O setor elétrico brasileiro continua a produzir curtos-circuitos. São problemas que percorrem o país de norte a sul: desde as intermináveis e justificadas polêmicas em torno das obras de construção da usina de Belo Monte, no Pará, à iminente votação da revisão do tratado de Itaipu, presente de pai para filho que o governo brasileiro prepara-se para dar ao Paraguai.
Belo Monte está novamente no centro de pendengas. Ontem, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) solicitou oficialmente ao governo brasileiro a suspensão do processo de licenciamento da hidrelétrica, sob acusação de desrespeito a direitos indígenas. A OEA quer que comunidades atingidas pela obra sejam ouvidas, sob pena de levar o Brasil a julgamento por violação de direitos humanos.
A megausina, que pode vir a ser a terceira maior hidrelétrica do mundo, é caso único de imprudência explícita. Suas obras começaram na segunda-feira de Carnaval – envergonhadamente, portanto – sem que o Ibama tivesse concedido a licença de instalação e sem que se tivesse notícia de que as 40 condicionantes ambientais e sociais impostas ao projeto tivessem começado a ser cumpridas.
Para que a licença de Belo Monte andasse, quatro cabeças rolaram no Ibama. O processo de licenciamento foi tratorado pela Casa Civil, então ocupada por Dilma Rousseff, no governo passado – que, no entanto, parece não ter se importado com o aumento de quase 40% nos custos da obra, agora estimados em R$ 26 bilhões. “O país precisa de energia limpa, mas todo o processo de construção da usina de produção de energia tem que ser limpo também”, cobra Miriam Leitão n’O Globo de hoje.
Mas não são só a OEA e ambientalistas que estão incomodados com a hidrelétrica do rio Xingu – que, com a interferência direta do Planalto, passará agora a ter a Vale como uma das sócias, em substituição ao cambaleante grupo Bertin. Relata o Valor Econômico que a insatisfação também atinge prefeitos de municípios do Pará que serão direta ou indiretamente afetados pelas obras da usina de Belo Monte.
“Há um descontentamento generalizado entre as prefeituras, que cobram a execução de compromissos assumidos durante a fase de elaboração do projeto. Essa lista de cobranças é encabeçada por uma nova exigência do governo paraense, uma demanda que, caso não seja atendida, pode complicar de vez o andamento do projeto”, informa o jornal.
O que os municípios paraenses argumentam é que uma série de providências que o consórcio construtor deveria tomar a título de compensação pelas obras no Xingu não foram respeitadas. São ações e benfeitorias cujo custo pode chegar a R$ 3 bilhões, incluindo construção de centros habitacionais, escolas, hospitais e obras de saneamento.
Já o governo do Pará cobra das empreiteiras investimento de R$ 250 milhões em segurança pública na região de Altamira. Sem isso, Belo Monte pode se tornar a Jirau de amanhã, ou seja, um barril de pólvora prestes a explodir, numa região notória por produzir fagulhas.
Mas o choque elétrico não para aí. Está para ser votada hoje na Câmara dos Deputados proposta de revisão do tratado firmado entre Brasil e Paraguai em torno de Itaipu. O projeto de decreto legislativo nº 2600/10 triplica o que é pago ao governo paraguaio pela energia cedida ao Brasil: o valor passaria de US$ 120 milhões para US$ 360 milhões anuais. O impacto financeiro da proposição atinge R$ 5 bilhões até 2023, prazo remanescente de vigência do tratado.
O presente paraguaio será um presente de grego para os brasileiros. O governo petista garante que não repassará os custos adicionais para as tarifas de energia, o que significa que a conta da bondade será rateada por todos nós, contribuintes. Mas fazer caridade com chapéu alheio, ajudando os vizinhos, “não tem preço”, segundo o palaciano Marco Aurélio Garcia...
O setor elétrico brasileiro tem sido fonte de reiteradas dores de cabeça. Nos últimos anos, a matriz energética nacional tornou-se mais suja; a insegurança no suprimento aumentou, com os seguidos apagões; as megahidrelétricas do rio Madeira geraram um coquetel de distúrbios sociais e trabalhistas em Rondônia; e as tarifas cobradas dos consumidores estão entre as mais caras do mundo.
