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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Baixa diplomática

O governo Michel Temer perdeu ontem seu oitavo ministro. Foi, porém, a baixa mais significativa sofrida nestes nove meses de gestão. Neste curto espaço de tempo, José Serra reorientou a política externa brasileira e ajudou a reatar o país ao mundo. Fará muita falta à atual administração federal.

Em carta divulgada ontem, o chanceler informou que deixou o cargo para cuidar da saúde. Problemas na coluna vinham dificultando sua agenda, calcada necessariamente numa exaustiva rotina de viagens de longa duração pelo mundo afora. Em dezembro, Serra passou por cirurgia que deveria ter sido seguida de tratamento rigoroso, feito, contudo, de modo insatisfatório nas últimas semanas.

Passados apenas nove meses, o Itamaraty é outro em relação ao que existia no governo petista. Nossa diplomacia abandonou a política de anos de alinhamento a regimes autoritários e bolivarianos, como Venezuela e Cuba, e voltou suas atenções às economias mais dinâmicas do globo. Além disso, imprimiu mais ímpeto à integração regional no âmbito do Mercosul.

O principal lance deste período foi a decisão, capitaneada pelo chanceler brasileiro, de punir o governo venezuelano com a suspensão do bloco regional, ao qual aderira em agosto de 2012. Sem cumprir mais de 200 cláusulas e 40 acordos nestes quatro anos, e, em especial, por reiteradas agressões a princípios democráticos, a Venezuela foi afastada provisoriamente do Mercosul em dezembro passado.

O foco da gestão Serra foi reavivar a agenda de integração global e de promoção comercial do Brasil no exterior. Em sua última viagem como ministro das Relações Exteriores do Brasil, à Alemanha na semana passada, Serra buscou estreitar relações com o novo governo norte-americano. Também duplicou esforços para acelerar o acordo de livre-comércio que, há quase duas décadas, Mercosul e União Europeia cozinham sem chegar a bom termo.

Nestes nove meses, o Itamaraty também ganhou novo protagonismo na área de promoção comercial do país no exterior. Com a Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) agora incorporada à estrutura do ministério, em agosto passado Serra lançou o programa “Be Brasil”, voltado a atrair investimentos estrangeiros para o país para ajudar na retomada do crescimento e na geração de empregos aqui.

A gestão Temer perde muito com a saída de José Serra, o mais preparado dos quadros que compõem o atual governo. Em compensação, poderá dispor do espírito público do agora ex-chanceler na aprovação e discussão da pesada agenda de reformas estruturais que precisam ser apreciadas pelo Congresso nos próximos meses. À nossa diplomacia, restará perseverar na boa trilha que o então ministro tucano apenas teve tempo de inaugurar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A praga do protecionismo

Donald Trump não levou muito tempo na cadeira para começar a cumprir algumas das promessas que o levaram a eleger-se presidente dos Estados Unidos em novembro. Pior que assim seja. Algumas destas iniciativas representam retrocessos lamentáveis na marcha de integração global.

No discurso com que tomou posse como 45° presidente norte-americano, o republicano não deixou dúvidas sobre a que veio: o lema de seu governo será “a América primeiro”. Quase não se viu traços de líder global, papel que naturalmente cabe ao chefe da nação mais poderosa do planeta, nos seus pouco mais de 16 minutos de fala na sexta-feira.

Nos dias inaugurais de sua gestão, Trump frustrou os que esperavam que suas bravatas tivessem estancado com o fim da campanha eleitoral. E brindou à altura eleitores que esperam dele o máximo de ousadia em levar adiante um coquetel de ações voltadas a refrear o viés mais liberal que marcou os anos recentes.

Em especial, é muito negativa a decisão, tomada na segunda-feira por meio de decreto, de retirar os EUA da negociação da Parceria Transpacífica, atualmente em tramitação. Trata-se da criação da maior área de livre comércio do mundo, envolvendo 12 países, entre eles o Japão e a Austrália, e 40% do PIB global.

Sem os americanos, o chamado TPP ficará fadado ao fracasso – a menos que se confirme a sua substituição no acordo pela China, no que seria uma reviravolta capaz de abalar a geopolítica mundial atual.

Para o Brasil, as primeiras consequências podem ser positivas. Mas pelo lado negativo da questão. Se a iniciativa liberalizante do TPP prosperasse, o país, que há mais de uma década enredou-se numa política externa anti-integração, veria estreitar-se ainda mais seu espaço comercial no mundo. Sem ela, resta alguma margem – pequena, porém.

Mais protecionismo, como o fim do TPP tende a exprimir, representa menos comércio, menos negócios, menos geração de riqueza, trabalho e bem-estar. A agenda do isolacionismo nacionalista, como a que norteia a política de Trump, está na raiz de debacles econômicas, como a experimentada atualmente pelo Brasil.

Mais protecionismo redunda também em menos negócios externos. Para o Brasil, particularmente ruim, posto que dos EUA provêm cerca de 20% dos investimentos estrangeiros diretos feito aqui – que neste ano devem cair algo como 11%, voltando ao nível de 2013, de acordo com previsões constantes do Boletim Focus do Banco Central.

Um mundo mais fechado, como a saída do Reino Unido da União Europeia também expressa, não interessa – ou pelo menos não deveria interessar – ao Brasil. Hoje somos um anão no conserto global das nações – com participação de pouco mais de 1% no comércio mundial – em função da política externa tacanha que vigorou no país na era petista. O cenário atual torna um pouco mais complicado o desafio de nos reconectar ao mundo.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Democracia em bloco

A diplomacia brasileira vem travando árdua batalha pela ressurreição do Mercosul e pela reinserção do país no concerto mundial. Sob o PT, o Brasil orientou sua política externa para parcerias ideológicas de gosto duvidoso, para dizer o mínimo, e de resultados geopolíticos e econômicos pífios, para dizer a verdade.

Nos últimos anos, o Brasil isolou-se ainda mais do resto do mundo, perdeu terreno na integração entre as cadeias produtivas globais, privilegiou a ideologia em detrimento do interesse nacional. Em suma, abandonou as melhores tradições de nossa diplomacia para fazer política partidária rastaquera.

Apesar de ser a oitava maior economia do mundo, o Brasil é hoje apenas o 26° principal exportador, atrás até de países como a Polônia, conforme a mais recente edição do World Fact da CIA. Nossas exportações, de acordo com o Banco Mundial, equivalem a 14% do PIB, neste quesito à frente apenas da Nigéria numa lista de quase 200 países – a média latino-americana é de 24%.

Uma das manifestações mais evidentes da orientação improdutiva que o Brasil deu à sua política externa nos últimos anos está na relação com os países ditos “bolivarianos”, com a Venezuela à frente. Sua contribuição ao nosso comércio exterior foi nula; seu principal aporte à nossa diplomacia foi o atraso.

As estatísticas expressam os retrocessos do Mercosul em termos econômicos sob os governos do PT. Desde o início desta década, a corrente de comércio entre o Brasil e o bloco caiu 25%, retrocedendo ao nível de oito anos atrás. Neste ano até julho, nossas exportações para os parceiros da região caem mais 5,6%.

Sob novos ares, o Itamaraty está lutando para se livrar deste esfacelamento. Em primeiro lugar, a gestão do chanceler José Serra vem pretendendo que o Mercosul recupere seu vigor e passe a funcionar como alavanca de desenvolvimento regional e não como pesada âncora que impede a maior integração dos países do bloco ao resto do mundo.

Em segundo, em honra aos valores republicanos que sempre orientaram a atuação da diplomacia brasileira no concerto das nações, defende, acima de tudo, o respeito à democracia e aos direitos humanos. Sendo assim, confronta-se com o que acontece na Venezuela bolivariana, ainda sob o jugo do chavismo. Neste particular, tenta, acertadamente, impedir que Nicolás Maduro assuma a presidência pro-tempore do bloco.

A alegação é simples: nestes dez anos desde que, em julho de 2006, assinou sua adesão ao bloco, a Venezuela simplesmente não cumpriu boa parte das cláusulas e condicionantes acordadas, entre elas a defesa dos direitos humanos, o respeito à democracia e a regras de livre comércio e funcionamento de mercados. Não goza, pois, de plenos direitos para exercer as prerrogativas que deveriam lhe caber. Para o bem do Mercosul.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Brexit: Sem saída

Na última quinta-feira, o mundo amanheceu diferente. A decisão tomada pelos ingleses de abandonar a União Europeia terá efeitos importantes sobre a economia política global, sem poupar o Brasil. Desperdiçamos tempo demais descolados do resto do mundo e teremos dificuldades maiores agora para recuperar oportunidades perdidas.

O fato em si foi surpreendente: em plebiscito, 52% dos ingleses votaram pela saída do Reino Unido do bloco ao qual estavam atados desde 1973. A economia inglesa é a segunda mais relevante da União Europeia, por sua vez o segundo principal destino das exportações brasileiras, com cerca de 18% do total, pouco abaixo da China.

As consequências da decisão histórica, contudo, ainda são de difícil mensuração. O primeiro efeito visível é que a onda de rejeição a estrangeiros e a aversão a movimentos globalizantes podem tornar-se ainda mais fortes e resvalar em outros países. É possível que França, Holanda e Itália, entre outros, também submetem a sua continuidade na UE a votações populares. São as dores da democracia.

A ressaca também pode bater do outro lado do Atlântico e impulsionar a campanha de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. A mesma retórica xenófoba ancora a plataforma do candidato do Partido Republicano à Casa Branca. Um mundo com portas mais cerradas não pode ser bom para ninguém, tampouco para o Brasil.

Os interesses brasileiros tendem a ser diretamente afetados pelo Brexit, alcunha pela qual a decisão dos ingleses pela saída da UE ficou conhecida. Há anos a nossa diplomacia está sentada em cima de um acordo comercial com o bloco europeu, sem sair do lugar. A oportunidade pode estar agora bastante comprometida.

