A fúria com que o Ministério Público investe contra políticos contrasta com a candura dispensada pelos procuradores no tratamento dos delatores da JBS. Réus confessos, donos de uma ficha corrida que justificou a execução de nada menos que cinco operações no âmbito da Lava Jato em razão de corrupção bilionária, eles obtiveram punições que mais parecem prêmios por bom comportamento, numa inaceitável inversão de valores.
Em todos os aspectos envolvidos na delação feita pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, bem como por executivos do grupo, a JBS levou vantagens – quase sempre classificáveis como indevidas. As punições aos executivos foram abrandadas a ponto de desaparecerem: os procuradores simplesmente franquearam aos criminosos confessos anistia ampla, total e irrestrita. A delação foi classificada como “ultrapremiada”.
O perdão graciosamente concedido pelo MP – e, felizmente, ora sob ameaça de revisão pelo Supremo Tribunal Federal – livrou os Batista de penas que poderiam alcançar 2 mil anos de prisão, segundo levantamento publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo neste domingo. Eles incorreram, segundo suas próprias confissões, em nada menos que 240 condutas criminosas.
No âmbito da empresa, o acordo de leniência anunciado na semana passada também foi um negócio da China para os Batista. Considerado o “maior acordo de leniência do mundo”, fica longe disso. O valor envolvido é enganoso. Feitos os devidos ajustes contábeis, os R$ 10,3 bilhões cobrados da JBS – muito abaixo do máximo que a legislação permite – caem quase à metade. Aplicado no próprio negócio, o dinheiro dos Batista já ajudará a quitar a maior parte da multa.
Ao contrário de outros acordos, como o imposto à Odebrecht, a JBS não incorrerá em pagamento de juros ao longo dos 25 anos de fruição dos pagamentos. Isso significa que, trazida a valor presente, a penalidade equivale a apenas R$ 6 bilhões, estimou Miriam Leitão. Isso representa somente 3% do faturamento da empresa em 2016, enquanto a lei permite aplicar sanção de até 20%.
Não foi só o caixa da empresa que saiu praticamente ileso em troca das delações destinadas a tentar incriminar os adversários do PT. Os donos da JBS também foram agraciados com a possibilidade de viver em liberdade, sem gramar nenhum dia na prisão e direito de ficarem livres, leves e soltos usufruindo do luxo que amealharam nos últimos anos sob farto patrocínio de dinheiro público.
Nada poderia justificar isso. Afinal, a JBS foi o maior sócio do esquema de corrupção montado pelo PT ao longo dos últimos 13 anos – no país e em outras partes do mundo. Mereceria, pois, punição exemplar, mas o que o Ministério Público Federal lhe ofereceu equivale a um salvo-conduto, um prêmio de honra ao mérito. O exemplo que fica é péssimo: o crime, quanto maiores as proporções, compensa.
O comportamento da JBS faz lembrar um célebre slogan dos anos 70, injustamente associado ao jogador Gérson. O “Canhotinha de Ouro” da seleção campeã no México protagonizou propaganda de cigarros em que declamava que “o importante é levar vantagem em tudo”. Criou, involuntariamente, a lei de Gérson, que serviu para explicar muito mau caratismo desde então. Passados tantos anos, deveria ser rebatizada como lei de Joesley.
terça-feira, 6 de junho de 2017
sábado, 3 de junho de 2017
Ao PT o que é do PT
O ceticismo em torno do fim da recessão é salutar e profilático. Ajuda a ressaltar os gigantescos desafios e dificuldades que o país ainda precisará superar para que a retomada do crescimento se torne de fato realidade. Colabora para enfatizar o tamanho do estrago que decisões equivocadas e uma política econômica ruinosa são capazes de produzir.
A alta de 1% registrada no primeiro trimestre é insuficiente para compensar o recuo que, pelos critérios da FGV, começou no segundo trimestre de 2014 e levou a atividade econômica nacional ao nível em que estava em fins de 2010. Na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, o PIB mantém-se negativo (-0,4%), deixando o Brasil ainda na lanterna dos rankings globais de crescimento.
Também por isso, o primeiro crescimento da produção depois de oito quedas trimestrais consecutivas, conforme série do IBGE, ainda não se mostra capaz de animar as apostas em torno da superação definitiva do maior e mais prolongado período recessivo vivido pela atividade econômica no Brasil. O caminho até o éden revela-se longo, esburacado, cheio de curvas, sujeito a chuvas e muitas trovoadas. Como e quando chegaremos lá?
