se o que viu e paga-se (muito mais) pelo que não se vê.

O tamanho do descalabro com o dinheiro público aplicado com vias à Copa pode ser aferido em reportagem que o Valor Econômico publica hoje: “Arenas da Copa vão demorar até 198 anos para pagar custo”.

As arenas esportivas que estão sendo construídas para a Copa do Mundo nas 12 cidades-sede demorarão de 11 a 198 anos para se pagar, levando em conta o nível atual de rentabilidade dos estádios nos locais onde estão sendo erguidas. Também custarão mais que as estruturas construídas para as últimas duas edições da Copa, na Alemanha e na África do Sul.

“As 12 arenas, somadas, estão orçadas em R$ 6,71 bilhões. O gasto é 32% maior do que foi dispendido pela África do Sul na última edição do torneio, e 46% maior do que o gasto pela Alemanha em 2006. O montante, no entanto, pode aumentar. Estimativas do próprio governo apontam que os gastos devem chegar a R$ 7 bilhões”, informa o jornal.

Irregularidades, como aquelas em que Carlos Lupi está metido, ou excrescências como as que estão sendo descobertas no ministério de Mário Negromonte deveriam ser ceifadas de imediato. Mas combater o mal não parece ser prioridade para o governo Dilma, que prefere esperar uma “reforma ministerial” que, pelo jeito, só servirá para manter tudo como está.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O ministério dos cupins

Aldo Rebelo assume hoje um ministério carcomido pela corrupção. A pasta que deveria cuidar do esporte no país que sediará Copa do Mundo e Jogos Olímpicos num espaço de cinco anos é hoje muito mais frequente em páginas policiais. O mais grave é que, mesmo ciente disso, a presidente Dilma Rousseff manteve o Esporte nas mãos do PCdoB, o vilão da história.

Os casos envolvendo o partido de Rebelo em irregularidades se avolumam. Mesmo assim, os comunistas preservaram o ministério dentro de sua “cota de poder”, como parte do sistema de partilha do butim que orienta a política na era petista. A Agência Nacional do Petróleo e a Embratur completam o pacote, também envolvidas em mutretas.

As revelações que resultaram na queda de Orlando Silva do cargo de ministro na semana passada sugerem que os principais drenos estão nos repasses a entidades sem fins lucrativos, muitas delas geridas por gente do próprio PCdoB e que serão agora alvo de uma “devassa” determinada ontem pela presidente da República.

Mas, se confia mesmo na administração dos camaradas, por que Dilma ordenou um “pente fino” nos convênios firmados com organizações não governamentais (ONG) e suspendeu todo o repasse de verba para elas? Tivesse maior controle sobre seu governo, a presidente não teria razão alguma para manter o Esporte com os comunistas, que pintam e bordam por lá há nove anos, desde a época do cada vez mais enlameado Agnelo Queiroz.

É provável que a devassa nos convênios determinada ontem só identifique as irregularidades mais gordas. O sistema de controle de repasses existente é precário, como já observou o Tribunal de Contas da União em diferentes ocasiões. Em dezembro de 2010, havia 42,9 mil prestações de contas de convênios sem análise, informa O Globo.

Na média, o governo demora seis anos e dez meses para analisar a prestação apresentada pelas entidades beneficiadas com repasse de verbas. Os bancos de dados oficiais são inconsistentes e o número de funcionários para acompanhar os convênios, insuficiente. Ou seja, se e quando encontra alguma coisa Inês já é morta.

Desde 2005, as entidades privadas sem fins lucrativos receberam R$ 19,2 bilhões da União para executar atividades que cabem ao Estado. Só neste ano, foram mais de R$ 2 bilhões, a maior parte por meio de contratações feitas sem licitação, mostra O Estado de S.Paulo.

Os camaradas comunistas dizem que não gostam da política de repasses a ONG, consideradas por eles uma indesejável criação “neoliberal”. Mas parecem adorar o dinheiro que a elas acorre. A maioria das organizações beneficiadas no Ministério do Esporte é ligada ao partido e a maioria das que se envolveram em falcatruas também.

“Cerca de 73% do dinheiro comprovadamente desviado ou mal aplicado por organizações não governamentais no Programa Segundo Tempo irrigaram entidades ligadas ao PCdoB”, revelou O Globo ontem. De cada R$ 2 liberados para as 20 ONG que mais receberam verba desde 2006, R$ 1 foi para o partido.

Ocupação e aparelhamento estão, aliás, no sangue do PCdoB. O artigo 59 do seu estatuto é claro: “A atuação dos(as) comunistas no exercício de cargos públicos, eletivos ou comissionados indicados pelo partido, ou em funções de confiança do Legislativo ou do Executivo, em todas as instâncias de governo de que o partido participe, constitui importante frente de trabalho e está a serviço do projeto político partidário, segundo norma própria do Comitê Central”.

O PCdoB leva isso a sério no Ministério do Esporte, onde seus afilhados políticos – muitos deles em seus primeiros empregos, como foi o caso de Orlando Silva – entopem os cargos comissionados. Segundo levantamento feito pela Folha de S.Paulo, do total de cargos de confiança da pasta 66% são ocupados por funcionários não concursados, ferindo o que determina o decreto nº 5.497, de 2005.

“Nos cargos de nível de gerencial, 75% têm de ficar nas mãos de servidores de carreira. No Esporte, porém, eles são apenas 32%. Para postos de assessoria, a regra é que 50% devem ser de servidores concursados. No Esporte, são 37%”, sintetiza o jornal. Uma boa parte é de egressos da UNE, outro dos braços paraestatais comunistas.

É salutar que a liberação do dinheiro do contribuinte seja examinada com lupa. O ruim é que a providência ordenada ontem pela presidente Dilma já encontrará os portões arrombados. Mais que isso, funcionará mais como uma pantomima para apaziguar a cobrança por maior controle e fiscalização. Na calada, os cupins continuarão carcomendo tudo o que encontrarem pela frente, sob as bênçãos do partido.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Pentacampeonato da corrupção

É inadmissível que o PCdoB continue no Ministério do Esporte. Neste caso, mais do que em qualquer outro escândalo da gestão petista, há ligações estreitíssimas entre o partido que comandava a pasta e a estrutura de corrupção montada para alimentá-lo. Com os comunistas mantidos no comando, tudo continuará onde sempre esteve nestes últimos nove anos.