Nada disso veio por geração espontânea: nasceu de um modelo adotado no setor por imposição da hoje presidente da República, então ministra de Minas e Energia do governo Lula. Tem muita gambiarra e fio desencapado.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
terça-feira, 5 de abril de 2011
Atenção especial para quem é especial
Soube-se na semana passada que o governo federal se prepara para fechar dois dos mais respeitados serviços voltados à educação de pessoas com necessidades especiais do país: o Colégio de Aplicação do Instituto Nacional de Surdos (Ines) e o serviço de ensino fundamental para deficientes visuais do Instituto Benjamin Constant (IBC).
O PT quer impor sua visão única das coisas também na educação de pessoas com deficiência; quer tratá-las igualmente, quando o que necessitam é de atenção e cuidados especiais.
Quando o assunto vazou, o Ministério da Educação recuou e negou a intenção. Mas documento assinado pelo ministro Fernando Haddad no ano passado permite o fechamento de instituições como o Ines e o IBC, que juntas atendem cerca de 800 alunos com necessidades especiais, do maternal ao ensino médio.
A resolução nº 4 de 2010 da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação “recomenda que alunos deficientes sejam matriculados na rede regular de ensino, deixando o atendimento educacional especializado como complementar”, mostra O Globo em sua edição de hoje.
Hoje à tarde, haverá reunião em Brasília entre o MEC e as diretorias do IBC e do Ines para discutir o futuro das duas instituições. Fundadas ainda no século 19 no Rio, ambas têm atuação secular no ensino de pessoas com necessidades especiais.
Foi o Ines, aliás, que desenvolveu a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e para lá todos os anos se dirigem alunos surdos de todo o país. Já o IBC ensina estudantes com deficiência visual e abriga a Imprensa Braille, além de capacitar professores e promover a reabilitação social de cegos.
A celeuma em torno de como tratar os alunos e as pessoas com necessidades especiais não é nova. Brotou também na campanha eleitoral do ano passado, quando o candidato tucano José Serra escancarou para o país o descaso que o governo petista vinha reservando a este expressivo segmento – estima-se que existam 29 milhões de pessoas com alguma deficiência no país.
A bandeira do tratamento especial é empunhada por Apaes de todo o país e entidades como o Instituto Pestalozzi. O que se defende é que pessoas especiais necessitam de cuidados, pedagogia e atenção especiais. Sob este ponto de vista, o Sistema Nacional de Educação deve continuar ofertando ensino em escolas especiais, sem descartar que pessoas com deficiência também possam optar por escolas regulares. Os dois sistemas poderiam, portanto, conviver harmoniosamente.
Na cartilha do PT, porém, só cabe uma linha única: a da matrícula dos estudantes especiais na rede regular de ensino. Seria, dizem, uma forma de “integrá-los” ao restante da sociedade. Trata-se de uma fórmula com a qual muitos não concordam.
“Os colégios públicos e também os privados não estão preparados para receber os alunos com necessidades especiais, tanto na questão de acessibilidade quanto pedagógica. Já temos ações nesse sentido”, disse um defensor público da União ouvido por O Globo na semana passada.
A falta de integração das ações da saúde, educação e assistência social resulta na pouca participação de crianças e jovens com deficiência no Sistema Nacional de Educação. Apenas 875 mil estavam matriculados em 2009, de acordo com o Censo Escolar daquele ano. Isso dá apenas 1,6% do contingente existente nas nossas escolas.
Com base na totalitária visão petista, o financiamento às atividades especiais vem sendo garroteado pelo MEC, tanto sob Lula quanto na gestão Dilma Rousseff. Levantamento feito pelo deputado Otávio Leite (PSDB-RJ) mostra que o governo do PT vem executando parcela pífia dos orçamentos destinados ao “desenvolvimento da educação especial”.
Em 2009 e 2010, o governo federal pagou apenas 46% do que estava prometido no Orçamento da União para estas despesas: foram R$ 138 milhões de um total de R$ 299 milhões previstos, de acordo com o Siafi. Neste ano, não mais que 4% do previsto saiu dos cofres da União até agora: foram R$ 8 milhões de uma dotação de R$ 211 milhões. O descaso é evidente.
