Dilma Rousseff ocupou ontem 11 minutos e 46 segundos de rede nacional de rádio e televisão. Em meio a uma penca de temas, nem sempre conexos, dedicou exatos 27 segundos a falar do assunto que mais interessa ao país hoje: a estabilidade da moeda e o controle da inflação. A desproporção ilustra as reais preocupações do governo petista com a carestia.
Supostamente dedicada ao Dia do Trabalho, a fala da presidente juntou assuntos tão díspares quanto educação, royalties de petróleo, geração de emprego e – até mesmo – inflação. Mais serena que das outras vezes, nem por isso perdeu seu costumeiro tom eleitoral, a ponto de Dilma terminar seu pronunciamento com quatro frases seguidas em exclamação, sobre pomposa trilha sonora.
Foi o 13° pronunciamento da presidente em rede nacional. Dilma já conseguiu tornar-se mais loquaz que seu antecessor: Lula precisou de cinco anos para alcançar o mesmo número que a presidente alcançou em menos de dois anos e meio, segundo levantamento publicado hoje por O Globo.
Mas o que interessa aqui é avaliar como a presidente, e, consequentemente, seu governo, enxerga o problema da inflação no país. A palavra foi usada apenas uma única vez no seu discurso de ontem, em meio a outros 1.428 vocábulos. O tema é tratado em apenas um dos 29 parágrafos redigidos por João Santana para Dilma recitar no rádio e na TV.
Eis a frase única: “É mais do que óbvio que um governo que age assim e uma presidenta que pensa desta maneira não vão descuidar nunca do controle da inflação. Esta é uma luta constante, imutável, permanente. Não abandonaremos jamais os pilares da nossa política econômica, que têm por base o crescimento sustentado e a estabilidade.”
Nenhuma palavra mais foi dita a respeito. Por que será? Porque, assim como o PT, a presidente baseia sua visão sobre inflação numa crença fajuta: vale trocar um pouco de aumento nos preços por um tantinho mais de crescimento. No Brasil de Dilma, acontece uma coisa, mas não acontece a outra: nossa inflação é alta, mas nosso crescimento é baixinho.
A inflação brasileira está bem acima da média mundial. Enquanto as previsões mais otimistas esperam algo em torno de 5,7% para este ano, as economias avançadas devem ter inflação de apenas 1,6%, segundo o FMI. O avanço da nossa economia, porém, tem sido bem menor. Na América Latina, depois de perdermos para todos os países exceto o Paraguai em 2012, neste ano só ganharemos da Venezuela, segundo a Cepal.
Mesmo assim, Dilma preserva uma visão míope do problema, que externara com todas as letras em março, na África do Sul: “Não concordo com políticas de combate à inflação que olhem a questão da redução do crescimento econômico. Esse receituário que quer matar o doente em vez de curar a doença é complicado, é uma política superada”. A presidente não cumprirá a meta de inflação em nenhum dos quatro anos de seu mandato.
Na semana passada, o coro engrossou quando Fernando Pimentel disse que o Brasil tem uma “inflação de base” de 5% a 6%, dando a entender que, com os petistas, dificilmente a taxa cairá abaixo disso e que o PT não vai fazer o menor esforço para tanto. O ministro do Desenvolvimento fala com base na experiência: na era petista, a média de inflação no Brasil foi de 5,8%.
Em março, a inflação superou o teto da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o ano, chegando a 6,59%. Em abril e maio, o índice deve arrefecer um pouquinho por razões estatísticas, pela ajuda da safra agrícola recorde e pelo recuo de preços internacionais, principalmente das commodities.
Em junho, porém, a taxa deve voltar a subir e novamente furar o teto. Será uma boa ocasião para discutir uma mudança importante no tratamento do problema no país: no fim do semestre chegará a hora de o CMN – integrado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do Banco Central – estipular a meta de inflação que valerá para 2015, ou seja, para o primeiro ano do próximo governo.
Se o governo do PT, de fato, tiver algum compromisso com o controle da escalada dos preços, será um bom momento para o país passar a perseguir, progressivamente, patamares mais baixos de inflação, e não continuar flertando perigosamente com o teto de uma meta que se tornou fictícia.