Orlando Silva tornou-se ontem o quinto ministro do governo Dilma Rousseff demitido sob suspeita de envolvimento em desvio de dinheiro público. Outros dois trocaram de posto e um saiu por incompatibilidade de gênio. Nunca antes um presidente eleito tivera de trocar tanta gente em tão pouco tempo. “Fosse o regime parlamentarista, o gabinete inteiro já teria caído – talvez até ela própria, se primeira-ministra”, vaticina Eliane Cantanhêde na Folha de S.Paulo.

Tamanha instabilidade é sinal mais que evidente de que a lógica que presidiu a montagem deste governo está corrompida. Emanada de Lula, é uma lógica que pressupõe a troca de apoio parlamentar por nacos inteiros de poder, com nenhum compromisso visível com programas ou projetos em benefício do público. O que há é a predação, apenas. O velho e tosco toma lá, dá cá.

A presidente da República indica que pode até discordar no acessório, mas não bule com o essencial: as teias tecidas entre a militância comunista, as ONG instrumentalizadas para drenar recursos do contribuinte e o aparelhamento da pasta continuarão lá, intocadas. Manter o Esporte com o PCdoB é reforçar este modus operandi, e é isso o que Dilma fará.

Pelo noticiário de hoje, o PCdoB está firme no posto e a questão agora é apenas escolher o nome comunista que irá preencher o posto deixado vago por Silva. Interinamente, fica o atual secretário-executivo, Waldemar Souza. Que já começa mal: segundo O Estado de S.Paulo, ele também esteve envolvido em liberação de verba pública para ONG e entidades suspeitas de irregularidades.

A versão mais forte neste momento em Brasília é de que a escolha de Dilma recairá sobre o comunista Aldo Rebelo, deputado por São Paulo. Será uma opção que não deixará de trair certa capitulação do governo brasileiro à Fifa e aos interesses do mundo da bola.

Rebelo foi ministro da coordenação política do governo Lula. Também presidiu a CPI da CBF-Nike, ocasião em que começou rugindo contra a gestão de Ricardo Teixeira e terminou sem sequer aprovar um relatório final, como lembra o Valor Econômico. Hoje Rebelo e Teixeira são tidos como excelentes amigos.

Não dá para acreditar que Rebelo ou qualquer outro nome do PCdoB vá faxinar o Esporte. Não se enxerga pendor fratricida no grupo fechado em torno da manutenção do poder junto com os petistas. Até as ligações históricas do deputado com a UNE, da qual foi presidente, tornam ainda menos crível qualquer limpeza na pasta. Nada deve mudar e a turma terá passe livre para continuar aprontando.

“Para mudar este quadro, a atitude do governante, de quem nomeia, é fundamental. Ou ele compõe um quadro de auxiliares a partir de critérios de liderança, competência e moralidade ou ele continua sendo refém de interesses partidários e de grupos, nem sempre legítimos”, comenta o professor Aldo Fornazieri na Folha.

Mas o que menos se discute na substituição de Orlando Silva é quem poderia fazer melhor em prol do esporte brasileiro ou quem poderia agir em favor da melhor preparação do país para a Copa do Mundo de 2014 e para os Jogos Olímpicos de 2016. Isso, na agenda do poder petista, é detalhe menor.

Pelo menos enquanto o dinheiro público continuar sendo usado para custear a farra. E o dinheiro do trabalhador servir para bancar os custos da incúria governamental. Como acontecerá a partir da aprovação da medida provisória que permite aplicar recursos do FGTS em obras voltadas aos dois megaeventos esportivos, ocorrida ontem na Câmara.

Uma Copa que, pelo discurso oficial, não teria recursos públicos agora tem dinheiro do trabalhador até para financiar hotéis. Criado em 2007, tal fundo alimentado com recursos do FGTS tem se mostrado um verdadeiro saco sem fundo. Em 2010, dez das 15 companhias selecionadas para receber os investimentos tiveram prejuízo e a rentabilidade do FI-FGTS ficou abaixo da prometida pela Caixa, ressalta O Estado de S.Paulo em editorial.

A troca no Esporte não parece minimamente mirar mudar a atual situação de descontrole na aplicação dos recursos públicos e a má gestão dos preparativos do país com vistas aos eventos que estão por vir. Num ambiente assim, esperar pela eclosão da próxima crise é questão de tempo. Logo, logo ela acontece, porque há falcatruas de sobra acontecendo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Aos 45 minutos do segundo tempo

Orlando Silva não deve resistir muito mais no Ministério do Esporte. Sua permanência no cargo está “entrando nos acréscimos”, como se diz nas partidas de futebol. Mais do que a sua demissão, o que importa agora é o que o governo fará para dar cabo da rede de falcatruas que foi tecida na pasta em conluio com partidos da base aliada e ONG instrumentalizadas para drenar dinheiro público.

O Planalto está louco para pôr ponto final em seu quinto escândalo de corrupção em menos de dez meses de governo. Em todos os casos, agiu a reboque das revelações da imprensa. Desta vez, além do noticiário, também ficou refém do Supremo Tribunal Federal (STF), que ontem abriu inquérito para investigar o ministro do Esporte e as denúncias de desvios de dinheiro de programas sociais da pasta, como o Segundo Tempo.

A abertura é resultado de representações encaminhadas pela oposição à Procuradoria-Geral da República. Silva encontra-se agora na incômoda condição de primeiro ministro do governo a ser investigado pelo STF. Junto também será analisado processo em tramitação no Superior Tribunal de Justiça no qual o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, é investigado por desvios quando ocupou o cargo de ministro do Esporte, entre 2003 e 2006.

