sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Mundo com mais fronteiras

A eleição de Donald Trump poderá representar um marco nas relações comerciais globais. Infelizmente, até onde é possível enxergar por ora, negativo. Se o republicano de fato levar adiante promessas de sua plataforma de campanha, o mundo poderá sofrer retrocesso considerável no processo de abertura de fronteiras, liberalização de mercados e integração multilateral.

A vitória de Trump acontece no mesmo momento em que o comércio global declina. Há um mês, a Organização Mundial do Comércio (OMC), dirigida pelo brasileiro Roberto Azevêdo, reviu para bem abaixo sua previsão de crescimento para o comércio internacional neste ano. Os prognósticos caíram de 2,8% para 1,7%, no pior resultado desde a crise de 2008.

Historicamente, o comércio internacional tende a oscilar numa proporção sempre maior que a do PIB global. Em 2016, contudo, e pela primeira em 15 anos, esta relação não irá se verificar, de acordo com a OMC. Para o ano que vem, as perspectivas não se alteram muito. A estimativa de alta do comércio global oscila entre 1,8% e 3,1% – após os resultados desta quarta-feira, provavelmente mais perto do piso que do teto.

Diante disso, as primeiras palavras de Trump já como presidente eleito ontem causaram certo alívio para quem trabalhava com a hipótese do caos. Ele poderá se mostrar mais pragmático e moderado do que jamais se pôde sonhar em vista de seu belicoso desempenho durante a campanha presidencial – para o que certamente colaborarão as reconhecidas solidez e estabilidade das instituições americanas.

No entanto, aparentemente, suas convicções protecionistas não deverão mudar, conforme a maioria das análises feitas após a confirmação do resultado.

A disposição dele de retirar os Estados Unidos da Parceria Transpacífica (TPP), de reabrir (no sentido de rever, renegociar e desidratar) o Nafta e “identificar, e então remediar, todos os ‘abusos’ de comércio exterior ‘que afetam injustamente os trabalhadores americanos’”, de acordo com reportagem do Wall Street Journal reproduzida pelo Valor Econômico, está mantida. Nada disso interessa a quaisquer parceiros comerciais dos americanos.

A vitória de Donald Trump coincide com outras medidas restritivas de comércio e antiliberalização registradas ao redor do mundo. Desde 2008, o comércio internacional expande-se a uma média equivalente a cerca de metade da registrada nos últimos 45 anos, segundo mostrou o FMI no mês passado. Há também indicações de uma recente ascensão nas barreiras não tarifárias, conforme avaliou Martin Wolf no Financial Times.

É fora de questão que um mundo com mais, e não menos, fronteiras não interessa ao Brasil. O país precisa, desesperadamente, integrar-se mais à economia global, da qual foi isolado pela política externa e comercial acanhada patrocinada pelos governos petistas ao longo dos últimos 14 anos e da qual o governo Michel Temer tenta agora se desvencilhar.

Hoje, embora seja a oitava maior economia do mundo, o Brasil ainda é apenas o 25º maior exportador, com participação de mero 1,5% das exportações globais. Numa lista compilada em 2013 pelo Banco Mundial, o Brasil figurava na última colocação entre 179 países em termos de proporção entre importações e PIB – desde então, com a desidratação da nossa economia, esta relação não deve ter melhorado.

No caso específico da relação Brasil-EUA, um alento pode estar no fato de que boa parte das nossas exportações de bens industrializados – que correspondem a 78% das vendas brasileiras para lá neste ano – se darem entre subsidiárias de mesmas firmas. Tendem, portanto, a serem menos afetadas por eventuais restrições impostas pelo novo governo, que poderiam prejudicar a própria economia americana.

Guardadas as devidas proporções, a agenda protecionista de Trump, se realmente levada adiante, reproduz a fracassada experiência vivida pelo Brasil nos últimos anos. O isolamento comercial – aliado, claro, à irresponsabilidade e ao corrupto vale-tudo internos – nos custou a perda do melhor momento da economia mundial em décadas. Hoje, somos obrigados a conviver com o ônus do boom, sem ter se apropriado dos bônus.

De todo modo, a nova situação surgida da eleição de Trump impele o Brasil a lançar-se com determinação e vitalidade redobrados numa vigorosa agenda de integração comercial com o resto do mundo. Neste sentido, mais que nunca, a conclusão de um acordo com a União Europeia e a revisão de regras do Mercosul soam urgentes.

