A cada dia fica mais evidente a distância entre o mundo róseo que Dilma Rousseff vendeu aos eleitores na campanha do ano passado e as cores sombrias da realidade. A presidente elegeu-se cercada de mistificações e agora está tendo de se haver com a dureza dos fatos. É o que está acontecendo, por exemplo, com a segurança pública.
Em dez dias de nova administração, diversas propostas de enfrentamento do problema vieram a público. Dia após dia, o Ministério da Justiça jogou na mesa uma agenda de ações para combater o crime. Se vão funcionar, ainda é cedo para saber – mas pelo menos serviram para tentar desviar a atenção das brigas políticas entre petistas e peemedebistas pelo butim governista...
Segurança pública merece, sim, estar no topo das prioridades dos governantes brasileiros. A triste realidade de violência está aí para comprovar e a população a experimenta na pele: segundo a PNAD 2010, 47,2% dos brasileiros se sentem inseguros no país.
Não foi outra a razão para o candidato da oposição ter proposto criar um ministério específico para cuidar da segurança pública, jogando o peso da União no combate à criminalidade. O crime não tem fronteiras e o fato de a nossa Constituição delegar aos estados – e, em menor medida, aos municípios – a competência pela segurança não pode servir para eximir o governo federal de lançar-se na questão. Se preciso for, altere-se a norma constitucional.
Atestam as estatísticas que a criminalidade brasileira deriva, principalmente, do tráfico de drogas e armas. O foco de combate evidente está nas nossas permeáveis e mal policiadas fronteiras, notadamente aquelas que limitam com Colômbia, Bolívia e Peru. São estes os principais produtores mundiais de cocaína, da qual deriva o crack que hoje se alastra por quase todos os municípios do Brasil.
Mas o que até militares de alta patente atestavam não parecia ser um problema para Dilma na campanha do ano passado. Para ela, a ação da Polícia Federal e a compra de algumas aeronaves estavam dando conta do recado. Puro esoterismo: soube-se, depois, que tais veículos sequer decolavam do hangar. Já a PF tem muito de espetáculo...
Tanto a questão das fronteiras é grave e central no combate ao crime que agora o Ministério da Defesa anuncia a intenção de instalar um sistema de monitoramento ao longo dos mais de 16 mil km dos nossos limites territoriais. É coisa para R$ 10 bilhões, conforme se divulgou há alguns dias. Mas o país não pode esperar o prazo que o Exército estipula para implantar o equipamento, que entraria em operação apenas em 2019. É preciso agir antes, e rápido.
Para tanto, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, diz querer a parceria dos estados no enfrentamento da criminalidade em todo o país. A direção é correta: unir esforços. Mas é muito mais tímida do que propôs José Serra na campanha eleitoral.
A razão é que – ao contrário da oposição, que defendia que a União puxasse para si a responsabilidade – o governo federal talvez tema não dar conta do recado. Torna-se, assim, conveniente buscar desde já álibis para um eventual fracasso – o histórico petista na área é extenso, a começar pelos pífios resultados do Pronasci na redução da violência.
Independente disso, desde já o ministro Cardozo deveria rever um dos focos das ações que pretende levar adiante em parceria com os governadores. Ao contrário do que defende, não devem ser as UPP o modelo a ser seguido em todo o país, até porque a específica realidade, inclusive topográfica, do Rio de Janeiro não se reproduz na maioria dos principais centros brasileiros.
São Paulo e Minas Gerais têm um modelo muito mais bem sucedido de procedimentos que podem ser facilmente replicados em todo o país, com resultados palpáveis na redução da criminalidade. Sistemas de mapeamento do crime, que direcionam ações das polícias, têm levado a diminuições consideráveis nos índices de homicídio – em São Paulo, por exemplo, a queda foi de 70% em 11 anos, trazendo o indicador para níveis internacionais. O caminho é este, sem mistificações.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
O dragão está voltando?
Na sexta-feira, foi divulgado o índice oficial de inflação referente ao ano de 2010. O IPCA alcançou sua maior marca desde 2004, ficou distante do centro da meta estipulada pelo Banco Central, mas se manteve abaixo do teto da faixa de variação admitida. De qualquer forma, é algo que exige cuidado e uma urgente reversão de comportamento por parte do governo federal.
