O risco de uma catástrofe de proporções gigantescas no Japão, com a explosão de reatores das usinas de Fukushima, trouxe a opção pela geração nuclear para o centro dos debates em todo o mundo. No Brasil, que no governo Lula anunciou um mirabolante plano para a construção de 50 usinas nucleares até 2060, a discussão sobre a segurança, a confiabilidade e a conveniência do programa nacional para esta área mostra-se ainda mais imperativa.
Nos planos do governo brasileiro está construir, no mínimo, quatro novas usinas nucleares até 2030, agregando 4 mil megawatts (MW) ao parque gerador. O projeto nuclear nacional também prevê o término da construção de Angra 3, cujas obras foram retomadas no governo passado depois de 24 anos paradas.
Segundo o Valor Econômico, o Ministério de Minas e Energia vem “trabalhando em ritmo acelerado” no projeto de construção das novas usinas nucleares, que devem receber investimento de R$ 30 bilhões. Pretendia-se anunciar, ainda neste mês, os principais candidatos a sediar as quatro unidades.
Hoje, o Brasil tem duas usinas nucleares em operação: Angra 1 e Angra 2, que têm, juntas, 2 mil MW de potência. A participação da energia nuclear na matriz energética do país ainda é pequena: em 2009, representava 1,8% do total. A previsão é que salte para 3,4 mil MW, ou 1,9% do total, em 2019 com a entrada de Angra 3. Mas esta fatia corre o risco de crescer muito com o tresloucado plano petista.
Em fins de 2008, o governo Lula definiu como “prioritária” a retomada do programa nuclear brasileiro. Pelos planos, seriam construídas de 50 a 60 usinas nucleares nos próximos 50 anos. Cada uma delas teria capacidade de geração de aproximadamente 1 mil MW. Ou seja, nossa matriz passaria a contar com 30 vezes mais energia nuclear do que conta hoje. Fukushima sugere um freio de arrumação nisso tudo.
O Brasil não destoará do resto do mundo se optar por fazer uma reanálise da sua opção nuclear. Ontem, países como Alemanha, Suíça, Inglaterra, Itália, Bélgica, Polônia, China e Índia anunciaram revisão de seus planos nesta área. Neste momento toda cautela é bem-vinda. Afinal, a atual tragédia está acontecendo num país de rara capacidade de prevenção a catástrofes, como é o caso do Japão.
Na Alemanha, parceira do projeto de usinas atômicas brasileiras nos anos 70, a chanceler Angela Merkel avisou que pode cancelar a decisão de reativar o programa nuclear daquele país. O governo da Suíça já foi mais longe e anunciou a suspensão de seus projetos de renovação de seu parque nuclear. Na Inglaterra, onde se prevê a construção de 11 novas usinas, o governo pediu reestudo imediato da empreitada.
Num mundo atemorizado, a reação das autoridades brasileiras foi, mais uma vez, lastimável. Edison Lobão, o ministro da energia, preferiu insistir que o Brasil tem “a melhor tecnologia existente” no planeta em termos nucleares e que as falhas registradas em usinas no Japão “não têm chance de ocorrer aqui”. Lobão é o mesmo que, no início do mês passado, disse que, assolado por mais um apagão, o sistema elétrico brasileiro é “o mais moderno do mundo”.
Talvez o governo de Dilma Rousseff não tenha entendido que o trágico momento exige prudência redobrada. Não existe risco zero, muito menos quando se trata do perigo radioativo. A repetição de calamidades, como as da região serrana do Rio no início deste ano, deixa claro que o Brasil não tem cultura de prevenção.
A usina de Angra 1 tem um histórico de 16 acidentes leves e médios registrados. Revela a Folha de S.Paulo que o país sequer tem um plano de contingência para esvaziar a cidade de Angra dos Reis caso um problema semelhante ao da usina japonesa de Fukushima ocorra.
“Os engenheiros não mentem quando dizem que os designs modernos são melhores. A maior parte do lixo nuclear e todos os grandes acidentes, incluindo este, vieram da geração mais antiga. Mas a energia nuclear, mais que qualquer outra, requer que o público confie nela, porque vem acompanhada da possibilidade de destruição invisível e imensa”, analisou ontem o jornal inglês Guardian.
O Brasil tem condições privilegiadas de reavaliar mais a fundo sua opção nuclear. Afinal, diferentemente de muitos outros países, conta com uma imensa fonte de energia hídrica, renovável, abundante e limpa. Sem falar em outras fontes igualmente renováveis, abundantes e limpas como a biomassa e a eólica.