Na última década, a política externa brasileira baseou-se em muita ideologia e pouca visão de longo prazo. Em favor de uma tão difusa quanto ilusória identidade cultural, demos as costas a nações mais ricas e voltamo-nos a países cujos governos tinham viés político alinhado ao berço histórico do Partido dos Trabalhadores, sem deixar de lado ditaduras tão corruptas quanto endinheiradas na África.

A consequência desta política externa foi o isolamento do Brasil perante o polo dinâmico da economia mundial. Nossas empresas perderam seguidas chances de se conectar com cadeias globais de produção, com efeitos que hoje qualquer um percebe: nossa economia está embicada na mais severa recessão de sua história e o setor mais dinâmico, a indústria, amarga o pior retrocesso de décadas.

O que o Brexit nos ensina é o custo que decisões equivocadas podem ter para o futuro das nações. No caso brasileiro, desperdiçamos um dos maiores momentos de bonança da história e não nos preparamos para um mundo de animosidades – políticas, econômicas e culturais – crescentes. Será bem mais difícil entrar agora onde só há portas se fechando.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Brasil de volta ao mundo

A diplomacia brasileira respira novos ares. Com a posse do ministro José Serra no Itamaraty, o Brasil retoma laços com o mundo e reorienta sua política externa no sentido do desenvolvimento. Temos no horizonte a perspectiva de abandonar a postura ideológica que, nos últimos anos, reduziu o país a papel secundário no concerto das nações. Voltamos a pensar grande.

A nova política externa do país estará alicerçada em dez diretrizes elencadas ontem pelo novo chanceler em seu discurso de posse no Ministério de Relações Exteriores. Há um imenso atraso, fruto da orientação populista, bolivariana e retrógrada que prevaleceu nos últimos anos, a ser superado. Tarefa gigantesca, mais uma das heranças malditas legadas pelo petismo à nova gestão do país.

Nos primórdios do governo Lula, nossa diplomacia foi direcionada a servir como contraponto “de esquerda” à gestão conservadora que o PT foi obrigado a fazer na condução dos assuntos internos. À ortodoxia econômica correspondeu o alinhamento, no exterior, a causas, governos, plataformas e discursos historicamente próximos ao petismo. Mas o que era para ser só pantomima acabou indo longe demais e, durante 13 anos, afastou o Brasil das melhores vertentes.

As ambições internacionais do país foram direcionadas a atender muito mais ao projeto político petista do que aos interesses nacionais. A diplomacia companheira flertou abertamente com ditaduras e promoveu negócios com regimes autoritários. Acabou se revelando instrumento para os interesses escusos dos governos Lula e Dilma, como o petrolão deixou evidentes com os contratos azeitados por dinheiro barato do BNDES financiando empreiteiras amigas no exterior.

Politicamente, a gestão petista no Itamaraty optou por tecer uma espécie de aliança do atraso com países do quilate da penumbrosa Venezuela, Bolívia, Equador e a Argentina sob a dinastia dos Kirchner. Em paralelo, demos as costas para iniciativas comerciais francamente voltadas a gerar mais riqueza e empregos para as populações envolvidas, como a Aliança do Pacífico. O acordo com a União Europeia passou mais de década congelado.

Nestes anos de pasmaceira comercial e de atraso diplomático, o Brasil viu reduzida a sua participação no comércio mundial. Também se notabilizou por se tornar a nação mais fechada numa lista de 176 países acompanhados pelo Fórum Econômico Mundial. Perderam nossas empresas, isoladas das cadeias globais, e nossos trabalhadores, menos produtivos e, por isso, com maiores dificuldades de competir mundialmente.

A agenda apresentada ao país ontem pelo ministro Serra busca recolocar o Brasil nos trilhos. Advoga o primado dos interesses nacionais sobre a ideologia e o partidarismo. Defende a democracia e as liberdades, sem contemporizar com ditaduras e autoritarismos. Acena com a necessária reativação da política comercial brasileira como ponta do novelo da retomada do crescimento econômico interno.

Sob a nova direção, o Itamaraty buscará fechar, num esforço conjunto com os setores produtivos nacionais, acordos bilaterais de comércio que liberalizem as trocas e abram mercados para produtos brasileiros no exterior. O Mercosul terá de deixar de ser uma trava para tornar-se alavanca nesta estratégia, em parceria com a Argentina, governada agora também sob novo viés.

Numa síntese, expressa nas palavras do novo ministro ontem: “A diplomacia do século 21 não pode repousar apenas na exuberância da retórica e no tom auto laudatório dos comunicados conjuntos. Precisa ter objetivos claros e ser a um só tempo discurso político e resultado concreto.”

O papel que se antevê da diplomacia brasileira nesta nova conjuntura certamente estará à altura da imagem que os brasileiros gostariam que fosse projetada pelo país perante o resto do mundo. Pela relevância política e econômica que preza, o Brasil deve estar ao lado dos líderes e não na segunda classe à qual foi relegado pela política miúda do PT. Agora é hora de decolar.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A ver navios transpacíficos

O acordo fechado nesta semana entre os EUA e mais 11 países banhados pelo Oceano Pacífico revela quão isolado o Brasil está do resto do mundo. Depois de perder o bonde da história, o país fica agora a ver navios do comércio internacional, alijado em razão de uma política externa de viés ideológico, protecionista e ensimesmada.

A Parceria Transpacífico (ou TPP na sigla em inglês) reunirá 40% do PIB mundial, num mercado formado por quase 800 milhões de consumidores. Além dos EUA, integram o bloco Japão, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, México, Chile, Peru, Malásia, Cingapura, Brunei e Vietnã. Também devem aderir em breve Taiwan, Filipinas e Coreia do Sul.

As tarifas de 90% dos bens comercializados entre eles cairão a zero. O acordo também harmoniza regulamentos em diversas áreas, como tecnologia, investimentos, social, trabalhista, ambiental e sanitária. Quem estiver fora desta imensa área de convergência tende a ver os bens e serviços que produz perderem clientes.

De cara o Brasil verá o mercado para seus produtos no exterior – que já vem minguando, com queda de 19% na nossa corrente de comércio neste ano até agosto – se encolher ainda mais. Estima-se que o TPP reduza as exportações brasileiras em pelo menos 2,7%, segundo estudo da FGV.

Um terço das exportações brasileiras de manufaturados vai hoje para países do TPP e metade das vendas externas do agronegócio brasileiro seguem para a Ásia. Ambas tendem a ser especialmente afetadas e severamente reduzidas.

O TPP exigiu trabalho e dedicação. Levou oito anos para ser negociado e representa também um lance ousado de geopolítica. Seu objetivo mais evidente, além de catapultar o comércio naquela área do globo, é bloquear os avanços da China. A onda da globalização desloca-se para o Pacífico, escreve Marcos Sawaya Jank na Folha de S.Paulo.

Note-se que três de seus membros (Chile, México e Peru) também já haviam firmado a Aliança do Pacífico, bem aqui do nosso lado. O quarto integrante deste bloco latino-americano, a Colômbia, também se prepara para ingressar no TPP. Enquanto isso, o que fez o Brasil?

Sob o PT, o país amarrou-se ainda mais ao carcomido Mercosul, ocupando-se de engrossar o bloco sub-regional com o ingresso de potências econômicas como a Bolívia (onde há dois anos não tínhamos sequer embaixador) e a Venezuela (o país que terá uma das maiores recessões no mundo neste ano). Para comparar: enquanto o Mercosul movimenta trocas de US$ 50 bilhões, os países do TPP comercializam entre si US$ 2 trilhões anuais.

Além disso, também a negociação de um acordo de comércio com a União Europeia arrasta-se desde o fim do século passado, longe de chegar a bom termo – apenas para recordar, uma das razões para os fracassos foi a recusa da Argentina de Cristina Kirchner de apresentar suas propostas, bloqueando todo o bloco. Os europeus entabulam um acordo com os EUA, o que, uma vez concluído, fechará de vez as portas do comércio global para o Brasil.

Nos últimos anos, o governo brasileiro fechou apenas três acordos comerciais, com Egito, Palestina e Israel. A participação do país no comercial internacional é cadente e deve diminuir ainda mais, caindo abaixo de 1%. Além disso, como mostrou o recém-publicado ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial, o Brasil tem uma das três piores relações entre exportações e PIB em todo o mundo.

O produto brasileiro vem perdendo competitividade, dada a baixa produtividade e os insanáveis problemas de infraestrutura, logísticos e regulatórios internos. A orientação dada pelos governos petistas à política econômica e de comércio exterior apartou o país do resto do mundo e afastou nossas empresas das cadeias globais de produção. Com o TPP, evidencia-se o que tem sido percebido a olhos vistos: o Brasil transformou-se num pária no mundo.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Bric-à-brac

Não deixa de ser positiva a iniciativa de Brasil e mais quatro países de criar instituições que atendam a interesses dos chamados Brics, o acrônimo com que o mundo financeiro batizou o grupo emergente formado também por Rússia, Índia, China e África do Sul. Pelo menos sugere que nossa política externa ensaia deixar o estado de estupor em que mergulhou nestes últimos anos.

O risco, contudo, é de que a investida que resultou na criação do Novo Banco de Desenvolvimento e de uma reserva de contingência de US$ 100 bilhões para socorrer economias em apuros não passe de mais um lance de megalomania. Nossa diplomacia tem se mostrado mais afeita a lances mirabolantes do que a produzir resultados efetivos.

