terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Indústria 0.0

A indústria foi uma das principais vítimas da recessão que assolou o país entre 2014 e 2016. O setor viu sua produção retroceder ao patamar de quase uma década atrás, perdeu relevância no PIB e, mais grave, está vendo o bonde da modernização tecnológica passar ao largo. Sem fábricas competitivas, a economia nacional namora seu passado colonial.

É mais que sabido que a indústria cumpre papel de dinamizar a atividade produtiva. Responde pelo grosso da inovação, emprega grandes contingentes de trabalhadores e costuma pagar os melhores salários. Quando definha, todos perdem. Foi o que aconteceu no Brasil desde 2008, a partir de quando o setor industrial nacional mergulhou.

Felizmente, a espiral descendente foi rompida em 2017. A indústria apresentou crescimento depois de três anos consecutivos de baixas, conforme divulgou o IBGE na semana passada. A alta foi de 2,5%, percentual bastante insuficiente, contudo, para compensar a queda de 18% acumulada desde 2008, ano de sua máxima histórica, de acordo com as Contas Nacionais.

Não foi por falta de iniciativas que a indústria brasileira perdeu musculatura. Pelo contrário. O excesso de intervenções e iniciativas governamentais levadas a cabo pelas gestões petistas colaborou para enterrar ainda mais o setor manufatureiro da nossa economia. A orientação dada, porém, foi oposta à que cobram os novos tempos.

As políticas promovidas pelas gestões Lula e Dilma primavam pela excessiva interferência do Estado na economia, pelo intervencionismo nas regras de mercado e pela escolha arbitrária dos beneficiários. Foi o tempo da chamada política dos “campeões nacionais”, quase todos convertidos em reluzentes derrotados.

A efetiva saída para a indústria brasileira está em abrir-se mais ao mundo. Mais competição tende a trazer maior inovação, ao mesmo tempo em que amplia mercados para os produtos locais – hoje muito dependentes do anteparo tarifário conferido pelo protecionismo que ainda marca as políticas de comércio exterior brasileiras.

Outro fator incontornável é a modernização. Conforme mostrou a edição de domingo d’O Estado de S. Paulo, 40% da produção industrial nacional padece de obsolescência tecnológica. É flertar com o abismo, numa época em que os chamados sistemas de big data, a produção orientada pela imensa massa de informação gerada por ferramentas digitais, tendem a se tornar cada vez mais preponderantes.

A recuperação da indústria nacional não depende apenas de políticas públicas melhor orientadas, o que inclui melhor calibragem da carga de tributos incidente. Cobra também postura menos cartorial dos próprios empresários e maior disposição para enfrentar a concorrência de peito aberto, e não nas barras da saia do Estado, como foi a tônica até agora.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

O tostão contra o bilhão

Está dura a vida de quem batalha pela aprovação de uma reforma da Previdência digna desse nome. Conta-se nos dedos os votos e o apoio que o governo – ou, para ser mais exato, uma fatia dele, circunscrita a meia dúzia de pessoas – tem conseguido manter. Para desgraça do Brasil, não parece ser suficiente para aprovar as mudanças.

Tudo conspira para que o problema fique para o próximo presidente, a ser eleito em outubro. Seria até sensato se as chances de algum candidato alinhado às reformas fossem robustas, mas não é esta a realidade medida até agora pelas pesquisas de intenção de voto. Ou seja, a reforma pode acabar ficando para as calendas.

O Congresso, a quem cabe assumir responsabilidades e votar matérias de olho no interesse público, prefere olhar para o próprio umbigo. Aprovar novas regras para concessão de aposentadorias e pensões está longe de ser agenda de apelo popular e muito menos eleitoral. Mas é iniciativa fundamental para o país – como atestam os R$ 182 bilhões do rombo previdenciário no ano passado. Isso parece importar pouco, contudo.

Para piorar, o governo acena com a mais nefasta das alternativas: abrandar o texto da reforma, mantendo os privilégios que prometia extirpar, com fito de alimentar uma derradeira tentativa de aprovação. Se assim for, melhor deixar como está.

Estão sobre o tecido verde as insustentáveis regras em vigor que hoje asseguram a funcionários que ingressaram no serviço público antes de 2003 aposentadorias integrais e os mesmos reajustes de quem está na ativa. Coisa de marajá que só existe no Brasil.

A reforma passa a exigir idade mínima – a mesma cobrada dos demais mortais – para que esta casta mantenha os benefícios da integralidade e da paridade. Mas essa gente acha que é sacrifício demais.

Não são, como é fácil enxergar, moinhos de vento os obstáculos que os defensores da reforma precisam vencer. São resistências bem concretas. Não raro, são bem conhecidas, como também poderosas e muito, muito bem pagas.

Como juízes e promotores que ontem, de terno, gravata, salto alto, tailleur e salários estratosféricos para o padrão nacional, protestaram em Brasília pela manutenção dos privilégios que a reforma lhes retira e, como ninguém é de ferro, por aumentos nos seus vencimentos e novos penduricalhos no contracheque.

Diante de tamanha resistência, Michel Temer indica ter lavado as mãos. Diz que o problema agora é convencer a população da necessidade da reforma. Se o presidente topasse dar nome aos bois, talvez afirmasse que a real dificuldade está em fazer aqueles que deveriam zelar pelo bem do país – governos, Congresso, Judiciário, lideranças em geral – exercer a sua responsabilidade. Mas este artigo está em falta no mercado.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Geração sem futuro

Está nas crianças e nos jovens a esperança de dias melhores. Mas a educação que hoje lhes é oferecida não colabora. O que é ensinado nas salas de aula não contribui para atrair os alunos e para motivá-los a continuar a aprendizagem, como forma de romper o círculo vicioso de desigualdade e ausência de horizontes.

