No fim de semana passado, o Brazil Journal publicou depoimento de Roberto Campos que integra o primeiro volume de “No Calor das Ideias – Breviário do Bem Pensar”, editado pela Insight Inteligência. A verve de um dos nossos liberais mais ferinos e argutos funciona como chamariz e tanto para o livro.
Mas quem se dispuser a baixá-lo – ele está disponível de graça na internet e é altamente recomendado – provavelmente se surpreenderá ao ver que a cereja do bolo vem de alguém de espectro ideológico oposto ao de Bob Fields: uma entrevista dada por Maria da Conceição Tavares em 2001.
O depoimento de Conecição é uma aula de civilidade e de respeito a ideias e pessoas com posições antagônicas, um tipo de postura que hoje soaria como conto da carochinha, embora seja tudo aquilo que mais nos faz falta nestes tempos atuais.
Conceição talvez dispense apresentações. Mas para o bom desenrolar desta conversa, é melhor situá-la na história.
Ela compôs o primeiríssimo time dos chamados economistas desenvolvimentistas brasileiros, caudatários de Celso Furtado e Caio Prado Junior. Cepalina, devota de Raúl Prebisch, foi voluntária do governo socialista de Salvador Allende no Chile. Crítica extrema e extremada do modelo econômico adotado pelo regime militar brasileiro, dedicou-se como professora, na UFRJ e na Unicamp, a formar gerações de economistas de viés progressista – hoje chamados, sem muito sopesar e quase nenhuma nuance, economistas “de esquerda”.
No fim da ditadura, Conceição integrava a Executiva Nacional e o núcleo de economistas do PMDB. Envolveu-se em políticas e planos de estabilização monetária como o Cruzado, a ponto de derreter-se em lágrimas diante de câmeras de TV em defesa dele.
Cansada daqueles choques heterodoxos à base de congelamento de preços, em 1994 mudou-se de mala e cuia para o PT, partido ao qual se mantém filiada até hoje. Criticou com fervor a única experiência anti-inflacionária que deu certo no país, o Plano Real, engrossando o coro de erros daquele partido. Ainda assim, ou talvez por isso mesmo, naquele ano elegeu-se deputada federal pelo Rio de Janeiro. Cumpriu mandato até 1999 e desistiu da política, mas se manteve firme no debate nacional pela década seguinte. Hoje, aos 89 anos, aquietou-se.
Foi esta Conceição que, em 2001, concedeu a Coriolano Gatto e Luiz Cesar Faro um depoimento destinado a fornecer relatos e memórias para uma biografia sobre Octávio Gouveia de Bulhões que a Inteligência acalentava produzir. O livro não saiu, mas a entrevista foi ao prelo na edição n° 14 da revista. Mas, afinal, o que há de tão sensacional nisso? O título que encima o texto publicado há 18 anos — e agora transformado em um dos 27 capítulos de “No Calor das Ideias” — talvez permita bom entendimento: “Por que amei Octávio Bulhões”.
Nas 37 perguntas e interpelações dos entrevistadores à entrevistada, Conceição derrama-se em elogios àquele que foi um dos artífices do pensamento econômico conservador brasileiro. Junto com Roberto Campos, Bulhões forjou as reformas ortodoxas que formaram os alicerces da política econômica dos governos militares e seu posterior milagre do crescimento. Ele era, de seus ralos fios de cabelo até o dedinho do pé, um liberal de quatro costados. Em suma, portanto, o antípoda de Conceição, o exato oposto de tudo pelo que ela se esgoelava.
No entanto, foi com Bulhões que ela aprendeu boa parte dos cânones da ciência econômica, ao graduar-se na Fundação Getulio Vargas – depois de chegar de Portugal, onde se formara em matemática. Era 1957. Também naquela escola, logo depois, Conceição se tornaria assistente do professor e, anos depois, assumiria, por concurso, a cadeira de macroeconomia que fora dele.