Algo sugere que o gosto por holofotes e por uma grandiosidade artificial se fez presente nestes dois últimos dias em Fortaleza. Guido Mantega, por exemplo, acha que o acordo entre os cinco países supera Bretton Woods, o concerto entre 45 nações que sucedeu o fim da Segunda Guerra e resultou na criação de instituições como o FMI e o Banco Mundial. Sabemos o valor que as opiniões de nosso ministro da Fazenda têm...

O governo brasileiro se viu vencido em suas pretensões de presidir o novo banco, preterido em favor da Índia. Ficou com o prêmio de consolação: ocupará a presidência do conselho de administração – que, esperamos, seja exercida com mais zelo do que o empenhado por Dilma Rousseff quando ocupou a mesma função na Petrobras...

O tal banco surge com dimensão modesta, quando comparada à de instituições de fomento similares já existentes. Terá capital de US$ 50 bilhões para financiar projetos de infraestrutura nos países-membros, enquanto só o BNDES dispõe de US$ 334 bilhões e o Banco Mundial, de US$ 324 bilhões.

Espera-se que o banco de fomento internacional não nasça e prospere com os vícios que hoje marcam a atuação do nosso BNDES, atualmente mais afeito a distribuir privilégios definidos por Brasília do que a executar políticas voltadas ao desenvolvimento horizontal do nosso setor produtivo.

É preciso estar atento, ainda, aos riscos de, sob alegação de querer suplantar “tudo o que está aí”, o novo banco de desenvolvimento dos Brics não seja tão criterioso na cobrança de condicionalidades ambientais para a concessão de empréstimos – como é, por exemplo, o Banco Mundial.

Quanto aos efeitos sobre a nossa política externa propriamente dita, a investida junto aos Brics contrasta com os quase quatro anos de inação de nossa diplomacia, depois de oito anos de hiperatividade exibicionista. Tal política nos valeu, inclusive, perda de espaço para os mesmos parceiros que ora se juntam para criar as novas instituições anunciadas em Fortaleza.

Nos últimos cinco anos, o Brasil mais comprou do que vendeu da China, da Índia, da Rússia e da África do Sul. Para os chineses, as exportações cresceram 111% e as importações, 171% entre 2009 e 2014; para os indianos, 102% e 281%, respectivamente; para os russos, enquanto as vendas subiram 18%, as importações aumentaram 238%. Para a África do Sul, as exportações caíram 7% no período e as importações subiram 83%, mostrou a Folha de S.Paulo na semana passada.

Se a investida junto aos Brics não for apenas um lance de oportunismo, terá valido a pena, por romper o isolacionismo que tem levado o Brasil a perder de goleada no plano internacional. Como tudo em política externa, os prazos a serem cumpridos são longos. A ver se a cúpula de Fortaleza não terá sido só um bric-à-brac que junta intenções díspares, excessivas e, não raro, de mau gosto.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Amizade com ditaduras

A Venezuela está em pé de guerra. Este poderia ser um assunto que pouco diz respeito ao Brasil, mas nosso governo tornou-se um dos arrimos dos descalabros que, desde Hugo Chávez, se perpetuam no país vizinho. Por meios oficiais, nossa diplomacia também tem hipotecado apoio à truculenta repressão posta em marcha pelo governo de Nicolás Maduro e passado ao largo da defesa de princípios democráticos.

A onda de protestos na Venezuela teve início no último dia 4 e desde então vem crescendo. Ontem, dezenas de milhares de venezuelanos foram às ruas. Parte – não há estimativas oficiais precisas – protestava contra o governo bolivariano e manifestava apoio ao líder oposicionista Leopoldo López, dirigente da Vontade Popular detido ontem. Parte defendia Maduro.

O governo brasileiro entrou nesta história pela porta dos fundos. Na última segunda-feira, endossou comunicado oficial emitido pelo Mercosul em que expressa apoio irrestrito ao governo chavista: “Rejeitamos as ações criminosas de grupos violentos que querem disseminar a intolerância e o ódio na República Bolivariana da Venezuela, como instrumento de luta política”, diz um dos trechos da nota.

Hoje, o Mercosul é presidido temporariamente pela Venezuela, finalmente admitida no bloco em agosto de 2012, com total beneplácito da diplomacia companheira. Dele também fazem parte o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai – estes membros desde a origem, em 1991, quando foi assinado o Tratado de Assunção. Não é difícil ver que estamos atados ao que há de mais atrasado no continente...

O comunicado emitido anteontem foi chancelado por todos os países-membros do Mercosul e, segundo informam os jornais, foi feito sob estrita orientação de Caracas. Por isso, não traz nenhuma palavra sobre a escalada de violência que assola a Venezuela, sobre a truculenta repressão do governo Maduro aos meios de comunicação, sobre a desconstrução cotidiana da economia do país e nem sobre a penúria em que se transformou viver ali desde o governo Chávez. Nenhuma defesa, ademais, de princípios e valores democráticos.

Isoladamente, o Itamaraty não emitiu posição oficial. Mas, segundo a Folha de S.Paulo, endossou os termos dos comunicados do Mercosul e da Unasul, ambos de apoio a Maduro. Foi, portanto, conivente com posicionamentos que desconhecem a legitimidade da manifestação democrática de milhares de venezuelanos descontentes com um governo que já nasceu sob a suspeita de ter fraudado a eleição que elegeu Maduro em abril do ano passado.

“Demoramos dez anos para construir um pensamento sobre democracia no Mercosul, e o bloco exige uma democracia representativa e respeito aos direitos humanos. A Venezuela não cumpre estas exigências, e o Mercosul está ignorando dez anos de trabalho”, sintetizou um ex-diretor da Secretaria do Mercosul ouvido por O Globo.

Motivos para a insatisfação os venezuelanos têm de sobra. O país é hoje quase um pária no concerto geral das nações. Tem a mais alta inflação do mundo (56% ao ano) e a mais baixa taxa de crescimento do continente (1,1%). Por esta razão, seus cidadãos não dispõem sequer de itens de primeira necessidade, como papel higiênico, disponíveis nos supermercados, hoje completamente desabastecidos.

A taxa de câmbio é galopante – no oficial, um dólar vale 6,3 bolívares, enquanto no paralelo chega a 84. Isso torna dramática a vida num país que importa 70% do que consome e onde 95% da renda recebida pelo governo vem da estatal do petróleo, a PDVSA, arruinada pela exploração política, como relata a Foreign Policy.

O apoio ao chavismo é apenas mais um capítulo da triste saga que a diplomacia brasileira vem escrevendo sob as orientações do petismo. O viés ideológico imposto à nossa política externa nos últimos anos está isolando o Brasil do mundo e nos alinhando ao que há de mais atrasado e retrógrado. Demos as costas para nações democráticas e abraçamos regimes de inclinação autoritária, como é o caso da Venezuela de Nicolás Maduro. Tudo em flagrante contraste com as melhores práticas da nossa tradição diplomática.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Palanque na ONU

Dilma Rousseff foi a Nova York falar grosso na abertura da Assembleia Geral da ONU. É o que a nossa presidente mais gosta de fazer. A destreza que exibe para vociferar, ela não consegue empregar para tomar decisões corretas e efetivá-las. Também nas ações contra espionagem e nos planos de regulação da internet tem sido assim.

É correto Dilma protestar contra intromissões indevidas de bisbilhoteiros na vida do país. Merece solidariedade e apoio de todos os brasileiros por isso. Mas daí a engolir seu discurso moldado pelo marketing e orientado por pesquisas eleitorais vai distância tão longa quanto a que separa as palavras da presidente das ações de seu governo.

O governo brasileiro encontrou um inimigo externo dos sonhos com a descoberta das repugnantes atividades de espionagem levadas a cabo pela agência norte-americana NSA no país. Brigar contra o “gigante imperialista” é tudo o que uma administração pretensamente de esquerda mais quer. Dá votos e ibope entre seus eleitores cegados por ideologia.

Mas se se preocupa tanto com a segurança nacional e se diz tão precavida contra as ingerências indevidas, por que a gestão petista dá tão pouca atenção a suas ações de inteligência? A execução do orçamento da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) revela o pouco caso do governo com nossos arapongas.

Da dotação da Abin para este ano, somente 11% destinam-se a ações de inteligência. Quase a totalidade (87%) dos R$ 513 milhões de seu orçamento serve para pagar pessoal, encargos, aposentadorias e pensões, de acordo com a ONG Contas Abertas. Mesmo assim, apenas uma fração do dinheiro é efetivamente empregada.

Em 2011, as ações de “inteligência federal” da Abin dispuseram de R$ 370 milhões, segundo o Siafi. Mas apenas 12% deste valor foi utilizado até hoje, já considerados os restos a pagar. Em 2012, a dotação para esta rubrica caiu a R$ 9 milhões, dos quais 44% foram usados até agora. Em 2013, não há dotação específica para ações de inteligência.

Além da pífia execução orçamentária, o marco institucional de prevenção contra ações de espionagem no Brasil também não existe. Desde novembro de 2010, o projeto de Política Nacional de Inteligência, que cria diretrizes para o Estado brasileiro se prevenir de bisbilhotices, está prontinho, mas parado no Planalto.

“Dilma faria melhor se buscasse equipar o Brasil contra ataques cibernéticos. A presidente faz o oposto. (...) É mais fácil ler um discurso feito pelo marqueteiro no teleprompter na ONU do que trabalhar duro em casa”, comenta Fernando Rodrigues hoje na Folha de S.Paulo.

Depois que Dilma cancelou sua visita de Estado a Washington e passou a se preparar para o discurso duro que ontem proferiu em Nova York, o país já teve oportunidade de demonstrar efetivamente sua preocupação com a espionagem e os ataques cibernéticos. Foi na sexta-feira passada, quando uma reunião da cúpula de direitos humanos da ONU discutiu o assunto em Genebra.