Ao demorar a demitir Orlando Silva, Dilma Rousseff perdeu por completo a oportunidade de agir por moto próprio. Fica nítido que, desta vez, a presidente tentou tratar o caso de maneira diferente dos anteriores, quando o afastamento do ministro corrupto e de alguns de seus auxiliares foi definido rapidamente. Agora, ela, também escorada em Lula, parece ter tentado travar uma queda de braço com os fatos, mas estes falaram muito mais alto.

Não estamos falando de episódios isolados, mutretas praticadas por subalternos de quinta categoria e baixo escalão. Trata-se, na realidade, de grosso desvio de dinheiro do contribuinte, articulado pela alta cúpula do ministério responsável por cuidar do esporte num país que sediará uma Copa do Mundo de futebol e uma Olimpíada nos próximos cinco anos.

Trata-se, mais que isso, de esquema operado pelos dois ministros que comandaram o Esporte desde o primeiro dia do governo do PT. Ou seja, são quase nove anos de ataque ao erário, de desrespeito ao dinheiro do contribuinte, de achincalhe ao interesse público. Orlando Silva está umbilicalmente ligado a Agnelo Queiroz, hoje no PT.

“Há fortes indícios de irregularidade na execução do Programa Segundo Tempo do Ministério do Esporte, cujos recursos seriam desviados em proveito de integrantes do PCdoB, entre os quais, supostamente, o ministro Orlando Silva e o governador Agnelo Queiroz”, escreveu o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, no pedido enviado ao STF.

Uma das imagens mais fortes destas irregularidades é descrita hoje em detalhes pelo motorista Célio Soares em entrevista a O Globo. Nela, ecoando o que contou à revista Veja há duas semanas, ele narra como entregou um pacote de dinheiro destinado ao ministro Orlando Silva. A cena relatada chega a ser grotesca.

“Levei um R$ 1 milhão em notas de R$ 50, R$ 100. Parei do lado, desci, abri o porta-malas do carro, peguei o dinheiro. O motorista abriu o porta-malas do carro oficial. Fui eu quem botou com a ajuda do motorista”, afirma ele, que também falará hoje à Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara junto com o policial militar João Dias Ferreira. O motorista diz ter sido ameaçado duas vezes pelas revelações que já fez.

Em 2006, o mensalão foi descrito pela mesma Procuradoria-Geral da República que ora investiga Orlando Silva como uma “sofisticada organização criminosa” envolvida em formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva. Diante das muitas revelações sobre maracutaias no governo petista conhecidas nos últimos meses, é de se concluir que esta organização criminosa continua instalada e funcionando a pleno vapor, com ramificações por toda a Esplanada.

É preciso não perder de vista o mal real que esta “quadrilha” causa aos brasileiros. O dinheiro que é surrupiado para financiar a perpetuação do projeto de poder petista é o mesmo que falta, por exemplo, para dar tratamento médico à altura a doentes de câncer – algo que está longe de ser realidade no país, como mostra hoje O Globo.

Auditoria do TCU revela com cores fortes a penúria a que são submetidos pacientes da doença – a segunda que mais mata no Brasil – que dependem de atendimento do SUS. Menos de metade dos que precisam de uma cirurgia oncológica conseguem passar pelo procedimento; a espera por uma sessão de radioterapia supera 90 dias; a primeira quimioterapia é feita em 76 dias e a primeira radioterapia, em 113 dias. “O quadro resulta de uma cadeia de deficiências, fruto do baixo investimento público”, sintetiza o jornal.

A sobrevida de Orlando Silva no ministério caminha para seus estertores e até seus pares já dão a queda como certa. Mas o pior é que, em vez de buscar uma mudança que colabore para desinfetar o Ministério do Esporte, todas as alternativas até agora aventadas obedecem a conveniências eleitorais do PT. Nomes como os de Aldo Rebelo, Manuela D’Ávila e Flávio Dino são considerados porque limpariam a área em disputas por cargos que interessam aos petistas, como a presidência da Câmara e prefeituras de capitais.

A situação de Silva revela-se insustentável. Se Antonio Palocci teve rejeitada a denúncia pelo procurador-geral da República e, mesmo assim, teve de deixar o cargo, a condição do ministro do Esporte é muito pior, já que ele se tornou o primeiro ministro do governo submetido a investigação do Supremo Tribunal Federal. Seu assento, definitivamente, não pode ser uma cadeira de ministro de Estado. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O padrão do padrinho Lula

Orlando Silva está próximo de ser o quinto ministro da atual gestão a cair por envolvimento em corrupção. Mas o episódio das irregularidades no Ministério do Esporte marca uma importante mudança na atitude da presidente Dilma Rousseff: ela passou a adotar o padrão Lula de conduta, de imensa conivência com as falcatruas.

Nas crises anteriores, a presidente agiu a reboque da imprensa, mas agiu. Fez a sua faxina de mentirinha, afastando os quatro ministros envolvidos em escândalos e alguns de seus subordinados. Agora, nem isso: mesmo com a avalanche de denúncias de corrupção, Silva continua onde estava e nenhum de seus auxiliares foi perturbado. Pelo menos por ora.

Noticia-se que a interferência de Lula tem sido fundamental para manter o ministro do PCdoB no cargo. A onipresença do padrinho no governo da pupila soa incômoda até para observadores mais isentos. Ontem, o ex e a atual presidente viajaram juntos a Manaus e despacharam durante as mais de 2h40 do voo. Nunca se viu tamanha interação.

“Diferentemente do habitual, a presidente dedicou todo o seu tempo e sua atenção a Lula, e não conversou com nenhum dos ministros convidados a acompanhá-la. Mesmo depois de o avião aterrissar, a comitiva que a aguardava no aeroporto, incluindo o governador Omar Aziz, ainda teve que esperar cerca de 20 minutos, até que o encontro reservado terminasse”, relata O Estado de S.Paulo.

Mas mesmo Lula parece estar se dando conta de que apostou no cavalo errado. Ele jogou suas fichas na hipótese de uma virada de semana sem novas revelações, o que colaboraria para esfriar o assunto. Mas a enxurrada de irregularidades não cessou e Lula agora ensaia tirar o time de campo e o apoio que deu a Orlando Silva e ao PCdoB.

