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terça-feira, 13 de março de 2018

A inflação e os juros

A inflação voltou a surpreender e marcou novo recorde negativo em fevereiro. O índice foi o mais baixo para o mês em 18 anos. O comportamento dos preços escancara a janela para queda ainda maior da taxa básica de juros.

O IPCA fechou o mês passado em 0,32%, de acordo com o IBGE. Com isso, o acumulado em 12 meses, número que realmente conta para o regime de metas, desceu a 2,84%, abaixo do piso estabelecido pelo Comitê de Política Monetária para a inflação deste ano.

Novamente a vedete da inflação baixa foi o item alimentação e bebidas, que mais uma vez caiu de preço. Em um ano, a comida na mesa dos brasileiros ficou 3,8% mais barata. Esta, sim, uma verdadeira dádiva do comportamento recente dos preços no país: permitir que mais gente se alimente mais e melhor.

Já há reflexos, inclusive, nos hábitos de consumo das famílias. De acordo com levantamento feito por uma consultoria privada publicado na edição de hoje d’O Estado de S. Paulo, o carrinho de compras está voltando agora a ser abastecido com produtos um pouco mais caros e sofisticados.

Até os serviços estão bem comportados no momento, muito por conta da ainda incipiente retomada da geração de empregos no país, também ainda bastante concentrada na informalidade.

No geral, menos da metade (48,5%) dos itens acompanhados pelo IBGE registrou alta de preços em fevereiro. Menos endividados e com renda levemente mais alta, os brasileiros devem gastar mais R$ 124 bilhões em consumo neste ano, calcula o Santander.

Todas as indicações são, portanto, de que o Banco Central terá de injetar mais adrenalina na demanda para que os preços em geral não continuem abaixo do piso da meta – o que seria a segunda vez na história, repetindo 2017.

As atenções se voltam agora para a reunião do Copom agendada para a próxima semana. Depois do novo mergulho do IPCA, cresceram as apostas em novo corte na taxa básica, o que aprofundaria a mínima histórica em que a Selic se encontra desde fevereiro, provavelmente para 6,5% ao ano.

Inflação e juros baixos configuram um ambiente extremamente benigno para a economia. Tanto para as famílias, que podem consumir mais e viver melhor, quanto para os governos, que passam a despender menos recursos com rolagem de suas dívidas – em 2017, esse gasto caiu R$ 6 bilhões no âmbito federal em comparação com o do ano anterior, para 6,2% do PIB.

Tudo caminha para um ano bom na economia, minorando os efeitos da razia causada pelo triênio recessivo semeado pelo petismo. É o ambiente ideal para que as discussões da política avancem melhor. E é justamente aí que ainda mora o perigo.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Um problema a menos

Não faz muito tempo a inflação ocupava o topo das inquietações dos brasileiros preocupados com o bolso. Fruto da leniência com que o governo petista tratava o tema, os índices de preços chegaram a namorar o descontrole. Mas, em golpes sucessivos, o problema foi varrido do mapa.

A inflação oficial do país caiu a 2,86% anuais em janeiro. Dois anos atrás, esse percentual equivalia à carestia de um trimestre; há três, correspondia à alta de preços registrada em apenas dois meses do ano. Por aí nota-se o quanto o país conseguiu avançar nesta questão. O assunto, por ora, e até onde a vista alcança, está morto.

A inflação de janeiro foi a menor para o mês desde o Plano Real, conforme divulgou o IBGE nesta manhã. Caiu tanto em relação ao mesmo mês de 2017 quanto a dezembro. A queda de itens fundamentais da cesta de consumo dos brasileiros, como habitação e vestuário, colaborou para segurar o IPCA, contrabalançando a alta da alimentação.

Não é pouca coisa a inflação ter sido debelada. É traço de eficácia de políticas postas em marcha e que representavam o exato oposto do que foi feito enquanto o PT teve o comando da economia nas mãos. É mais um indicativo de que o país não pode sequer considerar a hipótese de voltar ao passado recente nas eleições de outubro próximo.

Inflação mais baixa é mais qualidade de vida para a população. Permite mais consumo, sobretudo de alimentos, e preserva o salário. Sobra mais dinheiro – ou, em muitos casos, falta menos para fechar o orçamento – no fim do mês. Organiza melhor a vida.

Foi o êxito no combate à inflação que permitiu outra realização notável do atual governo nestes pouco menos de dois anos em que comanda o Brasil: a queda da taxa básica de juros para o nível mais baixo da história.

A Selic foi reduzida ontem pelo Copom para 6,75% ao ano. Foi o 11° corte consecutivo, num processo iniciado em outubro de 2016. Trata-se de diminuição de 7,5 pontos percentuais num período de apenas 14 meses. Neste quesito, em que liderava rankings mundiais de juros reais, o país deixou de ser pária no mundo das finanças globais.

Estima-se que cada ponto a menos de juros resulte numa economia anual de R$ 28 bilhões para o Tesouro, ou quase um Bolsa Família, nos cálculos de Felipe Salto. Façam-se as contas e vê-se que são mais de R$ 200 bilhões que deixam de ser torrados com rolagem de dívida e podem servir melhor a população. Pode ser que chegue o dia em que se gaste ainda menos com a usura.

Inflação e juros baixos denotam que é possível derrotar mazelas que, por vezes, parecem insuperáveis. Quem visse o Brasil de dois anos atrás não apostaria um vintém na queda consistente e concomitante de ambos. Sinal de que os demais desafios também devem e podem ser vencidos. Desde que não sejam deixados sempre para depois.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Os ventos que sopram do norte

O ambiente econômico tornou-se um pouco mais desafiador nesta semana, após as piruetas dadas pelos mercados financeiros globais nos últimos dois dias. Para o Brasil em particular, as consequências imediatas são, pelo menos, duas: sobre a agenda de reformas e sobre os rumos da política monetária.

A turbulência – que alguns apelidaram de “crash relâmpago”, em razão da severidade e da rapidez do mergulho dos preços dos ativos – coloca em questão a continuidade da situação benigna que o ambiente externo tem propiciado à economia brasileira. O dinheiro que (ainda) sobra no mundo ajuda a estimular negócios aqui.

Até a última segunda-feira, noves fora arroubos fora de hora, como os que o governo Donald Trump é capaz de cometer, não se vislumbravam riscos maiores nos próximos meses. Não mais. Alguns acreditam que o longo período de bonança – que levou bolsas de valores a patamares recordes e, no caso dos EUA, a desemprego baixíssimo e crescimento sustentado, acompanhados de juros minúsculos – pode estar com dias contados.

É mais um recado, se ainda era preciso, para o Brasil. Em especial, para suas lideranças e, mais em particular ainda, para aqueles que têm a responsabilidade de votar matérias no Congresso Nacional. Os ventos que sopram do norte podem ser bem mais gelados do que se imagina.

O Brasil vive bom momento econômico a despeito do desastre expresso no desempenho de suas contas públicas, o amargo legado petista do qual demoraremos mais tempo para nos livrar. É como se, com dinheiro em profusão no mundo, investidores fizessem vista grossa ao alto risco que o descontrole fiscal carrega consigo.

As reformas do Estado, sobretudo a da Previdência, têm condão de começar a atacar o problema do desequilíbrio orçamentário de forma mais contundente e duradoura. Parte dos parlamentares, contudo, prefere achar que é melhor deixar como está para ver como é que fica. É namorar o precipício.