Declara a polemista exaltada, a desenvolvimentista, a cepalina, a estatista, a esquerdista, a economista heterodoxa, a parlamentar e militante petista sobre o “Dr. Bulhões”, o homem cordial, ortodoxo, conservador, liberal, privatista, fiscalista e esteio dos governos direitistas militares: “Eu tenho muito respeito pelo velho, sim. A independência dele vis-à-vis o establishment. Por quê? Porque ele era servidor público, com “S” e “P” maiúsculos. (...) Foi um grande mestre, um inesquecível ser humano. Faz muita falta hoje”.
Octávio Gouveia de Bulhões morreu em 1990. Serviu a todos os governos brasileiros de Dutra a Costa e Silva, passando por Café Filho, Juscelino, Jânio, Jango e Castelo Branco, quando, em parceria com Roberto Campos, levou adiante o Paeg, ousado pacote de reformas econômicas que pôs ordem nas finanças públicas, domou a inflação e, com isso, abriu as portas para o crescimento recorde do PIB nacional que viria na década seguinte – além de ter criado, na mesma levada, o Banco Central, o Conselho Monetário Nacional, o FGTS e o BNH.
Mas o que tudo isso, de remotas décadas atrás, tem a ver com os dias de hoje?
A entrevista de Conceição é um libelo de tolerância que ensinará muito aos que se dispuserem a lê-la nos tempos atuais. É a prova de que opostos podem – e devem – conviver, dialogar, discutir e discordar, civilizadamente, sempre que devotados a um bem maior: o interesse comum da nação. Tanto o professor quanto a aluna dão exemplo de convivência e coexistência pacífica, ambos se aceitando, se respeitando e, por que não?, se amando.
O respeito era mútuo. Rememora Conceição na entrevista: “Eu fiz a minha tese de livre docência para poder disputar o cargo de titular [na FGV]. Era dezembro de 1974, e fui examinar a política Bulhões/Campos. É claro, obviamente, que não concordava! E disse com muita elegância que não concordava. E aí, ele [Bulhões] me respondeu por escrito. Isso é que eu acho fantástico! Como é que o cara se deu ao trabalho de fazer dois artigos para a revista Visão, reafirmando as posições dele sem nenhuma crítica?”
Até de prisão pelos militares o Dr. Bulhões foi capaz de livrar Conceição, com intervenção direta do Presidente Geisel e de seu ministro da Fazenda, Mario Henrique Simonsen: “Você não vai sozinha para o aeroporto,” obstou o decano, evitando que ela fosse em cana ao embarcar no Galeão para uma missão no México.
Esse Brasil ainda existe?
A recíproca era verdadeira. Bulhões também reservava palavras públicas respeitosas para sua ex-aluna ruidosa e contestadora. Entre abril e novembro de 1989, ele concedeu uma série de 20 entrevistas destinadas ao projeto “Memória do Banco Central do Brasil”. Numa delas, perguntaram-lhe os pesquisadores: “Na FEA [Faculdade de Economia e Administração da FGV] o senhor vai ter uma assistente conhecida, e meio surpreendente que tenha sido sua assistente, que é a Maria da Conceição Tavares. Como é que o senhor escolhe a Conceição para ser sua assistente?” Bulhões responde, sem nenhum rodeio: “Porque ela conhecia bem os assuntos e sabia expor. De modo que ela foi escolhida. Eu escolhi.” Ponto. Mais adiante, Bulhões foi instado a listar seus alunos mais brilhantes e, de novo de pronto, incluiu Conceição num curto rol, não sem antes classificá-la como “excelente”.
É de se perguntar: por que algo que deveria ser tão básico na vida de uma nação virou moeda rara, numa época tão pobre e carente tanto de cabeças brilhantes quanto de soluções pragmáticas?
O que aconteceu desde que Conceição concedeu aquela entrevista não é novidade: o convívio entre diferentes foi se esgarçando, as concordâncias foram se estreitando e as partes se afastando até que nos sobrassem apenas as margens extremas contra as quais nossas costas estão hoje dolorosamente esmagadas.
A semente da intolerância não brotou agora. Vem sendo cultivada sobretudo a partir da ascensão do PT ao comando do país. Com sua sanha em forma de guerra santa pela hegemonia política, econômica, cultural e intelectual, o petismo foi cindindo os brasileiros entre bons e maus, entre eles e nós. Deu no que deu. A despeito de tentar apresentar-se como novidade, o bolsonarismo apenas persevera e aprofunda essa colheita maldita, dando-lhe, em certos casos, cores ainda mais vívidas. São, portanto, décadas de descaminho e demonizações. Até onde isso vai?
