terça-feira, 23 de setembro de 2014

De errata em errata

Errar é humano. Mas equívocos em pesquisas que servem para balizar análises e estudos e para definir políticas públicas são especialmente indesejáveis. Nos anos recentes, o IBGE vem se tornando protagonista de tristes episódios, saindo das páginas nobres do noticiário para as de escândalos.

Na sexta-feira, o instituto divulgou uma errata de dados sobre desigualdade, rendimento, analfabetismo e desemprego que compõem a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) publicada um dia antes. Alguns melhoraram, como o índice de Gini, outros, não, como a taxa de analfabetos.

Foi o suficiente para ressuscitar suspeitas sobre ingerências indevidas no órgão por parte do governo federal. O respeitável corpo técnico do IBGE vem alertando para a piora das condições de trabalho e o sucateamento da instituição, que vem perdendo mão de obra e recursos orçamentários.

O número de servidores do IBGE caiu 14% desde o início da gestão Dilma: são mil pessoas a menos num quadro que agora soma 6.083 funcionários. Metade tem mais de 31 anos de casa, ou seja, está perto de se aposentar. O contingente de temporários mais que dobrou, para os atuais 4,4 mil, segundo o Valor Econômico.

O facão também caiu sobre a verba prevista no Orçamento da União para o instituto em 2015. O dinheiro para pesquisa foi reduzido a menos de um terço: passou dos R$ 766 milhões inicialmente previstos para R$ 204 milhões. É menos da metade da dotação de 2014.

As consequências se medem em termos de produção do órgão. Duas pesquisas importantes previstas para 2015 foram suspensas: a Contagem da População, uma espécie de prévia do Censo, e o Censo Agropecuário. A Pesquisa de Orçamentos Familiares foi adiada de 2014 para 2015.

Esta, porém, não é a primeira crise braba que o IBGE enfrenta sob a gestão Dilma. Em abril, o governo anunciou a suspensão da realização da Pnad Contínua, que trouxera nova (e mais alta) taxa de desemprego no país. O rebu levou duas diretoras a pedir demissão e o governo acabou voltando atrás.

Os funcionários do IBGE ficaram 77 dias em greve. Com isso, durante três meses (maio a julho) a taxa média de desemprego no país não pôde ser conhecida. Os relatos são de que trabalhar no instituto tornou-se algo “desumano”. As condições pioraram e a qualidade das informações por vezes vê-se comprometida.

Ontem, a presidente Dilma Rousseff classificou de “banal” o erro observado na Pnad. É atitude típica de quem desdenha da importância de órgãos quase seculares como o IBGE. A má gestão petista arranha a reputação, a credibilidade e a autonomia de instituições que são patrimônio do povo brasileiro.

sábado, 20 de setembro de 2014

Pnad desigual

Os sinais de que o atual modelo de desenvolvimento está esgotado vêm sendo percebidos já há algum tempo. Mas o governo insiste em negá-los, como se pudesse prescindir da realidade. O retrato revelado pela nova Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) não permite ignorar os problemas que se avolumam.

Dois são os aspectos mais preocupantes trazidos pela pesquisa feita pelo IBGE. O primeiro, e mais significativo, é que a desigualdade de renda parou de cair nos anos do governo da atual presidente da República. O fracasso da gestão de Dilma Rousseff interrompe queda que vinha ocorrendo há 20 anos.

O índice de Gini, que mede a concentração de renda, passou de 0,497 em 2012 para 0,499 em 2013. Quanto mais próximo de 1, pior a distribuição de renda entre os habitantes. No ano passado, os 10% mais ricos viram seus ganhos crescer o dobro dos 10% mais pobres, mostrou o Valor Econômico.

Mais 324 mil brasileiros passaram à situação de extrema pobreza de 2012 para 2013, segundo O Estado de S. Paulo. Ainda há 11,7 milhões de habitantes, que representam 5,9% da população, nesta condição no país.

O segundo aspecto negativo de grande relevância é o aumento da taxa de desemprego, que acontece também pela primeira vez desde 2009. O indicador subiu de 6,1% para 6,5%. O número de vagas hoje geradas no país – cerca de 500 mil ao ano – é insuficiente para dar conta dos jovens que ingressam na população economicamente ativa.

Há, claro, dados positivos na Pnad divulgada ontem, como no analfabetismo, que voltou a cair, depois de ter estagnado entre 2011 e 2012. Ainda assim, remanescem 13,3 milhões de brasileiros que não sabem ler e escrever, mais da metade deles no Nordeste.

Há, também, a redução do trabalho infantil, embora quase meio milhão de crianças com idade até 13 anos continuem trabalhando, o que é inaceitável. 

Além disso, serviços fundamentais para a melhoria da qualidade de vida, como os de saneamento, continuam avançando ainda muito lentamente.

Políticas exitosas como a distribuição de renda via programas como o Bolsa Família e a recuperação do poder de compra do salário mínimo vão encontrando seus limites. Ao mesmo tempo, iniciativas de efeitos mais duradouros, como a expansão da educação, ainda não avançam no ritmo necessário.

Parece evidente que a estagnação que se abateu sobre o país nos anos de gestão de Dilma Rousseff já cobra seu preço em termos de aumento da desigualdade, piora no mercado de trabalho e perda de ritmo de ascensão social. 

