quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O ventríloquo e o mutismo da candidata

Ontem, dia da Independência do Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ocupou 2min15s de tempo de TV para se dirigir aos telespectadores. De terno, gravata e distintivo com a bandeira nacional na lapela, poderia facilmente levar ouvintes incautos a pensar que se tratava de um pronunciamento oficial, algo corriqueiro na mais importante data cívica do calendário brasileiro. Mas, não: Lula foi à TV fazer política eleitoral e defender a candidata do PT à presidência da República. Fez papel de ventríloquo.

Lula ocupou o horário eleitoral de Dilma Rousseff para falar do escândalo da quebra continuada de sigilos fiscais perpetrada por petistas lotados na Receita Federal. Mas não disse uma mísera palavra sobre o caso em si. Não lamentou o fato de alguns milhares de brasileiros estarem sendo vítimas de devassas ilegais, algo constatado pela própria Receita. Não teceu qualquer comentário sobre o fato de o órgão ter se transformado num “simples balcão de negócios”, onde vazamentos são rotina, conforme disse o ministro da Fazenda do governo dele.

Lula preocupou-se unicamente em falar pela sua candidata, livrá-la do contraditório, protegê-la de contestações. Para isso, usou no seu pronunciamento uma série de tapeações para levar seus ouvintes a crer que a oposição, ao bater-se contra as ilegalidades produzidas por petistas incrustados no aparato estatal, apela para “baixarias”, “mentiras”, “calúnias”. Coroou o logro dizendo que o que fazem os oposicionistas é “um crime contra a mulher brasileira”.

Aí é que reside o ponto: onde está a mulher que quer ser presidente da nação que até agora não disse uma palavra a respeito de um dos maiores escândalos recentes do país? Por que não vem a público para se pronunciar e condenar os aloprados – da Receita e de muitas outras repartições estatais – que agem contra os cidadãos e os transformam em vítimas da bisbilhotice mal intencionada? Por que se mantém muda?

Se Dilma não tem condições de manifestar-se numa situação destas, é de se pensar no que pode ocorrer se um dia vier a se sentar na cadeira presidencial e o Brasil se vir diante de uma crise sem precedentes, de um incidente diplomático, de uma emergência inapelável. Recorrerá ao seu mentor, ao eterno guia?

É difícil saber o que é mais deplorável em todo este episódio: se a pusilanimidade e flagrante inapetência da candidata do PT ou a postura nada republicana de Lula. Não é de hoje que Lula age desbragadamente como presidente de uma facção e não como presidente de todos os brasileiros. Há muito, afastou-se da figura de estadista que um dia pretendeu ser.

O pronunciamento levado ao ar ontem foi apenas o caso mais evidente e flagrante de uma extensa série. Desde que escolheu sua candidata, Lula passou a percorrer o país com Dilma a tiracolo, transformando jornadas de trabalho em caravanas de campanha. Foram anos, não só dias nem meses, assim. Pouco governo, muita politicagem. E o que a população ganhou com isso?

Não satisfeito, mais recentemente Lula montou acampamento em São Paulo para dia sim dia também aboletar-se sobre um palanque e lanhar a oposição. Joga-se sem pudor na peleja eleitoral e extrapola todos os limites aceitáveis. “Se conseguir eleger a sucessora, vai distorcer a realidade e atuar como se presidente fosse. Se não conseguir, não deixará o próximo governo governar”, resume Dora Kramer na edição de hoje de O Estado de S. Paulo.