Parcialmente revertida ontem, a reviravolta dos mercados financeiros também deverá ter consequências na resolução que o Comitê de Política Monetária tomará hoje a respeito da taxa básica de juros brasileira.

Até agora, esperava-se novo corte, capaz de trazer a Selic para 6,75% ao ano, onde, provavelmente, deve estacionar por período longo. Agora a decisão tornou-se uma incógnita: juros possivelmente mais altos nos EUA exigem juros mais altos também no resto do mundo.

Os eventos desta semana ensinam que aquilo que, por ora, não passou de susto pode tornar-se pesadelo. Sem reformas, o Brasil é uma espécie de mero caroneiro na prosperidade global. Para não brincarmos com fogo, o melhor a fazer é deixar de empurrar os problemas com a barriga. Votar já uma verdadeira reforma da Previdência tornou-se ainda mais imperativo.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Tombo histórico

Das anomalias que marcam a economia brasileira, as altas taxas de juros talvez sejam uma das mais perversas. Distorcem a alocação de recursos disponíveis, consomem dinheiro público escasso, embotam investimentos produtivos e travam a geração de renda e empregos. Quem sabe, esta aberração esteja começando a ficar no passado.

Os juros básicos caíram ontem à menor taxa de que se tem registro no país, ou seja, desde 1999. São agora de 7% ao ano, o que apenas um ano atrás parecia miragem – em outubro de 2016, a Selic alcançava 14,25%, patamar que já vinha de um ano antes. É evidência de que, uma vez adotadas as políticas adequadas, o país tem condição de tomar o rumo certo.

Um dos efeitos positivos mais diretos do juro baixo está no gasto público. Com a Selic menor, o Tesouro Nacional já deixou de torrar R$ 52 bilhões com a rolagem da sua dívida até setembro. Com a taxa básica agora se igualando à TJLP, o governo também economizará mais R$ 27 bilhões apenas com fim de subsídios públicos a créditos.

Do lado privado, dinheiro que estava esterilizado em títulos públicos tende a buscar ativos reais e de maior risco. A procura por crédito aumenta. Ganham a produção e a economia. As empresas lucram mais, distribuem dividendos e empregam.

O atual ciclo de baixa da Selic começou em outubro do ano passado, tão logo o Banco Central emitira sinais mais contundentes de que não toleraria a inflação alta. A atitude diferia da assumida pela gestão anterior, para a qual um aumentozinho a mais nos preços não doía. Tanto doía, que se tornara, junto com o desemprego, mais um dos tenebrosos componentes da recessão petista.

Em trajetórias coincidentes, desde então inflação e juros foram convergindo. Se estes estão agora na sua mínima histórica, aquela desceu a patamar abaixo do piso da meta estipulada para o ano – encontra-se em 2,7% nos 12 meses até outubro, depois de ter batido em 10,7% em janeiro do ano passado. Ou seja, desta vez a política monetária funcionou – de maneira distinta do artificialismo e do voluntarismo que caracterizaram a queda na marra da taxa básica empreendida por Dilma em 2012.

A Selic deve cair ainda mais um naco no início de 2018. O 11° corte consecutivo pode ser maior ou menor a depender da aprovação ou não da reforma da Previdência, crucial para o controle dos gastos públicos. Mas daí não deve passar. Terá, se isso se confirmar, encostado numa taxa real de 2,5% ao ano, de bom tamanho para economia ainda tão desequilibrada quanto a brasileira, mas ainda alta quando se tem em conta que nas economias desenvolvidas, na média, o juro encontra-se perto de 0%.

As apostas são de que a mínima histórica não deve durar muito tempo, com a taxa voltando a subir em fins de 2018 com o provável reaquecimento da economia, do mercado de trabalho e dos preços. As principais ameaças, contudo, são menos benignas. Os riscos maiores estão na frustração das reformas e no destino que caberá ao país após as eleições presidenciais de 2018.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Cortar ainda mais

Bastou um ano para que o Banco Central promovesse uma baixa que pode fazer história na taxa básica de juros do país. Falta apenas mais um tiquinho para que a Selic desça a seu menor patamar em 60 anos e, melhor de tudo, permaneça por lá por bom tempo.

O juro estratosférico é uma das mais graves anomalias da economia brasileira. Torna a dívida pública uma carga ainda mais pesada, encarece o crédito, embota o investimento e esfria o consumo. Juro alto é necessário, e isso não se discute, em momento de inflação alta. Na baixa, torna-se dispensável. É o nosso caso presente.

Ontem o Copom (Comitê de Política Monetária) do BC determinou o nono corte consecutivo na Selic. O mergulho começou há exatamente 12 meses, quando a taxa ainda estava em impensáveis (vistos de hoje) 14,25% ao ano. Caiu agora praticamente à metade, 7,5%, e deve cair mais um naco na última reunião do ano, em dezembro.

O que mudou em tão pouco tempo para redução tão pronunciada quanto benigna? O fator mais relevante foi a queda acentuada da inflação, objetivo explícito da política de juros do BC brasileiro. O IPCA despencou de 7,9% em outubro do ano passado para os atuais 2,5%, sempre considerando o acumulado em 12 meses. Até onde as projeções alcançam, não deve escapar da meta de 4% anuais.

Safra agrícola recorde, barateando alimentos, uma política econômica mais austera e, também, a recessão, que fez as famílias quase parar de consumir, explicam a queda acentuada dos índices de preços nestes últimos meses – os IGPs, por exemplo, estão em deflação neste momento.

O mergulho atual da Selic tem tudo para ser em tudo diferente da aventura que caracterizou os cortes na taxa básica patrocinados pelo governo da ex-presidente Dilma Rousseff entre 2011 e 2013. Aquela rodada irresponsável de impulso monetário está na raiz da crise econômica monstruosa que veio a seguir e que só agora vai se dissipando.

A queda da Selic espraia efeitos benéficos a granel. A começar pelas contas públicas. Estimativas feitas pela IFI indicam que os cortes feitos até a reunião de setembro já haviam representado economia anual de R$ 80 bilhões com pagamento de juros da dívida pública. Neste sentido, se o corte de ontem tivesse sido só um pouquinho mais ousado, de um ponto, o governo já economizaria mais R$ 2,6 bilhões por ano, segundo a consultoria Tendências. Não é pouca coisa em tempos de aperto fiscal.

O juro real brasileiro situa-se hoje perto de 3% ao ano, o terceiro mais alto do mundo. Perto de outras economias, onde ele é próximo de zero, ainda está muito alto. Mas as deficiências que o Brasil continua carregando ainda impedem cortes mais ousados, para níveis realmente civilizados. Este, contudo, deve ser o objetivo, a fim de que a nossa economia se livre de vez desta aberração.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Pau nos juros

O Copom (Comitê de Política Monetária) tem hoje uma difícil decisão pela frente: definir qual ritmo deve ter a queda da taxa básica de juros doravante. A redução da Selic é condição necessária para que o país prossiga sua trilha de retorno à normalidade e reencontre o caminho do crescimento, mesmo que as condições políticas não ajudem.