“Não tenho mais convicção de nada. Esses caras não me falam a verdade”, teria dito o ex-presidente a Dilma, segundo o Estadão. “Ele [Silva] não resistiria a mais uma denúncia nova”, teria retrucado a presidente, de acordo com relato d’O Globo. Não há “casca dura” que resista a tanta mutreta...

Se a preocupação é com novas irregularidades, tem coisa grossa nos jornais de hoje. A começar pela revelação da Folha de S.Paulo de que Orlando Silva envolveu-se diretamente em uma medida que beneficiou a ONG do policial militar João Dias Ferreira, o mesmo que ele agora chama de “bandido”.

Em julho de 2006, o ministro assinou despacho que reduziu o valor que a ONG precisava dar como contrapartida para receber verbas do governo. “A medida foi autorizada mesmo depois de auditorias internas terem apontado os primeiros indícios de fraude nos negócios do policial com o ministério”, informa o jornal.

A Associação João Dias teve de se comprometer com uma contrapartida de apenas 6% do valor do convênio, quando o manual de conduta adotado pelo ministério para casos similares exigia entre 10% e 20%. A decisão partiu do próprio ministro, embora ele argumente agora que seguiu instruções técnicas – que inexistem nos documentos do processo.

O policial vem sendo autor das principais denúncias contra o ministro, mas promete não ficar sozinho. Ontem, ele anunciou que um grupo de 20 ONG se organiza para vir a público revelar como foram usadas pelo Ministério do Esporte para desviar dinheiro para campanhas do PCdoB e de aliados, como a da reeleição de Lula em 2006. Pelo menos 20% da verba de convênios firmados com 300 entidades teria sido desviada, coisa de pelo menos R$ 40 milhões.

O dinheiro que escorre pelos ralos da corrupção é o mesmo que falta para tocar obras importantes como o Centro de Treinamento de Esportes de Alto Rendimento de Campos do Jordão, como mostra O Estado de S.Paulo em manchete. Prometida para 2007, a obra serve hoje de pasto para cavalos e cabras, embora já tenha consumido R$ 1,37 milhão de verbas públicas. Praticamente paralisada há quatro anos, está longe de ficar pronta.

Até agora, Orlando Silva resistiu no cargo pelas “piores razões”, como aponta Dora Kramer no Estadão: “Pelos defeitos de um sistema torto e viciado. De uma sistemática de alianças que captura as melhores intenções que porventura tenha um governante para torná-lo refém (na hipótese mais generosa) de uma lógica, em si, corrupta”.

Mas tudo indica que o tempo dele também chegou. O Valor Econômico afirma hoje que a presidente “abriu negociações com o PCdoB para a substituição de Orlando Silva”. “Emissários de Dilma já tratam do assunto com integrantes da cúpula do partido, apesar de em público a legenda ainda manter o apoio político ao ministro”.

Motivos para trocar o ministro, a presidente da República tem de sobra. Mas o que se espera é que a possível saída de Silva não sirva apenas para permitir que tudo mude para tudo continuar como está, com a máquina pública sendo tratada como um imenso latifúndio de porteira fechada pelos partidos que, junto e sob as ordens do PT, desgovernam o país.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ainda debaixo do tapete

A semana passada terminou com Orlando Silva sendo mantido no cargo pela presidente da República. Esta começa com mais uma saraivada de denúncias de irregularidades no Ministério do Esporte e nos programas comandados pelo PCdoB. O que mais Dilma Rousseff ainda espera para demiti-lo?

Não é ouvindo Lula que ela definirá o melhor caminho a seguir. Mas é justamente isso o que Dilma fará hoje, em evento previsto para acontecer no Amazonas. Foi Lula quem mais incentivou Silva a resistir às denúncias e a brigar para manter-se no cargo, vestindo a “casca dura” que o ex-presidente sugere a quem quer permanecer na vida pública.

Dilma dobrou-se às investidas de Lula. Argumentou que, por estarmos num “estado de direito”, é preciso partir da “presunção da inocência” dos acusados. Mas como é possível argumentar inocência quando se toma conhecimento do “esporteduto” – como apelidou O Estado de S.Paulo – que os comunistas instalaram na pasta de Silva?

O esquema foi montado sob medida para acomodar o mais antigo aliado do PT, já que o PCdoB é o único partido que, desde a eleição de 1989, atua como linha auxiliar do lulismo. Funciona assim: o partido tem no ministério o controle das verbas federais; em governos estaduais e municipais, também comanda as áreas de esporte; seus filiados montam entidades que recebem os recursos públicos, mas não executam as ações prometidas; o dinheiro do contribuinte alimenta o caixa das campanhas eleitorais, tanto de comunistas como do PT.

“A ocupação do nicho esportivo pelo PCdoB teve início no governo de Marta Suplicy na Prefeitura de São Paulo. (...) A partir de 2003, quando o partido recebeu o Ministério do Esporte, replicou a experiência em outros locais. A cúpula da legenda chegou a estimar mais de 200 secretarias sob seu controle em prefeituras e governos estaduais”, relembra o jornal.

A cada dia surgem novos casos de irregularidades, que nada mais são do que filhotes do esquema montado de cabo a rabo no Esporte. Tem pastor que foi instado a pagar propina de 10% para receber as verbas, como mostrou a Folha de S.Paulo no sábado. Tem dinheiro de cheques usados para desviar dinheiro para empresas fantasmas do programa Pintando a Cidadania, como informa hoje o Estadão. É um festival de mutretas.

O resultado disso tudo é um desvio monumental de dinheiro do contribuinte para alimentar as engrenagens da corrupção. Segundo a revista Veja, são R$ 85 bilhões todos os anos. Na última década, a Controladoria-Geral da União fez auditorias em 15 mil contratos da União com estados, municípios e ONG, e encontrou irregularidades em 80% deles.

O Globo mostrou em sua edição de domingo que quase nada do que é desviado volta para os cofres públicos. De cada R$ 100 que escorreram pelos ralos da corrupção desde 2003, a União conseguiu reaver somente R$ 2,34. “Um desempenho medíocre, fruto da morosidade dos tribunais e da omissão dos ministérios na análise das prestações de contas de entidades, prefeituras e estados conveniados”.

