quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Não ao cheque em branco, e sem fundos

As informações mais recentes – e não apenas os resultados das pesquisas de intenção de votos – trazem uma clara mensagem do eleitor: ele quer aprofundar a discussão sobre o futuro do país. Para os que já perfazem a maioria da população, a eleição presidencial não deve se encerrar no próximo domingo. Vamos a um desejável e necessário segundo turno para escolher o melhor para o Brasil.

Pesquisa do Datafolha mostra que em duas semanas a distância entre as intenções de voto em Dilma Rousseff e os demais candidatos diminuiu de 14 para dois pontos – ou seja, está agora dentro da margem de erro. A petista caiu em todas as regiões do país e notadamente entre as mulheres; entre os que têm curso superior, entre os quais José Serra lidera, ela já é hoje apenas a terceira colocada.

É a voz rouca das ruas se fazendo ouvir, a contragosto do PT. A partir de meados de agosto, a campanha petista tentara mergulhar o país num torpor paralisante, segundo o qual o destino da nação estava selado. Não contava que a realidade se interpusesse e, mais uma vez, o PT e seus candidatos tropeçassem em falhas morais. A face do petismo revelou-se e o eleitor abespinhou-se.

A descoberta do balcão de negócios montado na Casa Civil, chefiada até outro dia por Dilma, e a devassa fiscal feita por meio da Receita Federal na vida de adversários políticos levaram os cidadãos a dizer ‘não’ a esta escalada de desmandos. A candidata petista sofre neste instante uma sangria de votos – seis milhões de eleitores teriam desistido de votar nela nos últimos 15 dias, segundo o levantamento do Datafolha.

E quem são, majoritariamente, os que estão desembarcando da candidatura Dilma? Segundo as mesmas pesquisas, são, em grande medida, os que foram os maiores beneficiados pelas políticas de inclusão empreendidas ao longo dos últimos anos. Entre os estratos de renda de dois a cinco salários mínimos, Dilma teve a maior erosão nas intenções de voto. O recado desse grupo é evidente: não basta ter mais dinheiro no bolso, é preciso um país decente.

São justamente as camadas onde se forma a opinião pública que estão se voltando contra Dilma e os descalabros que ela encarna. Aos poucos, a mesma percepção vai se espraiando pelo resto da sociedade, numa resposta à arrogância do presidente Lula, que, na semana passada, arvorou-se “dono” do que pensam os brasileiros. A população dá cada vez mais mostras de que não aceita pratos feitos, tampouco a tutela de quem quer que seja.

É este estado de coerção que afugentou os eleitores. O Brasil com o qual se sonha é um país de liberdades e oportunidades, de esforços reconhecidos, de méritos recompensados. É o oposto do sistema de compadrio, de achaques, de mistificações e obscurantismos que a candidatura Dilma encarna. Um modelo em que um Estado agigantado solapa as alternativas dos que não são amigos do poder, como relata Miriam Leitão na edição de hoje de O Globo: “A mistura é explosiva: de um lado, um Estado com poder de vida ou morte sobre as empresas; do outro, emissários do partido do governo com ameaças embutidas na formulação de pedidos”.

Dilma Rousseff tentou a todo custo evitar o confronto direto de ideias, muito provavelmente porque careça delas. (Os cercadinhos que a separam do povo e da imprensa são a face simbólica desta postura.) Agora, assustada com a possibilidade de ter de defrontar-se sem subterfúgios com um adversário único e direto, apela mais uma vez ao patrono de sua candidatura para tentar se livrar do segundo turno. Não conseguirá.

A candidata do PT ainda não entendeu o recado do eleitor: ele quer vê-la exposta ao contraditório, sujeita a contestações, instada a explicar-se. Quer ver fluir um debate franco e aberto de ideias e propostas para fazer um país melhor, menos desigual, repleto de justas oportunidades. A sociedade brasileira deu-se conta de que estava prestes a assinar um cheque em branco, e recusou-se. Até porque ele podia estar sem fundos.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Uma escolha de bem

Faltando seis dias para as eleições presidenciais, o Brasil encontra-se em uma encruzilhada. Entre os caminhos divergentes, há pelo menos uma concordância: as preocupações com os avanços sociais e econômicos da população.