O vilão de 2010 foram os alimentos, que subiram 10,4%, o triplo do verificado no ano anterior. Alguns exemplos da escalada vieram das carnes (29,5%) e do feijão carioca (60%). Outros produtos comuns na mesa dos brasileiros, como farinha de mandioca, leite, açúcar e frango, registraram altas de mais de 14% no ano.
Embora haja um movimento mundial de alta de preço dos alimentos, no Brasil um dos principais combustíveis para a inflação tem sido o excessivo gasto do governo federal. Não é desconhecida de ninguém a irresponsabilidade com que a gestão Lula se pôs a torrar recursos públicos para turbinar e eleger Dilma Rousseff. A conta veio salgada.
O IPCA fechou 2010 em 5,91%. No acumulado do governo Lula, o índice somou alta de 56,7%. Ou seja, a inflação anual média dos últimos oito anos foi de 5,8%, patamar bastante elevado em relação ao padrão mundial. Há quem defenda que o país passe a perseguir metas mais austeras para evitar que o dragão ressuscite.
Entre os mais pobres, a inflação acelerou-se ainda mais no ano passado. Quanto mais baixa a renda, mais o encarecimento dos alimentos dói no bolso. De acordo com o INPC, que mede a evolução dos preços para famílias com renda de até seis salários mínimos, houve alta de 6,47% em 2010. Na capital paulista, por exemplo, a cesta básica já tinha aumentado 16% no ano até novembro, segundo o Dieese.
Na prestação de serviços, a inflação já roda numa velocidade ainda mais acelerada. O IGP-M de 2010 ficou em 11,32%. Os primeiros a sentirem o peso da escalada deste indicador no bolso são os inquilinos: o índice serve como indexador da maior parte dos contratos de aluguel no país. Vale lembrar que em 2009 o IGP-M registrara deflação de 1,7%.
O mau resultado da inflação no ano passado reforça as apostas numa provável elevação dos juros pelo Copom, cuja primeira reunião deste ano acontece na próxima semana. A autoridade monetária tem sido obrigada a esfriar a fervura acessa pelas labaredas da política fiscal perdulária do governo federal. Quem paga a fatura acaba sendo toda a sociedade, na forma de carestia e de juros mais altos.
Não custa frisar: o Brasil já é o país onde se praticam as mais altas taxas de juros reais do mundo. Com a possível elevação da Selic pelo BC, aumentará também o potencial de atração de capitais externos, valorizando ainda mais o real e prejudicando as exportações brasileiras. Nossos concorrentes agradecem.
Está claro que os juros não podem ser a única arma a ser usada para debelar a inflação. Um firme ajuste nos gastos públicos faz-se mais que necessário e urgente: o Estado brasileiro já se agigantou demais nos anos de gestão petista e precisa agora começar a controlar seu peso.
É ponto pacífico que a estabilidade econômica é a conquista mais valorizada pela sociedade brasileira. Um esforço de anos, iniciado com a bem-sucedida experiência do Plano Real, não pode ser posto em risco. O governo Dilma deve apressar-se em desarmar mais uma das bombas de efeito retardado que Luiz Inácio Lula da Silva gentilmente lhe legou.
O vilão de 2010 foram os alimentos, que subiram 10,4%, o triplo do verificado no ano anterior. Alguns exemplos da escalada vieram das carnes (29,5%) e do feijão carioca (60%). Outros produtos comuns na mesa dos brasileiros, como farinha de mandioca, leite, açúcar e frango, registraram altas de mais de 14% no ano.
Embora haja um movimento mundial de alta de preço dos alimentos, no Brasil um dos principais combustíveis para a inflação tem sido o excessivo gasto do governo federal. Não é desconhecida de ninguém a irresponsabilidade com que a gestão Lula se pôs a torrar recursos públicos para turbinar e eleger Dilma Rousseff. A conta veio salgada.
O IPCA fechou 2010 em 5,91%. No acumulado do governo Lula, o índice somou alta de 56,7%. Ou seja, a inflação anual média dos últimos oito anos foi de 5,8%, patamar bastante elevado em relação ao padrão mundial. Há quem defenda que o país passe a perseguir metas mais austeras para evitar que o dragão ressuscite.
