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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Bomba no ensino médio

Nem precisava mais esta. Mas os resultados do Enem divulgados ontem expressam, mais uma vez, a situação ruim, para dizer o mínimo, em que se encontra o ensino médio no país. Urge tocar adiante a reforma desta fase da educação para que milhões de jovens brasileiros não se transformem em mais uma geração perdida.

Os resultados publicados ontem referem-se às provas do ano passado, feitas por 1,2 milhão de alunos de quase 15 mil escolas em todo o país. A participação no Enem, que serve como exame de seleção para a maior parte das faculdades brasileiras, é maciça entre as escolas privadas (77% do total tiveram notas divulgadas) e bem mais rarefeita entre as públicas (40%).

Infelizmente, tudo que já está muito ruim pode piorar um pouco mais. Em três das cinco áreas do Enem, as notas do ano passado caíram em relação a 2014: matemática (-1,2%), linguagens (-1,4%) e ciências da natureza (-1,8%). Em compensação, as pontuações de ciências humanas e redação cresceram 1,6% e 10,6%, respectivamente. A média geral oscilou de 506 para 503.

Em matemática, de 2011 a 2015 todas as unidades da federação pioraram suas notas, segundo levantamento do Instituto Alfa e Beto citado pelo jornal O Estado de S. Paulo. Em compensação, só um estado, o Rio, não viu sua nota média global aumentar no mesmo período.

O Enem mostra, mais uma vez, o fosso existente entre o ensino privado e o público. De cada dez escolas mantidas pelo Estado, nove não atingiram a média nacional. No caso das particulares, a proporção é bem mais benigna: menos de duas (exatos 17%) ficaram abaixo da nota média do país, um sofrível 5,16 no cômputo geral, de acordo com a Folha de S.Paulo. Das mil melhor colocadas, somente 49 são públicas, informa O Globo.

A desigualdade também se expressa no fato de que 90% das 200 escolas com maior pontuação são de níveis socioeconômicos alto e muito alto. O intervalo entre as notas médias das escolas mais ricas e das mais pobres quase dobrou de 2014 para 2015. No entanto, há algo comum a ambas as redes: mais da metade das escolas tanto públicas quanto privadas viu suas notas globais caírem em relação a 2014.

Além da baixa qualidade do que é ensinado e aprendido por nossos jovens, o Enem não deixa margem a dúvidas sobre a imensa desigualdade de oportunidades que nosso sistema educacional reproduz há décadas. O quadro geral é ruim, mas o abismo entre alunos pobres e ricos é ainda mais dramático.

Neste sentido, a reforma do ensino médio em tramitação no Congresso ganha ainda mais urgência e relevância. Infelizmente, grupos corporativos já se insurgiram contra as mudanças e podem travar o andamento mais célere - o ritmo que a deplorável situação atual efetivamente demanda - que o governo busca dar à matéria por meio de medida provisória.

Ontem o Ministério da Educação admitiu que as mudanças no ensino médio podem ficar para 2019, em razão da necessidade de também serem definidas as bases nacionais curriculares comuns. Se é para o bem da necessária melhoria da qualidade da educação hoje ofertada aos jovens brasileiros, vá lá. Mas há uma geração inteira de meninos e meninas que não têm mais nenhum tempo a perder.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Vestibular para fiascos

No passado, os estudantes brasileiros ficavam angustiados às vésperas das provas de vestibular. O que os atemorizava era ter de enfrentar o funil da entrada numa universidade. Agora, o sobressalto vem a cada edição do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e o temor é de ver-se diante de logros e fraudes. É o que passou a acontecer rotineiramente: há três anos seguidos tem sido assim.

Uma boa ideia, o Enem tornou-se um rosário de fiascos. Este ano, parte da prova foi conhecida antes por alunos de um colégio de Fortaleza. Isso é o que se sabe por ora. Diante do histórico de lambanças, não será surpresa se outros desvios e mais falhas tiverem acontecido, mas ainda não tenham vindo a conhecimento público.