Uma política séria para inclusão de pessoas com deficiência deveria promover a articulação entre Estado e entidades civis que cuidam deste numeroso grupo de indivíduos. Contar com a atuação de organizações como as Apae e as Pestalozzi é uma garantia de dignidade para estes brasileiros que precisam e merecem cuidados e atenção especiais da nossa sociedade.
O PT quer impor sua visão única das coisas também na educação de pessoas com deficiência; quer tratá-las igualmente, quando o que necessitam é de atenção e cuidados especiais.
Quando o assunto vazou, o Ministério da Educação recuou e negou a intenção. Mas documento assinado pelo ministro Fernando Haddad no ano passado permite o fechamento de instituições como o Ines e o IBC, que juntas atendem cerca de 800 alunos com necessidades especiais, do maternal ao ensino médio.
A resolução nº 4 de 2010 da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação “recomenda que alunos deficientes sejam matriculados na rede regular de ensino, deixando o atendimento educacional especializado como complementar”, mostra O Globo em sua edição de hoje.
Hoje à tarde, haverá reunião em Brasília entre o MEC e as diretorias do IBC e do Ines para discutir o futuro das duas instituições. Fundadas ainda no século 19 no Rio, ambas têm atuação secular no ensino de pessoas com necessidades especiais.
Foi o Ines, aliás, que desenvolveu a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e para lá todos os anos se dirigem alunos surdos de todo o país. Já o IBC ensina estudantes com deficiência visual e abriga a Imprensa Braille, além de capacitar professores e promover a reabilitação social de cegos.
A celeuma em torno de como tratar os alunos e as pessoas com necessidades especiais não é nova. Brotou também na campanha eleitoral do ano passado, quando o candidato tucano José Serra escancarou para o país o descaso que o governo petista vinha reservando a este expressivo segmento – estima-se que existam 29 milhões de pessoas com alguma deficiência no país.
A bandeira do tratamento especial é empunhada por Apaes de todo o país e entidades como o Instituto Pestalozzi. O que se defende é que pessoas especiais necessitam de cuidados, pedagogia e atenção especiais. Sob este ponto de vista, o Sistema Nacional de Educação deve continuar ofertando ensino em escolas especiais, sem descartar que pessoas com deficiência também possam optar por escolas regulares. Os dois sistemas poderiam, portanto, conviver harmoniosamente.
Na cartilha do PT, porém, só cabe uma linha única: a da matrícula dos estudantes especiais na rede regular de ensino. Seria, dizem, uma forma de “integrá-los” ao restante da sociedade. Trata-se de uma fórmula com a qual muitos não concordam.
“Os colégios públicos e também os privados não estão preparados para receber os alunos com necessidades especiais, tanto na questão de acessibilidade quanto pedagógica. Já temos ações nesse sentido”, disse um defensor público da União ouvido por O Globo na semana passada.
A falta de integração das ações da saúde, educação e assistência social resulta na pouca participação de crianças e jovens com deficiência no Sistema Nacional de Educação. Apenas 875 mil estavam matriculados em 2009, de acordo com o Censo Escolar daquele ano. Isso dá apenas 1,6% do contingente existente nas nossas escolas.
Com base na totalitária visão petista, o financiamento às atividades especiais vem sendo garroteado pelo MEC, tanto sob Lula quanto na gestão Dilma Rousseff. Levantamento feito pelo deputado Otávio Leite (PSDB-RJ) mostra que o governo do PT vem executando parcela pífia dos orçamentos destinados ao “desenvolvimento da educação especial”.
Em 2009 e 2010, o governo federal pagou apenas 46% do que estava prometido no Orçamento da União para estas despesas: foram R$ 138 milhões de um total de R$ 299 milhões previstos, de acordo com o Siafi. Neste ano, não mais que 4% do previsto saiu dos cofres da União até agora: foram R$ 8 milhões de uma dotação de R$ 211 milhões. O descaso é evidente.
Uma política séria para inclusão de pessoas com deficiência deveria promover a articulação entre Estado e entidades civis que cuidam deste numeroso grupo de indivíduos. Contar com a atuação de organizações como as Apae e as Pestalozzi é uma garantia de dignidade para estes brasileiros que precisam e merecem cuidados e atenção especiais da nossa sociedade.
