sábado, 11 de abril de 2015

100 longas noites

Cem dias são, inegavelmente, período curto para avaliar o que pode oferecer um governo com quatro anos de mandato pela frente. Mas o início da segunda gestão de Dilma Rousseff foi tão recheado de desvarios, perplexidades e descaminhos que, infelizmente, permitem antever um horizonte nebuloso até que 2018 acabe. Foram 100 dias de crise, uma por dia, todos os dias.

Nestes 100 dias, a presidente confirmou sua completa inaptidão para lidar com o desafio de recolocar o Brasil nos trilhos, restaurar alguma previsibilidade na economia e oferecer estabilidade política para que o país possa voltar à normalidade. Parabéns, Dilma.

Nestes 100 primeiros dias do segundo mandato, a petista jogou no lixo a palavra empenhada aos eleitores na campanha passada, empreendeu medidas que jurara que não faria e promoveu o maior estelionato eleitoral de que se tem notícia no país. A presidente faz o oposto do que a candidata prometeu. Parabéns, Dilma.

Nestes 100 dias iniciais, Dilma promoveu um arrocho econômico calcado no modelo mais rudimentar de ajuste: aumento de impostos, corte de benefícios sociais e diminuição de investimentos públicos. Nenhum reforma estrutural e duradoura, nenhuma redução da mastodôntica máquina erguida pelo PT dentro do Estado brasileiro. Parabéns, presidente.

Em apenas 100 dias, a petista levou o país a registrar as mais altas taxas de inflação em 20 anos, a menor média de expansão do PIB desde Fernando Collor e a maior queda nos rendimentos dos trabalhadores em uma década. Trabalhadores e assalariados pagam a conta do ajuste recessivo: 640 mil empregos foram eliminados no país em três meses. Parabéns, Dilma Rousseff.

Nestes 100 dias do segundo mandato, o mar da corrupção revelou-se com todas as suas cores lamacentas por meio das revelações da Operação Lava Jato. Ficou definitivamente provado que os bilhões surrupiados de nossas estatais serviram para irrigar os cofres do partido que comanda o país há 12 anos, incluindo o financiamento das duas campanhas vitoriosas da atual presidente. Parabéns, PT.

Nestes 100 dias, a autoridade da presidente da República viu-se erodida, as principais funções de governo foram terceirizadas por ela e o comando do país revelou-se acéfalo. Os brasileiros veem-se diante de uma das mandatárias mais odiadas da nossa história. Parabéns, Joaquim Levy. Parabéns, Michel Temer.

Nestes 100 primeiros dias, o erro de ter concedido mais um mandato a Dilma Rousseff revelou-se com todas as suas cores, inclusive àqueles que a elegeram. Neste início de segundo mandato, o país que tanto ansiava por mudanças atravessou uma espessa escuridão. Foram, na realidade, 100 longas noites. (Leia aqui o balanço que preparamos para lamentar a data.)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Inflaçãozona

O governo que acusava os adversários de “plantar inflação para colher juros” está assistindo um tufão de preços altos varrer o país, a despeito da taxa recorde praticada pelo Banco Central de Dilma Rousseff. O casamento da carestia com a usura está doendo muito no bolso dos brasileiros.

A inflação de março deu novo salto. O índice foi o maior para o mês desde 1995, ou seja, desde que o Plano Real derrotou o dragão, 20 anos atrás. Também é a maior inflação mensal registrada no país desde fevereiro de 2003. Não há salário que resista.

O índice acumulado em apenas três meses chegou a 3,83%, já pertinho da meta estabelecida para o ano todo. Em 12 meses, a alta acumulada é de 8,13%, a maior nesta base de comparação desde dezembro de 2003, segundo o IBGE.

O vilão do momento são as tarifas de energia, que responderam por metade da inflação de março. Os percentuais impressionam: altas de 22% no mês, 36% no ano e 60% em 12 meses. Lembram-se das contas baratinhas que Dilma prometeu na TV em 2012? Derreteram junto com o banho quente e o ar-condicionado agora tornados proibitivos...

Além da energia, a inflação é mais intensa em outros itens essenciais, como alimentos, e disseminada: 74% dos preços acompanhados subiram no mês passado. A continuar a alta do dólar, ainda pode piorar. 

O governo, como sempre, tentará buscar a culpa pela carestia em fatores alienígenas. Não cola: no resto do mundo, o mais comum é inflação baixinha e até deflação.

Durante muito tempo, petistas que acham que entendem de economia repetiram que uma inflaçãozinha a mais não dói. Na campanha do ano passado, seguidas vezes Dilma afirmou, quando diretamente confrontada, que a carestia não era problema e os preços estavam “sob controle”. Agora está se vendo o monstrengo – mais um – que criaram: a inflaçãozona.

Efeito direto da carestia é o que vem acontecendo com as cadernetas de poupança. Com o salário encolhendo (em fevereiro, a renda média teve a maior queda em dez anos) e o dinheiro mais curto a cada mês, tem restado aos brasileiros avançar nas suas economias.

Em todos os meses deste ano, os saques na poupança foram maiores que os depósitos. Até março foram retirados R$ 23,2 bilhões das cadernetas, além de outros R$ 2,7 bilhões dos fundos de investimento, até porque os rendimentos também estão apanhando sem dó da inflação. Nunca os brasileiros tiveram que tirar tanto dinheiro de seus cofrinhos para fazer frente aos gastos do dia a dia.