Lula fala muito para deixar que sua pupila mantenha-se calada. É ilustrativo que a candidata do PT agora sequer entrevistas conceda. Atrás de púlpitos, protege-se de perguntas incômodas – a debates, como o de hoje na TV Gazeta, há muito deixou de ir. Para não falar, alega-se afônica em razão de compromissos eleitorais. Mas mais correto seria sublinhar seu mutismo, simbólico do que o país pode esperar caso ela saia-se vencedora da votação de outubro. Vamos às urnas daqui a 25 dias para eleger um presidente, não marionetes.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Os aloprados voltaram

Se ainda havia dúvidas sobre o envolvimento cabal do PT com a série de ilícitos perpetrada ao longo desta campanha eleitoral, eles se dissiparam nos últimos dias. Pessoas filiadas ao partido estão envolvidos na torrente de sigilos fiscais violados ao redor do país. Os alvos preferenciais são adversários políticos, mas ninguém está a salvo.

Os jornais informam hoje que mais um petista funcionário da Receita Federal acessou as informações fiscais do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas. É o analista tributário Gilberto Souza Amarante, que se junta a Antonio Carlos Atella Ferreira. O crime ocorreu no escritório do órgão em Arcos (MG). Os aloprados voltaram.

Já era sabido que, para ganhar a eleição, o PT não hesitaria em jogar na lata de lixo o respeito à lei. Os exemplos vão do uso descarado da máquina pública para eleger uma candidata sem biografia ou voz própria à transformação da campanha num balcão de crimes, com quebra em série dos sigilos fiscais da filha de José Serra e de outros cidadãos com alguma ligação com o PSDB.

Em tudo e por tudo, o episódio atual é ainda mais grave do que o ocorrido em 2006, quando um bando de petistas foi pego com R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo que seria usado para comprar documentos para tentar prejudicar a candidatura de José Serra ao governo de São Paulo. Tinha desde churrasqueiro e guarda-costas do presidente Lula a assessor do hoje candidato petista ao Palácio dos Bandeirantes. Todos identificados; nenhum punido.

Foi exatamente esta impunidade que permitiu ao governo petista continuar a agir sem qualquer pudor diante das irregularidades. Classifica o queijo suíço em que se transformou a Receita como “um simples balcão de negócios”. E trata a grita de quem chia e se bate contra as ilegalidades como “dor de cotovelo”, como fez, de maneira repugnante, o presidente Lula na sexta-feira em Esteio. (Veja o vídeo e tente não se indignar.)

Os petistas-violadores-de-sigilo formam no PT do subterrâneo. Mas há o PT da superfície, não menos pernicioso, que move todos os seus tentáculos sobre o aparato estatal para tentar perpetuar-se no poder. No mundo petista, ministros de Estado sentem-se liberados para fazer campanha usando despudoradamente a estrutura de governo.

Em sua edição de sábado, O Globo revelou que a agenda ministerial é uma farsa, montada para fazer campanha aberta pela candidata lulista. Um exemplo: entre maio e agosto, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, e seus principais assessores viajaram nada menos que 44 vezes em busca de votos para a petista. A conta, paga você, leitor contribuinte.

A revista Veja desta semana traz boa pista para explicar o por que de tanta voracidade e falta de escrúpulos. Traduz em números o tamanho do assalto ao Estado que o PT empreendeu nos últimos sete anos.

Dos principais cargos de confiança do governo federal, 45% foram entregues a sindicalistas. Desses, 82% são filiados ao PT. Além disso, desde que o governo Lula tomou posse, 6.045 servidores federais filiaram-se ao partido. Entre eles, 70% foram premiados com promoções e aumento de salários. É gente capaz de fazer tudo, tudo mesmo, para manter seus privilégios. Agem assim porque perceberam que contam com proteção aberta de seus chefes. Lei para eles é mero detalhe.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Que país é este?

Parece não ter mais limites a sanha com que o PT se lança sobre a vida privada dos cidadãos brasileiros. Num Estado policialesco que vai se proliferando sob a gestão Lula, órgãos de governo são sistematicamente usados para investigar e coagir pessoas. Adversários políticos tornaram-se os alvos principais da versão tupiniquim da Gestapo, a polícia política do regime hitlerista. Salve-se quem puder.