O problema é que tudo o que o governo do PT fez até agora na área energética, com participação destacada da hoje presidente da República, foi em direção contrária: optou-se por sujar a matriz com fontes térmicas poluentes e por flertar com a temível energia que hoje mostra no Japão, mais uma vez, seus riscos.
terça-feira, 15 de março de 2011
segunda-feira, 14 de março de 2011
Tsunami de dólares
Nunca antes na história o Brasil recebeu tantos recursos do exterior. Há quem compare o ingresso recorde de dólares a uma enxurrada ou a uma inundação. Mais adequado seria dizer que o país está sob um verdadeiro tsunami cujas consequências para a economia nacional podem ser destrutivas.
Em apenas 63 dias, o Brasil recebeu mais dólares do exterior do que nos 365 dias do ano passado: até 4 de março último, ingressaram no país US$ 24,36 bilhões acima do que saiu. Em contraposição, em todo o ano de 2010, o saldo líquido, ou seja, a diferença entre remessas e ingressos, foi de US$ 24,35 bilhões. Isso dá ideia da magnitude da situação.
Pelos dados do BC, a entrada de dólares no ano já soma US$ 114,2 bilhões e as saídas, US$ 89,9 bilhões. Parte do fluxo de recursos tem sido direcionada para investimentos diretos, o que é bom, e para aplicações em títulos e bolsa.
Uma fatia considerável dos ingressos busca aqui o ganho fácil dos juros campeões mundiais. Não custa repetir que o Brasil é o país onde se praticam as cada vez mais exóticas taxas do planeta. Enquanto aqui paga-se algo em torno de 6% de juros reais ao ano, a média mundial é de 0,9% negativo. (A Austrália, segundo lugar no ranking, pratica 2% anuais.)
Só neste ano, o BC já elevou a taxa básica duas vezes, aumentado a Selic em um ponto percentual, até os atuais 11,75%. Mas o juro alto não surge por criação espontânea. Ele decorre de um desequilíbrio persistente dos gastos públicos.
Como se endivida demais, o governo tem de pagar mais para tomar recursos. Com isso, encarece o custo do dinheiro no país com juros mais altos e também força os agentes privados a buscar outras fontes de financiamento, principalmente no exterior.
É por isso que um volume expressivo do nosso atual tsunami de dólares vem de captações externas de empresas brasileiras, que já buscaram US$ 12,4 bilhões no mercado internacional até agora. Este número deve crescer muito ao longo do ano, porque a operação é muito atrativa para as empresas.
O risco está numa eventual reversão da economia mundial, com alta repentina dos juros internacionais e valorização do dólar. Numa época de tragédias instantâneas, como a que leva o Japão a sua pior crise desde a 2ª Guerra, e com os principais países produtores de petróleo envoltos em turbulências internas de monta é bom pôr as barbas de molho.
O Valor Econômico informa hoje que o governo pretende agir e “planeja encarecer as contratações de empréstimos em moeda estrangeira, voltando a taxá-las com o IOF”. Seria uma forma, segundo o jornal, de também esfriar o crédito concedido no país: recursos captados no exterior são responsáveis por 20% do funding dos bancos para empréstimos dados a empresas e pessoas físicas.
A entrada expressiva de dólares gera outras consequências danosas para a economia como um todo, com custos consideráveis, sejam financeiros, seja na economia real. O excesso de oferta de dólar valoriza a moeda nacional, o real, e encarece nossos produtos vendidos ao exterior. Ao mesmo tempo, barateia as importações – o que também colabora para segurar a inflação.
Tudo somado, o parque produtivo local sai fragilizado. Não há exemplo mais evidente disso do que o dado pelo comportamento da indústria brasileira nos últimos meses. A produção do setor caiu 2,6% desde abril até janeiro último e o nível de emprego está 1,8% abaixo do patamar pré-crise, mostrou o IBGE.
A indústria é, reconhecidamente, o setor da economia que abriga a mão de obra mais qualificada, paga os melhores salários e alimenta a inovação. Se definha, enfraquece o mercado nacional e os danos se disseminam: sofrem as siderúrgicas mineiras, os calçadistas gaúchos, os fabricantes de eletroeletrônicos de Manaus.