Ontem, depois de dias de silêncio, o ministro da Educação dedicou-se a conceder entrevistas para expiar a culpa pelo fracasso. Ele acusa funcionários do colégio cearense de terem cometido um “ato delituoso”. Mas o que faz o MEC quando transforma o sonho de milhões de jovens de ingressar numa universidade em pesadelo? Caridade é que não é.

Cerca de 5 milhões de jovens fizeram as provas no último fim de semana. Num primeiro momento, o MEC comemorou o sucesso da empreitada, ao concluir, prematuramente, que tudo transcorrera bem.

Comemorou cedo demais, ignorando indícios clamorosos de irregularidades, como o caso de uma repórter que foi recrutada na porta de uma escola para fiscalizar a aplicação das provas. O Enem é um prato cheio para bizarrices...

O MEC de Fernando Haddad gasta uma fortuna para produzir seus fiascos em série. Neste ano, a despesa para realizar o Enem subiu a R$ 372 milhões, o que significa um encarecimento de 190% em relação aos R$ 128 milhões dispendidos em 2010. Nem assim, a pasta conseguiu blindar-se de fracassos.

O ministério diz que as questões que foram conhecidas pelos alunos do colégio de Fortaleza constavam de um pré-teste aplicado na mesma escola em outubro do ano passado. O que não se entende é como questões já aplicadas foram agora novamente cobradas dos estudantes. Há, no mínimo, uma grave falha nas rotinas e nos procedimentos de segurança do Enem.

Haddad vocifera contra a escola de Fortaleza e mandou que o MEC anulasse a prova de seus 639 alunos. O Ministério Público Federal viu aí flagrante equívoco: ou cancelam-se as 14 questões vazadas ou derruba-se a prova inteira de todos os mais de 5 milhões de participantes no país inteiro. Punir só os estudantes de uma escola, que já sofrem discriminação por um delito que não cometeram, não – sob pena de desequilibrar totalmente a disputa.

Especialistas dizem que o estoque de questões que o MEC tem para aplicar no Enem é insuficiente. São apenas cerca de 6 mil, quando o mínimo deveria ser 10 mil. O ideal, explicam, seria 40 mil, universo que garantiria isonomia entre os participantes e a certeza de que as provas são, de fato, equivalentes.

O Enem nasceu em 1998 como ferramenta nacional de avaliação do último ciclo da educação básica. A partir de 2009, ganhou status também de vestibular e já é adotado pela maioria das universidades federais do país, além de ser usado como critério para concessão de bolsas do ProUni.

Desde então, repete-se um histórico de fiascos. Em 2009, o Enem foi prejudicado por fraudes. Em 2010, falhas na montagem das folhas de resposta obrigaram milhares de estudantes a refazer o exame. Este ano, centenas de candidatos já haviam recebido cartões de confirmação com local da prova errado.

O MEC já prometeu realizar mais de uma edição do Enem por ano. Sob o peso de sua incompetência, jamais esteve perto de cumprir a promessa. A realização da prova em várias datas poderia ter o condão de minimizar a ocorrência de fraudes, além de diminuir consideravelmente a angústia dos estudantes, que não precisarão se concentrar numa data apenas dos 365 dias do calendário do ano.

O rebuliço em torno de mais uma falha na aplicação do Enem vai crescer. E da forma mais saudável possível. Os estudantes brasileiros estão indignados com o desrespeito do MEC e prometem ir às ruas. Diante de tanta barbeiragem, já preferem até a volta do vestibular. Pelas redes sociais se mobilizam e já marcaram data para fazer seu protesto: 13 de novembro. Motivos para reclamar, não faltam.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Educação reprovada

Não dá para ficar satisfeito com a microscópica melhora das notas médias do Enem de 2010 divulgadas pelo governo federal. Os resultados confirmam a lentidão da evolução do ensino no país e o abismo que nos separa das nações que encontraram na melhor formação educacional de suas crianças e jovens um caminho para o desenvolvimento.

O Ministério da Educação comemorou o fato de a nota média nas provas objetivas – únicas nas quais é possível fazer comparações entre um exame e outro – ter passado de 501,58 para 511,21 pontos entre 2009 e 2010. Seria o mesmo que um pai ficar satisfeito em saber que, ao invés de ser reprovado com nota igual a 50, o filho tomou bomba tendo obtido média de 51.