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segunda-feira, 4 de abril de 2011
As malas pretas do mensalão
Quando estava prestes a deixar o cargo que ocupou por oito anos, Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que se dedicaria a uma nova causa: provar que o mensalão não passara de uma “farsa”. Não contava que, no meio do seu caminho, haveria uma pedra: um minucioso e oficialíssimo relatório de 332 páginas produzido pela Polícia Federal sobre o caso. O calhamaço confirma, com riqueza de provas, a existência do maior escândalo da história política brasileira.
Neste fim de semana, a revista Época divulgou em detalhes as conclusões da investigação promovida pela PF sob o comando do delegado Luís Flávio Zampronha, por determinação do ministro Joaquim Barbosa, relator do caso do mensalão no STF. O relatório escancara as malas pretas que alimentaram o esquema de corrupção e compra de votos implantado pelo PT.
Seis anos após as primeiras denúncias, a PF concluiu que o mensalão não apenas existiu, como envolveu grosso desvio de dinheiro público. A maior parte dos recursos roubados saía do Banco do Brasil – mais especificamente, de um fundo de publicidade chamado Visanet, destinado a ações de marketing de um cartão de crédito.
Os operadores do mensalão conheciam bem o caminho das pedras: o Visanet era submetido a quase nenhuma vigilância e fiscalização; era, portanto, presa fácil para o bote dos mensaleiros petistas. Dali, saíram pelo menos R$ 68 milhões de dinheiro do povo brasileiro. A maior parte foi parar nas mãos de parlamentares comprados pelo PT.
A investigação da PF também chegou ao que a revista chama de “o elo mais grave do esquema do valerioduto: a conexão com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva”. Trata-se de repasse de R$ 98 mil para Freud Godoy, segurança pessoal do líder petista. Marcos Valério remeteu-lhe um cheque, por correio, como pagamento a serviços de proteção ao então candidato durante a campanha e na transição à Presidência da República em 2002.
“Em suma: um amigo de Lula, que sempre prestou serviços a ele, recebeu dinheiro ilegal para pagar suas despesas trabalhando para o ex-presidente. É a primeira vez em que se descobre uma ligação direta entre o esquema de Marcos Valério e alguém da intimidade de Lula”, revela Época. Freud também foi um dos principais envolvidos no chamado Escândalo dos Aloprados, que incluía a compra – com dinheiro de origem nunca descoberta – de um dossiê falsificado contra o então candidato a governador de São Paulo pelo PSDB em 2006, José Serra.
A investigação da PF abalroa outros grão-petistas da atualidade, como Fernando Pimentel, hoje ministro de Desenvolvimento e homem de confiança da presidente Dilma Rousseff. Também mostra que os operadores do mensalão, com José Dirceu, Marcos Valério e Delúbio Soares à frente, praticavam às largas no governo de Lula o achaque a empresas – como o grupo Opportunity, de Daniel Dantas, de onde teriam saído US$ 50 milhões para alimentar os dutos da corrupção. Como se vê, a intimidação ao capital privado está no DNA do PT.
Como a drenagem de recursos públicos e os repasses a parlamentares continuaram no mínimo até 2004, desmonta-se, cabalmente, a tese do governo petista de que o mensalão constituía “apenas” caixa 2. “O PT só reconheceu que era caixa 2, mas não levaram uma pessoa sequer na CPI para demonstrar isso”, reforçou ontem o deputado Osmar Serraglio, relator da CPI do Mensalão. Ao todo, as empresas de Marcos Valério receberam R$ 350 milhões do governo Lula, parte para uso pessoal dos envolvidos.
Com o passar dos anos, o PT vinha se dedicando a tentar transformar o mensalão numa “piada de salão”, seguindo o que vaticinara Delúbio Soares logo após ter se desligado da tesouraria do partido. Apostava-se no esquecimento do público e, mais concretamente, na prescrição do crime de formação de quadrilha, do qual 22 dos 38 réus do processo que tramita no STF são acusados.
Paralelamente, o PT cuidava de “reabilitar” seus próceres mensaleiros. Escalara João Paulo Cunha para presidir a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara; arrumara uma boquinha especial para José Genoíno no Ministério da Defesa; preparava-se para refiliar Delúbio e Silvio Pereira ao partido; e abrira portas de palácios e gabinetes para José Dirceu desfilar e negociar com desenvoltura. Em suma, pusera em movimento a verdadeira farsa.