Outro efeito não desprezível do tsunami de dólares são os gastos do Banco Central para sustentar nossas monumentais reservas internacionais. Neste ano, elas já engordaram US$ 20 bilhões, atingindo US$ 311 bilhões no total.
O BC tem de emitir títulos para enxugar o mercado de dólares, que são, por sua vez, investidos em papéis do Tesouro americano. Ou seja, contrata dívida cara em favor de uma aplicação pouco remunerada. Cerca de 1% do PIB que se esvai nesta operação: no ano passado isso custou R$ 27 bilhões, ou dois Bolsa Família.
O tsunami de dólares tem razões globais, uma vez que a sobra de recursos no mundo é hoje gigantesca. Mas há desequilíbrios locais que explicam boa parte da atratividade brasileira: o desmesurado gasto público e seus efeitos sobre os juros. A gestão do PT tem responsabilidades diretas sobre isso. As estripulias fiscais para eleger Dilma Rousseff são apenas uma delas. A ressaca está vindo brava.
Em apenas 63 dias, o Brasil recebeu mais dólares do exterior do que nos 365 dias do ano passado: até 4 de março último, ingressaram no país US$ 24,36 bilhões acima do que saiu. Em contraposição, em todo o ano de 2010, o saldo líquido, ou seja, a diferença entre remessas e ingressos, foi de US$ 24,35 bilhões. Isso dá ideia da magnitude da situação.
Pelos dados do BC, a entrada de dólares no ano já soma US$ 114,2 bilhões e as saídas, US$ 89,9 bilhões. Parte do fluxo de recursos tem sido direcionada para investimentos diretos, o que é bom, e para aplicações em títulos e bolsa.
Uma fatia considerável dos ingressos busca aqui o ganho fácil dos juros campeões mundiais. Não custa repetir que o Brasil é o país onde se praticam as cada vez mais exóticas taxas do planeta. Enquanto aqui paga-se algo em torno de 6% de juros reais ao ano, a média mundial é de 0,9% negativo. (A Austrália, segundo lugar no ranking, pratica 2% anuais.)
Só neste ano, o BC já elevou a taxa básica duas vezes, aumentado a Selic em um ponto percentual, até os atuais 11,75%. Mas o juro alto não surge por criação espontânea. Ele decorre de um desequilíbrio persistente dos gastos públicos.
Como se endivida demais, o governo tem de pagar mais para tomar recursos. Com isso, encarece o custo do dinheiro no país com juros mais altos e também força os agentes privados a buscar outras fontes de financiamento, principalmente no exterior.
É por isso que um volume expressivo do nosso atual tsunami de dólares vem de captações externas de empresas brasileiras, que já buscaram US$ 12,4 bilhões no mercado internacional até agora. Este número deve crescer muito ao longo do ano, porque a operação é muito atrativa para as empresas.
O risco está numa eventual reversão da economia mundial, com alta repentina dos juros internacionais e valorização do dólar. Numa época de tragédias instantâneas, como a que leva o Japão a sua pior crise desde a 2ª Guerra, e com os principais países produtores de petróleo envoltos em turbulências internas de monta é bom pôr as barbas de molho.
O Valor Econômico informa hoje que o governo pretende agir e “planeja encarecer as contratações de empréstimos em moeda estrangeira, voltando a taxá-las com o IOF”. Seria uma forma, segundo o jornal, de também esfriar o crédito concedido no país: recursos captados no exterior são responsáveis por 20% do funding dos bancos para empréstimos dados a empresas e pessoas físicas.
A entrada expressiva de dólares gera outras consequências danosas para a economia como um todo, com custos consideráveis, sejam financeiros, seja na economia real. O excesso de oferta de dólar valoriza a moeda nacional, o real, e encarece nossos produtos vendidos ao exterior. Ao mesmo tempo, barateia as importações – o que também colabora para segurar a inflação.
Tudo somado, o parque produtivo local sai fragilizado. Não há exemplo mais evidente disso do que o dado pelo comportamento da indústria brasileira nos últimos meses. A produção do setor caiu 2,6% desde abril até janeiro último e o nível de emprego está 1,8% abaixo do patamar pré-crise, mostrou o IBGE.
A indústria é, reconhecidamente, o setor da economia que abriga a mão de obra mais qualificada, paga os melhores salários e alimenta a inovação. Se definha, enfraquece o mercado nacional e os danos se disseminam: sofrem as siderúrgicas mineiras, os calçadistas gaúchos, os fabricantes de eletroeletrônicos de Manaus.