A entrevista de Conceição nos lembra um tempo em que adversários eram só isso: adversários, e não inimigos mortais. Um tempo em que esquerdistas compunham governos de tucanos – como era notório, por exemplo, com os sanitaristas engajados do Ministério da Saúde de José Serra – ou liberais insofismáveis davam expediente no Ministério da Fazenda do PT ao lado de Antonio Palocci. No Congresso, cerravam fileira, entre outros, em favor dos medicamentos genéricos ou da mudança das regras de aposentadoria de servidores públicos.
Esse tempo — o tempo do diálogo, do respeito e da racionalidade — infelizmente ficou para trás. Mas não significa que não possa voltar. Basta que estejamos dispostos a novamente abrir espaço para o conflito educado (ainda que duro) de ideias, a convivência pacífica, o respeito mútuo e a busca do bem comum. Não é difícil. Conceição e Bulhões nos ensinam que é possível.
Artigo publicado originalmente no Brazil Journal em 19 de maio de 2019.
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segunda-feira, 20 de maio de 2019
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Um inferno lotado de intenções
Dilma Rousseff parece estar ensaiando um discurso para reagir à crise. Pena que ele contradiga tudo o que a presidente e seu partido fizeram nos últimos anos para chegar e se manter no poder.
O governo parece ter achado uma agenda para suplantar o ajuste fiscal e repor o país nalguma rota de crescimento. Pena que ela colida com tudo o que o PT pratica à frente do país e contenha medidas contra as quais o partido de Lula, Dilma e José Dirceu sempre se bateu.
Este talvez seja o maior problema da narrativa petista: entre a intenção e a prática vai longa distância, numa estrada esburacada por contradições, subterfúgios e mentiras. Torna-se, portanto, difícil crer que haja boa-fé nos propósitos patrocinados pelo Planalto e seus aliados.
Aboletada em palanques país afora, Dilma agora repete que não se pode admitir “vale-tudo”, nem torcer pelo “quanto pior, melhor”. Será que ela se lembra do que seu partido adotou como modus operandi durante toda sua existência até chegar ao poder? Será que se recorda de como ela mesma obteve seu segundo mandato, na mais suja eleição da história?
Se Lula se dizia a “metamorfose ambulante”, Dilma se revela a contradição em carne e osso. Um dia acena com diálogo, no outro arrosta com ameaças e enfrentamentos. Afirma a plateias que se deve pensar primeiro no país, mas age sempre privilegiando o projeto político de seu partido. Em suma: diz uma coisa, mas faz outra.
Distância parecida separa a prática de governo da agenda de medidas que o Planalto ensaia patrocinar a partir de sugestões feitas por senadores liderados por Renan Calheiros. Não é que sejam erradas; é que colidem com a atitude e a visão de mundo que o PT professa. Difícil crer que transponham o campo das boas intenções.
Como esperar que o governo que promoveu, por meio de uma embolorada matriz econômica, uma intervenção tão exagerada quanto desastrada na economia seja capaz agora de garantir segurança jurídica, regras estáveis e ágeis para o investimento privado?
Como crer que o governo do partido que promoveu a maior pilhagem dos cofres públicos da história comungue da aprovação de uma lei de responsabilidade para estatais? (Sem falar que, no passado, este mesmo partido foi às raias dos tribunais tentar impedir que regras de responsabilidade no trato do dinheiro público fossem adotadas no país?) Ou aprove mudanças na Previdência que rejeitou quando era a oposição do “quanto pior, melhor”?
O governo está se esforçando para encontrar uma narrativa, mas carrega um déficit de credibilidade de tal ordem que será preciso muito mais para alterar os humores dos brasileiros e ressuscitar a confiança numa mudança do país para melhor. Por enquanto, não passa de conversa fiada.