Pois não é que nossa operosa diplomacia se fez representar no colóquio por intermédio de um diplomata de segundo escalão que depois se fez substituir por uma estagiária? “Nas duas horas de reunião a delegação brasileira não pediu a palavra uma só vez e a estagiária se limitou a tomar nota do que dizia cada um dos participantes”, revelou O Estado de S.Paulo no sábado. Enquanto isso, na mesma hora a embaixadora do Brasil na ONU promovia um almoço para sua despedida do cargo...

A mesma incúria se nota nas ações do governo brasileiro em relação à criação de um instrumento internacional para governança e uso da internet, outra das propostas levantadas por Dilma na ONU ontem. Existe um fórum global para tratar do tema, a Cúpula Mundial da Sociedade da Informação (ou WSIS, na sigla em inglês), mas em dez anos o Brasil jamais formalizou qualquer proposta a respeito, relata o Valor Econômico.

Ações de defesa cibernética também são desprezadas pelo governo brasileiro, quando observadas pela ótica da execução orçamentária. Dos R$ 90 milhões previstos neste ano para tal finalidade, somente 16% foram gastos até agora. Pior é que a proposta orçamentária para 2014 prevê reduzir a dotação para tais iniciativas: o valor deve cair para R$ 70 milhões, segundo o Contas Abertas.

Resta claro que o que mais interessava à presidente ontem na ONU era o gesto, a demonstração de desagrado em relação à afronta patrocinada pelo governo americano. Era, mais que isso, transformar aquela nobre tribuna em palanque. Mas suas palavras diferem tanto de sua prática que Barack Obama e seu estafe sequer se deram o trabalho de ouvir o que Dilma Rousseff dizia... Seria melhor para o país que o governo brasileiro falasse menos e agisse mais.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Liderança não se proclama, se exerce

A diplomacia brasileira tinha um problemão na mão: reagir à altura à inadmissível espionagem feita por uma agência do governo dos Estados Unidos à presidente Dilma Rousseff e a estatais como a Petrobras. Preferiu um gesto espalhafatoso a encarar – e tentar resolver – a questão de frente.

O cancelamento da visita de Estado que a presidente da República faria a Washington em 23 de outubro atende muito mais às conveniências políticas e ao jogo de cena do governo petista do que aos reais interesses do país. Conflitos diplomáticos se resolvem na mesa de negociação e não em reuniões de marketing.

Embora a manifestação oficial do governo brasileiro tenha sido anunciada apenas ontem, desde sexta-feira a decisão estava tomada. Mas, ao contrário do que se poderia esperar, não foi definida nos círculos mais altos da nossa diplomacia ou do aparato estatal, mas sim numa reunião de líderes políticos, marqueteiros e palpiteiros que auxiliam a presidente.

Conforme noticia a imprensa, Dilma resolveu cancelar sua ida a Washington – seria a primeira visita de Estado de um presidente brasileiro ao coração do poder norte-americano desde que Fernando Henrique Cardoso lá esteve em 1995 – depois de ouvir Lula, João Santana e Franklin Martins. Só depois que seus sábios opinaram, a presidente comunicou a decisão ao chanceler Luiz Alberto Figueiredo.

Revela-se, em mais este episódio, como o PT trata questões de Estado: com viés partidário, eleitoral e ideológico. Nada mais conveniente para isso do que a criação de um inimigo externo que muita gente adora odiar. Na lógica do marketing, vale mais a retórica do que a ação política capaz de transformar desafios em oportunidades para o país.

A visita de outubro poderia servir muito para os interesses brasileiros, principalmente num momento em que o país luta para recuperar a confiança internacional e para atrair o – até agora inexistente – investimento estrangeiro para seu bilionário programa de concessões de infraestrutura.

O empresariado brasileiro cita ainda outros temas que poderiam ser destravados no encontro de cúpula, como a eliminação da bitributação nas transações entre os dois países e a retirada do Brasil da lista de observação das nações acusadas de pirataria. Depois de ontem, esta agenda está, por ora, interditada.

A diplomacia brasileira também poderia aproveitar a oportunidade para abrir mais espaço para produtos brasileiros no gigantesco mercado americano. Somos um dos poucos países que mais compram do que vendem aos EUA: o déficit acumulado desde 2009 já chega a US$ 33,5 bilhões, revertendo saldo que chegou a ser positivo em quase US$ 10 bilhões em 2006.

Enfrentar e tentar equacionar problemas desta monta dá trabalho e o PT não é muito chegado a isso. É sempre mais conveniente, para os interesses eleitorais do partido, comprar uma boa briga, posar de defensor da nação e não resolver absolutamente nada. Perde o país.

“A reclamação deve ter eficácia. O certo a se fazer seria deixar o assunto nas mãos dos ministérios exteriores, levantar o tema em organizações internacionais, como a presidente pretende fazer, e, até mesmo, abordar isso abertamente durante a visita de Estado. Essa atitude seria mais eficaz e mais constrangedora para o governo Obama”, receita o ex-embaixador José Botafogo Gonçalves nO Globo.

Condenar e repudiar as tentativas de espionagem, que ferem a soberania da nação, era atitude correta e necessária. Mas tratar o problema com a altivez que um país como Brasil deve ter era algo ainda mais premente. O governo Dilma tinha excelente oportunidade para fazer uma defesa contundente de valores com os quais os brasileiros comungam. Mas preferiu jogar para a plateia e fugir da briga. Liderança não se proclama apenas, se exerce.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Não à arapongagem

Merecem repúdio unânime e condenação veemente os atos de espionagem praticados por agências norte-americanas em relação ao governo, a instituições e a empresas brasileiras. Não há o que justifique os EUA dispensarem ao Brasil tratamento semelhante ao reservado a países que representam ameaça à segurança mundial.

As revelações vêm sendo feitas a conta-gotas por meio de documentos vazados por Edward Snowden, ex-prestador de serviços junto à inteligência americana e atualmente asilado na Rússia. Primeiro foram ligações telefônicas a granel, depois a arapongagem da própria presidente da República e agora a Petrobras. Sabe-se lá o que mais ainda há para ser conhecido...

A reação do governo brasileiro vem sendo adequada, num tom incisivo, que, ademais, poderia também ser empregado em outras tantas crises diplomáticas por que vem passando nossa diplomacia. No caso de hermanos, contudo, nossa chancelaria acaba preferindo usar suas luvas de pelica em lugar de defender os legítimos interesses do Brasil.

Na crise da espionagem, primeiro o governo brasileiro exigiu explicações formais do embaixador americano em Brasília, Thomas Shannon – ora em processo de remoção para Washington. Depois, Dilma Rousseff conversou sobre o assunto com o presidente Barack Obama em São Petersburgo, na reunião do G-20. E hoje o chanceler Luiz Alberto Figueiredo estará nos EUA para tratar do assunto com Susan Rice, assessora-chefe de segurança nacional da Casa Branca.

Aguarda-se para amanhã uma manifestação formal do governo americano sobre as ações de espionagem, que vêm sendo reveladas pelo Fantástico, da TV Globo. Dilma ameaça cancelar a visita de Estado a Washington prevista para outubro, caso as explicações prestadas não sejam suficientemente convincentes. Faz bem.

Entretanto, se na reação o governo brasileiro vem atuando corretamente, na prevenção falhou redondamente. O Brasil não dispõe de um plano de inteligência para prevenir ações de espionagem como as agora reveladas por Snowden, como revelou Fernando Rodrigues em seu blog na sexta-feira passada.

Há quase três anos está parado no Palácio do Planalto o texto que cria a Política Nacional de Inteligência (PNI), marco legal que deve orientar a atuação dos órgãos de inteligência do governo brasileiro. “Sem ela, a atuação da inteligência brasileira fica sujeita a ações tomadas a quente quando acontece algum problema”, escreve Rodrigues.

A criação da PNI foi definida na lei que deu origem à Abin, ainda em 1999, durante o governo Fernando Henrique. Dez longos anos se passaram até que, em março de 2009, uma proposta de política começou a ser elaborada no governo Lula sob a coordenação da Casa Civil quando Dilma ainda era ministra da pasta.

O texto foi discutido em 40 reuniões, enviado ao Congresso e lá aprovado. Retornou ao Planalto em novembro de 2010. Já com Dilma presidente, foi ao Gabinete de Segurança Institucional e, desde então, está engavetado, deixando o país sem as principais diretrizes sobre como o Estado brasileiro deve prevenir ações de espionagem.

A revelação de que a Petrobras foi alvo da bisbilhotice americana também joga um facho de preocupação sobre o megaleilão do pré-sal previsto para o próximo dia 21 de outubro. Sabe-se que tão gigantescas reservas – equivalentes a entre 8 e 12 bilhões de barris de petróleo – são estratégicas para toda a geopolítica mundial. Agora também podem estar em jogo tecnologias para exploração em águas profundas e possíveis negócios da estatal brasileira.

Já é uma temeridade o Brasil colocar em oferta de uma só tacada o equivalente à metade de suas reservas de petróleo. Nas atuais condições, sob suspeita de que dados confidenciais podem estar sendo ilegalmente usufruídos por alguns competidores, a realização do leilão – neste momento – torna-se ainda menos recomendável. Mas o governo petista alega que precisa dos bilhões do pré-sal para fechar suas contas de curto prazo...

Quando os primeiros atos de espionagem foram revelados, os EUA alegaram tratar-se de ações de combate a ameaças terroristas. Vê-se agora que são muito mais que isso. Nada, porém, justifica que o Brasil, democrático e pacífico, possa ser considerado um país com alguma dose de ameaça à segurança mundial, enquadrado na categoria de nação inimiga ou problemática. Nem mesmo nossa errática diplomacia companheira.