Em termos objetivos, a autoridade monetária tem boas razões para acelerar os cortes, iniciados em outubro do ano passado. A expectativa até a fatídica quarta-feira, 17, em que vieram à tona gravações de conversa pouco republicana do presidente Michel Temer com o réu confesso Joesley Batista era de ampliação da queda da taxa básica.

Até agora, a Selic foi cortada em três pontos percentuais, baixando de 14,25% para 11,25% ao ano. As apostas predominantes apontavam a possibilidade de a reunião desta quarta-feira terminar com o Copom anunciando nova redução, desta vez de 1,25 ponto percentual, o que colaboraria para jogar mais gasolina no motor do reaquecimento econômico. Pode ser que não chegue mais a tanto.

O alvo da política monetária chancela cortes mais ousados. Na reunião do Copom de abril, as previsões colhidas junto ao mercado por meio do boletim Focus indicavam inflação de 4,09% neste ano e de 4,46% em 2018. Ambos, portanto, dentro, ou até abaixo, da meta. Hoje, os prognósticos para o IPCA são ainda mais benignos: 3,95% e 4,40%, respectivamente. Ou seja, desde a última reunião, o juro real subiu.

O país deve passar os próximos meses convivendo com algo impensável até pouco tempo atrás: queda nos índices de preços. O Brasil não vê deflação mensal há mais de uma década, mais precisamente desde o -0,21% de junho de 2006. No atacado, os índices mais recentes já mergulharam em terreno negativo. Devem colaborar para o recuo a redução dos preços de combustíveis, a estabilidade das tarifas de energia e o contravapor da recessão.

O problema maior do Copom está do outro lado da esplanada que divide ministérios e órgãos públicos em Brasília, onde se determina o ritmo dos gastos do governo. É a perna fiscal a que mais ameaça a continuação da estratégia de corte dos juros. Por ora, mesmo com forte contenção de despesas o rombo nas contas públicas, oriundo de um desequilíbrio cavalar legado pelo PT, permanece.

O risco político não colabora. É ponto pacífico que o país só conseguirá domar minimamente o galope dos gastos se lograr reformar partes consideráveis de suas despesas obrigatórias, em especial aquelas com pagamento de aposentadorias e pensões. Neste sentido, repousa sobre o sucesso da reforma da previdência a principal incógnita acerca da continuidade do corte de juros.

Tudo indica que, em momento de turbulência como o atual, o Copom deve preferir esperar para ver antes de engatar cortes mais ousados na Selic. Prudência é sempre a receita básica de qualquer Banco Central. Mas a perspectiva de levar os juros básicos de volta a um patamar civilizado não pode ser abandonada ao primeiro abalo. Cortar mais é preciso.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Show dos bilhões

O Banco Central deu, na semana passada, mais um passo para extirpar uma das anomalias da nossa economia. A taxa básica de juros brasileira finalmente caminha para patamares mais civilizados, apesar de ainda estar muito acima da média praticada ao redor do mundo. Os cortes na Selic abrem espaço para que o Estado gaste menos com sua dívida.

A taxa básica foi reduzida para 11,25% ao ano na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) encerrada na quarta-feira da semana passada. Desta vez, o corte foi de um ponto percentual, o maior desde junho de 2009.

Desde que o atual ciclo de baixa começou, em outubro do ano passado, a Selic já foi reduzida em três pontos percentuais. Os cortes começaram tímidos, na casa de 0,25 ponto percentual, e foram se aprofundando à medida que ficavam claros tanto o recuo da inflação quanto a severidade da recessão.

A expectativa é de que a Selic caia mais a partir de agora, possibilidade que o Copom alimentou com o comunicado que emitiu na semana passada. Até o fim deste ano, o juro básico brasileiro deve recuar para 8,5% ao ano, mantendo-se neste nível ao longo de 2018.

Se isso acontecer de fato, o Brasil terá um juro real, ou seja, descontada a inflação, em torno de 4,6% ao ano, ainda muito alto – quando o ciclo atual de baixa começou a média era de cerca de 7% ao ano. Isso significa que o crédito fica mais barato, assim como as despesas com a dívida pública. Menos juros também tendem a impulsionar investimentos produtivos, num ciclo virtuoso.

Confirmadas as baixas que os analistas projetam para os próximos meses, o Brasil deixará de ser a economia com maior taxa real do mundo, perdendo o nada honroso título para a Rússia. Mas ainda assim permanecerá com patamares muito acima da média global de juros, hoje negativa em 2,2%, segundo levantamento da consultoria Moneyou.

Cada ponto percentual a menos da Selic significa gasto R$ 26 bilhões menor pelo governo federal com pagamento de juros da sua dívida. Infelizmente, o efeito para o cidadão comum é menos significativo: a baixa da taxa básica não tem chegado às linhas de crédito ofertadas pelos bancos a seus clientes, como mostrou O Globo.

A queda consistente da inflação, que caminha para fechar 2017 na meta depois de sete anos flertando com o descontrole, e a redução dos juros são as conquistas mais robustas até agora da política econômica em vigor há um ano. Espera-se que o rigor fiscal imposto às contas públicas também engrosse a lista de êxitos.

Em ambos os casos tem-se agora atitudes distintas das que vigoravam no país nos governos do PT. Inflação é coisa séria e precisa ser combatida. Juros altos são uma anomalia que deve ser extirpada, mas com instrumentos certos e nos momentos certos, não com voluntarismo, como se tentou entre 2011 e 2013. A hora é agora.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Um ciclo virtuoso

A redução determinada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na semana passada parece ter afastado as dúvidas de que a taxa básica de juros no país vai finalmente caminhar para um patamar civilizado. Depois do quarto corte consecutivo, as apostas em novas e acentuadas quedas se intensificaram, ao mesmo tempo em que aumentou a confiança no mergulho da inflação.

O mercado agora já aposta numa Selic de 9,25% no fim deste ano, patamar em torno do qual o juro básico brasileiro deve se estabilizar nos anos seguintes, de acordo com a mais recente pesquisa Focus, divulgada ontem pelo Banco Central.

Alguns podem até achar pouco, mas vale ter presente que há apenas seis meses, quando o governo Michel Temer assumiu o comando do país em definitivo, a previsão corrente no mercado era de uma taxa básica de 11% no fim deste ano, com o sonhado um dígito só despontando nas expectativas em 2020. O futuro, ao que tudo indica, está chegando.

O Copom começou a desmontar os juros estratosféricos em outubro e, desde então, tirou dois pontos percentuais da taxa básica, baixando-a para os atuais 12,25% ao ano. Isso ainda equivale a uma taxa real, ou seja, acima da inflação projetada, de cerca de 7% ao ano. Nenhum país do mundo paga tanto aos investidores.

Por isso, dá para (e deve-se) cortar a Selic muito mais. Cada ponto percentual a menos da taxa básica equivale a cerca de R$ 22 bilhões que o governo economiza em juros da rolagem da sua dívida – no ano passado, os gastos do setor público com esta finalidade somaram R$ 407 bilhões.

O atual ciclo de redução da Selic só foi possível porque o país obteve êxito em derrubar a inflação, que já caiu pela metade no último ano e deve despencar mais. Também de acordo com o Focus, já se trabalha com a possibilidade de o IPCA, o índice oficial, ficar abaixo da meta de 4,5% no fim deste ano. Desde 2009, ou seja, lá se vão oito anos, isso não acontecia no país.