Entre os mais pobres, a inflação acelerou-se ainda mais no ano passado. Quanto mais baixa a renda, mais o encarecimento dos alimentos dói no bolso. De acordo com o INPC, que mede a evolução dos preços para famílias com renda de até seis salários mínimos, houve alta de 6,47% em 2010. Na capital paulista, por exemplo, a cesta básica já tinha aumentado 16% no ano até novembro, segundo o Dieese.
Na prestação de serviços, a inflação já roda numa velocidade ainda mais acelerada. O IGP-M de 2010 ficou em 11,32%. Os primeiros a sentirem o peso da escalada deste indicador no bolso são os inquilinos: o índice serve como indexador da maior parte dos contratos de aluguel no país. Vale lembrar que em 2009 o IGP-M registrara deflação de 1,7%.
O mau resultado da inflação no ano passado reforça as apostas numa provável elevação dos juros pelo Copom, cuja primeira reunião deste ano acontece na próxima semana. A autoridade monetária tem sido obrigada a esfriar a fervura acessa pelas labaredas da política fiscal perdulária do governo federal. Quem paga a fatura acaba sendo toda a sociedade, na forma de carestia e de juros mais altos.
Não custa frisar: o Brasil já é o país onde se praticam as mais altas taxas de juros reais do mundo. Com a possível elevação da Selic pelo BC, aumentará também o potencial de atração de capitais externos, valorizando ainda mais o real e prejudicando as exportações brasileiras. Nossos concorrentes agradecem.
Está claro que os juros não podem ser a única arma a ser usada para debelar a inflação. Um firme ajuste nos gastos públicos faz-se mais que necessário e urgente: o Estado brasileiro já se agigantou demais nos anos de gestão petista e precisa agora começar a controlar seu peso.
É ponto pacífico que a estabilidade econômica é a conquista mais valorizada pela sociedade brasileira. Um esforço de anos, iniciado com a bem-sucedida experiência do Plano Real, não pode ser posto em risco. O governo Dilma deve apressar-se em desarmar mais uma das bombas de efeito retardado que Luiz Inácio Lula da Silva gentilmente lhe legou.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Balança descalibrada
Em meio ao turbilhão da posse do ministério do novo governo, passou meio despercebida a divulgação, no início da semana, de um dos principais indicadores econômicos do país: os resultados da balança comercial em 2010. O destaque foi o patamar alcançado pelas exportações, que atingiram US$ 202 bilhões, recorde histórico, com providencial ajudinha das vendas da Petrobras ao exterior nos últimos dias do ano.
O que à primeira vista pode parecer um desempenho venturoso esconde algo bem perverso. Como as importações cresceram num ritmo muito mais vigoroso que o das exportações brasileiras, o saldo comercial despencou e foi a US$ 20,3 bilhões. Com queda de 20% em relação a 2009, representou o pior resultado do governo Lula. Mas deve piorar.
As previsões de mercado captadas pelo boletim Focus do Banco Central prognosticam superávit comercial de apenas US$ 8 bilhões para este ano. Se confirmada, será a pior marca para o indicador em uma década.
Em 2010, enquanto as exportações avançaram 31%, as importações cresceram 42%. A previsão oficial é de que as exportações se expandam 13% neste ano – ou seja, pouco mais de um terço do avanço anotado em 2010. Em contrapartida, com menor crescimento do PIB as importações tendem a crescer menos desta vez.
O mais grave é a diferença entre a composição (e, portanto, o valor) daquilo que o país compra e do que vende: no primeiro caso, produtos sofisticados e mais bem acabados, como automóveis, máquinas e equipamentos; no segundo, matérias-primas, alimentos e commodities em geral, mais baratos por natureza.
Pela primeira vez desde 1978, o Brasil exportou mais commodities do que produtos manufaturados. No ano passado, a participação das matérias-primas na pauta saltou de 40,5% para 44,6%, enquanto os bens manufaturados fizeram caminho inverso, caindo de 44% para 39,4% do total embarcado. Visto numa perspectiva mais ampla, a reversão é ainda mais impressionante: no início do século, manufaturados perfaziam 57% das exportações brasileiras.