O governo parece ter achado uma agenda para suplantar o ajuste fiscal e repor o país nalguma rota de crescimento. Pena que ela colida com tudo o que o PT pratica à frente do país e contenha medidas contra as quais o partido de Lula, Dilma e José Dirceu sempre se bateu.
Este talvez seja o maior problema da narrativa petista: entre a intenção e a prática vai longa distância, numa estrada esburacada por contradições, subterfúgios e mentiras. Torna-se, portanto, difícil crer que haja boa-fé nos propósitos patrocinados pelo Planalto e seus aliados.
Aboletada em palanques país afora, Dilma agora repete que não se pode admitir “vale-tudo”, nem torcer pelo “quanto pior, melhor”. Será que ela se lembra do que seu partido adotou como modus operandi durante toda sua existência até chegar ao poder? Será que se recorda de como ela mesma obteve seu segundo mandato, na mais suja eleição da história?
Se Lula se dizia a “metamorfose ambulante”, Dilma se revela a contradição em carne e osso. Um dia acena com diálogo, no outro arrosta com ameaças e enfrentamentos. Afirma a plateias que se deve pensar primeiro no país, mas age sempre privilegiando o projeto político de seu partido. Em suma: diz uma coisa, mas faz outra.
Distância parecida separa a prática de governo da agenda de medidas que o Planalto ensaia patrocinar a partir de sugestões feitas por senadores liderados por Renan Calheiros. Não é que sejam erradas; é que colidem com a atitude e a visão de mundo que o PT professa. Difícil crer que transponham o campo das boas intenções.
Como esperar que o governo que promoveu, por meio de uma embolorada matriz econômica, uma intervenção tão exagerada quanto desastrada na economia seja capaz agora de garantir segurança jurídica, regras estáveis e ágeis para o investimento privado?
Como crer que o governo do partido que promoveu a maior pilhagem dos cofres públicos da história comungue da aprovação de uma lei de responsabilidade para estatais? (Sem falar que, no passado, este mesmo partido foi às raias dos tribunais tentar impedir que regras de responsabilidade no trato do dinheiro público fossem adotadas no país?) Ou aprove mudanças na Previdência que rejeitou quando era a oposição do “quanto pior, melhor”?
O governo está se esforçando para encontrar uma narrativa, mas carrega um déficit de credibilidade de tal ordem que será preciso muito mais para alterar os humores dos brasileiros e ressuscitar a confiança numa mudança do país para melhor. Por enquanto, não passa de conversa fiada.
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sábado, 14 de março de 2015
Vamos pra rua
O Brasil deverá viver, neste domingo, um dos momentos mais marcantes da sua história política recente. A mobilização em defesa da ética e contra a corrupção incrustada no poder pelo PT tende a ser um marco das mobilizações pela cidadania e pela democracia no país.
As manifestações devem ocorrer em pelo menos 62 cidades. Têm caráter apartidário e caracterizam-se, principalmente, por expressar a legítima indignação dos brasileiros quanto ao estado geral das coisas no país, à flagrante inépcia do governo do PT em prover melhores condições de vida à população e à deterioração moral e ética percebida por todos.
Os atos de domingo deverão deixar claro que a insatisfação une todo o país: pobres, ricos, trabalhadores, empresários, moradores do Nordeste e do Sudeste, estudantes, aposentados. Por uma razão muito simples: não há, como sustenta o PT, um Brasil dividido; há brasileiros em busca de um país melhor, mais justo e honesto, onde as instituições e o Estado de Direito são respeitados.
A data escolhida para as manifestações coincide com a que marcou o fim do governo militar, quando Tancredo Neves deveria assumir a presidência da República, em 1985. Não é mera coincidência que os organizadores tenham escolhido uma efeméride de tanto simbolismo para os que defendem e prezam pela democracia no Brasil.
O movimento pela cidadania convocado para domingo diferencia-se em quase tudo dos atos convocados para hoje por entidades-satélites do PT. Mas mesmo as manifestações pró-governo da CUT e do MST também expressam insatisfações quanto aos rumos que Dilma Rousseff vem dando ao país – e tornam a presidente cada dia mais sitiada, como ficou claro com o cancelamento da agenda que ela teria hoje em Belo Horizonte.
