segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Um poço de lambança no pré-sal

Nesta terça-feira, completa um ano que o presidente Lula anunciou, com pompa e circunstância, as regras do novo marco legal para exploração de petróleo no país. Foi uma cerimônia em tom ufanista, inserida no calendário pré-eleitoral montado pelo Planalto para incensar a candidata oficial.

O que se viu nos últimos 365 dias, porém, foi uma lambança de proporções oceânicas. Se, no curto prazo, o pré-sal já foi capaz de produzir tantos estragos, imagine o que pode vir nas décadas de exploração que temos pela frente.

A Petrobras e seus acionistas foram os primeiros a sentir os efeitos dos improvisos da atual gestão. Alguns números traduzem o prejuízo que a aventura petista tem trazido à companhia e ao país. Nestes 12 meses, as ações ordinárias da empresa perderam 20% do valor e as preferenciais, 15%. No ano, as cotações caíram mais ainda: 28% e 27,6%, respectivamente. Isso significa que a Petrobras vale hoje US$ 57 bilhões menos no mercado do que valia em fins de 2009. Para o petismo, isso é bagatela.

A maior empresa brasileira está hoje com a corda no pescoço. Tem um vultoso plano de investimentos planejado, orçado em US$ 224 bilhões entre 2010 e 2014. Não tem, porém, de onde tirar tanto dinheiro e não tem mais como endividar-se: sua dívida líquida já equivale a 34,74% do patrimônio líquido, conforme o balanço do segundo trimestre, e está próxima do limite a partir do qual a Petrobras fica ameaçada de perder o selo de “grau de investimento”, o que pode levar seu valor a níveis ainda mais baixos.

Não espanta que grandes investidores estejam correndo das ações da Petrobras feito diabo da cruz. Gente acostumada a ganhar muita grana – como o húngaro-americano George Soros – já se desfez de tudo o que detinha na petrolífera. Infelizmente, aos cerca de 90 mil trabalhadores que ainda têm participação nos fundos mútuos da companhia em que aplicaram seu FGTS só resta ver sua poupança derreter.

Em apenas 365 dias, o governo do PT foi capaz de produzir uma interminável série de equívocos. Até agora, o novo marco legal só causou confusão, sem quaisquer ganhos para o país. Dos quatro projetos enviados ao Congresso, dois foram aprovados – a criação da Petrosal e a capitalização da Petrobras – e dois ainda tramitam – o que adota o regime de partilha para a exploração das reservas do pré-sal e o que cria o fundo soberano.

Ou seja, sem que uma gota de óleo jorrasse, fomos capazes de criar uma nova estatal e aprovar uma megaoperação financeira que, prevista para acontecer daqui a 30 dias, ninguém sabe ao certo como será feita. Em torno dela, digladiam-se interesses divergentes, nada transparentes e excessivamente ideologizados, como se vê principalmente na ANP.

A capitalização pode vir a movimentar um volume de recursos nunca antes visto na história das finanças mundiais, mas o cipoal de regras esdrúxulas que o governo criou é tão denso que é impossível saber se esse montante será de US$ 50 bilhões ou US$ 120 bilhões. ANP e consultorias não se entendem quanto ao valor do barril que será adotado na operação, muito menos sobre qual de fato é o tamanho das reservas. Puro detalhe.

Como se não bastasse, as regras da proposta de adoção do regime de partilha fraturaram o pacto federativo ao ameaçar minar as finanças dos dois principais estados produtores: Rio e Espírito Santo, que correm o risco de, do dia para a noite, perder R$ 8 bilhões anuais em receitas de royalties e participações especiais. Não serão apenas eles que perderão: no auge da produção do pré-sal R$ 21,5 bilhões deixarão de ser transferidos para estados e municípios pela União.

Neste meio-tempo, a Petrobras vai se deteriorando a olhos vistos. Seguidas plataformas exibem problemas de manutenção e conservação e avolumam-se acidentes com seus empregados. Trabalhadores não cooptados pelo sindicalismo pelego da CUT citam o balanço social da empresa para denunciar que acontecem um acidente por dia e duas mortes por mês nas refinarias e plataformas da companhia.