Neste movimento redentor, falta, porém, uma segunda perna: a da queda dos juros praticados pelas instituições financeiras. Na contramão do Banco Central, as taxas cobradas ao consumidor e às empresas estão subindo, num contrassenso para uma economia em crise. O ciclo de cortes precisa ser completo, mas sem voluntarismo.

A redução atual dos juros brasileiros tem tudo para ser perene, pondo fim a uma das piores anomalias da nossa economia. É, portanto, bastante diferente do ciclo empreendido entre 2011 e 2013, quando a taxa foi reduzida de forma irresponsável pelo governo petista, naquela que é uma das razões para a recessão da qual ainda não emergimos. Aquele movimento, como sabemos, teve pernas curtas.

A queda dos juros, acompanhando pari passu a redução da inflação, é uma das principais alavancas de que o país dispõe neste momento para reativar a economia – outra são as concessões e privatizações. É o motor da arrancada, que só se fará permanente, contudo, caso também avancem as reformas estruturais atualmente em discussão no Congresso, em especial a da Previdência – como, aliás, o próprio BC deixou claro na ata da reunião do Copom divulgada nesta manhã.

Com as engrenagens da queda das taxas de juros funcionando, um ciclo virtuoso poderá se por em marcha no país: os gastos dos governos com o pagamento de suas dívidas caem, os investimentos produtivos ganham ímpeto relevante e a geração de emprego e renda recomeça. E, desta forma, a retomada do crescimento se consolida.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Alívio imediato

A pancada que o Copom deu nos juros na semana passada abre uma avenida para que o país reencontre o caminho do crescimento econômico. Taxas menores, mais próximas do patamar prevalecente no resto do mundo, podem funcionar como alívio imediato até que as reformas comecem a decolar.

A redução, de 0,75 ponto percentual, foi a maior desde abril de 2012 e levou o juro básico a 13% ao ano. O Copom, porém, escancarou a porta para novos cortes, provavelmente de igual ou maior magnitude, nas reuniões futuras – a próxima acontece em 22/2. Prometeu, segundo informou na nota divulgada após a reunião, “intensificação da flexibilização monetária em curso”, até porque a recessão segue mais brava que o esperado.

Foi a terceira redução seguida da Selic, após quatro anos sem baixas. Os cortes só se tornaram possíveis porque a inflação, que ameaçou sair de controle em razão da leniência do governo petista, arrefeceu, ao mesmo tempo em que a economia esfriou acima do previsto. Além disso, a perspectiva da retomada da disciplina fiscal também tirou das costas do Banco Central o peso de tentar segurar sozinho os preços.

A derrocada do PT abriu espaço para que o controle da inflação se tornasse mais bem sucedido. Também ficamos sabendo na semana passada que o índice oficial fechou 2016 em 6,3%, dentro do limite de tolerância estipulado pelo regime de metas, e uma façanha quando se considera que um ano antes o IPCA havia atingido 10,7%. Já se trabalha com a hipótese de inflação na meta neste ano.

O efeito analgésico e anabolizante dos juros mais baixos na economia se faz sentir com maior intensidade nas contas públicas e nos investimentos privados – estes, porém, num efeito mais lento e moderado.

Taxas menores significam menos dispêndios do governo com a rolagem da sua dívida – estima-se economia anual de pelo menos R$ 16 bilhões só com o corte da semana passada. Também funcionam como indutor para que o dinheiro privado circule, gerando mais negócios, emprego e renda, e não permaneça parado, engordando em bancos.

O corte dos juros chega em boa hora, principalmente porque o atual ciclo de redução não repete o vício do voluntarismo que marcou o período de quedas mais recente, no início do governo Dilma Rousseff. Diante da terra arrasada legada pelo PT, é uma das poucas medidas com potencial para reativar a economia e estancar a recessão – a outra são as concessões e privatizações.

Agora, a depender da condução da agenda reformista, há claras chances de a baixa ser duradoura. Quem sabe o Brasil finalmente deixe de ser uma jabuticaba em matéria de política monetária – ainda temos, de longe, o maior juro real do mundo, em torno de 8% ao ano – e o alívio se torne permanente.

sábado, 10 de dezembro de 2016

A inflação aquieta-se

A crise brasileira é tão brava que está conseguindo fazer o que, durante anos, a política de juros não conseguiu: domar a inflação. Os índices estão recuando com força e alguns grupos de preços já começam a ensaiar quedas mais expressivas e até mesmo deflação. A recessão está derrubando tudo o que encontra pela frente.

Na manhã desta sexta-feira, o IBGE divulgou o penúltimo IPCA do ano. Em novembro, a inflação ficou em 0,18%, bem menor que a do mês anterior e apenas uma fração do 1,01% registrado um ano antes. Desde 1998, o índice não era tão baixo neste mês do ano. O acumulado em 12 meses recuou para 7%, menor patamar desde dezembro de 2014.

Com o recuo abriu-se a possibilidade de a inflação fechar 2016 contida sob o limite máximo (6,5%) da meta estipulada pelo Copom (Comitê de Política Monetária) para o ano, o que não acontece desde 2014. No ano passado, o IPCA foi o mais alto desde 2002, atingindo 10,67%. Nota-se a magnitude da queda ao longo dos últimos meses.

Um dos fatores que contribuíram para o arrefecimento da inflação, claro, foi a política de juros praticada pelo Banco Central. A taxa básica só começou a ser reduzida em outubro, mesmo timidamente. Com a manutenção da Selic na maior parte do ano, na prática o juro real foi sendo aumentado no país, esfriando ainda mais a demanda e, consequentemente, também a economia.

Mas o que mais explica o tombo da inflação é mesmo a crise. O desemprego segurou o consumo das famílias e a queda da demanda fez sua parte na lei de mercado, forçando os preços para baixo. Um exemplo são o item alimentos e bebidas, que há três meses apresenta deflação – 0,54% no acumulado desde setembro, com o maior recuo registrado em novembro.

Os prognósticos projetam quedas ainda mais acentuadas. Segundo a mais recente edição do Boletim Focus do BC, o IPCA deve fechar 2017 em 4,93%. No ritmo atual, as estimativas certamente irão cair mais e convergir com rapidez para a meta de 4,5% fixada pelo Copom. Isso irá descortinar uma enorme janela de oportunidade para a política monetária.

No início da semana, em ata sobre a reunião que decidiu pelo corte de 0,25 ponto percentual da Selic, o Copom havia registrado que o agravamento da crise econômica e a manutenção do desemprego em patamar cada vez mais elevado abriam caminho para quedas futuras maiores dos juros. Com os resultados do IPCA conhecidos hoje, isso tornou-se quase favas contadas já a partir de janeiro.

Claro que nem tudo é 100% certo. As dúvidas quanto ao que ocorrerá no cenário externo a partir de janeiro com o início do governo de Donald Trump permanecem, o que poderia afetar a cotação do dólar e, por tabela, os preços de bens e serviços importados. Mas, aparentemente, a inflação brasileira aquietou-se. Pode ser algum alívio para o brasileiro prosseguir sua luta cotidiana contra a recessão.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Por que os juros precisam cair mais

Uma das principais dificuldades da economia brasileira hoje é a falta de instrumentos para superar a recessão. Políticas que poderiam funcionar em outras circunstâncias não servem para a situação de terra arrasada que o país ora atravessa. Uma das poucas armas que restam é a redução da taxa básica de juros.

