O governo Dilma Rousseff desistiu de ter uma inflação comportada no país neste ano. A meta para o custo de vida definida para 2011 foi oficialmente sepultada ontem pelo Banco Central, sem nenhuma honraria. Também estão moribundos o crescimento do PIB e, pior de tudo, a estabilidade da moeda. É um estrago e tanto para quem apenas acaba de completar três meses de gestão.
No “Relatório de Inflação” publicado ontem, o BC indicou que a inflação deste ano deverá ficar em 5,6%, bem distante, portanto, da meta de 4,5% definida pelo Conselho Monetário Nacional. Em contrapartida, as projeções oficiais para a expansão da economia recuaram de 4,5% para 4%. Em suma, o que Dilma nos oferece até agora é isso: mais inflação com menos crescimento. Uma mistura indigesta.
A inflação no Brasil já vai muito alta: no acumulado em 12 meses, bate 6%. Numa lista com 14 países, “o Brasil aparece com a segunda maior taxa de inflação acumulada até fevereiro, atrás apenas da Índia”, informa a Folha de S.Paulo. Além disso, as autoridades monetárias brasileiras têm sido mais tolerantes quanto ao comportamento dos preços: a meta de inflação adotada no país é uma das mais altas entre as nações que seguem igual regime no mundo.
O risco agora é passarmos a conviver naturalmente com uma inflação tão elevada – e que em alguns setores já chega a dois dígitos, como é o caso de serviços, aluguéis, energia e comunicações.
Com a atitude agora oficializada, o BC de Dilma chancela altas generalizadas de preço num patamar acima dos 5,8% agora aceitos como naturais para a inflação brasileira deste ano. Ou seja, o que era meta vai acabar virando piso. “O BC pode criar um problema de enrijecimento da própria inflação. O quadro é potencialmente perigoso”, avalia O Globo hoje em editorial.
Os efeitos deletérios vêm em cadeia, uma vez que remanesce na economia brasileira um pernicioso mecanismo de indexação, herança dos tempos pré-Plano Real. O próprio BC admite tais riscos numa das 144 páginas do “Relatório”: “Existem mecanismos regulares e quase automáticos de reajustes, de jure e/ou de facto, que contribuem para prolongar, no tempo, pressões inflacionárias observadas no passado. (...) Os riscos associados aos mecanismos de indexação tornam-se particularmente importantes em 2011”.
Gostemos ou não, o primeiro ambiente onde decisões de política monetária reverberam é o mercado financeiro. E ele está torcendo o nariz tanto para o que o BC quanto para o que a presidente da República têm dito em relação à inflação.
Ontem, uma vez conhecido o teor do “Relatório”, os contratos de juros mais longos negociados na BM&FBovespa tiveram alta, “sinalizando que os agentes esperam uma piora do cenário futuro, seja com uma aceleração da inflação, seja pela necessidade de novas elevações da taxa básica”, informou o Valor Econômico.
Em outra reportagem, o jornal conclui que as expectativas quanto ao comportamento da inflação e dos juros vêm se deteriorando desde setembro de 2010, pondo “em xeque” a capacidade de o BC colocar a inflação no eixo: “Apesar do discurso, aperto monetário de um ponto percentual e inúmeras medidas, os juros futuros de longo prazo insistem em subir, as expectativas de inflação tanto na pesquisa Focus quanto a implícita nos preços dos títulos públicos seguem em alta e o dólar só cai”.
A data que o Valor identifica como o ponto inicial em que as expectativas começaram a azedar coincide com o ápice do período eleitoral do ano passado. Foi justamente quando ficou evidenciado que o governo do PT manobrava pesadamente os gastos públicos para Lula eleger sua sucessora. Desde então, os sinais de recrudescimento da inflação se tornaram cada vez mais perceptíveis, mas o governo pouco agiu.