Outro efeito não desprezível do tsunami de dólares são os gastos do Banco Central para sustentar nossas monumentais reservas internacionais. Neste ano, elas já engordaram US$ 20 bilhões, atingindo US$ 311 bilhões no total.
O BC tem de emitir títulos para enxugar o mercado de dólares, que são, por sua vez, investidos em papéis do Tesouro americano. Ou seja, contrata dívida cara em favor de uma aplicação pouco remunerada. Cerca de 1% do PIB que se esvai nesta operação: no ano passado isso custou R$ 27 bilhões, ou dois Bolsa Família.
O tsunami de dólares tem razões globais, uma vez que a sobra de recursos no mundo é hoje gigantesca. Mas há desequilíbrios locais que explicam boa parte da atratividade brasileira: o desmesurado gasto público e seus efeitos sobre os juros. A gestão do PT tem responsabilidades diretas sobre isso. As estripulias fiscais para eleger Dilma Rousseff são apenas uma delas. A ressaca está vindo brava.
quarta-feira, 9 de março de 2011
É difícil fazer turismo no Brasil
Os brasileiros orgulham-se de, todos os anos, exibir ao mundo o maior espetáculo da Terra. Os brasileiros orgulham-se de suas paisagens maravilhosas, seu Carnaval animadíssimo, sua gente bonita. Do que os brasileiros não se orgulham é da infraestrutura que o país oferece para receber os turistas. Nisso, temos ido de mal a pior.
Na segunda-feira de Carnaval, o Fórum Econômico Mundial divulgou relatório analisando as condições da indústria do turismo no mundo. Apesar de suas belezas naturais, campeãs absolutas, o Brasil figurou mal, muito mal, na fita. As razões foram a infraestrutura precária, os problemas regulatórios, a insegurança, a falta de mão de obra qualificada e os investimentos insuficientes.
A indústria do turismo é um maná que ainda pouco sabemos aproveitar. O setor movimenta 9,2% do PIB e 4,8% das exportações globais e recebe 9,2% dos investimentos mundiais. No Brasil, segundo o relatório, a economia do turismo girou US$ 110 bilhões em 2010, ou 6% do PIB local. Emprega 5,3 milhões de pessoas. Pode ir muito mais adiante.
Entre 139 países avaliados pelo Fórum Econômico Mundial, o Brasil apareceu apenas na 52ª classificação no ranking da indústria do turismo, despencando sete posições na comparação com o levantamento anterior, de 2009.
O país liderou o ranking no quesito recursos naturais, em razão da riqueza da fauna e dos nossos muitos lugares considerados patrimônios da humanidade. Foi bem, ainda, em bens culturais (23º) e em sustentabilidade ambiental (29º).
Mas foi um verdadeiro desastre em infraestrutura de transportes (estradas, portos e ferrovias): só saiu-se melhor do que 23 dos 139 países que compõem o ranking. Ou seja, o Brasil figurou apenas na 116ª colocação. Há problemas também quanto aos preços praticados aqui, em função, diz o relatório, de passagens caras, taxas aeroportuárias salgadas e impostos elevados em geral: com isso, ficamos na 114ª colocação no quesito.
O setor de turismo serve para ilustrar um problema de ordem mais geral que é a carente infraestrutura nacional. Os resultados do PIB de 2010, conhecidos na semana passada, deixaram claras, mais uma vez, as limitações que ela impõe ao crescimento sustentado do país.
O comportamento dos investimentos na composição geral do PIB foi, novamente, a nota dissonante a pôr em dúvida a capacidade do país de alçar voos mais altos de longo prazo. Em seus anos no poder, o PT pouco fez para melhorar esta situação.
É voz corrente que, para elevar o ritmo de crescimento sem comprometer a estabilidade da moeda, o Brasil precisa investir pelo menos 25% do PIB. É um patamar alto para nosso padrão atual, mas muito baixo quando comparado a nossos concorrentes diretos, como a China, que investe cerca de 40% da soma de suas riquezas – o que explica por que os chineses são o que são no mundo contemporâneo.
No ano passado, o Brasil investiu 18,4% do PIB. Como era de se esperar, houve alta sobre o recessivo ano de 2009. Mas a recuperação foi insuficiente para, pelo menos, reconquistar o padrão anterior à crise: 19,1% do PIB, a melhor marca em anos recentes.