O Brasil mantém-se como o campeão do ranking mundial de juros. Com o tímido corte promovido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na semana passada, que reduziu a Selic para 13,75% ao ano, o país passou a ter uma taxa real, ou seja, já descontada a inflação, de 8,5%. Não há lugar algum do planeta em que haja qualquer coisa assemelhada a isso.

Segundo levantamento feito pela consultoria Infinity, a média dos juros reais nas 40 principais economias do mundo situa-se atualmente em 1,9% negativo. Segundo lugar na lista encabeçada pelo Brasil, a Rússia tem taxa real de 4,5%, isto é, quase a metade do patamar brasileiro. O espaço para sair cortando é imenso.

O que leva o Brasil a ter taxas tão absurdas é sua deprimente condição fiscal. A dívida pública como proporção do PIB vem em escalada nos últimos anos, com alta de cerca de 20 pontos desde 2013. País muito endividado é obrigado a pagar caro para captar recursos. Sem a aprovação da PEC da responsabilidade, com imposição de um teto para os gastos do governo, a trajetória corre risco de ser ainda mais explosiva.

Na realidade, o Copom encontra-se hoje diante de uma janela de oportunidade para baixar os juros. Desta vez, diferentemente do que aconteceu na gestão petista, não será necessário nenhum porrete. Isto porque, depois de anos indomada, a inflação caminha para ficar comportada e acomodar-se nos limites estabelecidos como alvo da política monetária, com perspectiva razoável de convergir para a meta já em 2017.

Crise mais braba e desemprego ainda em ascensão estão ajudando a segurar os preços. “O processo contínuo de distensão do mercado de trabalho e a desaceleração significativa da atividade econômica tendem a produzir desinflação que pode vir a ser mais intensa que a refletida nas expectativas de inflação medidas pela pesquisa Focus e nas projeções condicionais produzidas pelo Copom”, analisa ata divulgada nesta terça-feira pelo Banco Central.

Em estudo recente, Felipe Salto mostrou que, mesmo com a Selic estacionada, processo que durou 15 meses e só foi interrompido em outubro, a taxa real brasileira sofreu brutal aumento desde fins de 2015. A partir de setembro daquele ano, as expectativas de inflação começaram a declinar e apenas recentemente a taxa básica foi cortada, em 0,5 ponto percentual. Resultado: os juros reais aumentaram dois pontos neste período.

Isso significa que, à medida que a recessão foi sendo aprofundada, a política monetária foi se tornando mais restritiva, na contramão do que o país precisaria. Juros altos têm como consequência o represamento dos investimentos, a restrição do consumo e o encarecimento do crédito – todos, portanto, combustível para incinerar ainda mais uma economia em estado já anêmico.

Não se espera que agora o governo Michel Temer repita a política irresponsável e voluntarista levada adiante pela ex-presidente Dilma Rousseff entre 2011 e 2013. Naquela ocasião, com o consumo aquecido, o Banco Central foi forçado a reduzir a taxa básica – no que foi seguido, em especial, pelos bancos públicos – e impulsionou ainda mais a demanda numa economia que já estava com a oferta garroteada.

Era a fórmula com que a alquimia petista contava para manter a roda da atividade girando e para preservar na população a sensação de prosperidade que alimentaria a reeleição de Dilma. A consequência foi o descontrole da inflação – que em alguns meses bateu nos piores níveis desde o Plano Real, fechando em 10,67% no ano passado –, a implosão das contas públicas e a completa desestruturação da economia nacional.

Agora, com risco pequeno de alta do índice de preços e a certeza de que a crise caminha muito pior do que se previa, o remédio da queda dos juros tornou-se a mais sensata alternativa de política econômica à disposição do governo brasileiro. Enquanto as reformas não vêm, derrubar a Selic transformou-se na bala de prata que resta para começar a alvejar o monstro da recessão.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Cortar para crescer

Uma das maiores anomalias da economia brasileira são os juros. A esquisitice foi agravada nos anos recentes pelos governos petistas, cuja irresponsabilidade praticamente obrigou o Comitê de Política Monetária (Copom) a lançar as taxas para a órbita da lua. Está na hora de começar a trazê-las de volta à Terra.

Hoje, depois de 42 meses em alta e/ou manutenção, a Selic deve ser finalmente reduzida pelo Copom. Nesta decolagem, a taxa básica dos juros brasileiros praticamente dobrou, saindo de 7,25% desde a primeira elevação do ciclo vigente, em abril de 2013, para os atuais 14,25% ao ano, patamar em que está estacionada há 15 meses.

O Brasil continua firme na liderança isolada do ranking mundial de juros reais. Paga-se hoje para remunerar o capital no país 8,7% ao ano além da inflação projetada. Mesmo se o Copom for fundo na tesourada, o que não parece o mais provável, ainda praticaríamos taxas duas vezes maiores que as do segundo colocado da lista, a Rússia. O juro médio nas 40 principais economias do mundo atualmente é negativo em 1,9%, de acordo com o portal Moneyou.

O juro alto foi o antídoto possível para evitar que os preços não explodissem de novo no país sob o olhar plácido e leniente da ex-presidente Dilma Rousseff e sua equipe de alquimistas. Foi o tempo em que reinou a furada teoria de que um pouquinho mais de inflação não dói. Por pouco não só doeu como quase matou muita gente.

As taxas estratosféricas são também a contraface do vale-tudo fiscal que imperou nas gestões petistas, a gastança que o governo Michel Temer ora tenta conter com a aprovação do teto para as despesas federais – e contra o qual os irresponsáveis de anteontem se digladiam... Quanto mais o petismo torrava dinheiro, mais o torniquete dos juros teve que ser apertado. Pagamos todos nós.

As consequências, como não poderia deixar de ser, são perversas. Nos últimos 12 meses, o país gastou nada menos que R$ 420 bilhões com pagamento de juros da dívida. Isso dá quase 7% do PIB, conforme calcula Felipe Salto. No entanto, não fosse a política monetária mais apertada, talvez o país tivesse mandado para o espaço sua mais relevante conquista econômica em décadas: a estabilidade da moeda.

O Copom poderá decidir-se hoje mais tranquilamente pela queda da Selic porque agora as condições se apresentam mais benignas para o controle da inflação. Os preços dos alimentos, que azucrinaram o bolso dos consumidores nestes últimos anos, e dos serviços estão cedendo, a ponto de setembro ter registrado o menor IPCA para o mês desde 1998.

O corte de juros é medida necessária, mas não suficiente, para repor a economia do país nos trilhos do crescimento. Mas, dada a destruição que a irresponsável gestão petista promoveu, é preciso ir devagar com o andor. A contrapartida obrigatória será conter os gastos públicos, para o que a aprovação do teto de despesas é imprescindível.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Algum cenário benigno

As dificuldades da economia brasileira continuam imensas e, em muitos aspectos, como o desemprego, ainda tendem a piorar nos próximos meses. No entanto, já surgem aqui e ali perspectivas otimistas que prometem desanuviar o horizonte. É o caso da inflação e, consequentemente, dos juros.