É unânime a avaliação de analistas econômicos de que o BC – ou seja, o governo de Dilma Rousseff – está assumindo “riscos demais” na lida com a inflação. A autoridade monetária decidiu apostar em medidas de política monetária que ninguém sabe ao certo no que vão dar, e justamente numa hora em que o custo de vida descontrola-se. O momento não parece ser o mais adequado para experimentos de laboratório. A tolerância pode acabar se mostrando excessiva.
quinta-feira, 31 de março de 2011
quarta-feira, 30 de março de 2011
Batalha inglória contra os juros
Os juros altos continuam a gerar efeitos deletérios sobre a economia brasileira. Muitas das chamadas medidas “macroprudenciais” que o Banco Central vem adotando decorrem da necessidade de enfrentar os desequilíbrios gerados pela política monetária sobre o ambiente econômico. Esta é uma cruzada que, por mais que tenha tentado, o ex-presidente José Alencar não conseguiu vencer.
Ontem foi anunciado aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Serão cobrados 6% sobre captações externas que tenham prazo de até 365 dias. Para frear o crédito, o governo tenta impor uma trava a operações muitas vezes especulativas alimentadas à base dos juros campeões mundiais pagos pelo Brasil.
O que vinha acontecendo é que instituições financeiras daqui buscavam dinheiro barato emprestado no exterior e o repassavam a tomadores no Brasil. Pagavam lá foram algo próximo a zero e cobravam aqui dentro qualquer coisa acima da taxa básica de 11,75% ao ano. Descontados outros custos associados, só com isso ganhavam em torno de 8,75%. Negócio da China.
O Brasil pratica uma taxa real de juros de cerca de 6% anuais. A média mundial, consideradas as 40 principais economias, é de 0,9% negativo, segundo ranking elaborado pela Cruzeiro do Sul Corretora. Toda uma cadeia de impactos negativos surge daí – e não é preciso ser empresário nem ex-vice-presidente para enxergá-la.
O dinheiro farto e barato captado no exterior vem colaborando para inundar o mercado brasileiro de crédito, no qual o juro é alto e perdulário. Segundo dados divulgados ontem pelo BC, o volume de empréstimos cresceu 21% nos últimos 12 meses terminados em fevereiro e já representa 46,5% do PIB. O governo tentou, mas não conseguiu frear o galope.
Por sua vez, o crédito abundante cevado a juro alto alimenta a chamada “inflação de demanda” que a presidente da República teima em não ver. Se sobra dinheiro e se as oportunidades de emprego parecem ilimitadas no país, as pessoas tendem a consumir como nunca. Os preços reagem naturalmente, ou seja, sobem. Só Dilma Rousseff não admite esta lógica tão cartesiana.
Para a presidente, o que há é apenas um movimento global, influenciado por uma alta generalizada dos preços de commodities em todo o mundo. Sua visão das coisas, compartilhada e influenciada pelo ministro da Fazenda, não tem ajudado no combate à inflação. Pelo contrário.
Desde que Dilma explicitou esta profissão de fé, em entrevista publicada pelo Valor Econômico no último dia 17, as previsões do mercado sobre o comportamento da inflação só pioraram. Se na semana da entrevista prognosticava-se um IPCA de 5,82% para este ano, agora já se antevê a taxa atingindo 6%, segundo o boletim Focus do BC. Até as estimativas para o comportamento dos preços em 2012 – durante muito tempo estáveis – subiram.
Inflação em alta bate, inexoravelmente, no bolso dos cidadãos. Aliás, já está batendo. Entre outubro e fevereiro, o rendimento real médio dos trabalhadores caiu 1,5%, a maior perda em dois anos, segundo a Folha de S.Paulo. São R$ 23,58 a menos disponíveis na carteira.
Por si só, o crédito abundante também é fonte suficiente de preocupação. As famílias brasileiras já comprometem 24% da sua renda com o pagamento de dívidas. Trata-se de percentual tão alto quanto perigoso. Nos EUA, tidos como um país em que a fome dos cidadãos por consumo é desmesurada, a média é de 18%.
José Alencar faleceu ontem coberto de justas homenagens. Entre seus muitos atributos destacados nos obituários publicados nos jornais de hoje está a coerência de opiniões, em que se destacava a crítica à política de juros altos praticada pelo governo do qual fez parte. A maior homenagem que poderia agora lhe caber é os que o sucederam no Palácio do Planalto atentarem para a necessidade de mudar o andamento deste jogo.