Disso, uma parte ínfima equivale a investimentos públicos – algo como 1% do PIB. O restante vem da iniciativa privada e poderia ser muito, muito mais alto. Mas o PT não convive bem com esta alternativa, ao mesmo tempo em que demonstra enorme dificuldade para fazer o investimento público deslanchar no país. É preciso agir.
A indústria do turismo é uma das que mais cresce hoje no mundo, caminhando junto com a expansão dos rendimentos. Contribui, portanto, para a geração de emprego, para o aumento da renda nacional e pode ajudar na balança de pagamentos.
Se quer mesmo atacar o problema de pobreza extrema entre os brasileiros, a presidente Dilma Rousseff deveria olhar o setor do turismo com olhos mais abertos e sem os preconceitos que a trava petista tem imposto à realização dos investimentos no país. Se conseguir fazer isso, será Carnaval o ano inteiro.
Na segunda-feira de Carnaval, o Fórum Econômico Mundial divulgou relatório analisando as condições da indústria do turismo no mundo. Apesar de suas belezas naturais, campeãs absolutas, o Brasil figurou mal, muito mal, na fita. As razões foram a infraestrutura precária, os problemas regulatórios, a insegurança, a falta de mão de obra qualificada e os investimentos insuficientes.
A indústria do turismo é um maná que ainda pouco sabemos aproveitar. O setor movimenta 9,2% do PIB e 4,8% das exportações globais e recebe 9,2% dos investimentos mundiais. No Brasil, segundo o relatório, a economia do turismo girou US$ 110 bilhões em 2010, ou 6% do PIB local. Emprega 5,3 milhões de pessoas. Pode ir muito mais adiante.
Entre 139 países avaliados pelo Fórum Econômico Mundial, o Brasil apareceu apenas na 52ª classificação no ranking da indústria do turismo, despencando sete posições na comparação com o levantamento anterior, de 2009.
O país liderou o ranking no quesito recursos naturais, em razão da riqueza da fauna e dos nossos muitos lugares considerados patrimônios da humanidade. Foi bem, ainda, em bens culturais (23º) e em sustentabilidade ambiental (29º).
Mas foi um verdadeiro desastre em infraestrutura de transportes (estradas, portos e ferrovias): só saiu-se melhor do que 23 dos 139 países que compõem o ranking. Ou seja, o Brasil figurou apenas na 116ª colocação. Há problemas também quanto aos preços praticados aqui, em função, diz o relatório, de passagens caras, taxas aeroportuárias salgadas e impostos elevados em geral: com isso, ficamos na 114ª colocação no quesito.
O setor de turismo serve para ilustrar um problema de ordem mais geral que é a carente infraestrutura nacional. Os resultados do PIB de 2010, conhecidos na semana passada, deixaram claras, mais uma vez, as limitações que ela impõe ao crescimento sustentado do país.
O comportamento dos investimentos na composição geral do PIB foi, novamente, a nota dissonante a pôr em dúvida a capacidade do país de alçar voos mais altos de longo prazo. Em seus anos no poder, o PT pouco fez para melhorar esta situação.
É voz corrente que, para elevar o ritmo de crescimento sem comprometer a estabilidade da moeda, o Brasil precisa investir pelo menos 25% do PIB. É um patamar alto para nosso padrão atual, mas muito baixo quando comparado a nossos concorrentes diretos, como a China, que investe cerca de 40% da soma de suas riquezas – o que explica por que os chineses são o que são no mundo contemporâneo.
No ano passado, o Brasil investiu 18,4% do PIB. Como era de se esperar, houve alta sobre o recessivo ano de 2009. Mas a recuperação foi insuficiente para, pelo menos, reconquistar o padrão anterior à crise: 19,1% do PIB, a melhor marca em anos recentes.
Disso, uma parte ínfima equivale a investimentos públicos – algo como 1% do PIB. O restante vem da iniciativa privada e poderia ser muito, muito mais alto. Mas o PT não convive bem com esta alternativa, ao mesmo tempo em que demonstra enorme dificuldade para fazer o investimento público deslanchar no país. É preciso agir.
A indústria do turismo é uma das que mais cresce hoje no mundo, caminhando junto com a expansão dos rendimentos. Contribui, portanto, para a geração de emprego, para o aumento da renda nacional e pode ajudar na balança de pagamentos.