O pré-sal é apontado pelo ufanismo petista como a redenção de todas as mazelas do país. Mas ninguém explica como, num passe de mágica, riquezas localizadas a quilômetros de profundidade, em condições absolutamente adversas, se transformarão em benefícios palpáveis para a população brasileira. É possível aproveitar bem esta oportunidade ímpar, mas o que o governo Lula fez até agora foi tornar tudo mais incerto, nebuloso e imprevisível. O pré-sal não precisa do risco PT.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A profana ceia governista

O PT e os partidos governistas estão oferecendo ao eleitor uma bela demonstração de como agirão caso saiam consagrados das urnas em outubro. Faltando mais de um mês para as eleições, deram início a um deplorável espetáculo de assalto ao Estado. Propostas para o país nenhum deles tem a oferecer, interessados que estão em apenas tomar sua parte na divisão do butim.

A senha para a disparada foi dada alguns dias atrás pelo partido que tende a manter-se como o de maior peso parlamentar no próximo governo. Michel Temer, candidato a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff, avisou a seus correligionários que o PMDB já se prepara para fazer a “partilha” da futura administração. No seu rastro, vieram todas as siglas abrigadas no condomínio montado por Lula, aos berros de “me dá, me dá, que eu vi primeiro”.

É só olhar à volta da candidata oficial para ver ao lado dela o que de pior grassa nos partidos. Todos ressuscitadinhos da silva por Lula, estão lá Collor de Mello, Renan Calheiros, José Sarney, Newton Cardoso, José Dirceu, Delúbio Soares, o anão do Orçamento Genebaldo Correia etc etc etc. A lista é extensa o suficiente para compor uma quadrilha de 40, como a do mensalão.

Com esta turma, estão de volta ao léxico vocábulos que gostaríamos de ver apenas em dicionários não atualizados para os padrões agora adotados nos países de língua portuguesa. Nos jornais, para quem quiser ler ou ouvir, os aliados de Dilma falam abertamente em “partilha do pão”, em “carguinhos” e em “valer quanto pesa” nas negociatas pela repartição do poder. Triste show desta pequena loja de horrores.

“A Brasília dos últimos anos firmou-se como templo de um sistema administrativo que gira em torno de privilégios, verbas e empregos. (...) No Brasil, aliança política tornou-se sinônimo de coligação partidária com fins lucrativos”, resume Josias de Souza na edição de hoje da Folha de S. Paulo. Audrey, a planta carnívora petista, está prontinha para engolir o que vier pela frente.

Como se não bastasse, Lula e o marketing político do PT cuidam de transformar o debate político em algo primário, infantil, pré-escolar, reduzindo os cidadãos a “filhos” de um líder ungido por Deus. Diz o principal jingle de campanha de Dilma: “Deixo em tuas mãos o meu povo e tudo o que mais amei/Mas só deixo porque sei que vais continuar o que fiz/Agora as mãos de uma mulher vão nos conduzir/Eu sigo com saudade, mas feliz a sorrir/Pois sei: meu povo ganhou uma mãe”. Estamos esperando o Messias? Somos órfãos em busca de adoção?

Pouco se sabe sobre a candidata do PT. Mas muito se revela sobre ela a partir de suas péssimas companhias ou a partir do molde abestalhado em que tenta encaixar o eleitorado brasileiro. Na sua gagueira onipresente, na profana evocação de poderes divinos, na transformação do país numa imensa creche, Dilma Rousseff nos apresenta seu gugu-dadá retrocessivo.

Tem sorte o eleitor de estar podendo assistir tudo isso acontecer a ainda 40 dias da votação. Os governistas nos oferecem de graça e sob a luz do dia uma amostra do que irá se desenrolar, cotado em bilhões, nos recônditos mal iluminados do poder, caso a candidata do PT saia-se vencedora da eleição. É mais um motivo para colocar toda esta turma para entoar suas cantigas de ninar em outra freguesia.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Baratinho e ordinário

Não chega a surpreender a manipulação criminosa que o PT adota em suas ações de governo. Mas é de indignar o mais indiferente dos cidadãos o nível que a desfaçatez vai alcançando, como se nota agora com as rodovias federais concedidas pela gestão Lula. Sob o manto de que saíram baratinho para os usuários, vê-se a cada dia que, pelo que oferecem, são um assalto à mão armada.

Em 2007, o governo federal levou a leilão sete lotes de estradas. Dá cerca de 2.700 km. Deve-se perguntar ao distinto público se, passados dois anos e meio, percebeu diferenças significativas nas vias leiloadas por onde trafega. Afora as praças de cobrança dos pedágios que passou a pagar, a resposta é não, como mostra a Folha de S. Paulo em sua edição de hoje.

