terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O que a vida quer é decência

Milhares de pessoas voltaram ontem às ruas do país. Desta vez, as multidões não protestaram contra o governo. Mobilizaram-se, sobretudo, a favor da decência e em defesa da preservação dos avanços saneadores que o Brasil vem alcançando a partir do trabalho de suas instituições, em especial as reunidas em torno da Operação Lava Jato.

Houve protestos em todas as unidades da federação, reunindo entre 75 mil e 480 mil pessoas, conforme a fonte das estimativas. Entre os alvos mais explícitos estavam os presidentes do Congresso, senador Renan Calheiros, e da Câmara, Rodrigo Maia. Um dos cernes da mobilização foi a defesa da Lava Jato.

O que os brasileiros continuam pedindo é que a política se reaproxime das pessoas. Que o interesse público seja o norte e não mera figura de retórica que serve para encobrir desmandos. A luta é pela ampliação da cidadania, pela restauração da ética, pelo fim da corrupção.

Nesse tempo novo, a política não se faz mais apenas nos espaços e instâncias tradicionais. A arena de discussões se ampliou e ganhou dimensões globais com a interação possibilitada pela internet e pelas redes que se interconectam e se retroalimentam. Mudou o algoritmo da política, como sintetizou Fernando Henrique Cardoso em artigo para o site Poder 360.

“Exigem-se novas formas de diálogo, em substituição às reuniões fechadas e aos tradicionais discursos onde um líder fala e a plateia escuta. Agora, munidos de ferramentas de comunicação extraordinárias todos querem falar, e mais ainda, querem ser ouvidos pelo mundo do poder. Goste-se ou não, é assim que está funcionando.”

É preciso que os governantes e os parlamentares se deem conta do que a população e a cidadania esperam deles. Saiam da letargia e girem o botão da sintonia para religar-se à sociedade. Passem longe, por exemplo, de repetir o vexame da semana passada, quando o pacote anticorrupção apoiado por 2 milhões de assinaturas foi estropiado no Congresso.

Chegou-se a tal nível de desfaçatez nos últimos anos, que todos cobram agora uma radicalização moralizadora. E, como todo extremo, às vezes ela carrega exageros inaceitáveis. Ocorre que, no clima atual, não basta a honestidade; é preciso mostrar-se cabalmente honesto. Qualquer iniciativa que soe contra a limpeza é rechaçada com vigor.

Nossa democracia tem demonstrado força para manter o curso dos acontecimentos no leito da preservação das liberdades, da conquista de direitos e do respeito às instituições. Assim deve continuar sendo. Só uns poucos celerados não comungam destes valores absolutos, e devem continuar sendo só isso mesmo: uma minoria irracional.

O que é preciso ficar claro é que a corrupção é hoje um dos nossos maiores males, mas não é o pior. O Brasil só conseguirá sair do atoleiro em que foi jogado pelas gestões do PT se, sobretudo, conseguir reanimar a economia, voltar a produzir e gerar empregos. E isso se consegue não só com mais decência, mas especialmente com a eficiência da boa gestão e a serenidade da boa política.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Mercosul libre

A Venezuela está com um pé fora do Mercosul. O bloco regional, que passou os últimos anos agonizando sob o peso de governos de viés bolivariano, diminui, assim, o risco de afundar de vez. Está agora se livrando de um peso morto para tentar alçar voos mais altos.

A decisão de suspender os direitos do país comandado por Nicolás Maduro será oficializada nesta sexta-feira pelos países-membros fundadores do bloco. As chancelarias de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai finalmente resolveram cobrar da Venezuela o cumprimento de compromissos que assumiu mesmo antes de aderir ao bloco, o que ocorreu em agosto de 2012.

Das mais de 1.220 cláusulas, o governo venezuelano deixou de cumprir pelo menos 238; dos 57 acordos do bloco, apenas 16 haviam sido incorporados, segundo o Itamaraty informou à Folha de S.Paulo. Lá se vão dez anos desde que o país assumiu as obrigações, por meio do protocolo de adesão ao Mercosul assinado em Caracas em 2006.

Mas não é a quantidade que importa. Na realidade, a Venezuela merece ser suspensa – e eventualmente expulsa em definitivo – porque não obedece uma das cláusulas pétreas do Mercosul: respeitar a democracia e zelar pelos direitos humanos. Há ainda lacunas não preenchidas em questões de âmbito econômico e de condições de residência para habitantes dos demais países do bloco.

A Venezuela ainda não será definitivamente limada do Mercosul. Mas é difícil crer que, mantida sua orientação política interna, consiga proceder num curto espaço de tempo o que não pôde, e não quis, fazer por anos a fio. A primeira reação de Caracas foi o esperneio – possivelmente, será a única conduta ao alcance do governo local.