A meta para 2015 poderia ser mais baixa que os 4,5% que vigoram no país desde 2005. Nosso patamar atual é alto sob quaisquer ângulos que se analise: entre 29 países que adotam regimes como o brasileiro, apenas Gana e Turquia têm hoje metas superiores à nossa. Convenhamos, não deveriam ser os melhores modelos para o Brasil...
Como quem reconquistou a estabilidade da nossa moeda, a oposição sabe como é importante garantir que o país não perca esta conquista, o que penaliza, sobretudo, os mais pobres. Contra a inflação, tolerância zero. Esta convicção, infelizmente, tem faltado ao governo da presidente Dilma Rousseff, como, mais uma vez, ficou claro no seu pronunciamento de ontem.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
quarta-feira, 1 de maio de 2013
PT quer crise, ou golpe
Líderes do Congresso e do Supremo Tribunal Federal agiram ontem para jogar água na fervura do conflito que se instalou entre os dois poderes desde a semana passada. Mas, deixando claro a quem interessa suscitar a crise, o PT dedicou-se a dobrar a aposta no confronto com o Judiciário. O partido dos mensaleiros mantém seu flerte golpista com a instabilidade.
Apresentada pelo
petista Nazareno Fonteles, a iniciativa de tentar mudar a Constituição e
sujeitar decisões do STF à aprovação do Congresso não é ato isolado. Embora, à
primeira vista, pudesse parecer algo extravagante, a proposta de emenda
constitucional de autoria do deputado pelo Piauí coaduna-se com a filosofia e
os sonhos que movem boa parte dos petistas.
Turvar o equilíbrio
entre os poderes, retirar a força das instituições, cercear as liberdades,
minar órgãos de controle e fiscalização e impor as vontades do governo de turno
também são objetivos de outras iniciativas apresentadas em âmbito parlamentar
ou defendidas pelo PT em cima de palanques.
É o caso de outra
proposta de emenda constitucional a ser apresentada por um petista, desta vez de
primeiríssimo escalão. No mesmo dia em que o ministro Gilmar Mendes, do STF, e os
presidentes da Câmara e do Senado atuavam para apaziguar ânimos, Marco Maia,
petista que comandou a Câmara até o início do ano, foi à tribuna propor nova
medida para arrostar a Justiça.
Sua proposta de
emenda à Constituição tenta restringir decisões do Supremo, vedando a suspensão
de proposições em tramitação no Congresso, leis ou emendas constitucionais que decorra
de decisão monocrática (isto é, tomada por um só ministro do STF) referente a mandados
de segurança, ações diretas de inconstitucionalidade ou ações declaratórias de constitucionalidade.
Mas Maia não está
sozinho. A investida mais robusta e, digamos, orgânica dos petistas origina-se
em uma comissão especial instalada na Câmara em novembro do ano passado. A Comissão
Especial de Aprimoramento das Instituições Brasileiras foi gestada pela cúpula
petista, criada por requerimento de um petista, aprovada pelo então presidente
petista da Câmara e é relatada por um petista.
Seus objetivos mais
evidentes são tentar impor limites e competências aos poderes, em especial à
atuação do Judiciário e do Ministério Público (alvo também da chamada “PEC da
Impunidade”), como mostrou ontem a Folha de S.Paulo. Mas seu sonho de consumo é criar mecanismos para que se
instaure a chamada “democracia participativa”, velha utopia dos petistas mais
radicais. O que é isso?
Trata-se de modelo
que leva ao extremo as possibilidades de interferência dos cidadãos no processo
político do país. No limite, as decisões ficam sempre sujeitas ao crivo direto e
permanente dos eleitores, a despeito de terem sido tomadas por seus
representantes eleitos no Parlamento ou no Executivo.
Ao fim e ao cabo, o sonho
petista – que para a democracia é o pior dos pesadelos – é instituir, sob
verniz democrático e constitucional, a velha ditadura do proletariado. Funcionaria
mais ou menos como funcionava na Venezuela e como funciona agora na Bolívia:
toda vez que o governo se visse constrangido por alguma manifestação ou decisão
contrária a seus interesses, as massas seriam mobilizadas e chamadas a opinar.