De cada quatro reais que deveriam ser investidos, apenas um foi aplicado. Quem desce pela concedida Régis Bittencourt (BR-116) de São Paulo a Curitiba, por exemplo, continua a deparar-se com os acidentes quase diários na Serra do Cafezal. No mínimo pelo próximos três anos, os contratempos aumentarão: é o dilatado prazo que a concessionária obteve para duplicar um trecho de 30 km de serra entre Juquitiba e Miracatu. É bom ter paciência: em julho, numa dessas interdições, os motoristas gramaram 12 horas de lentidão na rodovia.

Paciência também é o que estão tendo de ter motoristas que transitam entre São Paulo e Minas pela também concedida Fernão Dias (BR-381). No início do ano, a queda de uma barreira interrompeu o tráfego numa das pistas em Mairiporã. Com isso, todo o fluxo passou a ocupar as vias que antes serviam apenas os veículos que iam de Minas para a capital paulista – onde agora, nos fins de semana, caminhões não passam. Resultado: dezenas de quilômetros de lentidão na região de Bragança Paulista, num martírio que não tem data para acabar .

Por que isso está acontecendo? Porque, para forçar os preços para baixo, o governo Lula entregou as rodovias para as concessionárias sem exigir delas melhorias estruturais imediatas nas pistas. Ampliações e duplicações só estão previstas para as calendas. Em dois anos, a OHL, concessionária que arrematou 2.100 km dos 2.700 km leiloados, por exemplo, não fez nenhuma obra que permitisse acabar com gargalos viários. Só tapa-buracos.

Pior: em fins de 2009, o governo federal dilatou o prazo, permitindo que as obras rodoviárias mais importantes fossem postergadas pelas empresas. Dizem elas que o pedágio baratinho não permite melhorar as estradas. Por isso, foram bater às portas da enfermaria do BNDES. Ou seja, o que o usuário paga a menos nas praças de pedágio, o contribuinte subsidia no guichê do bancão federal.

Também na edição de hoje, a Folha mostra que os preços dos pedágios foram jogados para baixo não por causa de um bem-sucedido modelo bolado pelos petistas, mas sim por causa de crassa manipulação. A manobra foi apontada pelo Tribunal de Contas da União e consiste em usar, para fins de cálculo da tarifa máxima, um fluxo de veículos menor que o real.

Como na prática as estradas recebiam mais carros do que o governo estimara nos editais de concessão, as empresas puderam entrar nos leilões oferecendo descontos vistosos. Responsável pelas concessões, a ANTT informou ao TCU que não atualizou os cálculos de tráfego “para não atrapalhar o PAC”! “O resultado foi que o governo Lula conseguiu faturar politicamente ao divulgar o sucesso do leilão, mas com descontos que não correspondiam à realidade”, informa o jornal.

Na sexta-feira passada, do alto de um palanque em Osasco, Lula disse que são “um roubo” os pedágios praticados nas estradas de São Paulo – estradas consideradas as melhores do país; estradas onde, por causa das melhorias e do excelente estado de conservação, mil mortes são evitadas por ano; estradas que, em 74% dos casos, estão em ótimo ou bom estado, enquanto 70% das federais estão em condições péssimas, ruins ou regulares.

Roubo é manipular leilões, enganar usuários, cobrar para não oferecer nada em troca e mandar a conta para todos os contribuintes, por meio de instituições financeiras oficiais e/ou maquiagens orçamentárias. Nas rodovias concedidas pelo governo Lula, é assim. Tudo bem baratinho, mas muito ordinário.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O Brasil não quer um tutor

Na entrevista que concedeu ao Jornal Nacional na semana passada, o tucano José Serra sentenciou: “Nenhum presidente governa na garupa”. Buscou chamar atenção para o risco que o país corre de ter um verdadeiro fantoche na presidência da República. Mais que isso, quis dizer que o comando de uma grande nação exige um líder testado e aprovado; não comporta um experimento de proveta.

É um ciborgue desta natureza que teremos se Dilma Rousseff vier a ser eleita. Quem irá mandar, de fato, continuará a ser Luiz Inácio Lula da Silva, secundado pelo “chefe da quadrilha” (as palavras são do então procurador-geral da República) José Dirceu e gente como Fernando Collor, José Sarney, Renan Calheiros e os 300 picaretas que o hoje presidente já disse existir no Congresso. São estas as credenciais da petista?