Dois setores estão se apresentando como motores de uma arrancada adiante: a agropecuária e as exportações. Eles representam um Brasil possível, mas que ainda não se tornou predominante: dinâmico, altamente produtivo, com reconhecida capacidade de competir globalmente e menos dependente da mãozinha do Estado. São amostras do que podemos ser, microcosmos daquilo que ainda não somos.
Durante os últimos anos em que ainda havia crescimento no país, não coube nem ao campo nem ao comércio exterior papéis de protagonistas. Quem puxou o PIB naquele breve interregno de altas foi, sobretudo, o consumo – das famílias e do governo. Antes, como agora, os investimentos foram meros coadjuvantes.
Vistos em conjunto, esses componentes do PIB, tanto pelo lado da oferta quanto da demanda, contam uma história. Mostram que a bonança que nos premiou na década passada foi consumida em si mesma. As sementes que poderiam fazer germinar a economia do amanhã não foram plantadas. As árvores que então frutificavam ficaram sem rega e adubo. A lavoura, então, murchou.
Esta é possivelmente uma imagem fiel da economia brasileira sob os anos de gestão do PT: uma vistosa plantação devastada por nuvens de gafanhotos, observada à distância pelo fazendeiro bonachão que se fartava nos exageros do consumo, desdenhava de precauções e não estava nem aí para o futuro. Não deu outra: a terra restou arrasada, quase um deserto desolado.
Vai levar tempo até esse solo exaurido pela irresponsabilidade voltar a brotar. Pode ser mais longo ou mais curto, a depender dos esforços de quem se dispuser a lavrar o chão ressecado, semear a terra e trabalhar de sol a sol para tratar os frutos, que, não duvidemos, demorarão a despontar. Em suma, depende de reformar o que errado e alquebrado está.
Pode ser mais difícil se a gritaria daqueles mesmos bonachões que ajudaram a praga a se espalhar – sim, mesmo com a destruição que promoveram, eles ainda estão por aí, livres, soltos e falastrões – se fizer ouvir e voltar a ganhar adeptos, espaço e poder.
Em termos mais diretos, os brasileiros amargam as consequências do que o PT fez ao país. Sofrem com os descaminhos de políticas postas em prática por Lula e Dilma e turbinadas por equipes ministeriais que dividiam seus expedientes entre a gestão da economia e a operação de balcões da corrupção. Pagam o preço dessa ruína.
Para ressuscitar, a economia brasileira terá de matar esse legado e fazer nascer um novo modelo. Por menos que isso, a crise não irá embora, até porque milagres só operam em outras dimensões... Não se destrói um país impunemente. Não se supera uma herança tão maldita senão com muito trabalho, esforço e tempo, muito tempo. Ao PT o que é do PT: todos os créditos pela devastação que, com tanta competência, conseguiu produzir.
A alta de 1% registrada no primeiro trimestre é insuficiente para compensar o recuo que, pelos critérios da FGV, começou no segundo trimestre de 2014 e levou a atividade econômica nacional ao nível em que estava em fins de 2010. Na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, o PIB mantém-se negativo (-0,4%), deixando o Brasil ainda na lanterna dos rankings globais de crescimento.
Também por isso, o primeiro crescimento da produção depois de oito quedas trimestrais consecutivas, conforme série do IBGE, ainda não se mostra capaz de animar as apostas em torno da superação definitiva do maior e mais prolongado período recessivo vivido pela atividade econômica no Brasil. O caminho até o éden revela-se longo, esburacado, cheio de curvas, sujeito a chuvas e muitas trovoadas. Como e quando chegaremos lá?
Dois setores estão se apresentando como motores de uma arrancada adiante: a agropecuária e as exportações. Eles representam um Brasil possível, mas que ainda não se tornou predominante: dinâmico, altamente produtivo, com reconhecida capacidade de competir globalmente e menos dependente da mãozinha do Estado. São amostras do que podemos ser, microcosmos daquilo que ainda não somos.
Durante os últimos anos em que ainda havia crescimento no país, não coube nem ao campo nem ao comércio exterior papéis de protagonistas. Quem puxou o PIB naquele breve interregno de altas foi, sobretudo, o consumo – das famílias e do governo. Antes, como agora, os investimentos foram meros coadjuvantes.
Vistos em conjunto, esses componentes do PIB, tanto pelo lado da oferta quanto da demanda, contam uma história. Mostram que a bonança que nos premiou na década passada foi consumida em si mesma. As sementes que poderiam fazer germinar a economia do amanhã não foram plantadas. As árvores que então frutificavam ficaram sem rega e adubo. A lavoura, então, murchou.