Um dado positivo é que a mais nova onda de irregularidades envolvendo o mau uso de dinheiro público pelo governo do PT deve levar à apreciação, pelo Congresso, de uma nova lei de combate à lavagem de dinheiro. Conforme o Valor Econômico, o projeto, que tramita desde 2003, pode vir a ser votado amanhã na Câmara.

Mais de 80 entidades estão envolvidas na aprovação do texto, tendo à frente a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (Enccla) e a Frente Parlamentar de Combate à Corrupção. “Em suma, o documento amplia o rol de empresas que deverão informar aos órgãos de fiscalização e reguladores um cadastro e informações periódicas sobre seus clientes, bem como qualquer movimentação financeira suspeita ou superior a R$ 100 mil em espécie”, sintetiza o jornal.

Enfrentar a chaga da corrupção é a principal tarefa que deveria mover o governo federal. Mas até agora não se viu da presidente Dilma Rousseff mais do que movimentos para tirar o assunto do noticiário. O menor dos problemas é afastar ministros envolvidos em falcatruas, como já aconteceu quatro vezes desde maio. O principal deveria ser limpar a sujeira que eles vêm fazendo. Por ora, ela continua todinha lá, escondida embaixo do tapete.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

As engrenagens da corrupção

Se demitir Orlando Silva mas mantiver o Ministério do Esporte como feudo do PCdoB, a presidente Dilma Rousseff estará dando seu aval aos desvios de verbas públicas que têm ocorrido tanto lá quanto em outros endereços da Esplanada. Será conivente e sócia da roubalheira. Estará, mais uma vez, se dobrando ao comportamento mafioso que tem pautado a relação entre os partidos aliados na era petista.

Está cada vez mais claro que os vertedouros de dinheiro do contribuinte para bolsos privados e usos político-partidários não é exclusividade de Silva, tampouco de sua pasta. No Esporte, há evidências de sobra de que o esquema foi montado desde que Agnelo Queiroz lá chegou, inaugurando a dinastia comunista na área.

Brasília, base política do hoje governador e alvo de inquérito no STJ, foi fartamente agraciada com verba repassada por convênios do Ministério do Esporte nos últimos anos. Instituições do Distrito Federal receberam R$ 169 milhões desde 2003, segundo O Globo, e só perdem para as do Rio, que obtiveram R$ 639 milhões. Superam em muito, por exemplo, os R$ 86 milhões de São Paulo. Com Silva, o favorecimento a entidades candangas se manteve.

Também se acentuou a relação promíscua entre ministério, PCdoB, lideranças e entidades estudantis, já que a UNE é outro dos feudos comunistas. A Folha de S.Paulo revela repasses milionários a ONG ligada ao principal assessor de Orlando Silva, o hoje secretário de Esporte Educacional, Wadson Ribeiro, que também foi secretário-executivo da pasta até 2010.

Vale lembrar que a UNE sobrevive – e bem – praticamente do dinheiro do monopólio da emissão das carteiras de estudante, garantido no segundo mandato de Lula. Além disso, com o PT, a entidade também passou a receber repasses federais para eventos que organiza, como recorda Maria Cristina Fernandes no Valor Econômico.

Repete-se no Esporte e com o PCdoB o mesmo padrão paroquial que já vigorou e vigora em outros ministérios desde o início da era petista. Em outras três pastas envolvidas em escândalos e subsequente queda de ministro nos últimos meses também foi assim: Transportes, Agricultura e Turismo, todas entregues de “porteira fechada” a seus respectivos partidos e todas alvo de denúncias de corrupção.

Não é diferente, também, no Ministério do Trabalho, onde o TCU acaba de suspender por 60 dias os contratos de repasse de dinheiro do FAT, como informa O Estado de S.Paulo. Trata-se de convênios que, em geral, favorecem entidades ligadas a sindicatos que funcionam à sombra de PT, PDT e outros partidos. Eles prometem, mas não entregam o combinado em termos de ações em prol dos trabalhadores, como cursos de qualificação.

“Reiteradas auditorias realizadas por este tribunal apontaram irregularidades na aplicação de recursos transferidos pelo Ministério do Trabalho e falhas na gestão dos convênios”, diz texto levado ao plenário do TCU pelo ministro substituto Weder de Oliveira e citado pelo jornal.

São inúmeros os exemplos de que a corrupção e os desvios estão incrustados na máquina pública, com a complacência do governo do PT. Rouba-se hoje muito dinheiro público no país: uma amostra colhida entre 2002 e 2008 pelo TCU aponta desvios de R$ 40 bilhões só de cofres da União, como mostrou a Folha em setembro.

“Há um ‘apagão’ nos sistemas de controle e fiscalização que será ainda mais danoso ao país à medida que deslanchem vultosas obras de infraestrutura, impulsionadas pelo PAC, Copa e Olimpíada”, lamenta o Valor em editorial.

Tudo indica que a presidente Dilma não pretende bulir com este esquema e cogita, por exemplo, manter o enlameado PCdoB à frente do Esporte, ainda que não com Orlando Silva. É a garantia de que as engrenagens da corrupção continuarão funcionando a pleno vapor, até que a imprensa revele o próximo escândalo.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Gritando por justiça

É possível que alguém que seja alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) ocupe cargo de ministro de Estado? Em qualquer governo sério e comprometido com a lisura no trato da coisa pública, a resposta seria não. Mas é exatamente isso o que irá acontecer na gestão petista se Orlando Silva não cair nas próximas horas.

As denúncias em série envolvendo o Ministério do Esporte e a relação espúria que ali se estabeleceu entre organizações não governamentais (ONG) de fancaria e o PCdoB continuam a surgir todos os dias. São tantas, que a pasta já nem se preocupa mais em desmenti-las em seu conteúdo. Prefere gritar contra os acusadores.