O Censo Escolar divulgado ontem pelo Inep corrobora, mais uma vez, o triste diagnóstico. As escolas do Brasil continuam formando gerações sem futuro. Romper esta perversa dinâmica precisa estar no topo das prioridades nacionais.

O principal problema reside no ensino médio. É quando o jovem se desinteressa de vez pela escola e a abandona. É quando toma o atalho que vai desviá-lo definitivamente da chance de obter melhores oportunidades de ascensão social. É o desfecho de trajetórias que muitas vezes já começam tortas na infância.

Segundo a edição 2017 do Censo, 28% dos jovens que frequentam o ensino médio já passaram da idade de completar esta fase de aprendizagem. Significa dizer que repetiram o ano tantas vezes que acumularam defasagem difícil de ser transposta. A consequência imediata acaba sendo a desistência.

Há atualmente 7,9 milhões de alunos frequentando as escolas do médio, embora o IBGE calcule em 10,6 milhões a população brasileira com idade entre 15 e 17 anos. Significa que mais de 2 milhões de jovens nesta faixa etária estão fora das salas de aula ou bastante defasados na aprendizagem. Para muitos brasileiros, a escola vai, no máximo, até o fim do ensino fundamental.

A fuga tende a responder à necessidade de gerar mais renda para famílias em dificuldades. Com o desemprego ainda em nível recorde, porém, os jovens que deixam as escolas acabam caindo no limbo dos chamados “nem-nem”: nem estudam nem trabalham. Arriscam-se a engrossar as estatísticas da criminalidade e da gravidez precoce. Alimentam o círculo nada virtuoso.

Alguma coisa, contudo, melhora. Cresce, ainda que com atraso em relação aos cronogramas inicialmente fixados, a frequência a creches e pré-escolas, em linha com o que estipulam as metas do Plano Nacional de Educação. Também avança a educação integral, embora nos níveis fundamental e médio não tenha sido suficiente para zerar a redução verificada até 2016. Há alguma esperança, portanto.

Mudanças recentes na normatização da educação brasileira reforçam as expectativas positivas. Uma é a adoção da base nacional curricular comum e a outra, a reforma do ensino médio. São passos iniciais naquilo que deve ser uma causa comum a todos os brasileiros: garantir educação de qualidade e para todos, para que todos tenham oportunidade de uma vida melhor.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Zero a zero

Os números finais do mercado de trabalho em 2017 mostram que permanece o desafio de voltar a gerar empregos em quantidade adequada para os brasileiros. A incipiente retomada do crescimento econômico conseguiu apenas frear o processo de piora que vinha desde 2014. Mas o zero a zero, neste caso, soa como vitória.

Nesta manhã, o IBGE divulgou que a taxa de desocupação terminou 2017 em 11,8%, levemente abaixo dos 12% do último trimestre de 2016. Estatisticamente, o órgão considera que “houve estabilidade” entre um número e outro, quando observados os dois períodos na margem.

Na média, contudo, a situação continuou a se agravar. A taxa de desocupação de 2017 subiu a 12,7%, acima dos 11,5% de 2016. Isso significa 13,2 milhões de pessoas ainda desempregadas, alta de 1,5 milhão em relação à média do ano anterior. Ressalte-se que, na passagem de 2015 para 2016, este triste exército ganhara 3,2 milhões de novos componentes. Ou seja: ainda está ruim, mas já foi bem pior.

No mercado formal, a situação pode ser considerada um pouco melhor. Na semana passada, o Ministério do Trabalho divulgou que foram fechadas 21 mil vagas de trabalho com carteira assinada em 2017. Neste caso, um estado (o Rio, com saldo negativo de 92 mil vagas) e um setor (o construção civil, com 104 mil vagas a menos) penderam a balança para o vermelho.

As indicações, contudo, são de que a situação já começou, de fato, a melhorar. Quando 2017 começou, a taxa de desocupação medida pelo IBGE estava em 13,7%, dois pontos acima da atual. No caso dos empregos formais, embora ainda negativo, como é característico da época, o saldo de dezembro passado foi o melhor dos últimos dez anos.

Os empregos são o melhor termômetro da economia. Mas costumam reagir às altas e baixas com defasagem. Isso significa que o mercado de trabalho tende a ser o último a despencar quando a atividade esfria, porque o empresário reluta até o último minuto em demitir. Da mesma forma, é o último a reagir, dada a precaução do empreendedor, que prefere só contratar quando tem convicção de que a economia está se aquecendo.

Tudo prenuncia que o processo de admissões já foi retomado. Tende, agora, a se acelerar, desde que a recuperação econômica não seja abortada. Há três ameaças no horizonte: a reversão do cenário internacional positivo, menos provável; a frustração da agenda de reformas estruturais, mais ameaçadora; e a dinâmica política deste ano de eleições presidenciais, ainda cheia de incertezas.

O que é fora de questão é que o país só melhora, e os empregos só voltam, se a opção for por perseverar nas alternativas econômicas trilhadas desde o primeiro semestre de 2016. Mesmo o atual governo não pode se deixar cair na tentação de afrouxar o ajuste e desistir das medidas difíceis, porém necessárias, que ainda precisam ser adotadas.