Em relatório em que, a cada três meses, esmiúça o comportamento dos preços no país, o Banco Central passou a considerar a hipótese de que a inflação esteja começando a convergir para a meta definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) para os próximos dois anos. Felizmente, um dos itens que começam a ficar menos caros são os alimentos.

De acordo com o Copom, já no fim de 2017 a inflação oficial, medida pelo IPCA, poderia cair a 4,4% e, em 2018, poderia descer a 3,8%. Em ambos os casos, a meta anual é de 4,5%. Se confirmado, e ainda há muito chão até lá, será a primeira vez que isso acontecerá no país desde 2010. O desafio é grande: hoje, o índice de inflação acumulado nos últimos 12 meses está em 9%.

Com a inflação tendendo a ficar mais comportada, abre-se espaço para que o BC também comece a cogitar dar cabo de outra anormalidade brasileira: os juros jabuticaba que o país pratica. Começaram a pipocar previsões de que, já na reunião de outubro, a taxa básica, hoje em 14,25% ao ano, começará a cair, com a queda prosseguindo ao longo de 2017.

No passado recente, o BC comungou da crença furada de que um pouquinho mais de inflação não dói e manejou os juros com displicência, voluntarismo e irresponsabilidade. Deu no que deu: o resultado foi a explosão dos preços, que alcançaram as maiores altas em 20 anos, e uma política de juros artificialmente baixos que não se sustentou.

Para que o país caminhe de volta à normalidade agora, tudo dependerá, principalmente, do que acontecer com o outro lado da moeda, ou seja, com a política fiscal. A inflação só baixa e os juros só podem cair se o governo reverter o comportamento leniente e deletério que foi a marca das gestões petistas no trato das contas públicas e passar a frear seus gastos.

Por isso, será decisiva a capacidade do governo Michel Temer de aprovar no Congresso a imposição do teto para o crescimento das despesas públicas a partir de 2017. A medida foi transformada pela oposição petista em crime de lesa-pátria e vem sendo usada como arma eleitoral pelo país afora. Quem destruiu agora tenta de toda forma impedir a reconstrução...

Mas o tetracampeonato de rombos nas contas públicas, com déficits consecutivos entre 2014 a 2017, não deixa margem a dúvidas: é preciso disciplinar o crescimento dos gastos públicos, sem o que o país simplesmente afundará na quebradeira. A aprovação do teto é uma medida importante, que pode até ser melhorada em alguns aspectos no Congresso. Mas é absolutamente necessária para que o cenário fique realmente mais benigno doravante.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Juros ainda escorchantes

Salvo mudança repentina, não deve haver surpresas na reunião de hoje em que o Copom decidirá a taxa básica de juros que vigorará pelos próximos 45 dias. Isso não significa, porém, que o Brasil tenha voltado à normalidade em termos de política monetária. Continuamos sendo, neste quesito, o ponto mais afastado da curva em todo o mundo.

O Brasil ainda lidera, com folga, o ranking mundial dos juros. Segundo levantamento feito permanentemente pela consultoria Infinity Asset, a Selic garante hoje taxa real, ou seja, acima da inflação, de 7,6% ao ano. A Rússia, que ocupa a segunda posição na lista, pratica juro básico de 2,6%. Na média das 40 principais economias do mundo, o juro encontra-se em terreno negativo (-1,5%).

A taxa básica brasileira foi sendo catapultada ao nível atual tão logo Dilma Rousseff obteve sua reeleição. Foram sete altas seguidas até que a Selic chegasse aos 14,25% em que estacionou desde setembro do ano passado. O patamar é o mais alto desde agosto de 2006, ou seja, em quase dez anos. Tudo indica que deve ficar aí por mais algum tempo.

A alta cavalar dos juros seguiu-se à fracassada tentativa do governo petista de baixar as taxas na marra, logo no início do primeiro mandato de Dilma. O ato voluntarioso surtiu os piores efeitos, sendo o mais nefasto deles reavivar a inflação, que chegou à casa de dois dígitos. A subida da Selic buscou justamente reverter esta escalada.

Nenhuma economia minimamente organizada consegue conviver com juros nos níveis como os praticados atualmente no Brasil. Os gastos decorrentes ajudam a destroçar as contas públicas, como tem acorrido. Nos últimos 12 meses, as despesas com juros praticamente dobraram e atingiram 9% do PIB. Isso dá R$ 540 bilhões. Para comparar, o valor equivale a quase 20 anos de Bolsa Família.

Os juros são hoje o remédio amargo que a política monetária dispõe para segurar a inflação, ainda na casa dos 10% anuais. A tarefa é dificultada porque a outra ponta da política econômica, a fiscal, colide contra os objetivos da estabilidade, ao continuar impulsionando os gastos do governo.

Por razões nada venturosas, a inflação brasileira começou a dar mostras de que pode ceder nos próximos meses. Os preços pararam de subir porque a recessão tirou dinheiro do bolso dos brasileiros, freou o consumo e obrigou empresas e comércio a baratearem seus produtos. Ao mesmo tempo, a alta das tarifas públicas estancou. Pouco a ver, portanto, com algum sucesso da política de juros altos.

O novo governo que começa a ser formado tem como missão resgatar o Brasil para o terreno da normalidade, em que os juros não esfolem a atividade produtiva e sabotem o êxito de qualquer política econômica. Não se pode perder de vista, porém, a imperativa necessidade de trazer a inflação de volta à sensatez dos limites do sistema de metas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O PT enquadra o BC

Alexandre Tombini achou no relatório do FMI o pretexto que buscava para baixar a cabeça para o Planalto e, pior ainda, fazer o que o PT quer: afrouxar as políticas de combate à inflação e abrir caminho para a volta da falida “nova matriz econômica”.

Ontem, numa atitude sem precedentes, o presidente do Banco Central adiantou o movimento que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve fazer hoje, ao definir a nova taxa básica de juros. As apostas passaram de um quase consenso em torno de um aumento de 0,5 ponto percentual para uma alta menor ou mesmo a manutenção da Selic.

Tombini disse, num comunicado curto, que considerou “significativas” as revisões das projeções de crescimento do PIB brasileiro divulgadas ontem de manhã pelo FMI. Afirmou, ainda, que tais informações seriam “consideradas nas decisões” tomadas pelo Copom.

A manifestação veio após o FMI revisar muito para baixo suas projeções para o crescimento do país neste e no próximo ano e jogar sobre o Brasil a responsabilidade de ser um dos principais fatores de desaceleração da economia global. 

A estimativa para este ano é agora de uma queda de 3,5%, ante previsão de recessão de 1% feita em outubro. Para 2017 descartou-se a chance de crescimento, antes estimado em 2,3% e agora igual a zero.

O que o FMI agora diz ter visto com cores mais sombrias, os agentes econômicos brasileiros já vêm percebendo há tempos – no Boletim Focus desta semana, a queda deste ano é projetada em 3%. Será que só agora Tombini resolveu considerar que a economia brasileira está embicada para baixo de forma “significativa” e duradoura, numa mistura tóxica de recessão e inflação em alta?

Importa menos a decisão em si que o BC vai tomar no fim da tarde de hoje sobre os juros. O realmente sério e grave é a sinalização inequívoca de que quem deveria zelar pela inflação mais baixa – este é o mandato que cabe à autoridade monetária – baixou a cabeça e aceitou o cabresto de gente que levou o país ao desastre atual.