Para a parcela da população que prefere o estabelecimento da Justiça, um escândalo como o do mensalão só pode ser superado com aplicação da lei, não com o ilusionismo que o PT persegue. Junto às mais de 42 mil páginas do processo de investigação que tramita no STF, o sobejo trabalho da PF será, certamente, fundamental para sugerir a condenação dos réus, como espera a sociedade. Contra a dura realidade dos fatos, Lula terá trabalho extra para montar sua peça de ficção.
Neste fim de semana, a revista Época divulgou em detalhes as conclusões da investigação promovida pela PF sob o comando do delegado Luís Flávio Zampronha, por determinação do ministro Joaquim Barbosa, relator do caso do mensalão no STF. O relatório escancara as malas pretas que alimentaram o esquema de corrupção e compra de votos implantado pelo PT.
Seis anos após as primeiras denúncias, a PF concluiu que o mensalão não apenas existiu, como envolveu grosso desvio de dinheiro público. A maior parte dos recursos roubados saía do Banco do Brasil – mais especificamente, de um fundo de publicidade chamado Visanet, destinado a ações de marketing de um cartão de crédito.
Os operadores do mensalão conheciam bem o caminho das pedras: o Visanet era submetido a quase nenhuma vigilância e fiscalização; era, portanto, presa fácil para o bote dos mensaleiros petistas. Dali, saíram pelo menos R$ 68 milhões de dinheiro do povo brasileiro. A maior parte foi parar nas mãos de parlamentares comprados pelo PT.
A investigação da PF também chegou ao que a revista chama de “o elo mais grave do esquema do valerioduto: a conexão com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva”. Trata-se de repasse de R$ 98 mil para Freud Godoy, segurança pessoal do líder petista. Marcos Valério remeteu-lhe um cheque, por correio, como pagamento a serviços de proteção ao então candidato durante a campanha e na transição à Presidência da República em 2002.
“Em suma: um amigo de Lula, que sempre prestou serviços a ele, recebeu dinheiro ilegal para pagar suas despesas trabalhando para o ex-presidente. É a primeira vez em que se descobre uma ligação direta entre o esquema de Marcos Valério e alguém da intimidade de Lula”, revela Época. Freud também foi um dos principais envolvidos no chamado Escândalo dos Aloprados, que incluía a compra – com dinheiro de origem nunca descoberta – de um dossiê falsificado contra o então candidato a governador de São Paulo pelo PSDB em 2006, José Serra.
A investigação da PF abalroa outros grão-petistas da atualidade, como Fernando Pimentel, hoje ministro de Desenvolvimento e homem de confiança da presidente Dilma Rousseff. Também mostra que os operadores do mensalão, com José Dirceu, Marcos Valério e Delúbio Soares à frente, praticavam às largas no governo de Lula o achaque a empresas – como o grupo Opportunity, de Daniel Dantas, de onde teriam saído US$ 50 milhões para alimentar os dutos da corrupção. Como se vê, a intimidação ao capital privado está no DNA do PT.
Como a drenagem de recursos públicos e os repasses a parlamentares continuaram no mínimo até 2004, desmonta-se, cabalmente, a tese do governo petista de que o mensalão constituía “apenas” caixa 2. “O PT só reconheceu que era caixa 2, mas não levaram uma pessoa sequer na CPI para demonstrar isso”, reforçou ontem o deputado Osmar Serraglio, relator da CPI do Mensalão. Ao todo, as empresas de Marcos Valério receberam R$ 350 milhões do governo Lula, parte para uso pessoal dos envolvidos.
Com o passar dos anos, o PT vinha se dedicando a tentar transformar o mensalão numa “piada de salão”, seguindo o que vaticinara Delúbio Soares logo após ter se desligado da tesouraria do partido. Apostava-se no esquecimento do público e, mais concretamente, na prescrição do crime de formação de quadrilha, do qual 22 dos 38 réus do processo que tramita no STF são acusados.