A partir de domingo, restará claro, de uma vez por todas, que o PT não detém o monopólio da vontade dos brasileiros, nem poderá mais usar o povo como massa de manobra. Sobrará ao petismo continuar esperneando contra seus adversários, sempre tentando rotular qualquer manifestação crítica como “golpismo”.
É crucial – e assim expressam os grupos envolvidos na sua organização – que os atos de domingo transcorram dentro dos limites da democracia, da lei e da ordem. Pacificamente. Serão mais uma demonstração do inequívoco vigor e da desejável participação cidadã dos brasileiros no processo político do país.
No próximo domingo, as ruas do país estarão tomadas por milhares de brasileiros que, exercendo a livre manifestação de opinião, de pensamento e de crítica e o sagrado direito constitucional à expressão, lutam por um país melhor. Em paz, pela democracia, pela ética, pela liberdade e pela cidadania. Estamos juntos.
As manifestações devem ocorrer em pelo menos 62 cidades. Têm caráter apartidário e caracterizam-se, principalmente, por expressar a legítima indignação dos brasileiros quanto ao estado geral das coisas no país, à flagrante inépcia do governo do PT em prover melhores condições de vida à população e à deterioração moral e ética percebida por todos.
Os atos de domingo deverão deixar claro que a insatisfação une todo o país: pobres, ricos, trabalhadores, empresários, moradores do Nordeste e do Sudeste, estudantes, aposentados. Por uma razão muito simples: não há, como sustenta o PT, um Brasil dividido; há brasileiros em busca de um país melhor, mais justo e honesto, onde as instituições e o Estado de Direito são respeitados.
A data escolhida para as manifestações coincide com a que marcou o fim do governo militar, quando Tancredo Neves deveria assumir a presidência da República, em 1985. Não é mera coincidência que os organizadores tenham escolhido uma efeméride de tanto simbolismo para os que defendem e prezam pela democracia no Brasil.
O movimento pela cidadania convocado para domingo diferencia-se em quase tudo dos atos convocados para hoje por entidades-satélites do PT. Mas mesmo as manifestações pró-governo da CUT e do MST também expressam insatisfações quanto aos rumos que Dilma Rousseff vem dando ao país – e tornam a presidente cada dia mais sitiada, como ficou claro com o cancelamento da agenda que ela teria hoje em Belo Horizonte.
A partir de domingo, restará claro, de uma vez por todas, que o PT não detém o monopólio da vontade dos brasileiros, nem poderá mais usar o povo como massa de manobra. Sobrará ao petismo continuar esperneando contra seus adversários, sempre tentando rotular qualquer manifestação crítica como “golpismo”.
É crucial – e assim expressam os grupos envolvidos na sua organização – que os atos de domingo transcorram dentro dos limites da democracia, da lei e da ordem. Pacificamente. Serão mais uma demonstração do inequívoco vigor e da desejável participação cidadã dos brasileiros no processo político do país.
No próximo domingo, as ruas do país estarão tomadas por milhares de brasileiros que, exercendo a livre manifestação de opinião, de pensamento e de crítica e o sagrado direito constitucional à expressão, lutam por um país melhor. Em paz, pela democracia, pela ética, pela liberdade e pela cidadania. Estamos juntos.
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quinta-feira, 12 de março de 2015
A ‘elite’ que vaia Dilma
Sempre que é questionado, o PT tenta desqualificar a crítica e circunscrevê-la a grupos isolados que, segundo o discurso oficial, “não representam a sociedade”. Foi assim nas manifestações de 2013, foi assim na Copa do Mundo e novamente agora após o panelaço de domingo. Como sempre, a fábula não resiste a um sopro da realidade.
Os defensores do governo sustentam que os protestos são de uma elite que reclama “de barriga cheia”. Coisa de dondoca que não tem mais o que fazer ou de playboy mimado. (Os termos aqui empregados parecem conversa de adolescente, mas o linguajar dos petistas é assim mesmo: pueril, básica, primária.)
Ontem, em São Paulo, a presidente da República pôde ver de perto que “elite” é esta que tanto reclama do governo dela. Lá estavam – segundo registros da imprensa – pedreiros, pintores, faxineiras, montadores de estandes, marceneiros, modelos, comerciários e empresários. Ou seja, lá estava uma amostra do povo brasileiro.