Ontem foi anunciado aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Serão cobrados 6% sobre captações externas que tenham prazo de até 365 dias. Para frear o crédito, o governo tenta impor uma trava a operações muitas vezes especulativas alimentadas à base dos juros campeões mundiais pagos pelo Brasil.
O que vinha acontecendo é que instituições financeiras daqui buscavam dinheiro barato emprestado no exterior e o repassavam a tomadores no Brasil. Pagavam lá foram algo próximo a zero e cobravam aqui dentro qualquer coisa acima da taxa básica de 11,75% ao ano. Descontados outros custos associados, só com isso ganhavam em torno de 8,75%. Negócio da China.
O Brasil pratica uma taxa real de juros de cerca de 6% anuais. A média mundial, consideradas as 40 principais economias, é de 0,9% negativo, segundo ranking elaborado pela Cruzeiro do Sul Corretora. Toda uma cadeia de impactos negativos surge daí – e não é preciso ser empresário nem ex-vice-presidente para enxergá-la.
O dinheiro farto e barato captado no exterior vem colaborando para inundar o mercado brasileiro de crédito, no qual o juro é alto e perdulário. Segundo dados divulgados ontem pelo BC, o volume de empréstimos cresceu 21% nos últimos 12 meses terminados em fevereiro e já representa 46,5% do PIB. O governo tentou, mas não conseguiu frear o galope.
Por sua vez, o crédito abundante cevado a juro alto alimenta a chamada “inflação de demanda” que a presidente da República teima em não ver. Se sobra dinheiro e se as oportunidades de emprego parecem ilimitadas no país, as pessoas tendem a consumir como nunca. Os preços reagem naturalmente, ou seja, sobem. Só Dilma Rousseff não admite esta lógica tão cartesiana.
Para a presidente, o que há é apenas um movimento global, influenciado por uma alta generalizada dos preços de commodities em todo o mundo. Sua visão das coisas, compartilhada e influenciada pelo ministro da Fazenda, não tem ajudado no combate à inflação. Pelo contrário.
Desde que Dilma explicitou esta profissão de fé, em entrevista publicada pelo Valor Econômico no último dia 17, as previsões do mercado sobre o comportamento da inflação só pioraram. Se na semana da entrevista prognosticava-se um IPCA de 5,82% para este ano, agora já se antevê a taxa atingindo 6%, segundo o boletim Focus do BC. Até as estimativas para o comportamento dos preços em 2012 – durante muito tempo estáveis – subiram.
Inflação em alta bate, inexoravelmente, no bolso dos cidadãos. Aliás, já está batendo. Entre outubro e fevereiro, o rendimento real médio dos trabalhadores caiu 1,5%, a maior perda em dois anos, segundo a Folha de S.Paulo. São R$ 23,58 a menos disponíveis na carteira.
Por si só, o crédito abundante também é fonte suficiente de preocupação. As famílias brasileiras já comprometem 24% da sua renda com o pagamento de dívidas. Trata-se de percentual tão alto quanto perigoso. Nos EUA, tidos como um país em que a fome dos cidadãos por consumo é desmesurada, a média é de 18%.
José Alencar faleceu ontem coberto de justas homenagens. Entre seus muitos atributos destacados nos obituários publicados nos jornais de hoje está a coerência de opiniões, em que se destacava a crítica à política de juros altos praticada pelo governo do qual fez parte. A maior homenagem que poderia agora lhe caber é os que o sucederam no Palácio do Planalto atentarem para a necessidade de mudar o andamento deste jogo.
terça-feira, 29 de março de 2011
Placar da Copa: África 1 x 0 Brasil
Não é novidade para qualquer mortal que passe próximo a algum estádio brasileiro em reforma que o ritmo das obras com vistas à Copa do Mundo de 2014 é lento, lentíssimo. A constatação ganhou ontem ares oficiais com a declaração do presidente da Fifa, Joseph Blatter. Em suma, ele disse que o Brasil está se saindo pior que a África do Sul, que sediou o último Mundial.
“Gostaria de dizer para meus colegas brasileiros que a Copa de 2014 é amanhã. Os brasileiros acham que ela vai ser depois de amanhã”, alertou Blatter. Há alguns meses, a própria Fifa já havia declarado que “falta tudo” para a segunda Copa brasileira virar realidade. Aproxima-se um vexame – temido, aliás, pelo próprio rei Pelé.