Os marqueteiros de Dilma sabem da fraqueza da candidata e temem que, exposto à luz da campanha televisiva, isso seja claramente percebido pelo eleitorado. Em razão desse temor, já no primeiro programa de TV, exibido na terça-feira, tentaram transformar a obscura petista em líder nacional. Líder nacional?

Como a matéria-prima de que dispõem é escassa, os senhores da comunicação de Dilma deram dimensões grandiosas a suas passagens por uma secretaria municipal em Porto Alegre e uma pasta no governo gaúcho. Embora tenham mencionado uma nunca antes conhecida participação de Dilma no processo de redemocratização, desta vez pelo menos não usaram fotos de Norma Bengell...

Nesta altura da vida de Dilma, José Serra já fora secretário de Planejamento do Estado de São Paulo, deputado com inúmeras propostas aprovadas na Constituinte, senador da República e ministro de duas pastas. Já tinha uma longa ficha de serviços relevantes prestados à sociedade brasileira, em que pontuam sua participação na criação do seguro-desemprego e no lançamento dos medicamentos genéricos no país.

Como o que Dilma tem a apresentar é um pouco mais, um pouco menos desta sua curta experiência técnico-gerencial, são reais as dúvidas sobre o que acontecerá se ela, porventura, vier a se sentar na cadeira mais importante do país. Mas, desde ontem, esta questão desvaneceu. Batendo no peito, Lula avisou que quem continuará no comando será ele. Em outras palavras, admitiu que “sua presidenta” será apenas uma laranja. Santo suco azedo!

Ontem no Nordeste, Lula revelou que, uma vez fora da presidência, irá andar pelo país como uma espécie de bedel. Se, nesses seus passeios, topar com algo que não lhe agrade, irá puxar a orelha da presidente do Brasil. “Se tiver alguma coisa errada, vou pegar o telefone e ligar para a presidente e dizer: ‘Olha, tem uma coisa aqui errada. Pode fazer, minha filha, que eu não consegui fazer’. Essa é a contribuição que um político tem a dar para o Brasil”, disse ontem, em passagem por Salgueiro, no interior de Pernambuco.

Como parece não estar nem aí para suas contradições, o presidente jogou no lixo suas convicções anteriores e deixou claro que terá papel ativo num eventual governo de Dilma. Há menos de um mês, Lula afirmara, textualmente: “Me contentarei em ser um bom ex-presidente, sem dar palpite na vida de quem está governando”. Fica a dúvida do que vale: a primeira frase? A segunda? Uma terceira que ainda virá?

Uma coisa é certa: Dilma será uma marionete nas mãos de Lula e seus companheiros. Um próximo governo petista será uma tradicional república de bananas na qual a chefe de governo prestará obediência e homenagens ao velho caudilho. Quer o povo esta tutela sem fim, este cabresto modernizado, esse coronelismo redivivo de antanho?

Mas Lula não estará sozinho na tarefa de dizer à presidente do Brasil o que ela deve fazer. Na hipótese de chegar ao Palácio do Planalto, Dilma terá muitos conselheiros a orientá-la. Do Maranhão, contará com a ajuda de José Sarney e seu clã, ligados a um período de hiperinflação, a fisiologismo, atos secretos e lavagem de dinheiro.

Em Alagoas, poderá sentir-se confortabilíssima na companhia de Fernando Collor, único presidente apeado do poder sob acusação de corrupção – algo, aliás, que mostrou-se fichinha perto do que viria a fazer o PT anos depois, como o próprio admitiu: “Lula melhorou o que eu fiz”. Sábio Collor.

O clube dos fichas sujas reunidos em torno de Dilma não acaba aí. Junta também Jader Barbalho, que renunciou ao cargo de senador na esteira de um escândalo de desvio de recursos públicos; Newton Cardoso e sua gorda riqueza; o candango Gim Argello, processado por grilagem de terras, mas que poderá conduzir a neófita na turbulenta rede de intrigas da capital federal.

Não lhe faltarão, claro, os parlamentares envolvidos no mensalão. À revelia da sociedade, os petistas já trataram de reabilitá-los, a começar pelo ex-deputado cassado José Dirceu – com quem Dilma divide tarefas de campanha e, fraternalmente, até o cachorro labrador. Nessa verdadeira abertura de sarcófagos, não será esquecido nem mesmo Severino Cavalcanti e seu mensalinho. Será um conselho administrativo e tanto, comandado por quem sempre se sentiu mais confortável palpitando do que fazendo: o próprio Lula.