Mas, se há convergência nisso, um dos lados em disputa exercita diuturnamente seu desprezo debochado por valores cruciais como respeito às leis, à liberdade de imprensa, aos direitos constitucionais, à ética, à honestidade pessoal e à distinção entre Estado e partido. É a turma de Dilma Rousseff e José Dirceu.

Em contrapartida, entre os partidários de José Serra o governo não é usado como propriedade pessoal ou, pior ainda, para beneplácito de um grupo de amigos; os adversários políticos não são tratados como inimigos do país; não se vê condenações à imprensa como instituição; o respeito às leis e às instituições é cláusula pétrea.

Se Serra é certeza de um Estado a serviço de todos os brasileiros, a quem serve o governo do PT, de Lula e de Dilma? Aos companheiros, com certeza, como ficou flagrante no balcão de negócios montado na Casa Civil por Erenice Guerra, braço direito da candidata petista.

A lista de malfeitos parece não ter fim. O país chegou a um ponto em que um participante de esquema sujo, ex-diretor de uma estatal, os Correios, confessa publicamente que o gabinete chefiado pela candidata oficial à sucessão era palco de uma “roubalheira”, conforme mostra a edição da revista Veja desta semana.

O ilícito corria solto entre a equipe de Dilma e seus apaniguados. Sete pessoas já foram demitidas. Mas o governo age no sentido convencer a população de que nada demais ocorre. Houve uma banalização da degradação, contra a qual se batem a oposição e, principalmente, os meios de comunicação.

Contra este estado de coisas, jornais como O Estado de S. Paulo – e seus 135 anos de tradição, respeitabilidade e, inclusive, franca e corajosa resistência à ditadura militar – apontam Serra como a melhor alternativa para melhorar a vida da população brasileira.

Em editorial publicado no sábado, o Estadão defendeu que a opção é entre “quem trata o governo e o seu partido como se fossem uma coisa só, submetendo o interesse coletivo aos interesses de sua facção” ou quem “pode representar a recondução do país ao desenvolvimento econômico e social pautado por valores éticos”. Não se trata, então, de uma escolha de Sofia.

Sob o comando de Lula, a tentativa de fazer um país socialmente mais justo, infelizmente, ocorreu, como lembra o jornal, “paralelamente a tentativas quase sempre bem-sucedidas de desconstrução de um edifício institucional democrático historicamente frágil”.

O que houve, na verdade, foi uma política na qual os avanços sociais não eram o objetivo final, mas um meio para a permanência de um grupo político no poder. E esse pessoal trouxe para dentro do Palácio do Planalto alianças espúrias, tráfico de influência, fisiologismo e enriquecimento suspeito dos amigos. Promoveu uma verdadeira ressurreição de párias da política.

Também em editorial, estampado na primeira página de sua edição dominical, a Folha de S. Paulo alertou para o risco de um eventual governo Dilma impor controles sobre a atuação da imprensa, responsável pela revelação de seguidas maracutaias do governo petista.

O jornal também relembrou que Lula não conseguiria nem um pedacinho dos atuais índices de popularidade caso não contasse com um ambiente internacional favorável ou não tivesse mantido a política econômica de Fernando Henrique.

É por posicionamentos lúcidos como estes que a imprensa é vista pelos petistas como seu mais temido inimigo. Não deixa de ser uma manifestação do horror que os partidários de Lula nutrem pela transparência, pela lisura, pela prestação de contas e pelo respeito aos cidadãos no trato da coisa pública. A atuação isenta e vigilante dos meios de comunicação é a maior garantia que dispomos hoje de que os malfeitos não prosperarão. É uma escolha de bem, assim como a de José Serra.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Corolário da intolerância

Desde o escândalo do mensalão é assim: quando se vê acuado por denúncias e evidências de corrupção e malfeitos, o PT acena com a possibilidade de “mobilizar as massas” em defesa de seu governo “democrático e popular”.

Acontecerá de novo nesta quinta-feira, quando ONG, sindicatos, agremiações estudantis e entidades amaciadas pelo ervanário público protestarão contra o “golpismo midiático”. Mas o que se pretende é muito mais: caçar o direito de divergir do governo petista, algo que esse pessoal simplesmente não suporta.