Prevê a Fifa que, da forma como caminham as obras, as duas maiores cidades brasileiras, São Paulo e Rio, sequer terão seus estádios prontos para a Copa das Confederações, festividade que precede o Mundial e será realizada em 2013. Algo assim nunca aconteceu antes num país que tenha sediado uma Copa do Mundo de Futebol. Qual a razão para a incúria brasileira?
Entre as 12 cidades-sede, há problemas evidentes por todo lado, e não apenas em São Paulo e Natal, conforme aponta o Ministério dos Esportes. Em São Paulo, o Itaquerão, a imensa arena do Corinthians com capacidade para 65 mil pessoas, ainda não saiu do chão. Mas já deverá custar uns 20% mais do que o inicialmente previsto, beirando R$ 700 milhões, conforme admitiu ontem o presidente do clube. Boa parte do valor virá de renúncias fiscais da prefeitura da cidade.
Em Natal, a licitação do empreendimento foi concluída apenas no último dia 11, vencida pela única concorrente habilitada: a construtora OAS, que irá realizar as obras e gerenciar o Estádio das Dunas. As obras do novo estado da Fonte Nova, em Salvador, já custam quase o triplo do inicialmente orçado e há problemas claros também em Cuiabá, Curitiba e Porto Alegre.
Em Cuiabá, onde se constrói a Arena Pantanal, a obra de fundação deveria terminar em dezembro, mas foi retardada devido às chuvas. O monumental estádio terá capacidade para 42 mil pessoas, embora não se tenha claro, por ora, para que servirá depois de passada a Copa: pelo campeonato mato-grossense, as médias de público raramente superam 2 mil torcedores.
Em Curitiba, as obras na Arena da Baixada, do Atlético Paranaense, começam apenas em junho. Outro motivo de preocupação é a reforma do Beira Rio, para a qual a diretoria do Internacional anunciou que busca um parceiro, o que poderá atrasar o ritmo dos trabalhos.
Se nos estádios propriamente ditos o ritmo é exasperante, muito pior é a situação nos aeroportos – apontada pela CBF – e nas obras de mobilidade urbana associadas à Copa de 2014 – admitida pelo Ministério dos Esportes.
Em sua edição de sábado, O Estado de S.Paulo mostrou que, “a 33 meses e poucos dias do prazo final para a entrega das obras em aeroportos para a Copa do Mundo, só 2,4% dos investimentos bilionários programados saíram do papel”.
Das 24 obras planejadas pela Infraero nas 12 cidades-sede, orçadas em R$ 5,2 bilhões, somente quatro foram iniciadas. Neste ano, a Infraero deve investir R$ 577 milhões apenas. O valor terá que triplicar em cada um dos próximos três anos para que a programação da estatal até 2014 seja cumprida.
Sobre as obras de melhorias urbanas, então, nem é bom falar. Em fevereiro, o TCU detectou um bocado de irregularidades e esquisitices nelas. Um exemplo é o custo do VLT de Brasília, que saltou de R$ 364 milhões para R$ 1,55 bilhão.
Já o monotrilho de Manaus está sendo licitado sem projeto básico completo, “o que pode gerar vários riscos à administração pública em face de inevitáveis aditivos ilegais que serão futuramente firmados tendo como origem os vícios apontados”, apontam o Ministério Público Federal e do Amazonas, contrários ao prosseguimento da concorrência.
Se Joseph Blatter aceitar o convite que o ministro Orlando Silva pretende fazer-lhe para visitar as obras no país, é possível que a Fifa redobre sua descrença quanto ao sucesso brasileiro. Os alertas não são novos, mas a única coisa que o governo petista conseguiu fazer até agora foi tentar remendar a legislação e enfraquecer instâncias de fiscalização, como o TCU, para afastar incômodos entraves às obras. Vê-se que a política do puxadinho não está funcionando.
“Gostaria de dizer para meus colegas brasileiros que a Copa de 2014 é amanhã. Os brasileiros acham que ela vai ser depois de amanhã”, alertou Blatter. Há alguns meses, a própria Fifa já havia declarado que “falta tudo” para a segunda Copa brasileira virar realidade. Aproxima-se um vexame – temido, aliás, pelo próprio rei Pelé.