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iEste e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Razões humanitárias

Na mitologia da política brasileira, o Partido dos Trabalhadores sempre se apresentou como defensor dos fracos e dos oprimidos, como o partido dos pobres e da justiça social. Isso nunca correspondeu à realidade, mas a experiência do PT no poder reforça ainda mais a distância entre suas pregações e sua prática. É como a amplidão que separa o céu do inferno.

Em lugar do apreço a valores éticos e morais universais, o governo petista exercita a truculência. Em vez da defesa dos direitos humanos, prefere advogar a favor da pesada hierarquia. Ao sagrado direito de ir e vir, opta pela interposição de limites e barreiras. À liberdade, escolhe ficar com o claustro.

Tais constatações emergem da atitude petista em dois episódios recentes: a intempestiva reação do governo da presidente Dilma Rousseff à transferência do senador boliviano Roger Pinto Molina para o Brasil por um diplomata, feita à revelia do Itamaraty, e o tratamento dispensado pela administração federal aos médicos cubanos que virão servir nos rincões e periferias brasileiras.

No caso do incidente diplomático, está claro que Eduardo Saboia – o diplomata encarregado de negócios da embaixada brasileira em La Paz que trouxe Molina ao Brasil – agiu puramente por razões humanitárias ao protagonizar a quixotesca viagem que permitiu ao senador fazer o que há 15 meses ele aguardava sem sucesso: deixar a Bolívia.

Saboia atuou para evitar que a vida de um ser humano continuasse em risco, já que era sabido que as condições de saúde do político boliviano encontravam-se frágeis. Fez, na prática, o que a presidente da República defendeu ontem ser a atribuição de um “Estado democrático civilizado” como o Brasil: “Um governo age para proteger a vida”.

O senador oposicionista é pedra no sapato do presidente Evo Morales e, em razão disso, não obteve do governo boliviano salvo-conduto que lhe permitisse deixar seu país em segurança. Nem as mais sangrentas ditaduras agem desta maneira. A diplomacia companheira do PT tampouco se esforçou por obter tal aval de La Paz, a quem trata com luvas de pelica. Quem, afinal, agiu efetivamente para proteger a vida de Molina?

Em resposta ao traslado do senador ao Brasil, a presidente Dilma defenestrou o chanceler Antonio Patriota, submeteu o diplomata Saboia a um processo de sindicância e, ontem, cancelou a transferência do embaixador na Bolívia, Marcelo Biato, para um posto mais valorizado em Estocolmo. Além disso, o senador Molina agora também corre risco de ser extraditado para a Bolívia. Ao gesto heroico, a gestão do PT retrucou com pesado tacão.

A mesma atitude indecorosa está presente no tratamento que o governo petista está dispensando aos médicos que estão chegando de Cuba para atuar no país. Ninguém, absolutamente ninguém, é contra ampliar o número de profissionais de saúde à disposição da população, principalmente a que vive mais distante. Mas daí a aceitar como normais as condições impostas ao trabalho dos cubanos vai longa distância.

Sabe-se, até agora, que os médicos cubanos receberão como remuneração apenas uma fração do que ganharão os profissionais vindos de outros países. Quanto, ninguém é capaz de afirmar, nem mesmo o governo – em tese, seu patrão e maior interessado em garantir a qualidade do serviço que prestarão aos brasileiros.

De antemão, aos médicos cubanos também será vedada a possibilidade de concessão de asilo, caso algum deles decida não retornar ao regime ditatorial da ilha. Seus passos serão vigiados e sua liberdade de ir e vir, cerceada.

Os cubanos também não poderão trazer suas famílias para o Brasil, numa das mais duras privações a que um ser humano pode ser submetido. Discriminados, não disporão de igualdade de tratamento nem de condições de trabalho e remuneração similares às dos demais profissionais importados.

Há, portanto, assim como no caso do senador Molina, razões humanitárias que levem à discordância em relação à prática adotada pelo governo da presidente Dilma Rousseff – embora não se justifiquem gestos extremos, agressões e atitudes xenófobas. Entre as boas intenções que a gestão petista manifesta e suas práticas vai distância maior que a que separa céu e inferno. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Herói tratado como delinquente

A demissão do chanceler Antonio Patriota em razão da transferência do senador boliviano Roger Pinto Molina de La Paz para território brasileiro ilustra a pequenez que orienta nossa diplomacia na era petista. Também demonstra que, nestes tempos bicudos, Brasília preza mais a ideologia do que direitos fundamentais e humanitários – algo que o tratamento dispensado aos médicos cubanos já havia revelado.

Molina foi transferido no último fim de semana a Brasília pelo encarregado de negócios da embaixada do Brasil na Bolívia, o diplomata Eduardo Saboia. Estava há 452 dias confinado num cômodo da representação brasileira em La Paz depois de ter obtido asilo do governo brasileiro. Aguardava, desde então, que o governo Evo Morales lhe concedesse, como preveem as boas regras de conduta do direito internacional, salvo-conduto para poder deixar o país. Sem sucesso.

As condições em que vinha vivendo o senador – o mais aguerrido político de oposição ao governo Morales – eram precárias. Ele não via a luz do sol, não saia do quarto (na realidade, uma sala sem ventilação onde fica o telex da embaixada) e mal encontrava pessoas. Da família, só teve contato com a filha mais nova, Denise, ao longo destes 15 meses. Sua saúde estava em estado deplorável.

“Você imagina ir todo dia para o seu trabalho e ter uma pessoa trancada num quartinho do lado, que não sai? (...) O senador estava havia 452 dias sem tomar sol, sem receber visitas. Eu me sentia como se fosse o carcereiro dele, como se eu estivesse no DOI-Codi. O asilado típico fica na residência, mas ele estava confinado numa sala de telex, vigiado 24 horas por fuzileiros navais”, relatou Saboia à Folha de S.Paulo.

Há uma semana, Molina foi examinado por um médico, depois que Saboia informara ao Itamaraty que seu quadro de saúde piorava a olhos vistos. O laudo apontou uma série de problemas, como candidíase (infecção que indica enfraquecimento do sistema imunológico), taquicardia, hiporexia (perda de apetite), taquicardia, dificuldade respiratória, pressão alta e síndrome depressiva, como informa o Valor Econômico.

O governo Dilma, porém, continuou sem agir. Foi aí que Saboia, fortemente movido por valores cristãos, levou adiante a transferência do senador boliviano para solo brasileiro. Deixou de lado regulamentos frios e optou por princípios que nossa diplomacia sempre prezou, em especial a defesa dos direitos humanos, mas que claramente vinham sendo violados no caso de Molina.

Para levar seu intento a bom termo, o diplomata teve que cruzar 1.600 km de estradas, cortar áreas dominadas pelo tráfico de drogas e, finalmente, desembarcar em Corumbá (MS) depois de uma epopeia quase heroica. Por sua postura valorosa e ousada, Saboia receberá como retribuição do governo brasileiro um processo administrativo e deverá ser “severamente punido” por “grave quebra de hierarquia”, segundo O Estado de S.Paulo.

Entre ficar com valores que historicamente orientam nossa diplomacia e agradar um governo pouco afeito à democracia, o governo da presidente Dilma Rousseff ficou com a segunda opção. Sacrificar o chanceler Patriota e punir Saboia com rigor transformou-se em gesto de mesura de Brasília junto ao governo de Evo Morales, ao qual, mais uma vez, a gestão petista se curva – numa tradição que vem desde a desapropriação acintosa de um bilionário ativo da Petrobras logo no início do mandato dele, em 2006.

O que Eduardo Saboia fez é o que qualquer pessoa de bem faria: ajudar um cidadão a não sucumbir à tentação de desistir da vida. Entre praticar o que os preceitos humanitários indicam e defender a liberdade de um homem ou dizer amém a um governo insensível e despótico, ficou com suas convicções cristãs. Deveria ser tratado com honrarias, mas, para a apequenada e pusilânime diplomacia brasileira, ele não passa de um delinquente.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

De costas para o mundo

O déficit comercial recorde é mais um dos itens da safra de más notícias que o governo Dilma Rousseff vem produzindo. O comércio exterior brasileiro sofre as consequências de uma política externa que se fechou em copas, perdeu o bonde da história e hoje purga resultados desastrosos. Com o PT, o Brasil deu as costas para o mundo.

A balança comercial acumula rombo de US$ 5,4 bilhões neste ano até maio, conforme divulgou ontem a Secex. Trata-se do pior resultado em 20 anos, isto é, desde que a série histórica passou a ser tabulada pelo governo. Para se ter melhor noção do desastre, um ano atrás o país exibia superávit acumulado de US$ 6,3 bilhões.

É preciso registrar que o déficit atual está fortemente influenciado por uma manobra contábil urdida pelo próprio governo. Para impedir que o superávit de 2012 não caísse mais do que caiu (35% em relação a 2011), o registro de operações de compra e venda externa de combustíveis pôde ser postergado.

Como maquiagens nunca terminam bem, desde janeiro a balança brasileira vem sofrendo impacto de negócios com petróleo e derivados que, na realidade, aconteceram no ano passado. No total, US$ 4,6 bilhões foram sendo contabilizados ao longo destes cinco primeiros meses do ano – o estoque se encerrou em maio.

Mesmo sem estas operações, a balança brasileira estaria deficitária em US$ 800 milhões. Ou seja, com ou sem manobras, o país teria produzido seu primeiro resultado negativo para o período de janeiro a maio desde 2001 e a pior marca desde 1998. O resultado de maio, embora superavitário (US$ 760 milhões), foi o menor para o mês em 11 anos.

O Brasil sofre a síndrome da perda de competitividade. Nossas exportações encolhem, ao mesmo tempo em que as importações não param de subir. O produto nacional não tem fôlego para concorrer com o que vem de fora. No ano, as exportações caem 2,8% na comparação com janeiro a maio de 2012; as importações, em contrapartida, aumentam 9,8%.