O evento desta quinta-feira não é ato isolado. Há algumas semanas, desde que foram sendo reveladas as violações na Receita Federal e as falcatruas na Casa Civil, o próprio presidente da República partiu para o ataque contra a imprensa. Comício após comício, ato público após ato público, Lula vem insuflando seu público, afrontando a liberdade de informar dos meios de comunicação. A turma do protesto simplesmente seguiu a senha dada pelo líder. Encena agora o corolário da intolerância.

Os tais “representantes” de entidades civis cumprem o papel que o petismo lhes reservou na Era Lula: servir de vassalos de um governo que muitas vezes lhes paga o salário e noutras tantas lhes garante gordas verbas públicas em forma de polpudos convênios. O PT transformou centrais sindicais, MST, UNE e confrarias do gênero em correia de transmissão dos interesses oficiais: funcionam como cães de guarda que o petismo põe em campo toda vez que alguma de suas maracutaias é descoberta.

O protesto desta semana também tem lá seu caráter preventivo. É como se o petismo quisesse dizer: “Não nos venham querer derrotar nas urnas, porque, se assim for, não deixaremos pedra sobre pedra neste país.” Não foi uma nem duas vezes que já se ouviu de próceres do lulismo que os tais “movimentos sociais” não dariam sossego a um eventual governo de alguém da oposição – tendo, claro, Lula como maestro. É desta maneira que esta gente respeita a democracia e a vontade popular...

Nem sempre Lula e o PT viram a imprensa como sua inimiga nº 1. Na realidade, ela lhes foi, no mais das vezes e por anos a fio, companheira. Muito do mito erigido em torno do líder popular deve-se aos meios de comunicação. Muito do denuncismo que sustentou a atividade parlamentar dos petistas por décadas só prosperou em razão do espaço que os jornais lhes franquearam. Mas, para o petismo, isso ainda é pouco: só serve a unanimidade.

O ataque do PT em busca da concordância absoluta se dá em duas frentes. Por um lado, ataca-se a liberdade de a imprensa independente atuar, o direito de algumas cabeças pensantes divergir. É a elite intelectual que precisa ser exterminada.

De outro, instrumentalizam-se vozes chapas-brancas para defender o governo a qualquer preço e a toda hora. O governo montou uma barricada guerrilheira na internet (basta observar quem patrocina os blogs alinhados ao governismo), espraiou a subserviência por jornais do interior do país cevados a gordas publicidades oficiais e engendrou uma potente máquina de propaganda por meio de empresas públicas travestidas de jornalísticas. Uma estratégia de guerra para aniquilar vozes dissonantes e amplificar a de áulicos.

Tudo considerado, estamos diante de um dos piores legados da era Lula: a intolerância com o contraditório. Divergir do discurso oficial tornou-se crime no Brasil, coisa de quem “torce contra”, a ser punido com as garras do aparato estatal (a Receita Federal está aí para isso...). Uma verdadeira herança maldita que só encontra competidora à altura na leniência com o malfeito – algo que este governo não só pratica como tenta inocular na sociedade. Marcas de uma era que o país ainda demorará um tempo para eliminar, mas que é preciso começar já a varrer.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Um envelope fechado, recheado de dinheiro sujo

Parece não ter fim a torrente de escândalos que inunda o governo Lula e, mais especificamente, a pasta que até outro dia foi chefiada por Dilma Rousseff. A turma da ex-ministra e agora pretendente a presidente da República está enredada nas mais tenebrosas transações. Caraca!

Nas explicações do PT e do governo, a candidata não sabia de nada que acontecia em torno de sua antiga sala no Palácio do Planalto. Lula, muito menos. E eram coisas pesadíssimas, como tráfico de influência, cobrança de propina, nepotismo descarado e até mesmo a farta distribuição de pacotes de dinheiro vivo como pagamento de corrupção.

Ao mesmo tempo, a campanha eleitoral atribui à petista qualidades de grande executiva. Dá para acreditar? Das duas uma: ou Dilma é uma péssima administradora, incapaz de perceber o que se passa sob seu nariz, ou então tem tudo a ver com este mar de lama que assola o Planalto. Com qual versão ficar?