Entre os novos casos de corrupção revelados hoje, há desde renovação de convênio que em dois anos nunca saiu do papel mas continua recebendo verba, como mostra O Estado de S.Paulo, até desvio de recursos para financiar campanhas como a de Manuela D’Ávila a deputada federal, divulgado pelo Zero Hora. Tem também licitação irregular, segundo a Época.

As denúncias são tantas e tão contundentes, que o procurador-geral, Roberto Gurgel, não pensou duas vezes: “O certo é que a gravidade dos fatos é tamanha que se impõe, até para que se possam apurar devidamente esses fatos, a instauração do inquérito”, disse ele ontem, ao informar que a Procuradoria Geral da República pedirá abertura de inquérito ao STF.

Vale ter presente que o pedido de abertura de inquérito é feito quando entende-se que há indício de prática de crime. O procurador poderia ter tomar outro caminho, determinando arquivamento do pedido feito pelo PSDB ainda na segunda-feira. Mas, como entendeu que os indícios existem, mandou prosseguir a apuração.

Devem ser investigados não apenas Orlando Silva, como também seu antecessor, Agnelo Queiroz. Os dois rivalizam no quesito ficha corrida. O hoje governador do Distrito Federal pelo PT é alvo de denúncia cabeluda de desvio de dinheiro quando ainda ocupava o posto de ministro do Esporte de Lula, relatado em detalhes por O Estado de S.Paulo.

Queiroz teria recebido R$ 256 mil em dinheiro vivo, entregues pessoalmente a ele dentro de uma mochila no estacionamento de uma concessionária de motos de Brasília, em agosto de 2007. A propina teria sido desviada do malfadado programa Segundo Tempo, a porta aberta pelo PCdoB nas contas do ministério para irrigar caixas de campanhas comunistas e o da reeleição de Lula.

Como observa o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), as denúncias contra Silva não são novas. Desde a CPI dos Bingos que os rumores de corrupção na pasta do Esporte vêm se avolumando, mas tanto Lula quanto Dilma Rousseff silenciaram a respeito. Na CPI, o governo do PT, que já tinha maioria no Senado, conseguiu blindar o ministro e nada foi apurado. 

A chance de passar isso novamente a limpo surge agora, a começar pelos depoimentos do policial militar João Dias Ferreira e do motorista Célio Pereira Soares ao Congresso. O requerimento para que os dois sejam ouvidos na Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara foi aprovado nesta quarta-feira. A audiência deve ocorrer na semana que vem.

Em depoimento de mais de oito horas dado ontem à Polícia Federal, Ferreira já apresentou “fatos novos”, segundo a própria assessoria do órgão. Parte do material que ele pode vir a expor foi apreendido na Operação Shaolin, deflagrada no ano passado. São documentos e gravações que estavam inacessíveis, mas agora foram liberados.

Com tamanha ficha de serviços prestados ao submundo, os comunistas deverão perder o ministério hoje ocupado por Silva. A saída dele poderá ser sacramentada ainda hoje, após a volta da presidente da África. “Dirigentes do partido já admitiam reservadamente que podem ficar sem o Ministério do Esporte, tamanho o desgaste político”, informa O Globo.

O PCdoB ainda tem o comando da Agência Nacional de Petróleo e da Embratur. Mas ambos poderiam também estar com os dias contados, se a intenção da presidente fosse, realmente, punir o partido pelos seus malfeitos. O mandato de Haroldo Lima na ANP termina em 30 dias e Flávio Dino, presidente da Embratur, deve ser candidato em 2012 no Maranhão.

O problema é que é pouco crível que Dilma – refém do fisiologismo que Lula instalou e do qual ela se locupletou para se eleger – queira de fato limpar a barra de seu governo. A atual gestão enfrenta o quinto escândalos de corrupção em menos de cinco meses, desde que surgiu o caso do mágico enriquecimento de Antonio Palocci.

“A presidente não demonstra o mesmo interesse em cuidar do principal: o ponto de união entre todos esses escândalos que é o desvio de verbas públicas nos ministérios. (...) Todos decorreram do mesmo tipo de acusação, a montagem de esquemas de arrecadação de dinheiro para favorecimentos pessoais ou partidários. (...) A hipótese de conspirações para destruir reputações de ministros é fantasiosa. Real é a prática disseminada de apropriação do Estado funcionando a partir do loteamento da máquina”, resume Dora Kramer no Estadão.

Orlando Silva deveria estar cuidando da Copa e das Olimpíadas, mas tem tido de ocupar seu tempo defendendo-se de denúncias de corrupção. Ele acha que cobrar a apuração dos ilícitos é querer ganhar no “grito”. Mas o que se exige é justiça e punição a quem lesou o patrimônio público. E não vai adiantar o (ainda) ministro berrar, nem o PCdoB clamar por “regulação da mídia”.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Corrupção: modo PT de governar

Há razões de sobra para que o Ministério do Esporte sofra uma limpeza completa. Também há motivos em profusão para que a relação entre poder público e organizações não governamentais (ONG) seja amplamente revista. Manter tudo do jeito que está apenas revela como a corrupção é pacificamente aceita como parte integrante do modo PT de governar.

No governo petista, há um padrão de conduta que não é exclusividade do PCdoB do ministro Orlando Silva. Todos os comensais agem da mesma forma, com pequenas variações de ímpeto. A regra instaurada e permitida pela gestão Lula, e preservada por Dilma Rousseff, é avançar sobre o butim do Estado. É parte, e preço, do jogo.

“As denúncias contra Orlando Silva terminaram reacendendo a disputa entre os partidos. É mais uma faceta da fisiologia, em que os embates não se travam em torno de projetos, mas em função do acesso ao dinheiro do já sufocado contribuinte”, opina O Globo, em minieditorial.

Aqui e acolá, a presidente da República dá sinais de insatisfação com o desempenho de Silva. Mas, ao invés de fazer o que se espera de um estadista, ou seja, impor a ordem e afastar do governo quem tem conduta indevida, ela mantém intacto o feudo que destinou a um dos partidos que lhe dá sustentação no Congresso.