Fernando Haddad disse que a evolução, equivalente a uma melhora de menos de 2% de um ano para o outro, “está dentro do esperado”. Só se for para ele. O que a sociedade brasileira espera do governo é que acelere este processo e não que fique a observá-lo avançar a passos de cágado.

Numa pontuação que vai de 0 a 1.000, o MEC fixou como meta atingir a média de 600 até 2028. Se a evolução verificada no ano passado se repetir, o objetivo poderá ser alcançado antes, em uma década. Ocorre que o alvo perseguido pelo governo equivale ao patamar observado nos países desenvolvidos em 2003, ou seja, na melhor das hipóteses estamos pelo menos duas décadas atrasados.

Mesmo com a ligeira melhora na nota média, o quadro geral é desalentador. A maior parte dos estudantes (53%) teve nota abaixo da média global (553,73 pontos), que considera tanto o desempenho nas provas objetivas quanto na redação.

Na rede pública, a proporção é alarmante: oito em cada dez escolas ficaram aquém da média geral do Enem. Nas particulares, foram 8%, ou menos de uma em cada dez. Em números absolutos, aparecem nesta situação 8.926 estabelecimentos da rede estatal e 397 da particular, num universo de quase 24 mil colégios avaliados.

O Enem repisa um problema que já vem sendo verificado em outras avaliações como o Ideb, o Pisa, a Prova ABC, a Prova Brasil: o fosso que separa a qualidade do ensino na rede privada daquele que é oferecido nas escolas públicas.

Das 20 escolas com maiores médias no Enem, 18 são privadas e as duas públicas são vinculadas a universidades federais. Na outra ponta, entre as mil escolas com piores médias, 995 são públicas e apenas cinco privadas, mostrou O Globo no domingo.

A defasagem pode ser medida em anos de estudo. Segundo o professor Ocimar Munhoz Alavarse, da USP, ouvido também por O Globo, os alunos do ensino médio público teriam de estudar mais dois anos para alcançar os colegas da rede particular de ensino. Em termos qualitativos, equivale ao estudante da escola pública deixar o ensino médio com apenas a formação do fundamental.

Diante do quadro, não espanta que também a formação de nível superior no Brasil exiba um estado de penúria. Relatório da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) a ser divulgado hoje mostra que o Brasil tem apenas 12% da população entre 25 e 34 anos de idade com ensino superior. É o menor percentual em uma lista composta por 42 países.

Uma das explicações é que o país gasta mal os recursos destinados à educação – na proposta orçamentária de 2012, R$ 69 bilhões estão previstos para o MEC. Nas escolas públicas de nível fundamental e médio, a média aqui é de US$ 2.098 ao ano, enquanto o patamar de dispêndios da OCDE é de US$ 8.111. Tal relação inverte-se no ensino superior: o custo do estudante brasileiro é de US$ 11.610, enquanto a média da OCDE é US$ 10.543, revela a Folha de S.Paulo.

Não é segredo para ninguém que um país só avança no seu nível de desenvolvimento quando joga todas as suas forças na educação. Tome-se, na mesma pesquisa da OCDE, o exemplo do que ocorreu na Coreia: entre uma geração e outra, a média de formandos de nível superior avançou 50 pontos percentuais – enquanto no Brasil aumentou apenas três.

A educação brasileira encontra-se diante do desafio de elevar considerável e rapidamente a qualidade do ensino oferecido em sala de aula, bem como de diminuir a distância entre os que podem e os que não têm como pagar por um bom estudo. É o passo seguinte ao enorme avanço que foi ter colocado todas as crianças na escola, vencido no governo Fernando Henrique.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Metamorfose ambulante

Dilma Rousseff tem se esforçado para criar símbolos que a diferenciem do presidente anterior. Um dos mais notáveis é o estilo, e este pelo menos é um aspecto positivo: o exagero verborrágico de Luiz Inácio Lula da Silva vai dando lugar à discrição. Entretanto, a postura da presidente tem muito mais de estratégia diversionista do que de mudança verdadeira.