A este respeito,
basta ler o que pensa o relator da tal comissão especial, o deputado Rogério Carvalho
(PT-SE): “O governo é a materialização da vontade popular num determinado
momento histórico. Este governo está conseguindo valer a vontade popular, ou
está sufocado pelas instituições de Estado? (...) São questões que precisamos
aprofundar e identificar como solucionar e superar isso. Caso o entendimento
seja de que sim, a gente tem que encontrar caminhos para fortalecer os governos”,
explicou, em entrevista recente ao site
do PT.
Em seus dez anos de governo,
o PT não topou levar adiante, dentro dos princípios legais e constitucionais,
nenhuma reforma estrutural de que o país precisa. Entretanto, à sorrelfa, em
surdina, na base da guerrilha, seus comandados tentam diuturnamente dinamitar o
arcabouço constitucional brasileiro, sempre em prejuízo da democracia, sempre
no sentido de limitar liberdades ou a atuação dos órgãos e instituições que não
dizem amém ao governo. Não há nada de insignificante, fortuito ou errático
nestes movimentos: o objetivo dos petistas é alcançar a dominação total do
poder.
terça-feira, 30 de abril de 2013
Petrobras ainda no fundo do poço
A Petrobras completa seis décadas de fundação neste ano. Infelizmente, sua trajetória recente fornece poucos motivos para comemoração. Nunca antes na sua história, a companhia viu a produção de seus poços caírem tanto quanto agora. É um contrassenso sem tamanho para a maior empresa do país do pré-sal. Onde está o fundo do poço?
No primeiro
trimestre do ano, a Petrobras produziu
5% menos petróleo e gás natural. Repete-se uma sina que só encontrou similares
com Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva. Junto com Dilma
Rousseff, foram os únicos presidentes da República a conseguir a proeza de
fazer a produção da nossa maior companhia andar para trás.
A produção de
petróleo no país caiu a 1,910 milhão de barris diários até março. A média do
trimestre é a mais baixa para o período desde 2008, ou seja, em cinco anos. Não
há perspectiva de que se recupere antes de 2015, devido a uma série de gargalos,
paradas na operação de suas plataformas e declínio “natural” de alguns campos.
Tudo isso está acontecendo
a despeito de o volume de petróleo extraído do pré-sal estar subindo, chegando
a 300 mil barris/dia. Ou seja, os poços da companhia situados em áreas
tradicionais e mais antigas operam hoje num nível bem mais baixo que o de pouco
tempo atrás. A situação poderia, portanto, estar bem pior.
Não cumprir metas de
produção tornou-se uma constante na Petrobras na era petista. Desde 2003, a
estatal divulgou dez planos de negócio. Em todos eles, sistematicamente, as
metas de produção de petróleo foram sempre revistas, sempre para baixo. E jamais
foram alcançadas. O atual nível de produção deveria ter sido atingido em 2006.
Uma empresa que
consome tanto investimento – seu plano atual prevê US$ 236,7 bilhões até 2017 –
para produzir menos não pode estar sendo bem gerida. É certo que a situação na
Petrobras já foi bem pior do que antes da gestão Graça Foster, quando a
companhia tinha Dilma Rousseff na presidência do Conselho de Administração. Mas
nem por isso seus resultados tornam-se menos ruins.
A Petrobras lucrou
17% menos no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado.
Analistas de mercado esperavam coisa pior, o que, felizmente, não aconteceu.
Mas nunca é demais lembrar que o ganho mais baixo de agora veio depois de um
tombo de 36% registrado no exercício de 2012, quando a rentabilidade foi a
menor em oito anos.
Mesmo com dois
reajustes obtidos no trimestre, a Petrobras continua a registrar pesadas perdas
contábeis em razão da defasagem entre os preços dos combustíveis que vende e o
dos que importa – estimada em 16%. Sua área de abastecimento teve prejuízo de
R$ 6,5 bilhões no trimestre. É difícil gerar ganhos quando o acionista majoritário,
o governo federal, lhe impõe tão pesado cabresto.
Boa parte destas
perdas se deve ao monumental volume de derivados que a Petrobras tem sido
obrigada a importar em razão da insuficiente capacidade de refino de que hoje dispõe.
Só em 2012, foram desembarcados 3,8 bilhões de litros no país, que nos custaram
US$ 3 bilhões, com alta de 82% no ano. A tão propalada autossuficiência evaporou
e só deve ocorrer, se ocorrer, em 2020.