Paralelamente, o PT cuidava de “reabilitar” seus próceres mensaleiros. Escalara João Paulo Cunha para presidir a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara; arrumara uma boquinha especial para José Genoíno no Ministério da Defesa; preparava-se para refiliar Delúbio e Silvio Pereira ao partido; e abrira portas de palácios e gabinetes para José Dirceu desfilar e negociar com desenvoltura. Em suma, pusera em movimento a verdadeira farsa.
Para a parcela da população que prefere o estabelecimento da Justiça, um escândalo como o do mensalão só pode ser superado com aplicação da lei, não com o ilusionismo que o PT persegue. Junto às mais de 42 mil páginas do processo de investigação que tramita no STF, o sobejo trabalho da PF será, certamente, fundamental para sugerir a condenação dos réus, como espera a sociedade. Contra a dura realidade dos fatos, Lula terá trabalho extra para montar sua peça de ficção.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Estado empresário, Estado perdulário
Nunca antes na história se viu tamanha ingerência do governo em empreendimentos privados no país. O alvo mais óbvio continua a ser a Vale, mas agora a interferência se estende até a empresas d’além-mar, como a EDP portuguesa. Sob o PT, o Estado transformou-se num enorme balcão de negócios, ora intrometendo-se diretamente no dia-a-dia de decisões que deveriam ser puramente empresariais, ora atuando como pronto-socorro de companhias remediadas. A conta fica para o contribuinte pagar.
A sobrecarga governista sobre a Vale continua, como revela em manchete a edição de hoje de O Estado de S.Paulo. “O Palácio do Planalto determinou ao Ministério da Fazenda estudar uma forma de taxar fortemente a exportação de minério de ferro e desonerar o aço. A ideia é reduzir a venda da commodity e aumentar a comercialização de produtos siderúrgicos brasileiros no exterior”.
A manobra governista é grotesca: visa forçar a Vale a desviar o minério de ferro que extrai no Pará e exporta para todo o mundo para a produção de aço em uma siderúrgica a ser construída naquele estado. Trata-se de queda de braço que vem desde os tempos de Lula e que Dilma Rousseff manteve – e foi uma das razões da substituição, ontem oficializada, de Roger Agnelli na presidência da companhia.
Pelo jeito, os petistas do governo se acham melhores empresários do que os próprios gestores de negócios privados do país... Seria melhor que, antes de levar qualquer bobagem adiante, ouvissem o que têm a dizer executivos dos dois setores afetados pela medida em gestação no Planalto. A desaprovação deles à pretensa sapiência petista é unânime.
“Os produtores de aço estão investindo em mineração e o governo quer forçar as mineradoras a investir em siderurgia. Não tem o menor sentido", disse um empresário do setor de mineração ao Estadão. Nem mesmo representantes da siderurgia aprovaram: “Quando a gente fala em desonerar, tem de ser para a cadeia como um todo”, defendeu Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Instituto Aço Brasil.
O problema é que produzir aço hoje é mau negócio, ao qual nenhuma empresa se lançaria a bel prazer. Há excedente na produção mundial – de 550 milhões de toneladas – a ponto de, no ano passado, as próprias siderúrgicas existentes no país terem desativado nove altos-fornos para evitar a superabundância. Será que o governo entende melhor do negócio do que elas?
Uma boa resposta aos desacertos e aos danos que a ingerência estatal está gerando sobre os negócios privados vem do comportamento dos fundos de ações da Vale no mercado. Também em manchete hoje, O Globo mostra que a “interferência política” tornou o FGTS-Vale a pior aplicação do mercado em março. Os fundos – nos quais, em 2002, 254 mil trabalhadores investiram parte de seu FGTS em papéis da mineradora – perderam 6,8% no mês até o último dia 28. No ano, o recuo é de 4,89%.
Não contente em ser apenas péssimo empresário, o Estado petista se mete a ser pronto-socorro de empresas em maus lençóis. Ontem, a Eletrobrás divulgou que analisa a compra de parte da EDP portuguesa. Seria uma forma de “internacionalizar” a empresa, dizem, embora a estatal brasileira esteja longe de conseguir sanear suas próprias subsidiárias mergulhadas em déficits pelo país afora.