Ao tentar dissociar-se de Lula, na realidade o que Dilma busca é distanciar-se dos malfeitos perpetrados no país nos últimos oito anos. Trata-se de uma verdadeira herança maldita da qual ela foi sócia-gerente. Provavelmente mais má gerente do que sócia benemérita.

A máquina de marketing petista trombeteou por anos a competência de Dilma para bem administrar as lides de governo. Poderia ser só estratégia publicitária de quem viveu de slogans. Mas a agora presidente corroborou o tratamento ao transformar sua suposta capacidade gerencial num dos “atributos” que vendeu aos eleitores nas eleições do ano passado.

O governo que perdurou de 2003 a 2010 era tanto de Lula quanto de Dilma; vivemos agora seu terceiro ato. A conclusão lógica é que as responsabilidades pelo que não foi feito no passado também cabem à atual presidente. Este governo não começou no dia 1º de janeiro: o PT assumiu o comando do país há oito anos e desde então Dilma está lá – só no Planalto já são seis anos.

Deve-se, pois, debitar na conta petista e, portanto, tanto de Lula, quanto de Dilma, a incúria para prevenir a tragédia que já matou mais de 700 pessoas na região serrana do Rio de Janeiro. Muitos dos flagelos que lá ocorrem poderiam estar sendo evitados se o governo federal tivesse agido nos últimos anos.

Na segunda-feira, o governo anunciou a criação de um Sistema Nacional de Alerta e Prevenção de Desastres Naturais. Ótimo. Mas tal previsão consta de compromisso assumido em 2005 pelo país perante a ONU em decorrência de medidas exigidas pelo órgão multilateral após o tsunami da Ásia.

O governo Dilma promete oferecer o novo sistema até o fim de 2014. Ou seja, terão sido decorridos nove anos entre a promessa e a possível realização. Será isso um cartão de visitas da boa capacidade gerencial da presidente? Quantas vidas mais se perderão em razão de tamanha ineficiência?

Também motivo de espanto é o que está acontecendo no Ministério da Educação. Mais uma vez, o sistema de seleção para ingresso em universidades públicas falhou e dados que deveriam ser sigilosos vazaram, conforme mostra O Globo em sua edição de hoje.

Diante de colossal incompetência, o Enem, uma boa ideia, está sendo varrido para lixo. A administração de Fernando Haddad – escalado por Lula e mantido no cargo por Dilma – está corroendo o sonho dos jovens como se fosse vírus de computador.

Na economia, a gestão Dilma tem de correr para tentar remediar problemas que ela própria semeou no governo passado, ao soltar as rédeas dos gastos públicos e jogar gasolina na fogueira da inflação. Hoje o Comitê de Política Monetária do Banco Central deve começar a impor ao país o pagamento da fatura, por meio do aumento dos juros, ampliando a liderança brasileira neste quesito no mundo.

“Em termos práticos, por enquanto Dilma só tem conseguido lidar com problemas herdados. O que estaria dizendo da herança que recebeu se o governo que acabou em 31 de dezembro fosse da hoje oposição?”, resume Alon Feuerwerker na edição do Correio Braziliense de hoje.

Recorramos às palavras de um funcionário do governo – tanto do atual quanto do passado – para obtermos a melhor e mais perfeita síntese da era petista: “A gente falou muito e fez muito pouco”, disse Luis Antonio Barreto de Castro, do Ministério da Ciência e Tecnologia. Nenhuma metamorfose ambulante, como a que Dilma está pretendendo protagonizar, é capaz de dar jeito nisso.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Enem leva bomba

Será difícil Lula encontrar uma única pessoa que concorde com sua avaliação sobre o desempenho do Enem realizado neste fim de semana. A ninguém parece que a tumultuada aplicação do exame tenha sido um “sucesso total e absoluto”, como afirmou o presidente ontem durante viagem a Maputo. Os jovens brasileiros estão sendo apresentados à inépcia do governo do PT, e da pior maneira possível.