Prevê a Fifa que, da forma como caminham as obras, as duas maiores cidades brasileiras, São Paulo e Rio, sequer terão seus estádios prontos para a Copa das Confederações, festividade que precede o Mundial e será realizada em 2013. Algo assim nunca aconteceu antes num país que tenha sediado uma Copa do Mundo de Futebol. Qual a razão para a incúria brasileira?
Entre as 12 cidades-sede, há problemas evidentes por todo lado, e não apenas em São Paulo e Natal, conforme aponta o Ministério dos Esportes. Em São Paulo, o Itaquerão, a imensa arena do Corinthians com capacidade para 65 mil pessoas, ainda não saiu do chão. Mas já deverá custar uns 20% mais do que o inicialmente previsto, beirando R$ 700 milhões, conforme admitiu ontem o presidente do clube. Boa parte do valor virá de renúncias fiscais da prefeitura da cidade.
Em Natal, a licitação do empreendimento foi concluída apenas no último dia 11, vencida pela única concorrente habilitada: a construtora OAS, que irá realizar as obras e gerenciar o Estádio das Dunas. As obras do novo estado da Fonte Nova, em Salvador, já custam quase o triplo do inicialmente orçado e há problemas claros também em Cuiabá, Curitiba e Porto Alegre.
Em Cuiabá, onde se constrói a Arena Pantanal, a obra de fundação deveria terminar em dezembro, mas foi retardada devido às chuvas. O monumental estádio terá capacidade para 42 mil pessoas, embora não se tenha claro, por ora, para que servirá depois de passada a Copa: pelo campeonato mato-grossense, as médias de público raramente superam 2 mil torcedores.
Em Curitiba, as obras na Arena da Baixada, do Atlético Paranaense, começam apenas em junho. Outro motivo de preocupação é a reforma do Beira Rio, para a qual a diretoria do Internacional anunciou que busca um parceiro, o que poderá atrasar o ritmo dos trabalhos.
Se nos estádios propriamente ditos o ritmo é exasperante, muito pior é a situação nos aeroportos – apontada pela CBF – e nas obras de mobilidade urbana associadas à Copa de 2014 – admitida pelo Ministério dos Esportes.
Em sua edição de sábado, O Estado de S.Paulo mostrou que, “a 33 meses e poucos dias do prazo final para a entrega das obras em aeroportos para a Copa do Mundo, só 2,4% dos investimentos bilionários programados saíram do papel”.
Das 24 obras planejadas pela Infraero nas 12 cidades-sede, orçadas em R$ 5,2 bilhões, somente quatro foram iniciadas. Neste ano, a Infraero deve investir R$ 577 milhões apenas. O valor terá que triplicar em cada um dos próximos três anos para que a programação da estatal até 2014 seja cumprida.
Sobre as obras de melhorias urbanas, então, nem é bom falar. Em fevereiro, o TCU detectou um bocado de irregularidades e esquisitices nelas. Um exemplo é o custo do VLT de Brasília, que saltou de R$ 364 milhões para R$ 1,55 bilhão.
Já o monotrilho de Manaus está sendo licitado sem projeto básico completo, “o que pode gerar vários riscos à administração pública em face de inevitáveis aditivos ilegais que serão futuramente firmados tendo como origem os vícios apontados”, apontam o Ministério Público Federal e do Amazonas, contrários ao prosseguimento da concorrência.
Se Joseph Blatter aceitar o convite que o ministro Orlando Silva pretende fazer-lhe para visitar as obras no país, é possível que a Fifa redobre sua descrença quanto ao sucesso brasileiro. Os alertas não são novos, mas a única coisa que o governo petista conseguiu fazer até agora foi tentar remendar a legislação e enfraquecer instâncias de fiscalização, como o TCU, para afastar incômodos entraves às obras. Vê-se que a política do puxadinho não está funcionando.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Ainda em más companhias
Após oito anos de manifestações de amizade e alianças firmadas com alguns dos principais facínoras do mundo, o Brasil surpreendeu ao votar na ONU a favor de investigar o Irã por suspeita de violação de direitos humanos. Ainda não se trata de uma guinada completa na nossa política externa, mas pode ser um bom começo. A lista de más companhias a serem evitadas pela nossa diplomacia é caudalosa.
