sexta-feira, 11 de julho de 2014

A goleada da inflação

A Copa do Mundo está chegando ao fim e, à medida que seus eflúvios vão se dissipando, os brasileiros vão se virando cada vez mais para os muitos problemas que se acumulam no país à espera de solução. Um dos mais preocupantes é a inflação. O governo petista brincou com fogo e não parece nem um pouco capaz de controlar o incêndio.

No mês de junho, mais uma vez, a inflação acumulada superou o limite superior da meta. Nos últimos 12 meses, o IPCA variou 6,52%, de acordo com o IBGE. O regime em vigor no país determina como alvo o percentual de 4,5%, com tolerância de até dois pontos percentuais para cima ou para baixo.

Em 42 meses da administração Dilma Rousseff, esta é décima primeira vez que a meta é estourada. Ou seja, em mais de um quarto do mandato da presidente transcorrido até agora a política econômica em vigor não foi capaz de entregar a inflação prometida. Qualquer semelhança com o desempenho geral do PT no governo não é mera coincidência...

A tendência é não haver refresco nos próximos meses. Até por uma questão estatística. Nesta altura do ano passado, em função de recuo no preço de alimentos, o IPCA registrado foi muito baixo, chegando, por exemplo, a 0,03% em julho de 2013.

Estima-se agora que os dados de um ano atrás serão substituídos nos próximos meses por altas mais fortes, engordando a inflação acumulada em 12 meses. Deve ser assim pelo menos até a véspera das eleições gerais de outubro.

Há risco de 2014 terminar com o IPCA acima do limite superior da meta. Hoje, a média das previsões de mercado, colhidas semanalmente pelo Banco Central e divulgadas no Boletim Focus, está em 6,47%. A um triz, portanto, o teto.

Em seus três anos de mandato transcorridos até aqui, Dilma não passou nem perto de cumprir o que determina o Conselho Monetário Nacional. A meta – que é de 4,5% e não de 6,5% como o governo tenta apregoar – nunca foi cumprida pela presidente, e nem será.

Trata-se de uma sina das gestões petistas. Nos últimos 12 anos, apenas em três ocasiões a inflação oficial não superou a meta: 2006, 2007 e 2009. Mas o governo prefere sustentar que foi bem sucedido apenas por não ter deixado o índice estourar o limite superior.

O Brasil tem registrado uma das mais elevadas inflações do mundo. Entre os países do G-20, por exemplo, apenas seis exibem índices de preços mais altos que o nosso: Argentina (11% acumulados nos últimos 12 meses), Turquia (9,2%), Índia (8,3%), Rússia (7,8%), Indonésia (6,7%) e África do Sul (6,6%), segundo o Trading Economics.

Para complicar, há sério risco de os índices de inflação escalarem mais adiante, porque há muitos preços sendo fortemente controlados pelo governo. Sua alta é de 3,9% nos últimos 12 meses. Se a intenção não for quebrar a Petrobras, inviabilizar a geração de energia ou sucatear ainda mais o transporte público no país, logo logo eles terão que ser reajustados.

Enquanto isso, os demais preços – os chamados “livres” – estão subindo muito mais que a média do IPCA. No acumulado em 12 meses, a alta chega a 7,3%. Desde 2010, os alimentos estão subindo em média 9% ao ano no Brasil. Mas há itens com aumento bem mais expressivo, como carnes, com preços mais de 16% maiores em um ano, como analisa o economista Felipe Salto.

Os brasileiros já se deram conta da corrosão mensal de seus salários e apontam a inflação como principal problema do país hoje. Precisamos de políticas consistentes contra a carestia, a ser tratada com tolerância zero. A gestão Dilma, porém, parece ainda acreditar que preços um pouquinho mais altos não fazem mal se o objetivo é conquistar mais crescimento econômico. Não conseguiu nem uma coisa nem outra. E agora assiste o circo pegar fogo, perdendo de goleada para o dragão.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A derrota do jeitinho

Jogos de futebol deveriam se limitar ao que se passa dentro de campo, entre as quatro linhas. Mas a exaustiva exploração que envolveu e envolve a realização da Copa do Mundo no Brasil autoriza analisar o que aconteceu ontem no Mineirão sob o aspecto das vinculações que cercam esporte e política. Na alegria e na tristeza.