Desde a edição passada sob suspeição, o Enem tomou bomba neste ano. O exame nasceu em 1999, ainda no governo Fernando Henrique. Tinha, porém, apenas a função de avaliar o desempenho dos alunos do ensino médio, de forma a fornecer uma aferição que permitisse traçar estratégias para melhorar o sistema de aprendizagem.

Há dois anos, o MEC resolveu dar caráter distinto para o exame: o Enem passaria a servir para avaliar alunos para o ingresso em instituições federais de ensino superior. Substituiria, assim, o detestado vestibular. Uma ótima intenção. Mas que até agora naufragou nas dificuldades que o MEC ainda não conseguiu transpor para aplicar a prova de maneira eficiente.

Sob a gestão do PT, o Enem já exibia um histórico de fracassos. Isso exigiria esforço redobrado do Ministério da Educação para tornar a edição deste ano um sucesso. Doce ilusão. Com questões truncadas, gabaritos desordenados, suspeita de vazamento do tema da redação, perguntas mal formuladas e mal redigidas, o exame aplicado no fim de semana repetiu o fiasco de 2009 – embora R$ 182 milhões tenham sido torrados na sua execução.

Em outubro do ano passado, a prova vazara dois dias antes da sua aplicação, levando à realização às pressas de novo teste dois meses depois. Em seguida, o MEC anunciou que passaria a aplicar o Enem mais de uma vez ao ano, o que foi saudado pelos alunos. Mas já na primeira tentativa fracassou e teve de cancelar o exame previsto para o meio deste ano. Para coroar o festival de trapalhadas, em agosto último dados sigilosos de milhares de estudantes ficaram disponíveis para quem quisesse ver na internet.

Com este conjunto da obra, o MEC conseguiu desmoralizar uma bela proposta, que interessa a todos os nossos jovens. Aposentar o vestibular e adotar no lugar dele um exame que meça a capacidade de raciocínio e interpretação dos alunos é algo que merece ser saudado por todos. O problema é que, com uma voracidade que tem mais a ver com razões políticas do que com boas intenções educacionais, o governo petista deu um passo muito maior do que suas perninhas.

O Enem é preparado para ser respondido por cerca de 4 milhões de alunos – com as abstenções, chega-se aos 3,4 milhões que o fizeram no fim de semana – em todo o país, numa única data. Um pesadelo logístico. Especialistas dizem que seria mais razoável organizar várias sessões por ano, como ocorre com o SAT, o Enem americano. “O erro estratégico do MEC foi ter sido afobado, sujeitando as cautelas da boa técnica avaliativa à lógica de produzir novidades com valor político”, resume Hélio Schwartsman na edição de hoje da Folha de S. Paulo.

A negligência que o PT dispensa ao Enem ilustra a maneira como é tratado o futuro da nossa juventude pelo governo atual. Para quem tem entre 15 e 29 anos de idade, falta estudo, oportunidades de trabalho e segurança. Na prática, o jovem que tenta se inserir na sociedade enfrenta um funil, que se manteve apertado nos últimos oito anos.

As dificuldades começam na educação: apenas 30,5% dos que têm entre 18 e 24 anos estudam, de acordo com PNAD 2008. Como consequência, a falta de emprego é altíssima. Segundo a OIT, o desemprego entre os jovens é 3,2 vezes maior do que entre os adultos no Brasil. Nesta faixa, metade dos empregados não tem carteira assinada.

Seja a declaração de Lula em Moçambique, seja o desdém com que se manifestaram os responsáveis pela elaboração e aplicação do Enem, nada combina com a seriedade com que os jovens dedicam-se à prestação do exame. Nele muitos jogam seu futuro, experimentando uma angústia própria da idade. Os milhões que foram às provas no fim de semana poderão ter de passar de novo pelo suplício. A culpa é inteiramente do governo.

Um sistema de avaliação que funcione seriamente será um aliado e tanto para pavimentar a estrada da nossa juventude. Mas até agora a gestão petista só conseguiu oferecer um caminho esburacado. Precisa se esforçar muito mais para não pôr o Enem a perder.