Se quer mesmo atacar o problema de pobreza extrema entre os brasileiros, a presidente Dilma Rousseff deveria olhar o setor do turismo com olhos mais abertos e sem os preconceitos que a trava petista tem imposto à realização dos investimentos no país. Se conseguir fazer isso, será Carnaval o ano inteiro.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Dilma Mãos de Tesoura
O ajuste fiscal anunciado nesta semana pelo governo Dilma escancara a dificuldade dos governos do PT para lidar bem com recursos públicos. Quando o necessário é frear os gastos, como é o caso desde o ano passado, pisa-se no acelerador. Onde é preciso investir mais, como em moradias populares, mete-se a tesoura. Falta aritmética nesta conta.
O governo precisou de 20 dias para definir como faria o ajuste anunciado em 9 de fevereiro passado. Parece que o tempo não foi suficiente. Dos R$ 53 bilhões divulgados na segunda-feira, apenas R$ 13 bilhões representam corte efetivo, estimou o Valor Econômico. Do restante, a maior parte é mais desejo do que realidade, ou mero blefe.
A redução de gastos prevê corte de R$ 36,2 bilhões em despesas não obrigatórias dos ministérios (inclusive gastos sociais) e R$ 12,2 bilhões em despesas obrigatórias (pessoal, benefícios previdenciários, seguro-desemprego e subsídios). O restante R$ 1,6 bilhão corresponde ao que já foi vetado pela Presidência na lei orçamentária.
De concreto, a tesoura de Dilma ceifou investimentos e o Minha Casa, Minha Vida. O programa perdeu R$ 5,1 bilhões, o suficiente para construir 200 mil moradias. Desmorona-se, assim, o discurso reiterado pela presidente de que o PAC não seria afetado pela sua marreta. Cai também por terra sua pregação, repetida ao longo da campanha eleitoral, de que “em hipótese alguma” faria um ajuste fiscal nas contas públicas.
Informa O Globo que o PAC já vem perdendo recursos desde o ano passado. O programa começou a ter suas verbas desidratadas quando foi aprovado o Orçamento da União para este ano. Desde então, R$ 8,5 bilhões já viraram fumaça: R$ 3,4 bilhões foram extirpados na versão final do OGU e R$ 5,1 bilhões do Minha Casa ruíram agora.
Na realidade, até agora o PAC de 2011 praticamente não saiu do papel. Dos R$ 40 bilhões autorizados, foram efetivamente pagos até hoje apenas R$ 591 mil, de acordo com o sistema de acompanhamento de gastos do Senado. A maior parte investida neste ano é de restos a pagar.
Soterrado numa montanha de escombros, o governo afirma que o corte nas verbas do Minha Casa não afetará sua meta de construir 2 milhões de habitações. Se for levado em conta o que o programa alcançou até agora, é melhor desconfiar também desta promessa.
Recorde-se que o compromisso assumido pelo governo Lula, com as bênçãos de Dilma, era construir 1 milhão de casas. Já se passaram quase dois anos desde então e a meta ainda está distante, muito distante. Segundo balanço divulgado em 12 de novembro do ano passado, menos de 200 mil moradias haviam sido efetivamente erguidas até aquela data.
Em suas demonstrações contábeis, anunciadas há duas semanas, a Caixa preferiu informar apenas que superou a meta de contratações do programa, sem detalhar quando de fato conseguiu construir. Não diz, claro, que foram erguidas menos de 6 mil casas para famílias com renda de até três salários mínimos – faixa em que se concentra o grosso do déficit habitacional do país, estimado em 5,8 milhões de unidades. Equivalem a 1,5% da meta.
Na divulgação das medidas do ajuste fiscal, o governo tentou a todo custo omitir que fazia o inverso do que a presidente prometera a seus eleitores. Mas o ministro Guido Mantega acabou deixando escapar que o arrocho se fez necessário por causa da aceleração excessiva da economia – decorrência direta da escalada de gastos públicos para eleger Dilma.
Também admitiu que, agora, voltará a perseguir a meta de superávit cheia, reconhecendo as mandracarias contábeis dos últimos anos. Mantega sustenta que o ajuste não visa a segurar a inflação. Deveria. Afinal, as projeções dos agentes econômicos não param de subir e levarão o Banco Central a aumentar hoje, mais uma vez, a taxa básica de juros.