Ocorre que, na época da maior bonança financeira mundial, o Brasil engatou os vagões do seu comércio exterior na locomotiva chinesa e relegou a segundo plano mercados para onde tradicionalmente exporta bens de maior valor agregado, como os Estados Unidos e a União Europeia. Como resultado, cultivamos hoje uma relação quase colonial com a potência emergente da Ásia.
A China, para onde seguiram 15% das exportações brasileiras no ano passado, consome avidamente matérias-primas, alimentos e commodities minerais brasileiras. Processa-as e nos vende de volta bens acabados como aço, eletrônicos e até café torrado e moído – não esquecer que o Brasil é o maior produtor mundial da bebida.
Pendurado no vigor chinês, o Brasil também está cada vez mais dependente da escalada das cotações internacionais – minério de ferro e açúcar, por exemplo, estão em pico histórico – para não ver seu saldo comercial escorregar para o vermelho. Até outubro, segundo a Funcex, enquanto o valor exportado pelo país aumentara 20% no ano, a quantidade embarcada crescera apenas 8%.
O comércio internacional é uma das principais alavancas para o desenvolvimento econômico de uma nação. O que parece claro é que, nos últimos anos, o aproveitamento que o Brasil vem fazendo deste empuxo tem estado aquém do potencial exportador do país. Com o mercado de consumo interno em ebulição, a preferência tem sido por importar como nunca. Pode sair caro.
O Iedi já vê o ano de 2010 como “um divisor de águas, por simbolizar uma penetração ímpar das importações industriais capaz de deslocar a produção nacional e deprimir o potencial de crescimento da indústria e da economia (brasileira) como um todo”.
Efeito cristalino disso pode ser visto no total de empresas brasileiras que exportam e importam. Enquanto o universo das importadoras cresceu 33% nos anos Lula, atingindo 34.033 até 2009 (os dados consolidados de 2010 ainda não estão disponíveis), o de exportadoras subiu apenas 5,4%, para 19.823.
Há evidências de todos os tipos à vista para que o novo governo aja e não continue a entregar o ouro do nosso comércio exterior para nossos concorrentes mais diretos. Perseverar nesta linha não é um negócio da China.
O que à primeira vista pode parecer um desempenho venturoso esconde algo bem perverso. Como as importações cresceram num ritmo muito mais vigoroso que o das exportações brasileiras, o saldo comercial despencou e foi a US$ 20,3 bilhões. Com queda de 20% em relação a 2009, representou o pior resultado do governo Lula. Mas deve piorar.
As previsões de mercado captadas pelo boletim Focus do Banco Central prognosticam superávit comercial de apenas US$ 8 bilhões para este ano. Se confirmada, será a pior marca para o indicador em uma década.
Em 2010, enquanto as exportações avançaram 31%, as importações cresceram 42%. A previsão oficial é de que as exportações se expandam 13% neste ano – ou seja, pouco mais de um terço do avanço anotado em 2010. Em contrapartida, com menor crescimento do PIB as importações tendem a crescer menos desta vez.
O mais grave é a diferença entre a composição (e, portanto, o valor) daquilo que o país compra e do que vende: no primeiro caso, produtos sofisticados e mais bem acabados, como automóveis, máquinas e equipamentos; no segundo, matérias-primas, alimentos e commodities em geral, mais baratos por natureza.
Pela primeira vez desde 1978, o Brasil exportou mais commodities do que produtos manufaturados. No ano passado, a participação das matérias-primas na pauta saltou de 40,5% para 44,6%, enquanto os bens manufaturados fizeram caminho inverso, caindo de 44% para 39,4% do total embarcado. Visto numa perspectiva mais ampla, a reversão é ainda mais impressionante: no início do século, manufaturados perfaziam 57% das exportações brasileiras.
Ocorre que, na época da maior bonança financeira mundial, o Brasil engatou os vagões do seu comércio exterior na locomotiva chinesa e relegou a segundo plano mercados para onde tradicionalmente exporta bens de maior valor agregado, como os Estados Unidos e a União Europeia. Como resultado, cultivamos hoje uma relação quase colonial com a potência emergente da Ásia.