Soube-se agora que as violações em série de sigilos fiscais perpetradas em balcões da Receita Federal atingiram a filha do candidato do PSDB à presidência da República. A lista é extensa, começa com indivíduos com alguma ligação direta ou mais longínqua com José Serra e atinge pelo menos outras 140 pessoas, entre elas Ana Maria Braga e os donos das Casas Bahia.

Tudo somado, resta claríssima uma constatação: nenhum de nós está livre desta escalada de bandidagem. Mas, para o PT, tudo não passa de armação dos partidos da oposição. É a velha tática do “pega ladrão”. Para os líderes petistas, os culpados são os de sempre: as próprias vítimas.

O sigilo de Verônica Serra foi quebrado em 30 de setembro de 2009, quando o pai dela liderava todas as pesquisas de intenção de voto. Oito dias depois, a espionagem se estendeu ao vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge; ao ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros; a Ricardo Sérgio, ex-dirigente do Banco do Brasil; e ao empresário Gregório Marin Preciado.

Um dossiê com o resultado da arapongagem foi elaborado na mansão que servia ao comando da campanha de Dilma Rousseff em Brasília. Parte da história vazou antes da hora e, para consumo externo, o plano foi abortado. Terá sido mesmo? Quem garante que o bunker da petista não está abarrotado de informações fiscais de quem quer que seja?

Democracia e respeito à lei horrorizam a turma de Dilma. Para eles, o Estado serve para esmagar quem ousa não baixar a cabeça. Trata-se de uma nova forma de tortura, sutil, mas quase tão perniciosa como os maus tratos físicos impingidos durante a ditadura, como bem definiu Mendonça de Barros.

Estamos diante de um fato estarrecedor, mas mais estarrecedora ainda é a forma como o presidente Lula está lidando com o caso, cujos primeiros atos foram revelados há três meses pela Folha de S. Paulo. O mínimo que se poderia esperar é que o responsável pela Receita já tivesse sido ejetado do cargo. Mas nada.

Instado a comentar a usina de crimes que se desenrola nos intestinos da Receita, Otacílio Cartaxo limitou-se a manifestar “constrangimento” diante do que considera uma “simples mercantilização de informações sigilosas”. Ah, Cartaxo é o chefe do órgão onde os meus, os seus, os nossos dados fiscais estão armazenados... Se continua no cargo após conformar-se com a desmoralização, é porque a devassa faz parte do jogo armado pelo petismo.

Não satisfeito, o governo tem se dedicado a atrasar as investigações dos crimes o máximo possível. A ordem é ser displicente, como revelou O Estado de S. Paulo. Nada de chegar aos mandantes; no máximo, apresentar peixes pequenos, como as funcionárias da repartição do Fisco em Mauá onde os crimes foram cometidos. Quem sabe os resultados cheguem – passadas as eleições, evidentemente.

Está evidente que o governo do PT age com a convicção de que a maior fraude já perpetrada na Receita Federal de que se tem conhecimento não será suficiente para alterar o humor eleitoral. Aposta na despolitização e na desinformação.

Mas os cidadãos já perceberam que, a continuar nessa direção, os próximos a ruir são seus direitos. Ou se altera já o rumo deste descalabro ou continuará a valer o que Renato Russo berrava ainda em 1978: “Ninguém respeita a Constituição/Mas todos acreditam no futuro da nação”. Que país é este?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Um poço de lambança no pré-sal

Nesta terça-feira, completa um ano que o presidente Lula anunciou, com pompa e circunstância, as regras do novo marco legal para exploração de petróleo no país. Foi uma cerimônia em tom ufanista, inserida no calendário pré-eleitoral montado pelo Planalto para incensar a candidata oficial.

O que se viu nos últimos 365 dias, porém, foi uma lambança de proporções oceânicas. Se, no curto prazo, o pré-sal já foi capaz de produzir tantos estragos, imagine o que pode vir nas décadas de exploração que temos pela frente.