Esta é possivelmente uma imagem fiel da economia brasileira sob os anos de gestão do PT: uma vistosa plantação devastada por nuvens de gafanhotos, observada à distância pelo fazendeiro bonachão que se fartava nos exageros do consumo, desdenhava de precauções e não estava nem aí para o futuro. Não deu outra: a terra restou arrasada, quase um deserto desolado.
Vai levar tempo até esse solo exaurido pela irresponsabilidade voltar a brotar. Pode ser mais longo ou mais curto, a depender dos esforços de quem se dispuser a lavrar o chão ressecado, semear a terra e trabalhar de sol a sol para tratar os frutos, que, não duvidemos, demorarão a despontar. Em suma, depende de reformar o que errado e alquebrado está.
Pode ser mais difícil se a gritaria daqueles mesmos bonachões que ajudaram a praga a se espalhar – sim, mesmo com a destruição que promoveram, eles ainda estão por aí, livres, soltos e falastrões – se fizer ouvir e voltar a ganhar adeptos, espaço e poder.
Em termos mais diretos, os brasileiros amargam as consequências do que o PT fez ao país. Sofrem com os descaminhos de políticas postas em prática por Lula e Dilma e turbinadas por equipes ministeriais que dividiam seus expedientes entre a gestão da economia e a operação de balcões da corrupção. Pagam o preço dessa ruína.
Para ressuscitar, a economia brasileira terá de matar esse legado e fazer nascer um novo modelo. Por menos que isso, a crise não irá embora, até porque milagres só operam em outras dimensões... Não se destrói um país impunemente. Não se supera uma herança tão maldita senão com muito trabalho, esforço e tempo, muito tempo. Ao PT o que é do PT: todos os créditos pela devastação que, com tanta competência, conseguiu produzir.
sexta-feira, 2 de junho de 2017
O fim da recessão
Depois de uma sequência de quase três anos contínuos de queda, a economia brasileira finalmente respirou. A alta registrada no primeiro trimestre coroa a retomada que se seguiu à mudança de governo, mas pode ser insuficiente para sepultar de vez a pesada herança recessiva legada pelo PT. Depende dos caminhos que o país conseguirá trilhar, e da superação da atual crise política, a chance de voltar a crescer de forma sustentada.
O PIB brasileiro cresceu 1% no primeiro trimestre do ano na comparação com os três meses imediatamente anteriores. Segundo o IBGE, a alta interrompe oito trimestres seguidos de quedas. Por outros mecanismos de aferição, a recessão do país é ainda mais prolongada e severa, com início no segundo trimestre de 2014.
A mudança de ares que se operou no país desde o fim do governo do PT ajudou a melhorar expectativas e a reerguer a atividade. A expressiva queda da inflação – que desceu a menos da metade do que era um ano atrás – e a consequente redução da taxa básica de juros – que ontem caiu mais um ponto percentual, agora para 10,25% ao ano – forneceram condições objetivas à melhoria do ambiente econômico.
No lado real da economia, foi sobretudo graças à agropecuária que a economia nacional ressuscitou. A alta em relação ao trimestre anterior foi de 13,4%, a maior desde 1996. O campo está bombando, produzindo a maior safra de grãos da nossa história e ajudando a dinamizar a atividade também da porteira para fora: a indústria cresceu 0,9% no trimestre, no melhor resultado em quatro anos. Serviços ficaram estáveis (0%).
Mas os números divulgados nesta manhã pelo IBGE também trazem resultados muito ruins. Todos os componentes da demanda, como consumo e investimentos, voltaram a cair. Novamente, o destaque mais negativo foram os investimentos, há quatro anos em queda praticamente ininterrupta. Com isso, a taxa de investimentos desceu a seu menor patamar da série histórica do IBGE, para 15,6% do PIB.
Isso significa que, por um lado, as famílias continuam receosas de consumir – muitas delas, 14 milhões para ser mais exato, não têm sequer condições de, por estarem nas estatísticas de desemprego. Do lado dos investidores, o ânimo ainda não voltou e corre risco de continuar adormecido se as reformas estruturais emperrarem em Brasília.