O arrocho fiscal agora anunciado já nasce capenga e descalibrado. Nas contas de pé quebrado da equipe econômica de Dilma, não estão previstos, por exemplo, de onde virão recursos para bancar o aumento do Bolsa Família anunciado ontem, o iminente reajuste da tabela do imposto de renda, nem como será feito um novo aporte ao BNDES. É melhor se precaver: com tamanha habilidade, as mãos de tesoura vão acabar ceifando cabeças.
O governo precisou de 20 dias para definir como faria o ajuste anunciado em 9 de fevereiro passado. Parece que o tempo não foi suficiente. Dos R$ 53 bilhões divulgados na segunda-feira, apenas R$ 13 bilhões representam corte efetivo, estimou o Valor Econômico. Do restante, a maior parte é mais desejo do que realidade, ou mero blefe.
A redução de gastos prevê corte de R$ 36,2 bilhões em despesas não obrigatórias dos ministérios (inclusive gastos sociais) e R$ 12,2 bilhões em despesas obrigatórias (pessoal, benefícios previdenciários, seguro-desemprego e subsídios). O restante R$ 1,6 bilhão corresponde ao que já foi vetado pela Presidência na lei orçamentária.
De concreto, a tesoura de Dilma ceifou investimentos e o Minha Casa, Minha Vida. O programa perdeu R$ 5,1 bilhões, o suficiente para construir 200 mil moradias. Desmorona-se, assim, o discurso reiterado pela presidente de que o PAC não seria afetado pela sua marreta. Cai também por terra sua pregação, repetida ao longo da campanha eleitoral, de que “em hipótese alguma” faria um ajuste fiscal nas contas públicas.
Informa O Globo que o PAC já vem perdendo recursos desde o ano passado. O programa começou a ter suas verbas desidratadas quando foi aprovado o Orçamento da União para este ano. Desde então, R$ 8,5 bilhões já viraram fumaça: R$ 3,4 bilhões foram extirpados na versão final do OGU e R$ 5,1 bilhões do Minha Casa ruíram agora.
Na realidade, até agora o PAC de 2011 praticamente não saiu do papel. Dos R$ 40 bilhões autorizados, foram efetivamente pagos até hoje apenas R$ 591 mil, de acordo com o sistema de acompanhamento de gastos do Senado. A maior parte investida neste ano é de restos a pagar.
Soterrado numa montanha de escombros, o governo afirma que o corte nas verbas do Minha Casa não afetará sua meta de construir 2 milhões de habitações. Se for levado em conta o que o programa alcançou até agora, é melhor desconfiar também desta promessa.
Recorde-se que o compromisso assumido pelo governo Lula, com as bênçãos de Dilma, era construir 1 milhão de casas. Já se passaram quase dois anos desde então e a meta ainda está distante, muito distante. Segundo balanço divulgado em 12 de novembro do ano passado, menos de 200 mil moradias haviam sido efetivamente erguidas até aquela data.
Em suas demonstrações contábeis, anunciadas há duas semanas, a Caixa preferiu informar apenas que superou a meta de contratações do programa, sem detalhar quando de fato conseguiu construir. Não diz, claro, que foram erguidas menos de 6 mil casas para famílias com renda de até três salários mínimos – faixa em que se concentra o grosso do déficit habitacional do país, estimado em 5,8 milhões de unidades. Equivalem a 1,5% da meta.
Na divulgação das medidas do ajuste fiscal, o governo tentou a todo custo omitir que fazia o inverso do que a presidente prometera a seus eleitores. Mas o ministro Guido Mantega acabou deixando escapar que o arrocho se fez necessário por causa da aceleração excessiva da economia – decorrência direta da escalada de gastos públicos para eleger Dilma.
Também admitiu que, agora, voltará a perseguir a meta de superávit cheia, reconhecendo as mandracarias contábeis dos últimos anos. Mantega sustenta que o ajuste não visa a segurar a inflação. Deveria. Afinal, as projeções dos agentes econômicos não param de subir e levarão o Banco Central a aumentar hoje, mais uma vez, a taxa básica de juros.
O arrocho fiscal agora anunciado já nasce capenga e descalibrado. Nas contas de pé quebrado da equipe econômica de Dilma, não estão previstos, por exemplo, de onde virão recursos para bancar o aumento do Bolsa Família anunciado ontem, o iminente reajuste da tabela do imposto de renda, nem como será feito um novo aporte ao BNDES. É melhor se precaver: com tamanha habilidade, as mãos de tesoura vão acabar ceifando cabeças.
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