Bens made in Brazil estão perdendo espaço no exterior. O Estado de S.Paulo informa hoje que entre 2008, a partir do início da crise internacional, e 2011, o país perdeu US$ 5,4 bilhões em vendas para Argentina, México, Peru, Colômbia, Chile, Equador, Venezuela, Paraguai e Bolívia. De lá para cá, deve ter ficado sem mais outro naco.

A participação em mercados mais ricos, como o norte-americano, e mais robustos, como o chinês, também está em queda. “Nos EUA (tradicional destino de itens manufaturados), a fatia do país caiu cerca de um terço, para 1,1% de tudo que os americanos importaram de janeiro a março”, registra a Folha de S.Paulo.

Nos negócios com os norte-americanos, saímos de um superávit de US$ 5 bilhões em 2002 para um déficit de US$ 5,6 bilhões em 2012. Já o comércio com os europeus, superavitário ao longo de uma década, passou ao vermelho, numa virada que começou em 2011 e vem se aprofundando: nossas exportações para lá caíram 7% neste ano até maio.

O país colhe os frutos podres de uma opção equivocada – mais uma – adotada em sua política externa. Presos a ideologias ultrapassadas, os governos petistas desdenharam a aproximação com nações mais desenvolvidas e orientaram seus esforços para mercados inexpressivos do mundo em desenvolvimento. Fechamos apenas três acordos comerciais nos últimos dez anos.

O Brasil fez justamente o contrário do que estão fazendo nações que estão dando muito mais certo que nós. É o caso de Chile, Colômbia, México e Peru, que se juntaram num mercado de US$ 2 trilhões e população de 209 milhões de pessoas em torno da Aliança para o Pacífico.

O quarteto – cujo acordo que isenta de tarifas 90% dos produtos comercializados entre si entra em vigor no fim deste mês – concentra, ainda, 35% do PIB e 49% dos investimentos diretos estrangeiros da América do Sul. Cada um deles cresceu em 2012 acima de 3,1%, a média do PIB na região e muito mais que nosso pibinho de 0,9%. É de se perguntar: quem está fazendo a coisa certa?

A atitude dos governos do PT isolou o Brasil do resto do mundo. Alijou nossas empresas das cadeias produtivas globais. Apequenou nossa pauta exportadora e empobreceu nosso parque industrial. O erro perpetrado por Lula e mantido pela presidente Dilma prejudica a inserção do país no mundo, nos tolhe a competitividade e atrasa nosso desenvolvimento. O Brasil precisa de mais e não de menos comércio com o mundo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A vitória de um brasileiro

A escolha de Roberto Azevêdo para comandar a Organização Mundial de Comércio (OMC) é motivo de orgulho e merece ser comemorada pelos brasileiros. A vitória é o reconhecimento da bem sucedida trajetória de um diplomata de alta qualificação. Não pode, porém, ser confundida com um aval à política externa praticada pelo governo do Brasil nos últimos anos.

Azevêdo venceu a disputa pelo mais alto cargo de um órgão multilateral de comércio do mundo com apoio maciço de nações em desenvolvimento e de países mais pobres. Seu oponente tinha suporte explícito dos Estados Unidos e da maioria da União Europeia. Nem por isso o diplomata brasileiro pautará sua atuação por uma visão cindida de mundo; já deixou claro que buscará a conciliação.

Embora as manifestações oficiais tenham sido corretamente comedidas, nos bastidores o governo brasileiro estaria classificando a vitória de Azevêdo como “reconhecimento à política externa de aproximação com o hemisfério Sul”, segundo a Folha de S.Paulo. Pragmaticamente, este alinhamento abaixo do Equador pode até ter rendido mais apoio à escolha do diplomata para a OMC, mas objetivamente não tem trazido bons frutos comerciais ao país.

O pior que pode acontecer agora é a gestão petista apregoar que ter conseguido levar Azevêdo ao comando do principal órgão multilateral de comércio do mundo significa que foi acertado o caminho trilhado pelo Brasil nestes últimos dez anos em matéria de política externa e de comércio exterior. Não foi.

A tônica da diplomacia petista tem sido o direcionamento dos nossos esforços externos no rumo dos países em desenvolvimento, na chamada política Sul-Sul. Nesta linha, mercados mais robustos foram praticamente desdenhados nesta última década. A consequência não tardou: o comércio exterior do Brasil definhou em mercados com o dos EUA e o europeu – e agora até mesmo na China e na Argentina.

Nestes últimos dez anos, passamos de superavitários para deficitários nas relações comerciais com norte-americanos e europeus. A despeito de chineses e argentinos continuarem aumentando suas importações, a fatia abastecida por produtos brasileiros nestes mercados está caindo. Até abril, nosso comércio exterior como um todo está no vermelho, com déficit de mais de US$ 5,7 bilhões, o maior desde 1995 para este período do ano.

Nossa fatia no comércio mundial, que já era irrisória, ficou ainda menor no ano passado: caiu a 1,3%. Isto é praticamente o mesmo patamar de 30 anos atrás. Neste quesito, entre as principais economias do globo o Brasil foi um dos que teve pior desempenho em 2012, devido à queda das nossas exportações, como mostrou O Estado de S.Paulo em abril.

O Brasil mantém-se como uma economia ainda relativamente pouco aberta. A soma de nossas importações e exportações equivale a 20% do PIB. É bem menos do que em países com perfis econômicos similares ao nosso: o comércio internacional representa 43% do PIB do México, 47% do da China e 93% do da Coreia.

Num mundo em que, nos últimos anos foram lançados mais de 450 acordos de comércio, nossa diplomacia limitou-se a fechar negociações apenas com Palestina, Egito, Jordânia, Israel, Índia e África do Sul – as duas últimas de escopo bem limitado. Vicejam ainda as preferências ideológicas e os alinhamentos políticos, com parcos resultados econômicos.

Em setembro, Azevêdo assumirá o cargo tendo como missão destravar as negociações multilaterais de comércio no mundo. Ou seja, sua agenda como diretor-geral da OMC e timoneiro desta difícil negociação é claramente liberalizante, bem diferente, portanto, da postura protecionista que o governo brasileiro tem adotado nos últimos anos.

Neste sentido, é sintomático que o governo Dilma tenha hesitado muito antes de submeter o nome de Azevêdo à disputa pelo comando da OMC. A candidatura dele foi a última a ser inscrita, no último dia de prazo, em 28 de dezembro do ano passado, quando os oito demais postulantes já estavam na briga, como relata hoje o Valor Econômico.

O sucesso de Roberto Azevêdo na nova função depende de ele fazer à frente da OMC tudo o que a gestão petista não vem fazendo. Mais êxito ele obterá quanto mais comércio houver. É esta a lição que o governo brasileiro poderia tirar da escolha do nosso brilhante diplomata para a direção do órgão sediado em Genebra.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O golpe final no Mercosul

Brasil, Argentina e Uruguai devem sacramentar hoje a entrada da Venezuela no Mercosul, à revelia do quarto sócio, o Paraguai. Realizado desta forma, o ingresso do país do ditador Hugo Chávez fere de morte os princípios democráticos do bloco regional e tende a representar um passo perigoso rumo à implosão do projeto de integração. É o golpe final.

A República Bolivariana de Venezuela foi admitida no Mercosul por meio de um golpe. Os países-membros aproveitaram a suspensão imposta ao Paraguai – por supostamente ter incorrido em “ruptura da ordem democrática” ao aprovar o impeachment de Fernando Lugo em processo acelerado – para permitir que o país de Chávez adentrasse o bloco, algo que os paraguaios se recusavam, desde 2009, a ratificar.

Ou seja, à guisa de punir um país que, supostamente, teria violado cláusulas democráticas, os demais membros do Mercosul incorreram numa afronta ainda maior aos princípios do Estado Democrático de Direito. No início do mês, a diplomacia uruguaia denunciou que a acintosa decisão foi imposta aos demais países pela presidente Dilma Rousseff, numa “grave ferida institucional”, nas palavras do vice-presidente Danilo Astori.

O mais grave é que, a partir de agora, o destino do Mercosul estará atado às diatribes de um governante como Hugo Chávez, claramente avesso à liberalização dos mercados e à formalização de novos acordos de livre comércio, numa espécie de “protecionismo ideológico”. Nesta perspectiva, as chances de avançarem negociações do bloco com os Estados Unidos ou a União Europeia tornam-se mínimas doravante.

Além do nebuloso horizonte que se descortina para a expansão comercial do bloco em direção a outros mercados, o Mercosul incorpora em seu seio um governo descomprometido com a democracia e com os direitos humanos, e ainda suspeito de manter fortes laços com o crime organizado. Trata-se, sob os mais variados aspectos, de um indesejado conviva.

O governo de Chávez foi alvo de relatório crítico da Human Rights Watch divulgado há duas semanas. O documento aponta concentração e abuso de poder por parte do ditador, que ocupa o cargo há 13 anos. Lista, ainda, uma série de casos de intimidação, censura e processos promovidos por Chávez contra o Judiciário, a imprensa e a sociedade civil na Venezuela.

Há, também, fundadas suspeitas de que o regime bolivariano compactue com narcoguerrilheiros das Farc na Colômbia. Segundo alguns ex-magistrados venezuelanos ouvidos pelo New York Times, quase toda a cúpula do poder abaixo de Chávez faz parte de uma grande rede sul-americana de narcotráfico.

Afora suas más credenciais democráticas, a Venezuela sequer demonstrou, até agora, compromisso verdadeiro com os requisitos que deveriam permitir a sua incorporação ao Mercosul. Sua entrada no bloco é objeto de negociação desde 2006, mas até hoje Caracas não adotou as normas e o padrão aduaneiro do bloco nem informou sua lista de produtos considerados sensíveis – cujo prazo venceu em 2010.