Sabe-se agora que Orlando Silva será afastado das negociações tocadas pelo governo brasileiro em relação à Copa de 2014 e à tramitação da Lei Geral da Copa no Congresso. “A partir de agora, as decisões relativas à Copa ficarão centralizadas no Palácio do Planalto, nas mãos da presidente e da chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann”, informa hoje O Estado de S.Paulo em manchete.

Se, sob Orlando Silva, assim como o foi sob Agnelo Queiroz, o Ministério do Esporte não mostrou a que veio, por que manter o ministro na cadeira? Por que Dilma continua a permitir que o PCdoB continue a pintar e bordar por lá, como o partido também faz na Agência Nacional do Petróleo, outra capitania hereditária dos comunistas desde Lula, envolvida na cobrança de propina para autorizar o funcionamento de distribuidoras de combustível?

Além da complacência com as malfeitorias, outra hipótese é que a presidente não sabe ao certo que rumo dar a seu governo – e não só ao Ministério do Esporte. “Só fará sentido trocar ministros se [Dilma] tiver uma missão clara a dar e a cobrar de cada um deles. Os integrantes do governo têm que se sentir ministros e não meros assessores”, comenta Rosangela Bittar no Valor Econômico.

Na pasta comandada por Orlando Silva, os indícios de irregularidades continuam a prosperar. Fala-se agora numa “central de propina” montada dentro da estrutura mantida pelo ministério, segundo O Globo. Ali eram acertadas com as ONG o pagamento de comissões de até 20% sobre as verbas liberadas. Parte disso teria sido usada pelo PCdoB para irrigar a campanha pela reeleição de Lula, para “melhorar o prestígio do partido junto ao ex-presidente”.

Orlando Silva prefere defender atacando. Tenta desqualificar o autor das denúncias. Mas parece difícil explicar, por exemplo, por que, mesmo depois de ter irregularidades constatadas pelo ministério em seu primeiro convênio, uma das entidades do policial militar João Dias Ferreira ganhou um segundo contrato da pasta do Esporte.

Também é complicado esclarecer por que cinco dias depois de relatar à Polícia Militar do Distrito Federal – que havia aberto uma sindicância interna para investigar os negócios em que o policial estava envolvido – irregularidades nos convênios com entidades do soldado, o ministério de Silva recuou e emitiu ofício pedindo que o parecer fosse “desconsiderado”. Terá sido parte dos “acordos” de que o policial vem falando?

Ainda há muito a revelar. Por isso, a necessidade de Ferreira ser ouvido no Congresso, assim como uma lista de pessoas ligadas ao ministro, ao ministério, a ONG e ao PCdoB – todas envolvidas em negociatas para desvio de verbas e acobertamento de mutretas. Se isso não acontecer, ficará claro que ao governo só interessa manter tudo como está.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sem prorrogação para o ministro

Mesmo com uma Copa do Mundo e uma Olimpíada na agenda, o Ministério do Esporte não mostrou, ao longo de toda a gestão petista, uma razão de existir. Nestes quase nove anos, a pasta esteve, na maior parte do tempo, envolvida em falcatruas. Este jogo não pode ter prorrogação.

Orlando Silva foi personagem desta jornada de irregularidades desde o início, seja na função de secretário-executivo de Agnelo Queiroz, seja como ministro, a partir do segundo mandato de Lula. O triste papel que ele desempenha está agora pelos 45 minutos do segundo tempo.

Há uma goleada de evidências de irregularidades que justificam a saída de Silva do Ministério do Esporte. Ali foi montada uma central de corrupção que desvia dinheiro para entidades de apaniguados e aliados partidários. Em favor da melhoria do desempenho esportivo do país, a pasta do ministro comunista pouco ou nada visível fez.

Por onde quer que se olhe só se veem malfeitos. No feudo do PCdoB, criado por Lula e mantido intacto por Dilma Rousseff, se drenou muito recurso público para bolsos privados. As entrevistas de João Dias Ferreira a O Estado de S.Paulo e à Folha de S.Paulo são reveladoras desta nefasta ocupação.

O policial militar revela que, em março de 2008, Orlando Silva o recebeu em seu gabinete para “fazer um acordo com o pessoal dele para eu não denunciar o esquema” de fraudes, como disse ao Estadão. “O Orlando disse para eu ficar tranquilo, que tudo seria resolvido, que não faria escândalo”. Ferreira diz que está tudo gravado.

À Folha, o policial deu nomes dos que participaram das tratativas: “Julio Filgueiras, que era o secretário nacional de esporte educacional”; “o atual secretário-executivo Valdemar”; “Milena, que era chefe de fiscalização”; “Adson, que era ‘subministro’”; “Fábio, que é atual secretário”; “Charles, que era chefe de gabinete do Adson”.

Ou seja, uma lista extensa de gente para ser ouvida no Congresso, tão logo o ministro passe por lá, em sessão prevista para hoje na Câmara e provavelmente para a quinta-feira no Senado.

Também devem ser investigadas a fundo as atividades das organizações não governamentais instrumentalizadas pelos aliados do PT no Ministério do Esporte. Lá, a sistemática de repasses foi alterada para facilitar a manipulação de verbas.

A gestão petista-comunista determinou que ONG passassem a ser as beneficiárias dos convênios do ministério, que antes contemplavam estados e municípios. Diferentemente destes, totalmente sujeitos à fiscalização de órgãos de controle, as ONG movimentam dinheiro com franca liberdade.

A própria presidente da República admite o problema. “Nós consideramos que, em muitos momentos no passado, houve convênios com ONGs mais frágeis. O que nós detectamos é que, em geral, elas são menos formais do que prefeituras e estados. Eles (prefeituras e estados) são acompanhados pelos tribunais, você tem que prestar contas”, disse ela ontem, na África do Sul.

“Em muitos momentos do passado” significa, em bom português, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, do qual Dilma Rousseff era a gerentona responsável por ditar as regras, a partir da Casa Civil. Portanto, o problema é tão dela quanto sempre foi. Há evidências de sobra de falcatruas.