A conclusão que se tira de tudo isso é que o país vem vivendo uma experiência econômica tétrica desde a virada da década. A atividade produtiva está no mesmo patamar de fins de 2010, ou seja, lá se foram seis anos jogados na lata de lixo. Fica de lição como experiência a ser aprendida e nunca mais repetida, e de prevenção ao canto da sereia daqueles que têm a cara de pau de defender a ressurreição da malfadada receita petista de produzir ruínas.
O país precisa redobrar a energia para superar a crise política, perseverar na limpeza da corrupção que os governos de Lula e Dilma transformaram em endêmica e insistir em mudanças profundas na estrutura produtiva, em especial nos gastos públicos. Só assim a pior recessão da nossa história será, de fato, passado. Por enquanto, ainda não é.
O PIB brasileiro cresceu 1% no primeiro trimestre do ano na comparação com os três meses imediatamente anteriores. Segundo o IBGE, a alta interrompe oito trimestres seguidos de quedas. Por outros mecanismos de aferição, a recessão do país é ainda mais prolongada e severa, com início no segundo trimestre de 2014.
A mudança de ares que se operou no país desde o fim do governo do PT ajudou a melhorar expectativas e a reerguer a atividade. A expressiva queda da inflação – que desceu a menos da metade do que era um ano atrás – e a consequente redução da taxa básica de juros – que ontem caiu mais um ponto percentual, agora para 10,25% ao ano – forneceram condições objetivas à melhoria do ambiente econômico.
No lado real da economia, foi sobretudo graças à agropecuária que a economia nacional ressuscitou. A alta em relação ao trimestre anterior foi de 13,4%, a maior desde 1996. O campo está bombando, produzindo a maior safra de grãos da nossa história e ajudando a dinamizar a atividade também da porteira para fora: a indústria cresceu 0,9% no trimestre, no melhor resultado em quatro anos. Serviços ficaram estáveis (0%).
Mas os números divulgados nesta manhã pelo IBGE também trazem resultados muito ruins. Todos os componentes da demanda, como consumo e investimentos, voltaram a cair. Novamente, o destaque mais negativo foram os investimentos, há quatro anos em queda praticamente ininterrupta. Com isso, a taxa de investimentos desceu a seu menor patamar da série histórica do IBGE, para 15,6% do PIB.
Isso significa que, por um lado, as famílias continuam receosas de consumir – muitas delas, 14 milhões para ser mais exato, não têm sequer condições de, por estarem nas estatísticas de desemprego. Do lado dos investidores, o ânimo ainda não voltou e corre risco de continuar adormecido se as reformas estruturais emperrarem em Brasília.
A conclusão que se tira de tudo isso é que o país vem vivendo uma experiência econômica tétrica desde a virada da década. A atividade produtiva está no mesmo patamar de fins de 2010, ou seja, lá se foram seis anos jogados na lata de lixo. Fica de lição como experiência a ser aprendida e nunca mais repetida, e de prevenção ao canto da sereia daqueles que têm a cara de pau de defender a ressurreição da malfadada receita petista de produzir ruínas.
O país precisa redobrar a energia para superar a crise política, perseverar na limpeza da corrupção que os governos de Lula e Dilma transformaram em endêmica e insistir em mudanças profundas na estrutura produtiva, em especial nos gastos públicos. Só assim a pior recessão da nossa história será, de fato, passado. Por enquanto, ainda não é.
quinta-feira, 1 de junho de 2017
Pau nos juros
O Copom (Comitê de Política Monetária) tem hoje uma difícil decisão pela frente: definir qual ritmo deve ter a queda da taxa básica de juros doravante. A redução da Selic é condição necessária para que o país prossiga sua trilha de retorno à normalidade e reencontre o caminho do crescimento, mesmo que as condições políticas não ajudem.
Em termos objetivos, a autoridade monetária tem boas razões para acelerar os cortes, iniciados em outubro do ano passado. A expectativa até a fatídica quarta-feira, 17, em que vieram à tona gravações de conversa pouco republicana do presidente Michel Temer com o réu confesso Joesley Batista era de ampliação da queda da taxa básica.
Até agora, a Selic foi cortada em três pontos percentuais, baixando de 14,25% para 11,25% ao ano. As apostas predominantes apontavam a possibilidade de a reunião desta quarta-feira terminar com o Copom anunciando nova redução, desta vez de 1,25 ponto percentual, o que colaboraria para jogar mais gasolina no motor do reaquecimento econômico. Pode ser que não chegue mais a tanto.