Toda esta ficha corrida não compensa a perspectiva, alardeada pelos defensores do ingresso venezuelano, de abrir um mercado que produz US$ 316 bilhões em bens e riquezas. O custo desta decisão será ter, sentado à mesa do Mercosul, com plenos poderes para vetar o que bem entender, um governante cujo único compromisso é com sua própria perpetuação no poder.

A entrada da Venezuela no Mercosul, principalmente pela forma autoritária com que está se dando, acentua a politização que o governo petista empreendeu à política externa brasileira. Antes firmemente comprometida com os ideais democráticos, nossa diplomacia agora flerta indesejavelmente com o perigo e incentiva um governo ditatorial – como, aliás, fez em diversas outras partes do mundo desde a ascensão do PT ao poder.

Ao Mercosul, o que se avizinha é, na melhor das hipóteses, um período de turbulência, em que os membros continuarão sem saber se são uma mera zona de livre comércio, uma união aduaneira ou um desejável mercado comum. Contudo, a adesão da Venezuela pode representar algo ainda pior para as pretensões do bloco: uma marcha batida rumo à irrelevância ou, ainda, a um fim tristemente melancólico.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O golpe dentro do ‘golpe’

A diplomacia brasileira está produzindo lambanças em série. Depois de conduzir a Rio+20 a um desfecho melancólico, o governo petista está envolvido até o pescoço num golpe: não, não se trata do impeachment de Fernando Lugo no Paraguai, conduzido estritamente dentro dos preceitos constitucionais do vizinho, mas sim da incorporação tortuosa da Venezuela ao Mercosul. O Brasil liderou uma espécie de quartelada neste fim de semana.

Na reunião de cúpula ocorrida em Mendoza, o periclitante bloco comercial formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai ganhou novo sócio: a República Bolivariana da Venezuela. O ingresso do país comandado ditatorialmente pela mesma pessoa há quase 13 anos só foi possível porque os demais sócios suspenderam os paraguaios do Mercosul sob a alegação de que a ascensão do novo governo de Assunção tisnou princípios democráticos. Quanta contradição...

O Senado paraguaio era o único que resistia a aprovar a entrada dos venezuelanos no bloco. Desde 2005 o ingresso do país de Hugo Chávez dependia do aval dos congressistas em Assunção, uma vez que precisa ser ratificado por unanimidade pelos quatro membros. Com a suspensão temporária do Paraguai do Mercosul, decidida há dez dias, o entrave foi levantado e a porteira para a incorporação da Venezuela, aberta.

Surge daí a contradição: o Paraguai está suspenso do bloco sob a alegação de que o impeachment de Lugo representou “ruptura da ordem democrática”, conforme a manifestação oficial do Itamaraty acerca da questão. É certo que a celeridade com que o processo transcorreu em Assunção causou estranheza, mas a Constituição do Paraguai, promulgada em 1992 e elaborada por uma assembleia eleita para tanto, não foi afrontada. Não há, portanto, que se falar em “golpe”.

O que se assemelha em tudo a um verdadeiro golpe é aproveitar-se da situação de excepcionalidade por que passa o Paraguai para pôr dentro do Mercosul um sócio que os vizinhos – por meio de seus representantes no Congresso – não desejavam. A decisão tomada em Mendoza no fim de semana é, em tudo, discutível e pode ser legalmente contestável.

Os países que acusam o Parlamento paraguaio de ter produzido um  “golpe” contra Fernando Lugo usam requintes de crueldade para penalizar e prejudicar Assunção. Por exemplo: quando vier a ser reincorporado ao Mercosul, o que é previsto para daqui a nove meses, o Paraguai não poderá reexaminar qualquer dos acordos e tratados que Chávez tiver estabelecido com os demais sócios do bloco durante o período.

“O Paraguai terá que aderir a tudo que for pactuado durante sua ausência", disse Luis Inácio Adams, ministro-chefe da Advocacia Geral da União, no fim de semana ao Valor Econômico. As decisões tomadas pelo Mercosul neste ínterim serão, pois, empurradas goela abaixo dos paraguaios. Cabe, portanto, perguntar: quem, afinal, está produzindo um golpe?

No sábado, a Folha de S.Paulo mostrou que há fundamentos jurídicos sólidos para questionar a decisão de Mendoza. O artigo 37 do Protocolo de Ouro Preto, que implantou o bloco, diz que “as decisões dos órgãos do Mercosul serão tomadas por consenso e com a presença de todos os Estados partes”. Ou seja, sem o Paraguai, nem pensar.

Para coroar, soube-se ontem que Dilma Rousseff foi o artífice do estratagema que abriu as portas do Mercosul para Chávez. O chanceler uruguaio veio a público informar que Montevideo foi contra a entrada da Venezuela no bloco nas circunstâncias atuais, isto é, aproveitando-se da suspensão temporária de um de seus sócios-fundadores. De acordo com o relato, o Uruguai foi coagido pela presidente brasileira a calar-se e avalizar o ardil.

“O chanceler Luis Almagro [do Uruguai] garantiu ontem que, sem unanimidade, a decisão só foi tomada em Mendoza por pressão direta da presidente Dilma Rousseff, não é definitiva e, agora, será reavaliada juridicamente por seu governo”, resume O Globo. Por meio do bolivariano Marco Aurélio Garcia, o Planalto negou a versão uruguaia.

Pela decisão anunciada neste fim de semana, a entrada da Venezuela no Mercosul só será oficializada em 31 de julho, numa nova reunião dos países do bloco. Quem sabe os uruguaios não consertam por lá a lambança feita por cá? Do contrário, o bloco regional, que hoje já mal se aguenta sobre as pernas, terá agora que viver a reboque de Hugo Chávez e seus bolivarianos. Alguém duvida que, nestas condições, e de golpe em golpe, o Mercosul avança para um naufrágio?

segunda-feira, 28 de março de 2011

Ainda em más companhias

Após oito anos de manifestações de amizade e alianças firmadas com alguns dos principais facínoras do mundo, o Brasil surpreendeu ao votar na ONU a favor de investigar o Irã por suspeita de violação de direitos humanos. Ainda não se trata de uma guinada completa na nossa política externa, mas pode ser um bom começo. A lista de más companhias a serem evitadas pela nossa diplomacia é caudalosa.

A votação no Conselho de Direitos Humanos da ONU ocorreu na última quinta-feira. Foi a primeira vez que o Brasil deliberou contra o Irã desde 2003. Desde então, foram sete abstenções em votações sobre o país de Mahmoud Ahmadinejad no órgão da Assembleia Geral da ONU – uma delas em novembro do ano passado, quando foram propostas punições ao Irã por apedrejamentos e enforcamentos em praça pública e o Brasil calou-se.

O país de Ahmadinejad – além de condenar à morte por apedrejamento uma mãe de família como Sakineh Ashtiani, por suposto adultério – persegue oposicionistas, jornalistas, dissidentes, homossexuais e qualquer um que se arrisque a discordar de seus líderes totalitários. Para o PT, até pouco tempo atrás, o que ocorria por lá era como briga entre “flamenguistas e vascaínos”, na memorável definição de Lula.

De acordo com o voto brasileiro na ONU na semana passada, “o Brasil acredita que todos os países, sem exceção, têm desafios a serem superados na área de direitos humanos e espera que os principais copatrocinadores dessa iniciativa [o envio de um relator especial ao Irã] apliquem os mesmos padrões a outros possíveis casos de não cooperação com o sistema de direitos humanos das Nações Unidas”. Espera-se que o Brasil pratique o que prediz.

É prematuro dizer que a atitude de agora contra o Irã seja um rompimento com a diplomacia posta em prática pelo governo anterior. “Por ora o que se vê é uma mudança nas ênfases e nos procedimentos tendo em vista a retomada de valores essenciais em regimes de liberdade. A volta, digamos assim, à normalidade”, escreveu Dora Kramer. Mas a chancelaria brasileira tem no voto proferido na ONU na semana passada uma boa carta de intenções para seguir adiante no bom caminho. Terá trabalho pela frente.

A lista de más amizades costuradas ao longo do governo de Lula é de fazer inveja à mítica Legião do Mal – os inimigos criados pela DC Comics para rivalizar com os super-heróis da Liga da Justiça. Para começar, basta lembrar que o líbio Muamar Kadafi foi chamado de “amigo e irmão” pelo presidente Lula, para quem tudo o que era atribuído ao ditador ora em desgraça não passava de “invenção da mídia”.

Mas resolver a questão líbia é só o mais óbvio. Dilma também precisa, por exemplo, cortar as ligações de amizade do Brasil com o presidente da Guiné Equatorial, Obiang Nguema Mbasogo, há 32 anos no poder. O presidente Lula visitou-o em julho do ano passado sem se importar com a alcunha dada ao país de Mbasogo: “Auschwitz da África”. Precisa dizer mais?

Outro ditador oficialmente nosso companheiro, o sudanês Omar Al-Bashir, foi condenado pela Corte Penal Internacional por crimes de guerra pela morte de 300 mil pessoas. O Brasil nunca aceitou recriminá-lo nos foros globais. Mas, em 2006, conseguiu que o país africano abrisse as portas para negócios da Petrobras por lá. Vale lembrar o mantra de Celso Amorim: “Business is business”.

A nova diplomacia brasileira ainda deve desculpas, também, aos dissidentes políticos de Cuba, comparados por Lula a traficantes do PCC. Já com relação à Venezuela, hoje atolada num total desabastecimento que obriga a população a economizar de água a energia, as artes de Hugo Chávez finalmente poderão receber um “chega” ou deixarem de ser consideradas “parte da democracia”. O Brasil mantém, ainda, ótimas relações com países não democráticos como Uzbequistão, Gabão, Camarões, entre outros, numa lista que, com o PT, só fez crescer.