A mais nova reportagem da revista Veja joga mais luz nos subterrâneos petistas. Deixa claro que no governo Lula o país deixou de ter uma Casa Civil, substituída por uma verdadeira casa da mãe Joana – ou será da “tia” Dilma, como a chamavam os alopradinhos de Erenice Guerra?

A publicação mostra que, em julho do ano passado, o advogado Vinícius de Oliveira, recém-ingresso no ministério comandado pela dupla Dilma/Erenice, deparou-se com um envelope recheado com R$ 200 mil na gaveta de sua mesa. Tratava-se de uma espécie de corrupção preventiva: todos ali haviam recebido o seu, como parte de uma operação envolvendo a compra emergencial do Tamiflu, medicamento para combate à gripe suína, pelo governo brasileiro. Até da desgraça alheia esta gente tenta se aproveitar.

Entre os sócios desta quadrilha em ação dentro do Palácio do Planalto (será uma ramificação daquela do mensalão?) está uma lista de nomes que não para de crescer, formada por amigos e parentes de Erenice. Lá estão filhos, marido, irmãos, ex-cunhada e uma parentalha sem fim. Sempre envolvida em negócios cotados em bilhões de reais, Erenice é, desde já, responsável por dar uma nova acepção à Bolsa Família.

Nunca é demais lembrar que Erenice Guerra e Dilma Rousseff são unha-e-carne. Estiveram lado a lado desde os primeiros momentos do governo Lula, ainda antes da posse. São quase oito anos juntinhas. A pergunta que não quer calar é: onde estava Dilma enquanto esta rede de falcatruas se expandia? Na melhor das hipóteses, estaria inaugurando pedras fundamentais e obras inacabadas do PAC ou em algum palanque pelo Brasil afora. Seria, assim, uma administradora tremendamente incapaz.

A outra alternativa – que, convenhamos, é bem mais provável – é ainda pior: Dilma conhecia tudo o que se passava sob seu nariz. Já se sabe que muitas das reuniões ocorreram no quarto andar do Palácio do Planalto. Em sua edição de ontem, a Folha de S. Paulo mostrou que o nome de “tia” Dilma era utilizado pelos meninos de Erenice para avalizar as transações.

A candidata petista recusa-se a esclarecer as dubiedades que cercam o caso. Chama a descoberta do balcão de negócios montado na Casa Civil de “factóide”. Mostra-se, cada vez mais, um envelope fechado, que provavelmente esconde dentro uma má surpresa para o destinatário, o povo brasileiro.

Ninguém sabe ao certo o que Dilma pretende para o país, já que se recusa a pôr no papel e divulgar seu programa de governo – algo que “nunca” acontecerá, segundo o responsável por coordenar a sua elaboração, o czar obscurantista Marco Aurélio Garcia. É o velho horror petista à luz.

A forma mais efetiva de avaliar o que Dilma nos reserva é mirar suas atitudes pregressas e as escolhas que fez. Suas nomeações são um primor: Erenice, Silas Rondeau (defenestrado do Ministério de Minas e Energia sob suspeita de irregularidades), Milton Zuanazzi (responsável por lançar a Anac no voo cego que resultou na morte de centenas de passageiros nos dois maiores acidentes aéreos da história brasileira), Fernando Pimentel (o ex-prefeito de Belo Horizonte especializado em dossiês criminosos). E por aí afora.

Sobre o que esperar de um governo Dilma (toc, toc, toc, bate na madeira) há outras indicações, tão ou mais explícitas. Vocalizadas pelo “companheiro de armas” José Dirceu, elas dão conta de que, com Dilma, o PT vai finalmente implantar seu real projeto de poder, em que, entre outras coisinhas, provavelmente a imprensa não disporá de tanta liberdade quanto hoje. Palavras do “chefe da quadrilha” do mensalão petista.

Mesmo com todo o esforço do PT para esconder quem realmente é sua candidata, pouco a pouco os eleitores brasileiros tomam conhecimento de uma realidade nada agradável. Dilma revela-se péssima administradora, sem um programa de governo explicitado, aliada dos mais atrasados e danosos políticos do país, conivente por anos com um enorme esquema de corrupção montado dentro de seu gabinete. Isso não é café pequeno.