A histórica derrota sofrida pela seleção pode servir como lição para que o Brasil se torne um país melhor. A vitória alemã representa o triunfo da técnica, da disciplina, do método e do rigor sobre o improviso, o descompromisso e a fé em que, no fim, tudo vai dar certo, porque, afinal de contas, Deus é brasileiro e conosco ninguém pode.

A Copa começou para o Brasil com um gol contra e terminou com a maior – em vários e diferentes aspectos – goleada da história do futebol mundial. Um vexame de proporções homéricas. Será que isso não nos diz algo sobre o que acontece quando abdicamos de fazer o que é certo apostando que, ainda assim, no fim nada vai dar errado?

Diz-se que a derrota de 1950 para o Uruguai foi uma tragédia que marcou a alma brasileira e impingiu-nos certo complexo de vira-latas. Quem sabe a humilhação de 2014, com o êxito da racionalidade germânica, não nos faça acordar para a premente necessidade de levarmos as coisas mais a sério e nos tornarmos, enfim, a grande nação que podemos chegar a ser?

O pior que pode acontecer agora é ignorar que o fiasco da seleção deve muito à forma com que os problemas são enfrentados no país. Improvisa-se um Bernard em campo, sem sequer testá-lo antes no time em um treino tático, achando-se que, assim, engana-se o técnico adversário e logra-se a vitória. Sem maiores esforços, sem sacrifícios. É o cúmulo da cultura da esperteza, que só nos afunda, mas não está presente apenas no esporte. Pelo contrário.

O marketing político tornou-se expert em apropriar-se de sentimentos desta natureza e insuflá-los. No caso específico da Copa, quantas vezes, ao longo de sete anos, não ouvimos autoridades federais dizendo que o “jeito brasileiro” de fazer as coisas seria um sucesso, como se organização, planejamento e método fossem atributos indesejáveis para uma nação tão criativa quanto a nossa?

Nos últimos dias, com oportunismo, cresceu o ímpeto do governo federal em associar-se aos belos espetáculos vistos dentro de campo por seleções tão improváveis quanto a da Costa Rica. A gestão petista sentiu-se autorizada a surfar na onda da satisfação do público com o que via nos gramados, como se, a cada lance genial de Robben ou Müller, correspondesse uma obra de mobilidade urbana ou de infraestrutura realizada.

Ao longo de sete anos, a gestão petista tentou transformar a Copa num ativo político. Fez isso com mais ou menor ímpeto ao sabor dos humores que captava do público. Tentou desvincular-se do torneio depois dos protestos de junho de 2013 da mesma forma que tenta agora dizer que não tem nada a ver com o fracasso de ontem. Aproximou seus palanques dos gramados enquanto o futebol encantava.

De fato, evidentemente, o governo não pode ser responsabilizado pelo futebolzinho que a seleção jogou no Mineirão. Mas precisa, sim, responder por tudo o mais que a Copa do Mundo deixou de entregar: desde as promessas frustradas até o desperdício de recursos públicos que certamente teriam sido melhor empregados em algo mais premente para a população do que elefantes brancos apelidados de arenas.

Houve, sim, bons resultados durante a Copa, a partir de esforço gigantesco e compartilhado de diversas instâncias de poder, assim como de empenho privado, compromissos coletivos e participações individuais. O brilho que cerca o torneio é obra coletiva, mas daí a dizer que, no fim das contas, foi tudo uma “belezura” vai imensa distância.