A China, para onde seguiram 15% das exportações brasileiras no ano passado, consome avidamente matérias-primas, alimentos e commodities minerais brasileiras. Processa-as e nos vende de volta bens acabados como aço, eletrônicos e até café torrado e moído – não esquecer que o Brasil é o maior produtor mundial da bebida.
Pendurado no vigor chinês, o Brasil também está cada vez mais dependente da escalada das cotações internacionais – minério de ferro e açúcar, por exemplo, estão em pico histórico – para não ver seu saldo comercial escorregar para o vermelho. Até outubro, segundo a Funcex, enquanto o valor exportado pelo país aumentara 20% no ano, a quantidade embarcada crescera apenas 8%.
O comércio internacional é uma das principais alavancas para o desenvolvimento econômico de uma nação. O que parece claro é que, nos últimos anos, o aproveitamento que o Brasil vem fazendo deste empuxo tem estado aquém do potencial exportador do país. Com o mercado de consumo interno em ebulição, a preferência tem sido por importar como nunca. Pode sair caro.
O Iedi já vê o ano de 2010 como “um divisor de águas, por simbolizar uma penetração ímpar das importações industriais capaz de deslocar a produção nacional e deprimir o potencial de crescimento da indústria e da economia (brasileira) como um todo”.
Efeito cristalino disso pode ser visto no total de empresas brasileiras que exportam e importam. Enquanto o universo das importadoras cresceu 33% nos anos Lula, atingindo 34.033 até 2009 (os dados consolidados de 2010 ainda não estão disponíveis), o de exportadoras subiu apenas 5,4%, para 19.823.
Há evidências de todos os tipos à vista para que o novo governo aja e não continue a entregar o ouro do nosso comércio exterior para nossos concorrentes mais diretos. Perseverar nesta linha não é um negócio da China.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Ser ou o nada
Em seus primeiros discursos já como presidente empossada do Brasil, Dilma Rousseff pareceu buscar certo distanciamento de seu tutor. Será ótimo para o país se assim for: o governo poderá sair de cima do palanque onde esteve aboletado nos últimos oito anos para ganhar a sobriedade necessária para enfrentar as graves questões nacionais.
A primeira delas é a preservação da estabilidade econômica. Na posse, a nova presidente disse que se trata de “um valor absoluto” a ser rigorosamente mantido. É uma conversão e tanto para quem até pouco tempo atrás não via na escalada dos preços um dos males mais deletérios para o bem-estar social – nunca se deve esquecer a ferrenha oposição petista ao Plano Real, que extirpou a hiperinflação do nosso convívio.
Embora, como era de se esperar, Dilma não tenha admitido em seu discurso, o governo dela começa com um desarranjo de dimensões consideráveis nas contas públicas, agravado pela espada da “praga” da inflação rondando a cabeça. O índice oficial de preços referente a 2010 deverá encostar no teto da meta prevista para o ano passado, ou seja, 6,5%, a julgar pela prévia conhecida nesta manhã. Carece de remédio.
Não é a única herança maldita de Lula para sua pupila. O governo dele terminou apresentando o pior saldo comercial em oito anos e o pior resultado fiscal para o governo central desde 1998. Isso diminuirá a margem que o novo governo tem para, como Dilma anunciou nas semanas entre a eleição e a posse, diminuir a taxa de juro real brasileira. No próximo dia 19, o Copom deve fazer o contrário, elevando a Selic para diminuir o ímpeto inflacionário. Nota-se, pois, como discurso e prática diferem.
Na posse, a nova presidente acenou à oposição e às parcelas da sociedade que não votaram nela nas eleições do ano passado. Para tanto, parece disposta a renegar algumas de suas crenças recentes, distanciar discurso pretérito e prática presente. É o caso da inflação, mas é também do que pretende fazer para destravar o setor aéreo nacional, a julgar pelo que a Folha de S.Paulo publica em manchete em sua edição desta segunda-feira.
Informa o jornal que a nova presidente deverá editar medida provisória para conceder à iniciativa privada a construção e a operação de pelo menos dois dos principais aeroportos do país: Cumbica, em Guarulhos, e Viracopos, em Campinas. É a mesmíssima proposta que José Serra defendeu na campanha de 2010 e que abraçara desde que governava São Paulo. Levada pelo então governador ao presidente Lula, foi rechaçada – com apoio de Dilma, diga-se.