Foram as políticas ruinosas de Dilma, seguindo a linha ditada por Lula, e a leniência do BC que permitiram a decolagem da inflação nos últimos anos. Desde 2009 a meta não é cumprida, até que chegamos ao estouro espetacular do ano passado. Vencer a carestia foi objetivo sempre postergado pelo BC para o ano seguinte, e nunca conquistado. Por longo prazo a perspectiva é de preços em forte alta no país.

O temor é de que a possível manutenção dos juros hoje seja o passo inaugural da volta à política malfadada de incentivo irresponsável ao crédito e de impulsos artificiais ao consumo cujo resultado foram preços galopantes, recessão prolongada, desemprego e crise social. É o que o PT anseia e pelo que boa parte do governo torce. O Banco Central conseguiu alinhar-se completamente ao restante da gestão petista: rifou de vez a sua credibilidade.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Páginas amareladas

Durou pouco a tentativa do governo de virar, na marra, a página das más notícias. A maré negativa continua, numa sucessão de resultados ruins, políticas desencontradas e prognósticos desalentadores. O país embicou numa espiral descendente difícil de ser revertida e não será com saliva que escapará do pior.

Nos últimos dias, o governo petista vem enfileirando anúncios e solenidades públicas na expectativa de que sejam suficientes para mudar o cenário. Mas a marca do improviso e da inconsistência levam as iniciativas a efeitos ridículos e alcance limitado. Passados alguns dias, revelam-se como são: inócuas.

O novo plano de concessões, apesar de ser uma ação na direção correta, tem tantos senões que é difícil crer que atinja as metas ambiciosas que foram traçadas – tão ambiciosas quanto programa quase idêntico lançado três anos atrás sem, no entanto, alcançar praticamente nenhum êxito.

Depois vieram o plano agrícola, o programa de agricultura familiar e, ontem, mais uma investida destinada a reanimar as exportações, recheada de medidas requentadas e promessas muitas vezes repetidas e jamais cumpridas. Na prática, o país está cada vez mais fechado ao comércio internacional.

Em contraposição a estas investidas de caráter mais propagandístico do que efetivo, as más notícias econômicas se sucedem.

A perspectiva da recessão se agrava, a inflação ronda seu maior nível em quase duas décadas, o desemprego exibe a pior marca em 23 anos e a renda do trabalhador derrete. É bem mais que a mera “ressaca” apregoada por Joaquim Levy. Em tudo Dilma Rousseff vai fazendo lembrar Fernando Collor de Mello...

Agora até o Banco Central prevê queda de mais de 1% do PIB (o que é pouco diante de outras estimativas mais realistas e bem menos generosas), inflação de 9% e, para impedir que os preços subam ainda mais, novas altas das taxas de juros – os aumentos da Selic determinados desde a eleição já foram suficientes para aumentar o custo da dívida pública em R$ 38 bilhões por ano.

Além de ver frustrados os planos para derrubar a inflação e retomar o crescimento – que sabe-se lá quando virão – o governo também toma um baile no ajuste fiscal. Bem mais cedo do que se pensava, já cogita jogar a toalha e cortar pela metade a meta de superávit traçada para este ano, além de diminuir bastante os objetivos fiscais para 2016 e 2017.

Será realmente difícil o governo do PT virar o jogo. O país não vive uma mera crise conjuntural. O Brasil está estruturalmente danificado pelos remendos que foram sendo feitos nos últimos anos e pelos descaminhos trilhados irresponsavelmente. Não basta passar a página; será preciso fechar o livro e começar uma nova história.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Malvada inflação

Dilma Rousseff pode até querer virar a página da crise na marra, mas não há boa vontade que resista à escalada de preços que vitima os brasileiros. A despeito das seguidas pancadas nos juros, a inflação não cede, numa clara indicação de que a profilaxia não está conseguindo debelar o descontrole.

Divulgada ontem pelo IBGE, a inflação de maio foi a mais alta para o mês desde 2008, chegando a 0,74%. No acumulado em 12 meses, alcança agora 8,47%, patamar que não atingia desde o longínquo dezembro de 2003. Aonde isso vai parar, ninguém é capaz de saber.

Decomposta, a inflação revela-se perversa. Sobem muito os preços dos alimentos e as tarifas – as de energia já aumentaram 42% neste ano e 58% nos últimos 12 meses. Os preços que o governo controla ficaram 14% mais altos desde janeiro, tarifaço como há muito não se via. Está difícil morar, comer e se deslocar, resumiu uma técnica do IBGE.

Quem mais sofre é quem menos pode pagar. Em pelo menos três capitais (Rio, Curitiba e Goiânia), a inflação para famílias de menor renda já supera 10% nos últimos 12 meses. Em cada dez itens, sete estão subindo de preço. Se isso não é descontrole, o que mais pode ser?

Segundo pesquisa do Ibope, divulgada por O Estado de S. Paulo, 56% dos brasileiros consideram a inflação o principal sintoma da crise econômica atual. Infelizmente, é possível que em pouco tempo o desemprego dispute com a carestia o lugar de maior fonte de dor de cabeça da população.

Depois do resultado de ontem, as apostas repousam em novas rodadas de altas nas taxas de juros. Na prática, a receita não tem funcionado: quando o Copom iniciou o aumento da Selic, em outubro, a inflação estava em 6,6%; agora chega a 8,47%, a despeito da elevação de 2,75 pontos no período.

Falta salário e sobram dias no fim de cada mês dos brasileiros. Para enfrentar as dificuldades, a saída tem sido avançar nas economias. Nos últimos cinco meses, foram sacados R$ 32 bilhões das cadernetas de poupança. É a corda que aperta o pescoço e a crise que castiga o bolso.

Os brasileiros se acostumaram a ver a presidente da República repetir exaustivamente na eleição passada que a inflação estava “sob controle”. Também se cansaram de vê-la dizer que seu governo se notabilizara por ter promovido “a maior redução de tarifas da história”. Mentira atrás de mentira.

Dilma se diz agora “preocupada” em derrubar a inflação. Brincou com fogo e acabou ferindo todos os brasileiros. A irresponsabilidade desta gente parece não ter limites. Nos supermercados da vida, pagamos todos nós.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Economia intoxicada

A economia brasileira vive hoje sob os efeitos tóxicos da farra que o PT promoveu nos últimos anos a fim de esticar sua estadia no poder federal. Os desequilíbrios são de variadas ordens, vitimam a produção e, cada vez com mais força, o emprego.

Os remédios administrados por Dilma Rousseff e sua equipe neste segundo mandato já conseguiram congelar a atividade produtiva, deprimir o mercado de trabalho e desestimular tanto o investimento quanto o consumo. Só não lograram êxito em tourear a inflação e reavivar a confiança na recuperação do país.

Na semana passada, mais uma dose do veneno que a equipe da presidente injeta na economia foi aplicada. O Banco Central determinou mais uma alta na taxa básica de juros, a sexta consecutiva após as eleições. Pratica-se agora o mesmo nível da época da crise econômica global de 2008/2009.

A Selic, que ficou estacionada em 11% ao ano durante toda a campanha eleitoral, desde então já saltou para 13,75%. Ninguém acredita que pare aí, consolidando o Brasil na condição de país que pratica as mais altas taxas em todo o mundo – a segunda colocada, a Índia, opera com praticamente a metade do nosso juro real.