Na retórica oficial, criticar a má preparação, o desperdício de dinheiro público, os compromissos não honrados, as promessas negligenciadas foi sempre considerado crime de lesa-pátria, como torcida contra, como coisa de “urubus” e “pessimistas”. Jamais se encarou a crítica como legítima colaboração a fim de se produzir mais e melhores benefícios para a população.

O sucesso ocasional visto em vários aspectos da Copa – mas, repita-se, longe de ser um triunfo geral – só ressalta a constatação de que o país pode ir muito mais longe. Se fez bem durante 30 dias para não fazer feio para o mundo, por que não faz sempre assim para fazer bonito para os brasileiros?

Que a derrota das derrotas sofrida para a Alemanha seja um aprendizado. O país que precisamos construir não cabe em slogans bobocas como o que tenta nos convencer de uma “Copa das Copas” que, assim como o Brasil da propaganda oficial, nunca existiu. 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Curtindo um palanque adoidado

Começou ontem, oficialmente, o período para as campanhas eleitorais deste ano. A partir de agora, as condições de competição entre os candidatos tornam-se menos desequilibradas. Nada impede, porém, que aqueles que têm a máquina nas mãos continuem a abusar da privilegiada condição, a exemplo do que tem feito Dilma Rousseff.

Nas últimas semanas, a candidata-presidente empreendeu uma agitada agenda de inaugurações e participações em eventos públicos a fim de turbinar sua exposição e, desta maneira, compensar pelo menos em parte a erosão em sua popularidade. Foram oito estados em dez dias, entregando o que estava e, principalmente, o que não estava pronto.

Na quinta-feira passada, deu-se o ápice e a petista protagonizou um dos lances de politicagem eleitoreira mais explícitos da história. Despachou ministros – de áreas tão díspares quanto saúde, portos e ciência e tecnologia – para 11 localidades em sete estados do país e comandou a entrega sincronizada de moradias do Minha Casa, Minha Vida.

A partir de Brasília, a presidente ganhou ribalta para aparecer em telões espalhados pelo Brasil, enquanto seus enviados ensaiavam um jogralzinho desfilando as maravilhas particulares de cada conjunto habitacional entregue. Tudo pago com dinheiro (R$ 2 milhões, pelo menos) do contribuinte.

Dilma aproveitou a ocasião para lançar a terceira fase do programa habitacional. Não explicou, porém, como assumiu compromissos que não tem como garantir – seja porque novo mandato ela ainda não tem, seja porque sequer as condições objetivas para uma futura nova etapa estão asseguradas.

“Segundo o Ministério das Cidades, não há previsão para publicação da portaria com o detalhamento do programa”, informou O Globo. Não se sabe as condições operacionais, nem tampouco o montante de recursos disponível para construir as prometidas 3 milhões de novas unidades.

É no mínimo curioso que o governo faça novos anúncios muito antes de cumprir suas antigas promessas. No caso do Minha Casa, apenas 25% das moradias prometidas por Dilma em 2011 foram efetivamente entregues aos beneficiários até agora, mostrou O Estado de S. Paulo em sua edição de sábado.

Esta, aliás, é a tônica da correria petista em véspera eleitoral: apressar-se para tentar mostrar em poucas semanas o que não fez em quatro anos – em muitos casos, em 12 anos...

É sintomático que o grosso da agenda de Dilma seja preenchido com sua participação em formaturas de alunos de ensino técnico, a entrega de moradias e a doação de máquinas e equipamentos a prefeitos. É o que ela tem a mostrar. Grandes obras, nem pensar.

Os petistas se sentem bastante à vontade nos palanques, mas não na administração diária do país. Governar dá trabalho e isso não é lá muito com eles. Uma pequena amostra disso é que, recentemente, Dilma foi questionada por jornalistas estrangeiros sobre por que a economia brasileira vai tão mal e, singelamente, respondeu: “Não sei”.