A espiral
descendente da Petrobras coincide com os anos de comando petista, mas acentua-se
depois que mudou o marco regulatório do setor, torna-se mais aguda com os altos
custos que a política de conteúdo nacional impõe à companhia e agrava-se à
medida que a estatal se vê compelida a responder pelos pesados investimentos do
pré-sal. Está difícil enxergar onde, de fato, está o fundo do poço.
sábado, 27 de abril de 2013
Sujeito oculto
É lamentável ver Legislativo e Judiciário entrarem em confronto aberto, como está acontecendo agora. Entretanto, parece existir um sujeito oculto nesta guerra deflagrada entre os dois poderes da República: o Executivo. É ao partido que está no poder que interessa desacreditar as instituições e minar o estado democrático de direito.
Já há algum tempo, Parlamento
e Justiça vêm numa escalada de tensões, em razão de decisões de um e da outra
que geraram desagrados mútuos. Nesta lista estão a resistência de parte do
Congresso em punir, com perda de mandato, os mensaleiros condenados pelo Supremo
Tribunal Federal e as recentes manifestações da corte sobre a divisão de royalties
e o Fundo de Participação dos Estados. Há excessos dos dois lados.
Mas o estopim da
crise atual foram duas iniciativas umbilicalmente ligadas ao projeto de poder
petista: o projeto de lei que busca cercear candidaturas adversárias ao governo
em 2014 e a proposta de emenda constitucional que visa usurpar poderes do STF e
submeter decisões suas ao Congresso e, no limite, até a referendos populares.
Ambos são parte da sanha
totalitária do PT. Um tem o claro objetivo de, de modo casuístico, impedir que
a presidente Dilma Rousseff enfrente um maior número de concorrentes nas eleições
presidenciais do ano que vem. A outra constrange um poder que vem tomando decisões
incômodas para o petismo, pondo alguns de seus próceres no banco dos réus.
Um dos princípios
básicos e fundamentais de uma democracia é o equilíbrio entre os poderes
Executivo, Legislativo e Judiciário. Aliado a isso, as instituições de Estado
precisam ser respeitadas. São preceitos que formam o arcabouço que garante,
como corolário, que os direitos dos cidadãos serão respeitados e sua liberdade,
assegurada.
Têm sido frequentes
episódios em que estes alicerces têm sido golpeados pelo PT. Sempre que pode, o
partido que se notabilizou por ter posto em marcha o maior esquema de corrupção
que se tem notícia na nossa história investe contra nossas instituições, tenta
cercear as liberdades e impedir o legítimo exercício da crítica. O desapreço à
democracia é o denominador comum destas atitudes.
Neste ambiente, parece
nítido que interessa bastante ao Palácio do Planalto que Congresso e Supremo se
digladiem. É mais uma maneira de desacreditar as instituições perante a opinião
pública e levar a sociedade a crer que ninguém presta. Este caldo de degradação
acaba por servir para nivelar tudo e todos por baixo, como o PT tem tentado fazer
desde que se viu flagrado no mensalão.
O atual conflito
entre os poderes, que o Valor Econômico considera que “nunca foi tão tenso”, nasce de atitudes da maioria
governista no Congresso voltadas a fazer valer a todo custo as conveniências e
vontades do Executivo. Os principais embates com o Judiciário surgiram da omissão
do Executivo em arbitrar questões ou da instrumentalização da base aliada,
usada como massa de manobra pelo Planalto.
Soma-se a esta mistura
malcheirosa manifestações como as de José Antonio Dias Toffoli. O ex-assessor
petista e hoje ministro do Supremo considera a campanha eleitoral extemporânea
e desleal protagonizada pela presidente da República como ação normal de
governo: “É abuso? Não. É atividade política. (...) Não vão achar um voto meu
tirando tempo de propaganda partidária porque está mostrando atividade do seu
governo”, disse
ele ontem.
Inspirado em maus
exemplos, como a Argentina, a Venezuela e outros governos de pior verniz, os
petistas parecem ver com naturalidade este estado geral de degradação. Mais que
isso, mostram-se interessados em ver o fogo alastrar, talvez apostando que a
disseminação de absurdos possa favorecê-los eleitoralmente. O velho partido do “quanto
pior, melhor” ataca novamente.
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