Como se pode ver, num ponto não há novidade na Dilma que chega agora ao poder máximo da República e seu antecessor: ambos repetem práticas de seu partido ao fazer no governo aquilo que antes criticavam, na maioria das vezes por puro oportunismo e conveniência político-eleitorais. As bravatas petistas de sempre não deixaram de existir.
Se é bom que a nova presidente esteja ensaiando passos autônomos em relação a Lula, é melhor ainda que ela abrace as causas da racionalidade, da moralidade e da ética no trato da coisa pública, como prometeu nos seus discursos de posse e suas primeiras intenções administrativas parecem sugerir.
A chance de o país avançar está na distância entre o governo que acabou no fim de semana e no que terá quatro anos pela frente para mostrar a que veio. Em muitos aspectos, este precisa ser a antítese daquele. A mesma distância separa as chances de Dilma Rousseff ser alguma coisa ou ser mera sombra, um nada.
A primeira delas é a preservação da estabilidade econômica. Na posse, a nova presidente disse que se trata de “um valor absoluto” a ser rigorosamente mantido. É uma conversão e tanto para quem até pouco tempo atrás não via na escalada dos preços um dos males mais deletérios para o bem-estar social – nunca se deve esquecer a ferrenha oposição petista ao Plano Real, que extirpou a hiperinflação do nosso convívio.
Embora, como era de se esperar, Dilma não tenha admitido em seu discurso, o governo dela começa com um desarranjo de dimensões consideráveis nas contas públicas, agravado pela espada da “praga” da inflação rondando a cabeça. O índice oficial de preços referente a 2010 deverá encostar no teto da meta prevista para o ano passado, ou seja, 6,5%, a julgar pela prévia conhecida nesta manhã. Carece de remédio.
Não é a única herança maldita de Lula para sua pupila. O governo dele terminou apresentando o pior saldo comercial em oito anos e o pior resultado fiscal para o governo central desde 1998. Isso diminuirá a margem que o novo governo tem para, como Dilma anunciou nas semanas entre a eleição e a posse, diminuir a taxa de juro real brasileira. No próximo dia 19, o Copom deve fazer o contrário, elevando a Selic para diminuir o ímpeto inflacionário. Nota-se, pois, como discurso e prática diferem.
Na posse, a nova presidente acenou à oposição e às parcelas da sociedade que não votaram nela nas eleições do ano passado. Para tanto, parece disposta a renegar algumas de suas crenças recentes, distanciar discurso pretérito e prática presente. É o caso da inflação, mas é também do que pretende fazer para destravar o setor aéreo nacional, a julgar pelo que a Folha de S.Paulo publica em manchete em sua edição desta segunda-feira.
Informa o jornal que a nova presidente deverá editar medida provisória para conceder à iniciativa privada a construção e a operação de pelo menos dois dos principais aeroportos do país: Cumbica, em Guarulhos, e Viracopos, em Campinas. É a mesmíssima proposta que José Serra defendeu na campanha de 2010 e que abraçara desde que governava São Paulo. Levada pelo então governador ao presidente Lula, foi rechaçada – com apoio de Dilma, diga-se.
Como se pode ver, num ponto não há novidade na Dilma que chega agora ao poder máximo da República e seu antecessor: ambos repetem práticas de seu partido ao fazer no governo aquilo que antes criticavam, na maioria das vezes por puro oportunismo e conveniência político-eleitorais. As bravatas petistas de sempre não deixaram de existir.
Se é bom que a nova presidente esteja ensaiando passos autônomos em relação a Lula, é melhor ainda que ela abrace as causas da racionalidade, da moralidade e da ética no trato da coisa pública, como prometeu nos seus discursos de posse e suas primeiras intenções administrativas parecem sugerir.
A chance de o país avançar está na distância entre o governo que acabou no fim de semana e no que terá quatro anos pela frente para mostrar a que veio. Em muitos aspectos, este precisa ser a antítese daquele. A mesma distância separa as chances de Dilma Rousseff ser alguma coisa ou ser mera sombra, um nada.
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