O país de Hugo Chávez e Maduro, idolatrado pelos petistas e esquerdistas brasileiros em geral, consolidou-se como um regime fechado, autoritário, que restringe as liberdades e arrosta opositores, não raro com cana. Também submete sua população a uma vida de privações só condizente com o que gramaram os povos subjugados pelo comunismo em tempos pretéritos.

Não bastasse o terror antidemocrático, os venezuelanos estão hoje sujeitos a condições de vida deploráveis. É o país com a maior taxa de inflação do mundo, próxima de 370% ao ano, segundo estimativas. E, em três anos, de 2014 a 2016, terá visto seu PIB decair 17%, de acordo com o FMI. Recentemente, Caracas superou a hondurenha San Pedro Sula e tornou-se a cidade mais violenta em todo o globo, noticiou o El Pais. O povo da Venezuela, definitivamente, não merece viver assim.

Na prática, o Mercosul caminha para livrar-se de um dos pesos mortos que em nada colaborou para a prosperidade do bloco. A aliança regional veio perdendo importância no comércio mundial, na mesma razão em que optou por ensimesmar-se em torno da agenda protecionista e isolacionista que orientou os governos de Lula, Dilma, dos Kirchner, de Morales, de Mujica, de Chávez e Maduro no continente.

Em particular, as estatísticas expressam o retrocesso da importância do Mercosul para a economia nacional ao longo destes últimos anos. Desde o início desta década, a corrente de comércio entre o Brasil e o bloco decaiu 25%, retrocedendo ao nível de oito anos atrás. Neste ano até novembro, nossas exportações para os parceiros da região despencam 9,4%, conforme números divulgados ontem pela Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

Desatar-se do freio que o Mercosul vem representando para nossas necessidades de integração global, expressas em novos acordos comerciais, é item premente da agenda em busca da recuperação econômica do Brasil. Sem a Venezuela, o caminho sem dúvida ficará mais livre.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Receita de bolo

As principais áreas produtoras estão terminando de semear a próxima safra agrícola nacional. Até o inverno de 2017 chegar, o Brasil deverá ter colhido a maior produção de grãos da sua história, numa demonstração da resiliência do campo ante as intempéries da recessão e das crises que, a partir de Brasília, se disseminam pelo resto do país.

Segundo a mais recente previsão de safra agrícola, divulgada em novembro pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o país deverá produzir entre 211 e 215 milhões de toneladas no ano-safra 2016/2017. O total representa alta entre 13% e 15% em relação à produção colhida na safra passada, a pior desde a de 2011/2012.

A produção agrícola brasileira deve ser inferior apenas às da China e dos Estados Unidos, que deverão colher 562 milhões e 550 milhões de toneladas, respectivamente, conforme o mais recente boletim do Conselho Internacional de Grãos (IGC, na sigla em inglês), divulgado em novembro. Segundo o USDA (Departamento Americano de Agricultura, na sigla em inglês), a produção mundial de 2016/2017 será a maior já alcançada.

Os principais produtos agrícolas nacionais continuam sendo soja e milho, que respondem por 87,6% dos grãos colhidos atualmente no país. Das 184,7 milhões de toneladas das duas culturas, 98,4 milhões, o que equivale a 53,5% do total, deverão ser exportadas, ainda conforme o levantamento publicado pela Conab.

Até outubro, soja é o principal item da pauta de embarques brasileira. Considerando todos os seus derivados, responde por 15,8% do total exportado, segundo as mais recentes estatísticas mensais divulgadas pela Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Até 2014, a liderança coube ao minério de ferro.

A área plantada com grãos deve ser também a maior da história, com avanço de 0,3% a 2,3% em relação à última safra colhida. Confirmadas as estimativas, a produtividade agrícola brasileira dará um salto de 12,9% neste ano-safra, atingindo 3.606 quilos por hectare, também sua maior marca histórica, sempre de acordo com o órgão oficial de estatísticas do Ministério da Agricultura.

O Mato Grosso mantém-se como o maior produtor brasileiro estadual de grãos. Da potência agrícola, sairão cerca de 53 milhões de toneladas. Isso significa que o estado produz sozinho o que 22 unidades da federação produzem somadas, incluindo toda a região Sudeste, o Norte e o Nordeste brasileiros.

Entre as maiores culturas agrícolas brasileiras, a produção de soja deverá crescer até 8,5% neste ano-safra e a de milho deverá avançar até 27%, praticamente recuperando todo o terreno perdido depois da queda expressiva da safra passada em função de razões climáticas adversas, em especial a estiagem prolongada.

Neste ano-safra, a principal expansão, contudo, deve ser a da cultura de sorgo. Antes praticamente destinado à produção de ração animal, o grão tem se mostrado promissor para alimentação humana, dada a sua capacidade antioxidante, conforme pesquisas levadas a cabo pelo Centro Nacional de Pesquisa de Milho e Sorgo da Embrapa. A alta pode chegar a 48%, mas a produção ainda deve ficar bem distante da máxima anotada em 2010/2011.