À lista se juntam a possibilidade de os Correios aportarem dinheiro no desgovernado projeto do trem-bala – mais uma vez adiado por causa do risco de ir a leilão sem conseguir atrair o interesse firme de nenhum investidor privado – e o providencial socorro que a Petrobras deve dar ao grupo Bertin, às voltas com dívidas e compromissos não honrados no setor elétrico, como mostrou o Valor Econômico em sua edição de ontem.
A história de um estado empresário, de gigantescas proporções e tentaculares alcances, já foi vivenciada pelos brasileiros no passado. Desembocou num processo de descontrole fiscal, descalabro inflacionário e retrocesso generalizado na economia. São riscos que novamente voltam a nos assombrar. A sociedade sabe que esta é uma carteira de investimentos micada e não pretende ver seu dinheiro apostado nela.
A sobrecarga governista sobre a Vale continua, como revela em manchete a edição de hoje de O Estado de S.Paulo. “O Palácio do Planalto determinou ao Ministério da Fazenda estudar uma forma de taxar fortemente a exportação de minério de ferro e desonerar o aço. A ideia é reduzir a venda da commodity e aumentar a comercialização de produtos siderúrgicos brasileiros no exterior”.
A manobra governista é grotesca: visa forçar a Vale a desviar o minério de ferro que extrai no Pará e exporta para todo o mundo para a produção de aço em uma siderúrgica a ser construída naquele estado. Trata-se de queda de braço que vem desde os tempos de Lula e que Dilma Rousseff manteve – e foi uma das razões da substituição, ontem oficializada, de Roger Agnelli na presidência da companhia.
Pelo jeito, os petistas do governo se acham melhores empresários do que os próprios gestores de negócios privados do país... Seria melhor que, antes de levar qualquer bobagem adiante, ouvissem o que têm a dizer executivos dos dois setores afetados pela medida em gestação no Planalto. A desaprovação deles à pretensa sapiência petista é unânime.
“Os produtores de aço estão investindo em mineração e o governo quer forçar as mineradoras a investir em siderurgia. Não tem o menor sentido", disse um empresário do setor de mineração ao Estadão. Nem mesmo representantes da siderurgia aprovaram: “Quando a gente fala em desonerar, tem de ser para a cadeia como um todo”, defendeu Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Instituto Aço Brasil.
O problema é que produzir aço hoje é mau negócio, ao qual nenhuma empresa se lançaria a bel prazer. Há excedente na produção mundial – de 550 milhões de toneladas – a ponto de, no ano passado, as próprias siderúrgicas existentes no país terem desativado nove altos-fornos para evitar a superabundância. Será que o governo entende melhor do negócio do que elas?
Uma boa resposta aos desacertos e aos danos que a ingerência estatal está gerando sobre os negócios privados vem do comportamento dos fundos de ações da Vale no mercado. Também em manchete hoje, O Globo mostra que a “interferência política” tornou o FGTS-Vale a pior aplicação do mercado em março. Os fundos – nos quais, em 2002, 254 mil trabalhadores investiram parte de seu FGTS em papéis da mineradora – perderam 6,8% no mês até o último dia 28. No ano, o recuo é de 4,89%.
Não contente em ser apenas péssimo empresário, o Estado petista se mete a ser pronto-socorro de empresas em maus lençóis. Ontem, a Eletrobrás divulgou que analisa a compra de parte da EDP portuguesa. Seria uma forma de “internacionalizar” a empresa, dizem, embora a estatal brasileira esteja longe de conseguir sanear suas próprias subsidiárias mergulhadas em déficits pelo país afora.
À lista se juntam a possibilidade de os Correios aportarem dinheiro no desgovernado projeto do trem-bala – mais uma vez adiado por causa do risco de ir a leilão sem conseguir atrair o interesse firme de nenhum investidor privado – e o providencial socorro que a Petrobras deve dar ao grupo Bertin, às voltas com dívidas e compromissos não honrados no setor elétrico, como mostrou o Valor Econômico em sua edição de ontem.
A história de um estado empresário, de gigantescas proporções e tentaculares alcances, já foi vivenciada pelos brasileiros no passado. Desembocou num processo de descontrole fiscal, descalabro inflacionário e retrocesso generalizado na economia. São riscos que novamente voltam a nos assombrar. A sociedade sabe que esta é uma carteira de investimentos micada e não pretende ver seu dinheiro apostado nela.
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