O basta ao Irã foi apenas a primeira e tímida medida para encerrar uma grande lambança na nossa chancelaria que ainda está para ser redimida. Se realmente quer retomar o caminho do respeito e do compromisso com os direitos humanos – tradição secular do Itamaraty só abandonada pela diplomacia companheira de Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia – o Brasil ainda precisa fazer muito. Se assim optar por agir, merecerá justificados aplausos – aqui e lá fora.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Em busca dos dólares perdidos

A passagem de Barack Obama pelo Brasil não rendeu os frutos mais vistosos que alguns, provavelmente de maneira ingênua, esperavam. A aspiração brasileira a uma vaga no Conselho de Segurança da ONU mereceu apenas uma manifestação de “apreço” do presidente americano. Nada muito diferente do esperado.

Passado o oba-obama da visita, melhor fará o Itamaraty se dedicar-se a explorar uma highway desdenhada pela diplomacia companheira nos anos Lula: as enormes possibilidades comerciais representadas pelo mercado dos EUA.

Enquanto nos ocupávamos de falar fino com a Bolívia e grosso com Washington – como parte de uma espécie de “complexo de Chico Buarque” que imperou em nossa chancelaria – a China nos deixou comendo poeira na América. É hora de nossos diplomatas recalibrarem a voz.

Os Estados Unidos ainda são, disparados, os maiores compradores do planeta. Só no ano passado, importaram US$ 2,3 trilhões em bens e serviços. Desse montante, o Brasil só conseguiu participar com US$ 19,2 bilhões, ou seja, 0,8% do total, mostrou o G1.

Afora termos nos tornado quase irrisórios no intercâmbio comercial com os americanos, o Brasil é um dos poucos países que possui déficit com os EUA. Trata-se de um dos subprodutos da gloriosa diplomacia Sul-Sul que o PT impôs ao país nos últimos tempos. O tamanho do prejuízo se mede em bilhões de dólares.

Em 2005, o Brasil obteve superávit comercial de US$ 9,9 bilhões junto aos EUA. Significa que naquela época ainda vendíamos a eles muito mais do que comprávamos. Apenas cinco anos depois, o resultado se invertera por completo: em 2010, o Brasil registrou déficit de US$ 7,8 bilhões no comércio bilateral com os americanos.

Enquanto isso, os chineses fizeram a festa. Entre 2000 e 2010, aumentaram as exportações para os EUA de US$ 100 bilhões para US$ 365 bilhões – o que equivale a quase 20 vezes o que o Brasil vendeu aos americanos. Enquanto nós temos déficit com a América, a China exibe agora um astronômico superávit de mais de US$ 273 bilhões.

A visita de Obama no fim de semana deu oportunidade à presidente Dilma Rousseff de despir-se de ideologias equivocadas que grassaram no Itamaraty nos anos recentes e tentar recuperar os dólares perdidos. Está correto exigir maior abertura comercial dos EUA. Mas não basta lançar palavras em protocolos diplomáticos; é preciso agir. Além disso, o bunker de resistência à liberalização comercial é o Congresso americano, não a Casa Branca.

Alguns acordos foram assinados no sábado – entre eles, o de Comércio e Cooperação Econômica, que levará à formação de um conselho que se reunirá anualmente para dirimir pendengas comerciais existentes entre os dois países. A pauta de contenciosos é vasta. Produtos brasileiros como suco de laranja, álcool, aço e carne sofrem sérias restrições no mercado americano – a maior parte delas já condenadas pela OMC.

Os EUA têm feito corpo mole, por exemplo, no cumprimento do acordo para facilitar a entrada de carne brasileira no mercado americano, conforme mostrou o Valor Econômico em sua edição de sexta-feira. Já para barrar nosso etanol, o governo americano concede subsídios de US$ 6 bilhões por ano aos seus produtores, além de impor tarifa de US$ 0,15 sobre o litro de álcool importado do Brasil.

A diplomacia brasileira precisa lutar com mais garra do que fez até agora para suspender as distorcivas barreiras comerciais que nos são impostas por Washington. Deve, igualmente, buscar aproveitar-se de espaços existentes no mercado americano para outros produtos: atualmente, 85% das importações feitas pelos EUA são isentas de tributação.

A passagem de Barack Obama pelo Brasil precisa servir bem mais do que para mostrar ao mundo um turista acidental em cenários de praia, sol, capoeira e molduras modernistas. Deve ser o pontapé para uma decidida guinada na diplomacia ideologicamente equivocada, retrogradamente terceiro-mundista e antiamericana praticada pelo PT no governo.

O mundo globalizado não comporta apenas uma única coordenada geográfica. Girar o eixo e abarcar outros quadrantes é mirar mais longe e defender o interesse nacional.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Como preparar e servir um embaraço mundial

Coloque em um caldeirão grandes doses de megalomania e um montante de vaidade. Junte com um pouquinho de boa intenção e um pacote grande de ingenuidade. Adicione a necessidade de aplausos. Não se esqueça de incluir uma protoditadura de terceiro mundo e a retórica esquerdista a la anos 60. Deixe esquentar e misture bem. Tempere com bastante soberba. Pronto, já está servido ao mundo um perfeito embaraço internacional.

Conduzido por cozinheiros como o chanceler Celso Amorim e o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, e com o aval “secreto” do chef Barack Obama, o aprendiz Lula levou o Brasil a servir o maior constrangimento de sua história diplomática. Em busca da paz mundial, fechou um acordo com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad. Apresentado em meio a slogans para ser eterno, o trato não resistiu a um dia sequer de realpolitik.

Firmado na semana passada, no papel o tratado é gracioso. Foi até estimulado por Obama. Para evitar reprimendas da Organização das Nações Unidas, o Irã deveria trocar 1,2 tonelada de urânio de sua propriedade por 120 quilos do mesmo metal enriquecido na Turquia. Como é sabido, enriquecer urânio é necessário para uso médico, mas, no extremo, também pode levar à fabricação da bomba atômica. No final das contas, seria até emocionante a imagem de Lula e Ahmadinejad, de mãos dadas, comemorando o trato “histórico”. Mas a pantomima durou pouco.

No dia seguinte, o choque. Desconfiado do Irã, Obama tinha abandonado o barco, que começara a naufragar. A secretária de Estado americano, Hillary Clinton, até elogiou a atitude do Brasil, e coisa e tal. Mas anunciou sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU. Aconteceu o que o Brasil queria evitar. A esperança verde-amarelo era de que China e Rússia rechaçassem a proposta de Hillary, pois, em tese, eram “nossos amigos”. Pura ilusão.

Todos os grandes fecharam com os EUA. Até nossos hermanos mexicanos preferiram seguir a orientação do Norte. Foi como se o governo de Obama dissesse ao Brasil e à Turquia: “Pronto, meninos, agora saiam do tanque de areia para que nós, os grandes, possamos brincar”. Ficou a incômoda impressão de que Lula agiu como garoto de recados de Obama, que mudou de ideia mais tarde. Haja brejeirice.

Os próprios iranianos também surpreenderam os brasileiros. Também no dia posterior ao acordo, anunciaram que não iriam parar de enriquecer seu urânio – os estoques cresceram no período. Em meio à perplexidade, talvez tenha faltado avisar nossos diplomatas de que no Irã o presidente é quase um adereço. Quem tem poder de fato é o aiatolá Ali Khamenei, chefe da chamada Guarda Revolucionária, instituição que funciona independentemente do exército do país. E são os paramilitares chefiados pelo líder religioso que podem impedir ou não a construção da bomba.

Parece que as potências sabiam bem disso ao isolar o Brasil sem maiores explicações. Com o estrago já feito, a única coisa que nossos diplomatas podem fazer para diminuir o vexame é torcer para que o Conselho de Segurança da ONU reverta a decisão anunciada.

Mas o contratempo iraniano não significa que o Brasil deve colocar o rabo entre as pernas e deixar de lado a luta para ser um protagonista mundial. Ao contrário. O desenvolvimento brasileiro exige tal papel. Ocorre que, hoje, essa batalha está sendo travada por meio de lentes distorcidas, que incluem um contraditório antiamericanismo da boca para fora, sujeição a Obama nos bastidores e mão na cabeça de ditadores que soltem grunhidos contra os ianques.

Nessa toada meio biruta de aeroporto, a diplomacia tupiniquim tem sido omissa em relação aos avanços autoritários do coronel Hugo Chávez e não perde a oportunidade de abençoar a carcomida ditadura dos irmãos Castro. Enquanto isso, o Brasil só conseguiu assinar um tratado comercial em toda a gestão petista, com Israel. Ou seja, o blábláblá ainda se dá em detrimento de uma política externa realmente efetiva.

O Brasil faria melhor para conquistar o devido respeito se também apoiasse firmemente a democracia no mundo, sobretudo entre os vizinhos. Há tarefas urgentes a serem feitas por aqui, na América do Sul. O governo não dá a devida prioridade à escalada do protecionismo argentino; não liga tanto assim para conflitos envolvendo guerrilheiros na Colômbia e no Paraguai, e suas ramificações com a droga que assola o país; não vê relevância nas disputas marítimas entre Chile e Peru; e sai de fininho nas querelas comerciais com Argentina e Uruguai.

Se atuasse nesses pontos, quem sabe, a almejada cadeira definitiva no Conselho de Segurança da ONU seria mais merecida. Mas o PT deve achar que isso tudo é coisa pouca. Na ansiedade de servir um bom prato para os ricos, a quem gosta de criticar apenas para fazer tipo, o “Itamaraty do B” é desleixado com a fome de conciliação e democracia de alguns colegas mais pobres.

Fiquemos com a precisa definição de Andres Oppenheimer para este caso de megalomania: “O Brasil não pode ser um anão diplomático em sua própria região e tentar ser um gigante longe de casa”.