Os brasileiros, contudo, não têm dúvidas: é preciso mudar a situação geral do país, desejo expresso por sete em cada dez cidadãos. A oportunidade para isso começa agora com uma campanha eleitoral destinada a discutir francamente um novo e melhor futuro para o Brasil. Resta saber se o PT está disposto a isso ou vai continuar optando pelo vale-tudo ao qual se lança costumeiramente para tentar vencer eleições a qualquer custo.

sábado, 5 de julho de 2014

Segundo turno à vista

Nem com toda a propaganda oficial, nem com todo o clima de festa que cerca a época de Copa do Mundo, a presidente Dilma Rousseff consolidou suas chances de vitória nas eleições de outubro. 

O que a mais recente pesquisa de intenções de voto, divulgada ontem pelo Datafolha, atesta é que a disputa será decidida em dois turnos e, na segunda rodada, a oposição tem tudo para vencer.

Para começar, as intenções de voto na candidata-presidente empatam rigorosamente com as declaradas nos demais candidatos: 38% a 38%. No início de junho, Dilma tinha percentual menor (34%), mas os oponentes pontuavam bem menos (32%). Ou seja, neste último mês mais eleitores se inclinaram a ficar contra do que a favor da petista.

Dilma também tem contra si uma taxa de rejeição que é o dobro da de Aécio Neves: 32% a 16%. A proporção daqueles que dizem que não votarão na petista “de jeito nenhum” é ainda mais acachapante em determinados grupos: somam 51% entre os eleitores com ensino superior, 49% nos de renda acima de dez salários mínimos e 40% na região Sudeste. Se depender deles, Dilma já pode pedir o boné...

Em alguns segmentos de renda e região, Aécio já vence ou empata com a presidente. Entre os que ganham entre cinco e dez salários mínimos, o tucano tem 36% dos votos e a petista, 26%. Igual vantagem é registrada entre os que completaram o ensino superior, faixa em que Aécio ganhou sete pontos em um mês. No estrato acima de dez salários, há empate técnico entre os dois, situação que se repete nos estados do Sudeste.

Dá para delimitar claramente onde Dilma Rousseff concentra a maior parte de suas forças: a região Nordeste, as cidades de interior do país, os brasileiros que ganham menos de dois salários mínimos, as mulheres e os eleitores com apenas ensino fundamental completo.

Os números colhidos pelo Datafolha para um possível segundo turno evidenciam as reais chances de vitória da oposição. Hoje, a diferença entre Dilma e Aécio é de apenas sete pontos percentuais: 46% a 39%. Vale lembrar: há pouco mais de quatro meses, em fevereiro passado, a petista tinha o dobro das intenções de voto no tucano nesta mesma simulação.

Ainda sobre o segundo turno, Aécio já empataria com Dilma entre os jovens, entre aqueles com escolaridade até o ensino médio, nas regiões metropolitanas e na faixa de renda entre dois e cinco salários mínimos. E venceria a petista entre os brasileiros com ensino superior, com renda acima de cinco salários, nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste e nos municípios com mais de 200 mil habitantes.

Por enquanto, apenas um terço dos eleitores manifesta “grande interesse” pelas eleições. Ou seja, a decisão do voto ainda está sendo postergada, com os brasileiros à espera de conhecer melhor as alternativas que têm ao que já está aí há 12 anos e já é muito bem conhecido.

A oposição tem uma avenida pela frente para decolar. Enquanto 50% dizem “conhecer muito bem” a presidente, apenas 16% manifestam a mesma posição em relação a Aécio Neves. Assim, o início da propaganda eleitoral, com exibição equânime dos candidatos, tende a favorecer quem é menos conhecido e não quem já está aí, massivamente vendida todos os dias pela propaganda oficial, há anos.

Os resultados do Datafolha se juntam aos de outros institutos de pesquisa e apontam, todos, numa única direção: o país ruma para uma eleição em que os cidadãos optarão pela mudança, abrindo nova fase de prosperidade e de desenvolvimento para os brasileiros. A campanha que ora começa será valiosa para aclarar os novos caminhos que se abrem, dando aos eleitores as melhores condições de fazer as escolhas que o Brasil precisa.