A Dilma Rousseff, os manifestantes (“dezenas”, segundo os jornais) dedicaram palavras carinhosas como “vagabunda”, “bruxa” e “ladra”. Foi uma resposta ao desgoverno a que estamos assistindo e foi, especialmente, uma réplica indignada ao escárnio travestido de pronunciamento à nação que a presidente levou à TV na noite de domingo.
Os sinais do constrangimento ficaram visíveis. Enquanto Dilma mostrava-se abatida por mais um apupo sofrido, o cerimonial do Palácio do Planalto tentava apartar a imprensa do protesto. Não funcionou. A presidente preferiu abortar a caminhada que fazia pela feira e correu para o conforto do auditório onde faria sua palestra. Lá encontrou vazios metade dos 799 lugares.
Os limites da narrativa enganadora do PT também foram expressos no depoimento dado ontem por Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras, à CPI que investiga a estatal. Mais uma vez ele deixou claro: o esquema criminoso foi instalado na empresa de forma “institucionalizada” com a chegada do PT ao governo. O que houve antes foram “atitudes isoladas” do engenheiro.
Barusco é o mesmo que revelou que mais de meio bilhão de reais podem ter sido desviados da Petrobras para o PT. Ontem, ele agregou que US$ 300 mil de propina foram repassados à campanha que elegeu Dilma em 2010 pela firma holandesa SBM. Não há qualquer registro de doação desta empresa na Justiça Eleitoral.
Dilma deve estar percebendo, da pior maneira possível, os limites de um governo cuja existência sempre se ancorou em marketing. Se acha que o que viu e ouviu até agora nas ruas é exagero, é melhor a presidente esperar pelo que vem por aí. Se as promessas não viram realidade, se a vida torna-se cada dia mais difícil, se o quadro geral é cada vez mais desalentador, a resposta do povo vem a galope. Motivos para protestar não faltam.
Os defensores do governo sustentam que os protestos são de uma elite que reclama “de barriga cheia”. Coisa de dondoca que não tem mais o que fazer ou de playboy mimado. (Os termos aqui empregados parecem conversa de adolescente, mas o linguajar dos petistas é assim mesmo: pueril, básica, primária.)
Ontem, em São Paulo, a presidente da República pôde ver de perto que “elite” é esta que tanto reclama do governo dela. Lá estavam – segundo registros da imprensa – pedreiros, pintores, faxineiras, montadores de estandes, marceneiros, modelos, comerciários e empresários. Ou seja, lá estava uma amostra do povo brasileiro.
A Dilma Rousseff, os manifestantes (“dezenas”, segundo os jornais) dedicaram palavras carinhosas como “vagabunda”, “bruxa” e “ladra”. Foi uma resposta ao desgoverno a que estamos assistindo e foi, especialmente, uma réplica indignada ao escárnio travestido de pronunciamento à nação que a presidente levou à TV na noite de domingo.
Os sinais do constrangimento ficaram visíveis. Enquanto Dilma mostrava-se abatida por mais um apupo sofrido, o cerimonial do Palácio do Planalto tentava apartar a imprensa do protesto. Não funcionou. A presidente preferiu abortar a caminhada que fazia pela feira e correu para o conforto do auditório onde faria sua palestra. Lá encontrou vazios metade dos 799 lugares.
Os limites da narrativa enganadora do PT também foram expressos no depoimento dado ontem por Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras, à CPI que investiga a estatal. Mais uma vez ele deixou claro: o esquema criminoso foi instalado na empresa de forma “institucionalizada” com a chegada do PT ao governo. O que houve antes foram “atitudes isoladas” do engenheiro.
Barusco é o mesmo que revelou que mais de meio bilhão de reais podem ter sido desviados da Petrobras para o PT. Ontem, ele agregou que US$ 300 mil de propina foram repassados à campanha que elegeu Dilma em 2010 pela firma holandesa SBM. Não há qualquer registro de doação desta empresa na Justiça Eleitoral.