Não é o BC que está errando em persistir nesta anomalia. É a economia brasileira que, levada pelos petistas pela mão, se embrenhou em um beco sem saída, em que a produção cai, o desemprego aumenta e a inflação não cede. Trata-se do modelo econômico de proveta que tornou o Brasil caso quase ímpar no mundo.

Os efeitos nefastos do arrocho estão visíveis por toda parte. No mesmo dia em que o BC decidiu aumentar a Selic, o IBGE revelou que o desemprego continua sua marcha batida ascendente. Medida no trimestre terminado em abril, a taxa média já chega a 8%, a mais alta desde 2012.

No detalhe, o quadro é ainda mais assustador. O exército de desempregados cresceu 1 milhão em um ano; o de trabalhadores por conta própria também aumentou na mesma magnitude. O mercado de trabalho está cada vez mais precário.

A inflação que os juros buscam, mas não conseguem, aplacar é a mesma que corrói os salários dos trabalhadores. Em abril, mês em que tradicionalmente o mercado de trabalho reagia, a renda média caiu 0,4%, e vai continuar a mergulhar.

Um governo que se notabilizou por torrar irresponsavelmente o dinheiro público – que agora escasseia até mesmo para ações sociais – se vê sem alternativas sadias para conquistar uma credibilidade de que não dispõe. Juros são das poucas armas que lhe sobram, ainda que letais. Resta saber quem vai ficar pelo caminho e quem vai sobreviver.

sábado, 9 de maio de 2015

Está dura a vida

Está dura a vida no Brasil e, possivelmente, vai ficar pior. Políticas e iniciativas do governo tendem a tornar a sobrevivência ainda mais custosa, o emprego bem mais difícil, o dia a dia muito mais penoso. É a inflação que não cede, a fila do desemprego que cresce e o custo do dinheiro mais alto a cada dia, no mesmo momento em que a gestão do PT faz avançar seu arrocho recessivo.

A inflação brasileira alcançou em apenas quatro meses a meta prevista para o ano todo. Segundo divulgou o IBGE nesta manhã, até abril o custo de vida no país subiu 4,56%, acima, portanto, da meta de 4,5% fixada para 2015. É a mais alta para o primeiro quadrimestre desde 2003.

Neste ano, assim como aconteceu nos últimos quatro, novamente a política econômica irá fracassar em baixar os índices de preços no país. O Banco Central, mais uma vez, promete ter sucesso no combate à carestia – só que, agora, apenas no fim de 2016...

A meta, na realidade, transformou-se em peça de ficção. Nos últimos 12 meses, os preços ficaram 8,17% mais altos em média no país, depois da alta de 0,71% registrada em abril. É a inflação do choque elétrico: a alta da energia – aquela que Dilma Rousseff e o PT diziam que ficaria baratinha – acumula aumento de 60% em um ano.

O remédio amargo para a carestia tem sido o venenoso elixir dos juros elevados. Desde o fim do ano passado, a taxa real tornou-se a mais alta do mundo e deve subir ainda mais, de acordo com o que comunicou o Banco Central por meio da ata relativa à reunião do Copom realizada na semana passada, quando a Selic – aquela que Dilma e o PT juravam que não subiria – sofreu seu quinto aumento seguido e foi a 13,25% ao ano. É “o aperto mais intenso em dez anos”, analisa o Valor Econômico.

Esta combinação tóxica deprime a atividade econômica, afasta investimentos, freia a produção e, pior de tudo, gera desemprego. Ontem o IBGE divulgou que a situação do mercado de trabalhou brasileiro piorou bastante no primeiro trimestre deste ano, e todas as análises apontam para um horizonte ainda mais grave doravante.

A taxa de desemprego atingiu 7,9% no trimestre até março. O índice médio – o mesmo que Dilma e o PT afirmavam que era “o mais baixo do mundo” – já é superior ao de economias que até outro dia estavam na lona. Em casos específicos, como no Nordeste, é ainda mais elevado. Desde dezembro, o contingente de desocupados aumentou 1,5 milhão.

A única resposta que o governo do PT tem a dar a este desarranjo que ele próprio criou é o arrocho recessivo, com perda de direitos trabalhistas, corte de benefícios previdenciários, aumento de impostos e alta de tarifas públicas. Com o torniquete cada vez mais apertado, a asfixia caminha para tornar-se mortal.

sexta-feira, 6 de março de 2015

De volta ao topo do mundo

Até pouco tempo atrás, a inflação não era considerada problema e, segundo o discurso oficial repetido pela presidente Dilma Rousseff, estava “sob controle”. Desde que a eleição acabou, ficou claro que não era nada disso e o governo foi forçado a ministrar o remédio amargo dos juros altos para tentar aplacar os preços em disparada.

Ontem, o Banco Central determinou a quarta alta seguida na taxa de juros para conter a carestia. Desde o fim de outubro, a Selic passou de 11% para 12,75%. Está no mais alto patamar desde o de janeiro de 2009, época em que o mundo inteiro estava mergulhado na mais brava crise econômica em décadas.

Naquela ocasião, a taxa brasileira vinha caindo; agora sobe. O céu é o limite. A previsão, baseada no teor do comunicado emitido ontem pelo BC, é de pelo menos mais uma alta na próxima reunião do Copom, que acontece nos dias 28 e 29 de abril. A dose deve variar de 0,25 a 0,5 ponto percentual.

O país voltou ao topo do ranking de juros reais do mundo, posição que durante três meses perdera para a Rússia. Segundo a consultoria Moneyou, a taxa brasileira é agora de 5,28% acima da inflação, uma jabuticaba em meio ao resto do planeta, onde, na maioria dos casos, os juros estão no terreno negativo.

Neste ano, de 91 economias em todo o mundo só 10 subiram a taxa de juros. O Brasil está na má companhia de Namíbia, Trinidad e Tobago, Geórgia, Quirguistão, Mongólia, Armênia, Bielorrússia, Moldávia e Ucrânia.

Economias que, em tese, concorrem diretamente com o Brasil fazem o oposto do que estamos fazendo. Ontem, enquanto o Banco Central do PT aumentava a taxa básica brasileira, os da China e da Índia cortavam as suas.

Com mais esta alta, o Brasil caminha para torrar cerca de 7% do seu PIB com pagamento de juros. No ano passado, foram R$ 311,4 bilhões. Esta montanha de dinheiro equivale a 12 anos de Bolsa Família. A dívida pública, que cresceu dez pontos do PIB nos últimos quatro anos, vai ficar ainda mais cara.

No entanto, esta enormidade não tem surtido efeito para cumprir sua principal missão: aplacar a inflação. A despeito da forte alta dos juros, as projeções para os índices só aumentam e agora já se aproximam de 8% para este ano, quase o dobro da meta.

Juros altos são sintoma mais evidente de economia adoecida. Tendem a frear (ainda mais) a atividade produtiva e a esfriar (ainda mais) o mercado de trabalho. O remédio amargo busca, até agora sem sucesso, aplacar a carestia, que é maior sobre as famílias mais pobres, dado o tarifaço e a disparada dos preços dos alimentos. Não há nada sob controle.