A agropecuária responde por 5% do PIB brasileiro, segundo os mais recentes resultados das Contas Nacionais, relativos ao terceiro trimestre, divulgados ontem pelo IBGE. No entanto, quando se considera todo o encadeamento da atividade, a chamada “porteira para fora”, a participação cresce para mais de 21% do total, segundo calcula o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo.

O agronegócio gerou superávit comercial de US$ 38 bilhões para o país entre janeiro e outubro, estimou a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O valor equivale a praticamente a totalidade do saldo registrado pela balança comercial brasileira no período. Quatro de cada dez dólares exportados vêm do campo.

Os resultados do PIB brasileiro divulgados ontem mostram que a agropecuária foi um dos últimos setores a tombar vítima da recessão que caminha para completar seu terceiro aniversário no país. Até o início de 2015, o campo só via sua produção crescer. Desde então, o PIB agropecuário já baixou 11%, de acordo com o IBGE.

Os números da previsão de safra que ora está sendo semeada indicam, contudo, que a atividade agrícola ainda tem força para resistir à crise e ajudar os brasileiros a superar a recessão e o desemprego. Com as dificuldades por que o país passa, na economia, no Congresso, nas ruas e nas fábricas, o campo mostra que pode ser a receita do bolo.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Um rosário de quedas

Sem nenhuma surpresa, a economia do país continuou afundando no terceiro trimestre do ano. A novidade é que, desta vez, a queda foi generalizada. Sem perspectiva de melhora imediata, a recessão brasileira caminha para completar seu terceiro aniversário. É a mais prolongada da nossa história.

O PIB encolheu 0,8% no trimestre terminado em setembro em relação aos três meses imediatamente anteriores, de acordo com o que divulgou o IBGE nesta manhã. É o dobro do registrado no período anterior e também a sétima queda seguida nesta base de comparação e a décima quando o cotejo é feito com o mesmo trimestre do ano anterior, cuja contração agora foi de 2,9%.

Desta vez, caíram indústria (só a extrativa mineral se salvou), agropecuária, serviços, consumo das famílias (este pelo sétimo trimestre seguido) e do governo – em todas as bases intertemporais de comparação. Desde o início de 2015, todas as taxas de comparação do PIB geral são negativas, destacou Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE.

Com a demanda em baixa, o ímpeto de produzir diminui e o de investir evapora. O investimento simplesmente despencou, depois de leve alta no período anterior: baixa de 3% no trimestre e de 13,5% no acumulado em um ano. Desde sua máxima, no terceiro trimestre de 2013, a queda acumulada já se aproxima de 28%. A taxa como proporção do PIB decaiu a seu menor patamar desde 2003: 16,5%.

No acumulado do ano até o mês de setembro, o PIB apresentou recuo de 4% quando comparado a igual período de 2015. Esta não é a régua mais relevante para aferir o PIB, mas torna-se simbólica porque foi a maior queda para este período já registrada pelo IBGE desde o início da série, em 1996, conforme ressaltou o órgão. Os resultados trazem mais todo um rosário de recordes negativos, listados por O Globo.

Segundo a FGV, a recessão brasileira já perdura desde o segundo trimestre de 2014. Ninguém aposta que o crescimento tenha voltado nos meses finais do ano que caminha para seu desfecho. As perspectivas para 2017 passaram de um leve otimismo há alguns meses para o terreno de previsões bem mais contidas, não raro de crescimento nulo do PIB, segundo antevê a OCDE, no que seria o pior desempenho entre os países do G20.

Que fique claro que os resultados que o país colhe agora nada derivam das medidas recentes do governo Michel Temer. O que estamos purgando é a herança maldita dos anos de descaminhos, irresponsabilidades e equívocos dos governos do PT, desde Lula até o grau máximo atingido com Dilma Rousseff. Por quanto tempo mais, ainda é difícil saber.

Estão, na realidade, nas iniciativas propugnadas pela atual gestão as únicas chances de o país começar a sair do abismo e divisar alguma esperança de recuperação. Neste sentido, dois tentos importantes foram marcados ontem, com a aprovação em primeiro turno pelo Senado da PEC da responsabilidade, que limita os gastos públicos, e com a sanção presidencial da lei que retira a obrigatoriedade da Petrobras de participar da exploração do pré-sal.

A economia brasileira experimenta doença grave e profunda. Foi levada a esta circunstância por uma profilaxia que intoxicou o enfermo, ao invés de curá-lo. Necessita ser submetida a uma terapia intensiva de recuperação, que passa por readequar seus hábitos e suas práticas. Em suma, precisa reformar-se para voltar a almejar voltar a ser alguém na vida e não apenas um pária no mundo.