A Controladoria-Geral da União aponta irregularidades em pelo menos 67 convênios, envolvendo R$ 26,5 milhões, informa a Folha de S.Paulo. O Tribunal de Contas da União viu “deficiência dos critérios para seleção dos parceiros” e problemas como falta de material esportivo, qualidade ruim da refeição oferecida às crianças e ausência de infraestrutura esportiva, segundo O Globo.

Uma das evidências mais flagrantes de que os programas do Ministério do Esporte, em especial o Segundo Tempo, eram usados de forma espúria é a proeminência da ONG criada por uma vereadora do PCdoB, a ex-jogadora de basquete Karina Rodrigues, nos repasses da pasta.

A Pra Frente Brasil (será saudade da ditadura militar?) ficou com quase metade dos R$ 30 milhões transferidos no ano passado. Envolvida em fraudes, foi impedida de firmar novos convênios, mas obteve aval do ministério para captar R$ 3 milhões por meio da Lei de Incentivo ao Esporte, que aproveita benefícios fiscais, mostra o Estadão.

Orlando Silva caminha para ser o sexto ministro defenestrado do atual governo, o quinto a cair no rastro de denúncias de grossa corrupção na gestão Dilma. Surge daí uma chance de se pôr ordem na preparação do país para os eventos esportivos que virão. E, principalmente, uma oportunidade para restaurar alguma decência neste campeonato de imoralidade que marca a era petista.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Tem bola no esporte

Num país que em menos de cinco anos sediará uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, o ministério que cuida dos esportes deveria ser uma das joias da coroa. Não no Brasil do PT, onde a pasta é mesmo um caso de polícia. Não é de hoje que a área comandada pelo PCdoB virou palco de bandidagem.

Há anos, a relação entre o Ministério do Esporte e organizações não governamentais (ONG) vem levantando suspeitas. O principal desvão tem sido o programa Segundo Tempo, que deveria servir para comprar material esportivo, treinar e alimentar crianças carentes. Na prática, porém, o dinheiro das ações está sendo jantado pelos aliados comunistas.

Ministério Público, Polícia Federal e Controladoria-Geral da União já abriram investigações sobre o programa, com objetivo de apurar desvio de recursos para fins de enriquecimento ilícito e caixa dois de campanhas eleitorais. Cinco pessoas ligadas a ONG abastecidas pelo esquema já foram presas.

A edição da revista Veja desta semana revela, em cores dramáticas, como o Segundo Tempo pode ter desviado R$ 40 milhões em recursos públicos nos últimos oito anos, desde que Lula transformou – e Dilma Rousseff manteve – o Ministério do Esporte em feudo do PCdoB, primeiro com Agnelo Queiroz, depois com Orlando Silva.

A cena mais impressionante relatada pela revista é narrada por Célio Soares Pereira, descrito como “uma espécie de faz-tudo, de motorista a mensageiro, do grupo que controlava a arrecadação paralela entre as ONGs agraciadas com os convênios do Segundo Tempo”.

Deu-se em fins de 2008: “Eu recolhi o dinheiro com representantes de quatro entidades aqui do Distrito Federal que recebiam verba do Segundo Tempo e entreguei ao ministro [Orlando Silva], dentro da garagem [do ministério], numa caixa de papelão. Eram maços de notas de 50 e 100 reais”, contou Célio à revista, de cara limpa, sem se proteger por trás de anonimato.

A cena é de submundo, tanto quanto o pugilato que ora opõe um ministro de Estado a um policial militante do PCdoB e preso no ano passado sob acusação de ter desviado dinheiro público. Ambos se tratam publicamente como “bandidos”, integrantes de “quadrilhas”; relatam “acordos não cumpridos” e manipulações de processos públicos de acordo com “conveniências” pessoais. Coisa de máfia.

Orlando Silva pode estar pela bola sete. Ele estava em Guadalajara assistindo jogos do Pan-Americano e embarcou de volta na noite de sábado, primeiro dia de competições. Horas antes, o ministro havia dito a jornalistas que a presidente Dilma o orientara a “seguir com sua agenda”. Ontem, disse que mudou os planos “após ser convocado a retornar ao Brasil”.

O que se constata é que o Ministério do Esporte repete uma triste sina do governo petista: grosso desvio de dinheiro público, que vai parar em bolsos aliados. A compra de votos, de apoio, de consciências e a pura utilização de recursos do erário em benefício privado é uma marca desta era.

Se o mensalão foi usado para comprar votos no Congresso, a liberação de verbas de convênios tem sido empregada para cevar o apoio de entidades da sociedade civil transformadas em capacho do petismo. Só no ano passado, mais de 100 mil ONG receberam dinheiro do governo federal. Daquilo que foi para elas, partidos aliados, como o PCdoB, podem ter ficado com 20%.

“No mínimo, é uma contradição em termos que tantas entidades ditas não governamentais vivam de recursos públicos”, comenta José Roberto de Toledo, n’O Estado de São Paulo. Os números levantados pelo colunista impressionam.

Desde 2003, entre transferências e gastos diretos, o poder federal enviou mais de R$ 56 bilhões para contas de ONG. Entre 2004 e 2010, os repasses aumentaram 180% e cresceram muito mais do que as transferências para contas administradas por prefeitos e governadores. Apenas em 2010, ano de eleição geral, as liberações para entidades sem fins lucrativos avançaram 40%.

De onde vem a dinheirama para esta farra toda? A resposta pode estar na manchete de hoje do Estadão: às escondidas, o governo Dilma está urdindo um pacotaço de aumento tributário, enfiado no escuro na medida provisória que deveria servir para desonerar a folha de pagamentos de setores da indústria, como parte do programa Brasil Maior.

“Com a bênção do Palácio do Planalto, a Receita Federal incluiu no texto da MP artigos prevendo desde um maior controle sobre a transferência de ações até a cobrança inédita de mais um tributo sobre a divisão de lucro entre sócios de uma companhia”, revela o jornal.

Trata-se de uma mostra clara de que quem paga o custo nefasto da corrupção que grassa no país é quem trabalha e produz. O fardo das malfeitorias que o PT disseminou pela máquina pública recai, sempre, sobre os ombros dos brasileiros honestos.