O que a candidata-presidente, com sua tática do medo, diz que pode acontecer no Brasil se seus adversários vencerem as eleições de outubro já está ocorrendo no governo dela. 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A onda da virada

A mais recente pesquisa de opinião do Ibope mostra que o momento efetivo de decisão dos eleitores ainda está apenas começando. Quase metade dos brasileiros ainda não está ligada na votação que acontece dentro de pouco mais de duas semanas. Mas a onda da mudança já começou a apontar o rumo certo: o de Aécio Neves.

Na média, o candidato tucano subiu quatro pontos e recuperou o patamar de 19% das intenções de voto. A diferença em relação a Marina Silva, que era de 18 pontos até o início do mês, caiu agora para apenas 11 pontos.

Na pesquisa espontânea, o tucano aparece apenas nove pontos atrás de Marina no primeiro turno: 24% a 15%. Segundo analistas, estes são os votos já realmente consolidados de cada candidato. Ou seja, o patamar firme da socialista é bem mais baixo do que levam a crer os números mais robustos exibidos pelas pesquisas estimuladas.

Ao passar para a votação final, Aécio tem grandes chances de derrotar a candidata do PT. Na simulação de segundo turno, a diferença a favor de Dilma Rousseff chegava a 15 pontos na rodada anterior do Ibope, feita há uma semana, e agora caiu à metade.

Em várias faixas etárias, Aécio teve crescimentos bem mais expressivos que na média. Entre jovens de 16 a 24 anos, saltou de 14% para 20% em uma semana; entre os que têm 25 e 34 anos, subiu de 15% para 20% e, na faixa acima de 55 anos, saiu de 12% para 18%, já bem próximo dos 24% de Marina Silva.

Entre as regiões, o crescimento de Aécio foi especialmente forte no Sul, onde passou de 17% para 23%, empatando com Marina. Em todas as demais, o tucano também subiu. Firme também foi sua alta em municípios de interior (de 15% para 19%) e, especialmente, nas cidades com menos de 50 mil habitantes, onde Aécio cresceu de 13% para 21%, também em condição de empate com a socialista.

O candidato da mudança também avançou em todos os níveis de escolaridade, chegando a 26% entre os que têm ensino superior, à frente de Dilma. Em todas as faixas de renda também houve crescimento de Aécio: na acima de cinco salários mínimos, a diferença em relação a Marina Silva, que lidera no estrato, caiu de 15 para 6 pontos. Vale ressaltar que, em uma semana, Dilma perdeu dez pontos na faixa de renda até um salário mínimo.

Embora alguns queiram nos fazer crer que a eleição está definida, para a maior parte dos eleitores ela sequer começou: 47% dos entrevistados ouvidos pelo Ibope ainda se declaram com “pouco” ou “nenhum” interesse pela votação que acontece daqui a 17 dias.

Dizem que o tempo sempre mostra quem tem razão. A onda da virada que vai mudar o país e levá-lo de volta ao caminho da decência, da prosperidade e da valorização do esforço individual começou e vai, na hora certa da escolha, também somar as razões do coração.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O partido dos ricos

O governo do Partido dos Trabalhadores vive propagandeando que sua ação tem sido sempre voltada a beneficiar os mais pobres. Nas mistificações grosseiras veiculadas na propaganda eleitoral, seus adversários são retratados como defensores dos ricos e dos poderosos. A realidade, porém, é bastante distinta deste maniqueísmo barato.

Não é segredo para ninguém que, nos anos da administração do PT, os ricos ganharam dinheiro como jamais haviam conseguido na vida. Em especial, os bancos – que o marketing petista adora demonizar, mas os petistas no poder amam bajular – lucraram como nunca antes na história: só no governo Dilma, já são R$ 233 bilhões, segundo levantamento feito pelo Valor Econômico.

Não é pecado banco lucrar, muito menos empresários ser bem sucedido. O problema está na exploração eleitoreira que se faz do assunto. Na mesma pesquisa, o jornal mostra que, em termos reais, os bancos lucraram cerca de cinco vezes mais no governo Lula do que na gestão do PSDB, entre 1995 e 2002. Mas os ganhos não pararam por aí: nos anos Dilma, subiram mais 61%.

O governo que faz os banqueiros felizes da vida também diz que atacou como nenhum outro a desigualdade social no país. Será mesmo verdade esta afirmação mil vezes repetida? Se dependesse do vezo autoritário e obscurantista da gestão petista, talvez tivéssemos de nos valer apenas do discurso oficial e de outras medidas conhecidas para aferir a veracidade da afirmação.

Mas felizmente um grupo de pesquisadores do Ipea conseguiu trazer à luz estudo que mostra, com metodologia inédita no país, que entre 2006 e 2012 a desigualdade aumentou ao invés de diminuir no Brasil. O documento foi mantido engavetado pela instituição, mas suas conclusões foram trazidas à tona pelo site da revista da Veja e sua íntegra já circula na internet em páginas dedicadas ao debate democrático de pesquisas sociais.

E o que o estudo mostra, a partir de uma nova metodologia que usa dados do imposto de renda dos brasileiros? Em 2006, os 5% mais ricos do país detinham 40% da renda nacional e, em 2012, passaram a deter 44%. Também no topo do topo da pirâmide, houve maior concentração: o 1% mais endinheirado da população viu sua fatia aumentar de 22,5% para 25% no mesmo período.

O PT tem horror à ação detergente da luz do sol e professa sua fé na manipulação despudorada da realidade para tentar enganar incautos. Mas a verdade é que os 12 anos em que os petistas governaram o país – e que, tudo indica, caminham para seu fim – vão ficar marcados na história como aqueles em que um partido que se diz dos trabalhadores deixou os patrões felizes como nunca.