A votação no Conselho de Direitos Humanos da ONU ocorreu na última quinta-feira. Foi a primeira vez que o Brasil deliberou contra o Irã desde 2003. Desde então, foram sete abstenções em votações sobre o país de Mahmoud Ahmadinejad no órgão da Assembleia Geral da ONU – uma delas em novembro do ano passado, quando foram propostas punições ao Irã por apedrejamentos e enforcamentos em praça pública e o Brasil calou-se.
O país de Ahmadinejad – além de condenar à morte por apedrejamento uma mãe de família como Sakineh Ashtiani, por suposto adultério – persegue oposicionistas, jornalistas, dissidentes, homossexuais e qualquer um que se arrisque a discordar de seus líderes totalitários. Para o PT, até pouco tempo atrás, o que ocorria por lá era como briga entre “flamenguistas e vascaínos”, na memorável definição de Lula.
De acordo com o voto brasileiro na ONU na semana passada, “o Brasil acredita que todos os países, sem exceção, têm desafios a serem superados na área de direitos humanos e espera que os principais copatrocinadores dessa iniciativa [o envio de um relator especial ao Irã] apliquem os mesmos padrões a outros possíveis casos de não cooperação com o sistema de direitos humanos das Nações Unidas”. Espera-se que o Brasil pratique o que prediz.
É prematuro dizer que a atitude de agora contra o Irã seja um rompimento com a diplomacia posta em prática pelo governo anterior. “Por ora o que se vê é uma mudança nas ênfases e nos procedimentos tendo em vista a retomada de valores essenciais em regimes de liberdade. A volta, digamos assim, à normalidade”, escreveu Dora Kramer. Mas a chancelaria brasileira tem no voto proferido na ONU na semana passada uma boa carta de intenções para seguir adiante no bom caminho. Terá trabalho pela frente.
A lista de más amizades costuradas ao longo do governo de Lula é de fazer inveja à mítica Legião do Mal – os inimigos criados pela DC Comics para rivalizar com os super-heróis da Liga da Justiça. Para começar, basta lembrar que o líbio Muamar Kadafi foi chamado de “amigo e irmão” pelo presidente Lula, para quem tudo o que era atribuído ao ditador ora em desgraça não passava de “invenção da mídia”.
Mas resolver a questão líbia é só o mais óbvio. Dilma também precisa, por exemplo, cortar as ligações de amizade do Brasil com o presidente da Guiné Equatorial, Obiang Nguema Mbasogo, há 32 anos no poder. O presidente Lula visitou-o em julho do ano passado sem se importar com a alcunha dada ao país de Mbasogo: “Auschwitz da África”. Precisa dizer mais?
Outro ditador oficialmente nosso companheiro, o sudanês Omar Al-Bashir, foi condenado pela Corte Penal Internacional por crimes de guerra pela morte de 300 mil pessoas. O Brasil nunca aceitou recriminá-lo nos foros globais. Mas, em 2006, conseguiu que o país africano abrisse as portas para negócios da Petrobras por lá. Vale lembrar o mantra de Celso Amorim: “Business is business”.
A nova diplomacia brasileira ainda deve desculpas, também, aos dissidentes políticos de Cuba, comparados por Lula a traficantes do PCC. Já com relação à Venezuela, hoje atolada num total desabastecimento que obriga a população a economizar de água a energia, as artes de Hugo Chávez finalmente poderão receber um “chega” ou deixarem de ser consideradas “parte da democracia”. O Brasil mantém, ainda, ótimas relações com países não democráticos como Uzbequistão, Gabão, Camarões, entre outros, numa lista que, com o PT, só fez crescer.
O basta ao Irã foi apenas a primeira e tímida medida para encerrar uma grande lambança na nossa chancelaria que ainda está para ser redimida. Se realmente quer retomar o caminho do respeito e do compromisso com os direitos humanos – tradição secular do Itamaraty só abandonada pela diplomacia companheira de Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia – o Brasil ainda precisa fazer muito. Se assim optar por agir, merecerá justificados aplausos – aqui e lá fora.