A Petrobras e seus acionistas foram os primeiros a sentir os efeitos dos improvisos da atual gestão. Alguns números traduzem o prejuízo que a aventura petista tem trazido à companhia e ao país. Nestes 12 meses, as ações ordinárias da empresa perderam 20% do valor e as preferenciais, 15%. No ano, as cotações caíram mais ainda: 28% e 27,6%, respectivamente. Isso significa que a Petrobras vale hoje US$ 57 bilhões menos no mercado do que valia em fins de 2009. Para o petismo, isso é bagatela.

A maior empresa brasileira está hoje com a corda no pescoço. Tem um vultoso plano de investimentos planejado, orçado em US$ 224 bilhões entre 2010 e 2014. Não tem, porém, de onde tirar tanto dinheiro e não tem mais como endividar-se: sua dívida líquida já equivale a 34,74% do patrimônio líquido, conforme o balanço do segundo trimestre, e está próxima do limite a partir do qual a Petrobras fica ameaçada de perder o selo de “grau de investimento”, o que pode levar seu valor a níveis ainda mais baixos.

Não espanta que grandes investidores estejam correndo das ações da Petrobras feito diabo da cruz. Gente acostumada a ganhar muita grana – como o húngaro-americano George Soros – já se desfez de tudo o que detinha na petrolífera. Infelizmente, aos cerca de 90 mil trabalhadores que ainda têm participação nos fundos mútuos da companhia em que aplicaram seu FGTS só resta ver sua poupança derreter.

Em apenas 365 dias, o governo do PT foi capaz de produzir uma interminável série de equívocos. Até agora, o novo marco legal só causou confusão, sem quaisquer ganhos para o país. Dos quatro projetos enviados ao Congresso, dois foram aprovados – a criação da Petrosal e a capitalização da Petrobras – e dois ainda tramitam – o que adota o regime de partilha para a exploração das reservas do pré-sal e o que cria o fundo soberano.

Ou seja, sem que uma gota de óleo jorrasse, fomos capazes de criar uma nova estatal e aprovar uma megaoperação financeira que, prevista para acontecer daqui a 30 dias, ninguém sabe ao certo como será feita. Em torno dela, digladiam-se interesses divergentes, nada transparentes e excessivamente ideologizados, como se vê principalmente na ANP.

A capitalização pode vir a movimentar um volume de recursos nunca antes visto na história das finanças mundiais, mas o cipoal de regras esdrúxulas que o governo criou é tão denso que é impossível saber se esse montante será de US$ 50 bilhões ou US$ 120 bilhões. ANP e consultorias não se entendem quanto ao valor do barril que será adotado na operação, muito menos sobre qual de fato é o tamanho das reservas. Puro detalhe.

Como se não bastasse, as regras da proposta de adoção do regime de partilha fraturaram o pacto federativo ao ameaçar minar as finanças dos dois principais estados produtores: Rio e Espírito Santo, que correm o risco de, do dia para a noite, perder R$ 8 bilhões anuais em receitas de royalties e participações especiais. Não serão apenas eles que perderão: no auge da produção do pré-sal R$ 21,5 bilhões deixarão de ser transferidos para estados e municípios pela União.

Neste meio-tempo, a Petrobras vai se deteriorando a olhos vistos. Seguidas plataformas exibem problemas de manutenção e conservação e avolumam-se acidentes com seus empregados. Trabalhadores não cooptados pelo sindicalismo pelego da CUT citam o balanço social da empresa para denunciar que acontecem um acidente por dia e duas mortes por mês nas refinarias e plataformas da companhia.

O pré-sal é apontado pelo ufanismo petista como a redenção de todas as mazelas do país. Mas ninguém explica como, num passe de mágica, riquezas localizadas a quilômetros de profundidade, em condições absolutamente adversas, se transformarão em benefícios palpáveis para a população brasileira. É possível aproveitar bem esta oportunidade ímpar, mas o que o governo Lula fez até agora foi tornar tudo mais incerto, nebuloso e imprevisível. O pré-sal não precisa do risco PT.