O ministro da Fazenda diz que a situação é de “total conforto” e Dilma Rousseff pede “paciência” para superar uma crise “passageira”. Para quem não vê o salário chegar ao fim do mês, os artigos na prateleira se tornarem cada dia mais inacessíveis e o sagrado dinheirinho poupado com tanto esforço desaparecer, é pedir um pouco demais.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Entrega tudo, Dilma

Dilma Rousseff conseguiu de novo: produziu mais uma trapalhada em seu claudicante governo. Depois de cogitar escalar Eliseu Padilha para a articulação política, foi obrigada a entregar a função ao vice-presidente Michel Temer. A presidente da República segue terceirizando atribuições. Deveria era entregar tudo de uma vez.

A mudança na Secretaria de Relações Institucionais é descrita na crônica política de hoje como mais uma manobra “desastrada” da presidente da República – para dizer o mínimo. Inclui convite respondido com um “não” pelo ministro convidado, demissão de ministro pelos jornais e prêmio de consolação para o demitido da vez. São as Organizações Dilma em plena ação.

A saída de Pepe Vargas – na verdade, um ministro demitido de antemão – é a quarta mudança num ministério que nem completou 100 dias de existência. Mas ainda vem mais pela frente.

O próprio Vargas vai assumir a Secretaria de Direitos Humanos como prêmio de consolação no lugar de Ideli Salvatti – que já foi ministra de pastas tão distintas quanto Pesca e Relações Institucionais e agora ganhará nova oportunidade, desta vez provavelmente na presidência dos Correios. Em breve também deve mudar o titular do Ministério do Turismo.

Diante deste incessante troca-troca, a questão que fica é: Afinal, quem é ministro de que e, sobretudo, para quê? Parecem todos ministros-tampão, peças descartáveis de um xadrez em que a rainha já caiu do tabuleiro. A última coisa que parece interessar na gestão da presidente Dilma é bem servir o público.

A trapalhada de ontem trouxe, porém, uma boa notícia: a extinção da Secretaria de Relações Institucionais. Agora o governo da petista terá apenas 38 ministérios... Que tal aproveitar a oportunidade e passar o facão em mais um monte de cargos que não servem para nada além de alimentar o balcão de negociatas do PT?

Neste segundo mandato, Dilma mostra-se sintonizadíssima com a pauta do dia: a ordem é terceirizar. A coordenação política é apenas a bola da vez, depois que a área econômica foi entregue a um alienígena nas hostes petistas e as linhas-mestras da gestão são ditadas, desde sempre, pelo tutor. Temer, Levy, Lula... quem será o próximo a responder por um naco do governo do qual Dilma se desvencilha?

Dizer que o segundo mandato é um bate-cabeça de proporções nunca antes vistas é chover no molhado. Para piorar, as cabeças que colidem revelam-se acéfalas. A gestão da petista mais parece a brincadeira da dança das cadeiras, e pode ser que daqui a pouco não sobre nenhuma para a presidente sentar. Entrega tudo, Dilma!

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Complexo de equívocos

Ainda deve demorar a chegar o tempo em que a Petrobras será vista dissociada de escândalos, de gestão temerária e de negócios mal feitos. Até lá vão surgindo aos borbotões exemplos e episódios que caracterizam o momento atual como o maior equívoco já produzido no setor de petróleo no país.

A petroleira está à deriva porque foi transformada de companhia promissora em vaca de gordas tetas da corrupção. Também serviu de esteio para a fracassada tentativa do governo do PT de segurar artificialmente a inflação. E foi, ainda, envergada pelo peso de investir nas reservas do pré-sal, inconciliável com suas capacidades financeiras.

Um retrato da ruína é dado pelas conclusões de estudo produzido por técnicos da própria Petrobras divulgado hoje por O Globo. Segundo o documento, o Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro) vai gerar prejuízo, na melhor das hipóteses, de R$ 44,8 bilhões para a companhia. Mas o rombo pode ser ainda maior e chegar a R$ 53 bilhões.

Trata-se de um dos negócios empurrados goela abaixo da empresa e que serviu de fonte frondosa da propina que irrigou a conta do PT e de partidos aliados desde a chegada de Lula ao poder, conforme já revelado pelas investigações da Operação Lava Jato.

Assim como a refinaria Abreu e Lima, o Comperj deveria ser uma história para ser aprendida e nunca mais repetida, para usar expressão da ex-presidente Graça Foster. Seus custos foram multiplicados por oito, saltando para US$ 48 bilhões. 

O complexo deveria ter duas refinarias, uma petroquímica e uma unidade de gás, mas apenas esta última continua em obras. Vale lembrar que, no Nordeste, outras duas refinarias foram abandonadas pela estatal depois de consumirem R$ 2,7 bilhões.

Comperj, Abreu e Lima e as duas refinarias Premium são parte do delírio enfeixado no novo marco regulatório do petróleo adotado no país desde 2010. Ele substituiu o modelo de concessão, que vigorara desde 1997, pelo de partilha, reforçado pela política de conteúdo local. 

Até agora, o principal resultado da mudança é o petrolão, o desmanche da Petrobras e a virtual implosão da indústria de petróleo, neste momento, no país.

Ontem, a presidente Dilma Rousseff usou a cerimônia de posse do novo ministro da Educação para defender esta ruína embrulhada em forma de opção política. “O que está em disputa é a forma de exploração desse patrimônio e quem fica com a maior parte”, disse ela. Hoje ninguém tem dúvida: a maior parte fica com a roubalheira petista.

São por equívocos como o do Comperj que vêm em boa hora propostas como a do senador José Serra que revoga a participação obrigatória da Petrobras (hoje de 30%) nos campos do pré-sal. Pelo menos tendem a evitar que a gestão da estatal continue a enveredar por descalabros produzidos em nome de um pretenso e falso interesse nacional.