A votação no Conselho de Direitos Humanos da ONU ocorreu na última quinta-feira. Foi a primeira vez que o Brasil deliberou contra o Irã desde 2003. Desde então, foram sete abstenções em votações sobre o país de Mahmoud Ahmadinejad no órgão da Assembleia Geral da ONU – uma delas em novembro do ano passado, quando foram propostas punições ao Irã por apedrejamentos e enforcamentos em praça pública e o Brasil calou-se.
O país de Ahmadinejad – além de condenar à morte por apedrejamento uma mãe de família como Sakineh Ashtiani, por suposto adultério – persegue oposicionistas, jornalistas, dissidentes, homossexuais e qualquer um que se arrisque a discordar de seus líderes totalitários. Para o PT, até pouco tempo atrás, o que ocorria por lá era como briga entre “flamenguistas e vascaínos”, na memorável definição de Lula.
De acordo com o voto brasileiro na ONU na semana passada, “o Brasil acredita que todos os países, sem exceção, têm desafios a serem superados na área de direitos humanos e espera que os principais copatrocinadores dessa iniciativa [o envio de um relator especial ao Irã] apliquem os mesmos padrões a outros possíveis casos de não cooperação com o sistema de direitos humanos das Nações Unidas”. Espera-se que o Brasil pratique o que prediz.
É prematuro dizer que a atitude de agora contra o Irã seja um rompimento com a diplomacia posta em prática pelo governo anterior. “Por ora o que se vê é uma mudança nas ênfases e nos procedimentos tendo em vista a retomada de valores essenciais em regimes de liberdade. A volta, digamos assim, à normalidade”, escreveu Dora Kramer. Mas a chancelaria brasileira tem no voto proferido na ONU na semana passada uma boa carta de intenções para seguir adiante no bom caminho. Terá trabalho pela frente.
A lista de más amizades costuradas ao longo do governo de Lula é de fazer inveja à mítica Legião do Mal – os inimigos criados pela DC Comics para rivalizar com os super-heróis da Liga da Justiça. Para começar, basta lembrar que o líbio Muamar Kadafi foi chamado de “amigo e irmão” pelo presidente Lula, para quem tudo o que era atribuído ao ditador ora em desgraça não passava de “invenção da mídia”.
Mas resolver a questão líbia é só o mais óbvio. Dilma também precisa, por exemplo, cortar as ligações de amizade do Brasil com o presidente da Guiné Equatorial, Obiang Nguema Mbasogo, há 32 anos no poder. O presidente Lula visitou-o em julho do ano passado sem se importar com a alcunha dada ao país de Mbasogo: “Auschwitz da África”. Precisa dizer mais?
Outro ditador oficialmente nosso companheiro, o sudanês Omar Al-Bashir, foi condenado pela Corte Penal Internacional por crimes de guerra pela morte de 300 mil pessoas. O Brasil nunca aceitou recriminá-lo nos foros globais. Mas, em 2006, conseguiu que o país africano abrisse as portas para negócios da Petrobras por lá. Vale lembrar o mantra de Celso Amorim: “Business is business”.
A nova diplomacia brasileira ainda deve desculpas, também, aos dissidentes políticos de Cuba, comparados por Lula a traficantes do PCC. Já com relação à Venezuela, hoje atolada num total desabastecimento que obriga a população a economizar de água a energia, as artes de Hugo Chávez finalmente poderão receber um “chega” ou deixarem de ser consideradas “parte da democracia”. O Brasil mantém, ainda, ótimas relações com países não democráticos como Uzbequistão, Gabão, Camarões, entre outros, numa lista que, com o PT, só fez crescer.
O basta ao Irã foi apenas a primeira e tímida medida para encerrar uma grande lambança na nossa chancelaria que ainda está para ser redimida. Se realmente quer retomar o caminho do respeito e do compromisso com os direitos humanos – tradição secular do Itamaraty só abandonada pela diplomacia companheira de Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia – o Brasil ainda precisa fazer muito. Se assim optar por agir, merecerá justificados aplausos – aqui e lá fora.
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