Dilma deve estar percebendo, da pior maneira possível, os limites de um governo cuja existência sempre se ancorou em marketing. Se acha que o que viu e ouviu até agora nas ruas é exagero, é melhor a presidente esperar pelo que vem por aí. Se as promessas não viram realidade, se a vida torna-se cada dia mais difícil, se o quadro geral é cada vez mais desalentador, a resposta do povo vem a galope. Motivos para protestar não faltam.
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terça-feira, 17 de junho de 2014
A união contra o ódio
Há duas forças
políticas em disputa hoje no país. Uma prega o ódio; a outra defende a união. Uma
quer dividir os brasileiros; a outra busca uma nação que seja melhor para todos,
indistintamente.
Inverter estes papéis
é a estratégia de quem sempre apostou num Brasil conflagrado e, quando colhe o
que planta cotidianamente, age como o batedor de carteira que, apanhado, grita “pega
ladrão”.
Quem, mais que o PT,
vem insuflando o ódio e tentando, com seu discurso sectário, dividir o país
entre pobres e ricos, entre brancos e negros, entre elite e miseráveis? Não há cargo
nem liturgia que impeçam seus próceres de exercitar sua retórica da intransigência,
onde quer que a oportunidade surja.
Os petistas usam
todos os meios à mão, lícitos e, principalmente, ilícitos, para propagar sua
ode à divisão do país. Quem não está a favor do governo é tachado de “pessimista”,
de “perdedor”, de antipatriótico. Não apenas nos palanques, mas também em
solenidades oficiais. Cadeias de rádio e televisão tornaram-se tribuna de honra
para ataques partidários.
Os líderes petistas aproveitam
todos os espaços disponíveis – e subvertem os que não deveriam estar disponíveis
– para constranger adversários, sempre classificando-os como espécies de vendilhões
da pátria, traidores da nação, feitores do povo. Quem não está conosco está
contra nós – é esta a mensagem sempre veiculada pelos porta-vozes do PT.
Que militantes sectários
ajam assim, até vá lá. Mas a coisa muda muito de figura quando até a presidente
da República não se furta a desrespeitar quem pode interpor-se ao projeto de
poder total de seu partido. Foi o que fez Dilma Rousseff ontem ao atacar um
governador de Estado em mensagem gravada a petistas no lançamento de seu candidato
ao governo de São Paulo.
É assim que o PT faz
política: atacando, achincalhando, desrespeitando. Quando tomam apupos como
respostas, posam de vestais. As vaias e os xingamentos são difusos, partem de
gente insatisfeita com o governo, ainda que com maus modos. São uma réplica à forma
de governar de um partido e não agressão a uma mulher.
A retórica agressiva
do PT, em contrapartida, é parte essencial de sua estratégia política, espinha
dorsal de sua lógica de comunicação. Tanto que partiu de seu marqueteiro, o 40°
ministro da República, João Santana, a comparação
dos adversários de Dilma a “uma antropofagia de anões, (que) vão se comer, lá
embaixo”. Se nove meses atrás a ordem unida já era esta, imagina agora depois da
Copa...
O mago das campanhas
eleitorais petistas dá a nota, mas quem executa a sinfonia de diatribes é Luiz
Inácio Lula da Silva. A cada vez que lhe abrem os microfones para falar, o
ex-presidente mostra-se incapaz de produzir uma mensagem construtiva, uma
palavra em favor de uma concertação nacional. Sua lógica sempre é a do
sectarismo.
À guisa de “responder”
a investida da oposição, o petista exercitou ontem, mais uma vez, sua pregação
do ódio. Mais uma vez, apostou na divisão da sociedade. Mais uma vez, lançou
mão de manipulações da história e da reescrita do passado. É assim, e só assim,
que o PT busca conseguir seus triunfos.
Os brasileiros de
bem não suportam mais a maneira conflituosa de fazer política que o PT pratica.
Os brasileiros de bem querem, isso sim, a reconquista da união e da civilidade.
A mesma união que fez o país superar a truculência política, a instabilidade
econômica, o atraso social. A união que, nas últimas três décadas, construiu a
nação que hoje somos. O Brasil é de todos os brasileiros e não de uma facção
que dele considera ter se apossado.
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