O alvo da política monetária chancela cortes mais ousados. Na reunião do Copom de abril, as previsões colhidas junto ao mercado por meio do boletim Focus indicavam inflação de 4,09% neste ano e de 4,46% em 2018. Ambos, portanto, dentro, ou até abaixo, da meta. Hoje, os prognósticos para o IPCA são ainda mais benignos: 3,95% e 4,40%, respectivamente. Ou seja, desde a última reunião, o juro real subiu.
O país deve passar os próximos meses convivendo com algo impensável até pouco tempo atrás: queda nos índices de preços. O Brasil não vê deflação mensal há mais de uma década, mais precisamente desde o -0,21% de junho de 2006. No atacado, os índices mais recentes já mergulharam em terreno negativo. Devem colaborar para o recuo a redução dos preços de combustíveis, a estabilidade das tarifas de energia e o contravapor da recessão.
O problema maior do Copom está do outro lado da esplanada que divide ministérios e órgãos públicos em Brasília, onde se determina o ritmo dos gastos do governo. É a perna fiscal a que mais ameaça a continuação da estratégia de corte dos juros. Por ora, mesmo com forte contenção de despesas o rombo nas contas públicas, oriundo de um desequilíbrio cavalar legado pelo PT, permanece.
O risco político não colabora. É ponto pacífico que o país só conseguirá domar minimamente o galope dos gastos se lograr reformar partes consideráveis de suas despesas obrigatórias, em especial aquelas com pagamento de aposentadorias e pensões. Neste sentido, repousa sobre o sucesso da reforma da previdência a principal incógnita acerca da continuidade do corte de juros.
Tudo indica que, em momento de turbulência como o atual, o Copom deve preferir esperar para ver antes de engatar cortes mais ousados na Selic. Prudência é sempre a receita básica de qualquer Banco Central. Mas a perspectiva de levar os juros básicos de volta a um patamar civilizado não pode ser abandonada ao primeiro abalo. Cortar mais é preciso.
Em termos objetivos, a autoridade monetária tem boas razões para acelerar os cortes, iniciados em outubro do ano passado. A expectativa até a fatídica quarta-feira, 17, em que vieram à tona gravações de conversa pouco republicana do presidente Michel Temer com o réu confesso Joesley Batista era de ampliação da queda da taxa básica.
Até agora, a Selic foi cortada em três pontos percentuais, baixando de 14,25% para 11,25% ao ano. As apostas predominantes apontavam a possibilidade de a reunião desta quarta-feira terminar com o Copom anunciando nova redução, desta vez de 1,25 ponto percentual, o que colaboraria para jogar mais gasolina no motor do reaquecimento econômico. Pode ser que não chegue mais a tanto.
O alvo da política monetária chancela cortes mais ousados. Na reunião do Copom de abril, as previsões colhidas junto ao mercado por meio do boletim Focus indicavam inflação de 4,09% neste ano e de 4,46% em 2018. Ambos, portanto, dentro, ou até abaixo, da meta. Hoje, os prognósticos para o IPCA são ainda mais benignos: 3,95% e 4,40%, respectivamente. Ou seja, desde a última reunião, o juro real subiu.
O país deve passar os próximos meses convivendo com algo impensável até pouco tempo atrás: queda nos índices de preços. O Brasil não vê deflação mensal há mais de uma década, mais precisamente desde o -0,21% de junho de 2006. No atacado, os índices mais recentes já mergulharam em terreno negativo. Devem colaborar para o recuo a redução dos preços de combustíveis, a estabilidade das tarifas de energia e o contravapor da recessão.
O problema maior do Copom está do outro lado da esplanada que divide ministérios e órgãos públicos em Brasília, onde se determina o ritmo dos gastos do governo. É a perna fiscal a que mais ameaça a continuação da estratégia de corte dos juros. Por ora, mesmo com forte contenção de despesas o rombo nas contas públicas, oriundo de um desequilíbrio cavalar legado pelo PT, permanece.
O risco político não colabora. É ponto pacífico que o país só conseguirá domar minimamente o galope dos gastos se lograr reformar partes consideráveis de suas despesas obrigatórias, em especial aquelas com pagamento de aposentadorias e pensões. Neste sentido, repousa sobre o sucesso da reforma da previdência a principal incógnita acerca da continuidade do corte de juros.
Tudo indica que, em momento de turbulência como o atual, o Copom deve preferir esperar para ver antes de engatar cortes mais ousados na Selic. Prudência é sempre a receita básica de qualquer Banco Central. Mas a perspectiva de levar os juros básicos de volta a um patamar civilizado não pode ser abandonada ao primeiro abalo. Cortar mais é preciso.
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