Mais que nunca, o Brasil precisa de mais e não menos comércio e integração com o resto do globo. Perseverar no isolamento ou estacar no protecionismo não são opções para uma nação que necessita urgentemente superar sua maior crise econômica. O governo de Donald Trump representa sério risco a estas pretensões, mas pode, também, transformar-se numa bela oportunidade para que trilhemos o caminho mais venturoso.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Não vai ser fácil para ninguém

O que já não seria fácil, a partir de hoje ficou bem mais difícil. A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos turva bastante o horizonte mundial, mas afeta em particular as chances de recuperação do Brasil. Num mundo mais fechado, mais avesso a comércio e mais beligerante, gerar desenvolvimento e bem-estar ficará muito mais complicado.

A perplexidade com o resultado, conhecido por volta das 5h30 desta madrugada, envolve todo o mundo – até mesmo o vencedor transparecia surpresa no discurso que fez logo depois... A primeira reação generalizada é de temor, uma vez que a retórica do republicano carrega tudo o que a comunidade global não gostaria de – nem precisava – assistir neste momento.

Se levar adiante sua plataforma de campanha, Trump deverá fechar as fronteiras dos EUA ao livre-comércio, adotará postura belicosa em relação a alguns grupos e nações, confrontará consensos como o do aquecimento global e tornará um suplício a vida de imigrantes naquele país. Alguns já afirmam que a vitória dele marca o início de uma nova era histórica – bem pior que a atual.

Para o Brasil, o triunfo do republicano chega em péssima hora. A política e a economia brasileira não mereceram atenção alguma de Trump na campanha e pode ser que continue assim pelos próximos quatro anos – nem com o democrata Barack Obama vinha sendo diferente. Mas os efeitos da guinada americana para os nossos destinos são ainda mais insofismáveis.

Dado o discurso francamente protecionista de Trump – um dos principais pilares de sua campanha – possivelmente ficará muito mais difícil para as empresas brasileiras vender e fazer negócios lá fora. Nossas exportações para os EUA, que no ano passado já haviam diminuído 12,2% em relação à máxima histórica, anotada em 2008, tendem a cair mais. Outros mercados, como a China, hoje nosso principal comprador, também serão afetados.

Com os EUA mais reticentes à globalização e o resto do mundo mais temeroso em relação aos destinos do globo, o empuxo que poderia vir do exterior para ajudar a economia brasileira a deixar para trás a recessão perde muito de sua força. A alta de 1% do PIB nacional com que o ministro Henrique Meirelles contava para 2017, conforme manchete da edição de hoje do Valor Econômico, pode ter virado fumaça com o passar desta madrugada.

A eleição de Donald Trump obriga uma mudança de patamar no grau de urgência das mudanças necessárias no Brasil. Se antes já era preciso barrar o aumento de gastos, agora é obrigatório. Se antes as reformas para retomar o desenvolvimento eram desejáveis, agora são inadiáveis.

Num mundo francamente mais inóspito, como se anuncia, ao Brasil não restará outra alternativa senão ser muito mais incisivo na guinada que apenas ensaiou até aqui, mas que agora se tornou premente.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A eleição global

Todas as atenções do mundo estão voltadas hoje para as eleições presidenciais americanas. Não é exagero dizer que do resultado da disputa entre Hillary Clinton e Donald Trump depende – em maior ou menor grau – o futuro imediato de todas as nações. Para o Brasil, está em jogo parcela relevante das chances de recuperação da economia local.

A candidata democrata chega ao dia da eleição com leve vantagem sobre o republicano. Segundo a média das pesquisas divulgadas na noite de ontem, Hillary tem 47% das intenções do voto popular, enquanto Trump está com 44%. O desenrolar da votação em estados-chave do sistema eleitoral americano pode, contudo, balançar esta leve dianteira.

Nos últimos dias, a ascensão de Trump tornou os cenários econômicos ligeiramente mais turvos mundo afora. Na avaliação da maioria dos analistas, uma vitória do republicano projetaria ambiente mais restritivo, mais belicoso e inseguro, num momento em que parte significativa das nações do resto do globo também tem caminhado para posturas mais conflituosas e fechadas – como é o caso recente do Reino Unido.

Um traço, contudo, une o republicano a Hillary: também ela professa fé em medidas protecionistas de comércio, num aceno aos americanos insatisfeitos com resultados que a globalização e a maior abertura trouxeram para a economia de seu país. Ambos prometem rever o Acordo Transpacífico, um marco na liberalização comercial no mundo, ao reunir 40% do PIB global. Trump vai um pouco mais além e põe na mira também o Nafta.

Fronteiras mais fechadas não interessam a nações sedentas por novos mercados e crescimento, como é o caso brasileiro. Mais comércio é mais impulso à atividade produtiva, mais investimento, mais emprego. Trocado o sinal, invertem-se também os resultados.

Há cerca de uma década, os Estados Unidos deixaram de ser o principal destino das exportações brasileiras, superados pela China. No entanto, mantêm-se como parceiros relevantes do nosso comércio internacional.

Neste ano, são o segundo principal destino das nossas exportações, com US$ 18,8 bilhões. Mas são também a principal origem das nossas importações, de onde provieram compras de US$ 19,7 bilhões entre janeiro e outubro. Ambos apresentam quedas acima de 10% na comparação com os dez primeiros meses do ano passado.

Durante os últimos anos, a economia brasileira fechou-se ao livre comércio. Rifamos os melhores impulsos do boom internacional das commodities. Por isso, no momento em que nosso mercado interno claudica, expandir negócios lá fora torna-se alavanca fundamental para superar a recessão. Nossas chances já dependeram integralmente dos nossos desígnios. Agora serão maiores ou menores de acordo com o que os americanos escolherem para si na eleição desta terça-feira.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Mariana, Ano Um

Há um ano, um acidente numa mineradora em Mariana (MG) deu origem ao maior desastre ambiental já registrado até hoje no Brasil. As consequências do rompimento da barragem de rejeitos da Samarco continuam presentes, degradando as condições de vida de milhões de pessoas e o meio ambiente ao longo de centenas de quilômetros do rio Doce até o Oceano Atlântico.

Em 5 de novembro do ano passado, um mar de 40 bilhões de litros de lama deixou 19 pessoas mortas e varreu povoados inteiros do mapa. A enxurrada de rejeitos da barragem do Fundão escorreu pelos afluentes até desaguar no mar, em Linhares, no Espírito Santo, mais de 650 km depois. Um rastro de destruição como nunca antes visto e cujos efeitos ainda perdurarão por décadas.

As famílias mais diretamente atingidas continuam desamparadas, em especial as de Bento Rodrigues, distrito de Mariana que foi dizimado do mapa. Removidas de suas casas, ainda aguardam o dinheiro da reparação, que virá de um fundo de R$ 20 bilhões a ser constituído pelas sócias da mineradora: a Vale e a BHP Billiton. As empresas e 18 de seus dirigentes foram denunciadas pelo Ministério Público pelo desastre.

A crise fiscal também afetou o tratamento da tragédia. Com a penúria do Estado brasileiro, as verbas que seriam utilizadas para acompanhar os desdobramentos do desastre e estimar a extensão dos danos – algo necessário para definir estratégias de mitigação da destruição – foram cortadas. Com isso, até hoje não foi possível detalhar o tamanho dos estragos na fauna e na flora das regiões devastadas, tampouco o tempo necessário para recuperá-las.

Segundo o Ibama, pouco foi feito até agora para mitigar e recuperar os danos. As obras exigidas da Samarco foram consideradas “insuficientes e atrasadas” em vistoria do órgão: 71% dos pontos estão sem conservação, 62% sem drenagem e 53% sem contenção, de acordo com reportagem do jornal O Globo. Há ainda 102 km de leitos de rios com alta concentração de rejeitos, entre Mariana e o município de Rio Doce (MG).

No país que desde sempre foi o principal produtor mundial de minério de ferro, espanta saber que as condições dos reservatórios destinados a armazenar rejeitos da atividade são fragilíssimas. Segundo o Ministério Público Federal, das 397 barragens de mineração brasileiras, metade tem risco de desastres de proporções similares ou piores que as de Mariana, revelou O Estado de S. Paulo neste fim de semana.

O desastre da barragem da Samarco cobra uma legislação ambiental e mineral à altura do peso da atividade para a economia brasileira – vale lembrar que até hoje arrastam-se no Congresso as discussões em torno do novo Código Mineral. O poder público precisa ser implacável e rigoroso para punir, e previdente para coibir a repetição da tragédia. Mariana não pode tornar-se apenas uma foto feia e cheia de lama pendurada na parede.